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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Inscrições para formação de lideranças quilombolas e ciganas entram na reta final

Iniciativa oferece 70 vagas com bolsas mensais de mil reais. Foto: Walisson Braga

Publicado em 03/08/2026 17h44

Terminam, na próxima quinta-feira (6) as inscrições para dois cursos de aperfeiçoamento voltados à formação de lideranças quilombolas e ciganas. Juntos, os editais oferecem 70 vagas com bolsas mensais de mil reais para os participantes.

A iniciativa tem o objetivo de capacitar lideranças para atuar na gestão territorial, no controle social e na execução de políticas públicas de igualdade racial.

>> Acesse o edital

Capacitações – O Curso de Participação e Controle Social para Lideranças Ciganas é voltado a integrantes de povos e comunidades ciganas com atuação em organizações, associações, coletivos, grupos familiares ou acampamentos. A formação de caráter extensionista oferece 30 vagas com carga horária de 180 horas e duração de até dez meses.

Já o Curso de Aperfeiçoamento em Gestão Territorial e Ambiental Quilombola, vinculado à Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (PNGTAQ), disponibiliza 40 vagas para lideranças quilombolas e agentes comunitários indicados por suas organizações representativas. Com carga horária de 220 horas, o curso será desenvolvido ao longo de seis meses em regime de alternância, combinando atividades presenciais na universidade com ações desenvolvidas nos territórios.

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/noticias/inscricoes-para-cursos-de-formacao-de-liderancas-quilombolas-e-cigana-entram-na-reta-final

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos está com inscrições abertas

Inscrições para o prêmio vão até 15 de abril de 2025

I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos tem o objetivo de fomentar as produções literárias infantojuvenis realizadas por pessoas quilombolas e ciganas de todo território brasileiro, no intuito de enfatizar a importância da memória, tradição, oralidade e esforço na produção de registros que assegurem a valorização da história e cultura dos respectivos povos e comunidades tradicionais.

As inscrições estão abertas até o dia 15 de abril de 2025. É possível acessar o edital para mais informações.

A premiação, além de fomentar a criação e circulação de literaturas quilombolas e ciganas, pretende convocar a sociedade a conhecer as culturas desses grupos sociais e, ao mesmo tempo, fortalecer os registros de memórias e histórias.

Com as 36 obras literárias que serão premiadas haverá oportunidade destas histórias chegarem a muitas pessoas, bem como a valorização e fortalecimento de autores ciganos e quilombolas que estão iniciando ou já tem uma carreira consolidada.

A premiação irá contemplar 36 autores e autoras de livros infantojuvenil e o prêmio pode chegar até R$ 20 mil para cada pessoa contemplada.

O Prêmio é promovido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), por meio do DIVERSIFICA - Inclusão e Diversidade, e pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR).

 

SERVIÇO

I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos

As inscrições vão até 15 de abril de 2025

Acesse o edital para mais informações

Disponível: https://www.publishnews.com.br/materias/2025/02/21/i-premio-nacional-de-literatura-infantojuvenil-para-quilombolas-e-ciganos-esta-com-inscricoes-abertas

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Esquerda e direita dirigem o mesmo trem colonialista, diz quilombola Antônio Bispo

 

Autor de 'A Terra Dá, a Terra Quer' afirma não ver diferenças entre Lula e Bolsonaro quando o assunto é mineração em terras de quilombos

Marina Lourenço

Da Folha de SÃO PAULO

Colonizar um povo é como adestrar um boi. Ambas ações consistem na remoção da identidade, mudança de território e condenação do modo de vida alheio. Essa é a associação que Antônio Bispo dos Santos, também conhecido como Nêgo Bispo, faz em "A Terra Dá, a Terra Quer".

Lançado nesta segunda (29), o livro desmancha conceitos como ecologia, desenvolvimento e decolonialidade —a contraposição ao pensamento de perspectiva colonialista e eurocêntrica.

O autor propõe o que chama de contracolonialismo, que seria a recusa de um povo à colonização, o que, segundo ele, é praticado há séculos por africanos, indígenas e quilombolas.

Nascido na comunidade Saco do Curtume, no Piauí, Bispo ganhou notoriedade em movimentos sociais, na década de 1990, quando chegou a se filiar a partidos políticos, que abandonou anos depois. Desde então, se voltou para a defesa dos povos quilombolas.

Nesta entrevista, o autor comenta conceitos do novo livro, a polarização política no país, a relação do presidente Lula (PT) com os quilombos e programas como Minha Casa, Minha Vida.

