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terça-feira, 13 de outubro de 2026

História e Resistência da Língua Chibe entre os Calon

Mergulho na história milenar da língua tradicional cigana, o papel estratégico dos anciãos/as na defesa e luta pela salvaguarda desse patrimônio imaterial Calon. Foto João Aquino.

Mais do que um sistema de comunicação, uma língua é um arquivo vivo de afetos, dores, estratégias de sobrevivência e cosmovisões. O pesquisador de comunicação e linguagem, Pierre Bourdieu, afirma que é a língua que estrutura o pensamento de um povo. Daí a sua extrema importância para a cultura, a comunicação e as outras linguagens.

Para o povo cigano Calon, tronco étnico cigano de forte presença histórica na Península Ibérica, no Brasil e países da América Latina, a Chibe, também conhecida entre os ciganos portugueses como Romanon e na Espanha como Kalé, é um dos pilares mais sagrados da identidade cigana. Longe de ser apenas um vocabulário alternativo, a Chibe é um território de soberania construído ao longo de séculos de diáspora, perseguição e resistência cultural.

Historicamente, a trajetória linguística do povo Calon é marcada por uma profunda capacidade de adaptação sem a perda de seus sentidos mais básicos. Os ciganos absorveram elementos estruturais e palavras das línguas faladas nos territórios por onde transitaram, sobretudo o português e o espanhol, fundindo-os a uma base de vocabulário de origem romani. E, ao mesmo tempo, também influenciaram na base linguística por onde passaram, especialmente, português e espanhol.

Esse sincretismo gerou uma língua própria, fluida e transmitida essencialmente pela oralidade, de geração em geração, nos acampamentos, nas rodas de conversa e no cotidiano familiar. A Chibe não nasceu para os compêndios acadêmicos ou para as gramáticas escolares; ela pertence ao espaço íntimo da comunidade, onde cada termo carrega o peso de uma ancestralidade que se recusa a ser apagada.

Ao longo dos séculos de marginalização e racismo institucional enfrentados pelos ciganos na Europa e nas Américas, falar a Chibe cumpriu duas funções vitais e indissociáveis: serviu como um identificador cultural imediato, permitindo o reconhecimento de ciganos entre si em qualquer lugar do mundo. Também operou como um escudo, funcionando como um código seguro de comunicação interna, para blindar e proteger as famílias contra violências e perseguições externas.

A Soberania dos Mais Velhos e o Trabalho da AEEC-MT



Uma das decisões políticas mais importantes e firmes tomadas pelas lideranças, anciões e anciãs das comunidades Calon é a diretriz histórica de não ensinar a Chibe a pessoas não-ciganas (gadjons). Longe de ser isolamento, essa escolha representa o ápice da autonomia cultural e da soberania política e da contracolonialidade, especialmente, num mundo que historicamente tentou expropriar, folclorizar ou destruir a cultura cigana e sua língua.

Portugal e Brasil editou inúmeras leis inclusive proibindo-nos de falar a Chibe. Assim, manter a língua restrita à comunidade garante que a intimidade de um povo milenar não pertença ao mercado e que a preservação de seu patrimônio imaterial permaneça sob o controle exclusivo de seus legítimos detentores.

É exatamente dentro desse cenário de valorização da história, da memória e da soberania política que se insere o trabalho contínuo de salvaguarda desenvolvido pelo movimento social cigano. No estado de Mato Grosso, a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) tem liderado iniciativas pioneiras de fortalecimento da língua, como o projeto de oficinas de Chibe, desenvolvidas em diálogo direto com mestres, anciãos e lideranças locais.

Os encontros são espaços seguros e lúdicos onde crianças, jovens e adultos podem vivenciar a língua por meio de cadernos de atividades, músicas e do registro de memórias dos mais velhos, provando que a Chibe continua pulsante e fundamental na identidade Calon. O modulo II da Oficina de Chibe, ocorrerá em Tangará da Serra no próximo dia 17 de outubro (sábado), entre 08h e 17h. Na ocasião, 50 pessoas da comunidade local passarão o dia rememorando, falando, estudando a Chibe e fortalecendo o orgulho em ser Calon.

O projeto é financiado por meio do Edital Viver Cultura Identidades – Edição Lei Paulo Gustavo – na categoria povos ciganos, da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT). O primeiro modulo ocorreu em maio de 2024, também em Tangará da Serra, com o patrocínio da Secel/MT, dentro da programação do IV Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso.  O projeto tem a proponência do pesquisador, ativista e multiartista de etnia Calon, Aluízio de Azevedo, este que vos fala.

Aluízio de Azevedo, Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT e proponent do projeto Oficina de Chibe: Reavivando a Língua Calon – Módulo II.

Parte dos presentes no módulo I da oficina em Tangará (2024). Foto: João Aquino.

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