Mais do que um sistema de comunicação, uma
língua é um arquivo vivo de afetos, dores, estratégias de sobrevivência e
cosmovisões. O pesquisador de comunicação e linguagem, Pierre Bourdieu, afirma
que é a língua que estrutura o pensamento de um povo. Daí a sua extrema
importância para a cultura, a comunicação e as outras linguagens.
Para o povo cigano Calon, tronco étnico
cigano de forte presença histórica na Península Ibérica, no Brasil e países da
América Latina, a Chibe, também conhecida entre os ciganos portugueses como
Romanon e na Espanha como Kalé, é um dos pilares mais sagrados da identidade
cigana. Longe de ser apenas um vocabulário alternativo, a Chibe é um território
de soberania construído ao longo de séculos de diáspora, perseguição e
resistência cultural.
Historicamente, a trajetória linguística
do povo Calon é marcada por uma profunda capacidade de adaptação sem a perda de
seus sentidos mais básicos. Os ciganos absorveram elementos estruturais e
palavras das línguas faladas nos territórios por onde transitaram, sobretudo o
português e o espanhol, fundindo-os a uma base de vocabulário de origem romani.
E, ao mesmo tempo, também influenciaram na base linguística por onde passaram,
especialmente, português e espanhol.
Esse sincretismo gerou uma língua própria,
fluida e transmitida essencialmente pela oralidade, de geração em geração, nos
acampamentos, nas rodas de conversa e no cotidiano familiar. A Chibe não nasceu
para os compêndios acadêmicos ou para as gramáticas escolares; ela pertence ao
espaço íntimo da comunidade, onde cada termo carrega o peso de uma
ancestralidade que se recusa a ser apagada.
Ao longo dos séculos de marginalização e racismo institucional enfrentados pelos ciganos na Europa e nas Américas, falar a Chibe cumpriu duas funções vitais e indissociáveis: serviu como um identificador cultural imediato, permitindo o reconhecimento de ciganos entre si em qualquer lugar do mundo. Também operou como um escudo, funcionando como um código seguro de comunicação interna, para blindar e proteger as famílias contra violências e perseguições externas.
A
Soberania dos Mais Velhos e o Trabalho da AEEC-MT
Uma das decisões políticas mais
importantes e firmes tomadas pelas lideranças, anciões e anciãs das comunidades
Calon é a diretriz histórica de não ensinar a Chibe a pessoas não-ciganas (gadjons).
Longe de ser isolamento, essa escolha representa o ápice da autonomia cultural
e da soberania política e da contracolonialidade, especialmente, num mundo que
historicamente tentou expropriar, folclorizar ou destruir a cultura cigana e
sua língua.
Portugal e Brasil editou inúmeras leis
inclusive proibindo-nos de falar a Chibe. Assim, manter a língua restrita à
comunidade garante que a intimidade de um povo milenar não pertença ao mercado
e que a preservação de seu patrimônio imaterial permaneça sob o controle
exclusivo de seus legítimos detentores.
É exatamente dentro desse cenário de
valorização da história, da memória e da soberania política que se insere o
trabalho contínuo de salvaguarda desenvolvido pelo movimento social cigano. No
estado de Mato Grosso, a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso
(AEEC-MT) tem liderado iniciativas pioneiras de fortalecimento da língua, como
o projeto de oficinas de Chibe, desenvolvidas em diálogo direto com mestres,
anciãos e lideranças locais.
Os encontros são espaços seguros e lúdicos
onde crianças, jovens e adultos podem vivenciar a língua por meio de cadernos
de atividades, músicas e do registro de memórias dos mais velhos, provando que
a Chibe continua pulsante e fundamental na identidade Calon. O modulo II da
Oficina de Chibe, ocorrerá em Tangará da Serra no próximo dia 17 de outubro
(sábado), entre 08h e 17h. Na ocasião, 50 pessoas da comunidade local passarão
o dia rememorando, falando, estudando a Chibe e fortalecendo o orgulho em ser
Calon.
O projeto é financiado por meio do Edital
Viver Cultura Identidades – Edição Lei Paulo Gustavo – na categoria povos
ciganos, da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso
(Secel/MT). O primeiro modulo ocorreu em maio de 2024, também em Tangará da
Serra, com o patrocínio da Secel/MT, dentro da programação do IV Encontro de
Cultura Cigana de Mato Grosso. O projeto
tem a proponência do pesquisador, ativista e multiartista de etnia Calon,
Aluízio de Azevedo, este que vos fala.
Aluízio de Azevedo, Assessor para
Ciência e Comunicação da AEEC-MT e proponent do projeto Oficina de Chibe:
Reavivando a Língua Calon – Módulo II.
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