Novo livro de Antonio Bispo dos Santos já está disponível

Em "A Terra Dá, a Terra Quer", o sr. critica o colonialismo e se opõe à chamada decolonialidade, termo cada vez mais usado em contraposição ao pensamento colonial. Em vez disso, fala em contracolonialismo. Por quê? Só pode ser decolonizado quem foi colonizado. Qualquer pessoa que se sinta colonizada pode lutar para ser um decolonial.

Mas decolonialidade é uma teoria, não trajetória. Nunca existiu um movimento decolonial que tenha atuado de forma resolutiva em prol de um povo. O contracolonialismo é diferente. Os quilombos não foram colonizados.

O povo da academia que se diz progressista e só lê autores europeus, sim, precisa se decolonizar.

O sr. também diz preferir usar ‘colonialismo’ a ‘racismo’. É bom discutir racismo, mas ele é apenas um dos elementos colonialistas. Quando se fala em racismo, habitualmente as pessoas pensam na sociedade eurocristã. O colonialismo vai além disso. É para todas as vidas existentes.

Como combater o colonialismo? Não queremos matar os colonialistas. Por isso, falo ‘contracolonialismo’. É uma fronteira que estamos estabelecendo entre nós e a sociedade eurocristã monoteísta.

[O extinto quilombo dos] Palmares poderia ter destruído o Recife, mas não devemos destruir nada. Nossa proposta é dizer: 'Vivam do jeito de vocês e viveremos do nosso, mas, se porventura, perceberem que o nosso é bom, nos deixem ensinar'.

Além do contracolonialismo, o sr. destrincha o conceito de cosmofobia, que seria uma desconexão entre a humanidade e a natureza. Se opondo a essa lógica, diz, então, que não é humano, mas sim, quilombola. Em termos práticos, o que quer dizer? O povo eurocristão monoteísta tem medo do próprio Deus, da natureza, do cosmo. É tanto medo que tem dificuldade de se relacionar com rios, terra, vento —daí a palavra ‘cosmofobia’.

Em Gênesis, quando Adão e Eva estavam no caminho do Éden, interagiam com tudo, não precisavam trabalhar, se submeter a uma ordem externa. Mas Deus humaniza eles, cria o terror e diz que a terra será maldita porque comeram o fruto proibido. É a Bíblia que cria os seres humanos —e quem está fora dela é selvagem.

Nós, quilombolas, convivemos em harmonia com as demais vidas. Os quilombos são lugares de relacionamentos. As cidades, de civilizações. Precisamos animalizar a humanidade e desumanizar a animalidade.

Como assim? Só os humanos usam a linguagem escrita. Nós, outros seres, nos comunicamos de outras formas, inclusive sonora. Passamos a vida ouvindo esse povo das escrituras dizer que não sabemos ler. Ora, os humanos não sabem falar.

Ainda nessa linha de escrita versus oralidade, o sr. diz que em comunidades quilombolas as histórias são passadas de boca em boca, sem nenhuma monetização. Por que decidiu se tornar escritor? Não sou escritor. Sou uma pessoa que escreve para estabelecer uma fronteira entre os saberes. Sou um lavrador que também lavra palavras.

Quando a escola escrita chegou à nossa comunidade, no fim dos anos 1960, nosso povo se recusou a participar, mas ao ver que perderia tudo se continuasse assim, colocou as crianças para estudar a linguagem das escrituras. Entrei na escola para isso.

Me tornei um tradutor da comunidade. Não vou negar que sei falar e escrever muito bem. Mas decidi escrever somente três livros [dois foram lançados] porque sou mesmo da oralidade.

Ao traçar uma relação entre favelas e quilombos, o sr. critica programas como o Minha Casa, Minha Vida e o antigo Fome Zero, os classificando como colonialistas. Não há nada neles para elogiar? Nada é apenas bom ou apenas ruim. O problema desses programas é que tiram das pessoas o direito de arquitetar, compor e plantar o que querem. Claro, melhor ter Fome Zero do que deixar morrer de fome. É melhor ter o Minha Casa, Minha Vida do que ficar na rua. Mas não são coisas para festejar. São para escapar.

O Minha Casa, Minha Vida tirou a laje das favelas. As casas são pequenas, não têm quintal. As pessoas ficaram confinadas, sem festa.

No Piauí, o Fome Zero foi lançado em Guaribas [município que, na época, era considerado um dos mais pobres do país]. Nunca houve debate com as pessoas de lá. Falavam que ali era pobre porque não tinha nem restaurante nem hotel, mas gente rica não precisa disso.

O sr. também critica alguns discursos ambientalistas. O que o levou a isso? Tem muito ambientalista que vive nas cidades mas quer consertar a floresta. É engraçado. As cidades estão alagadas, cheias de lixo, mas querem mexer onde não sabem viver.

O livro traz a ideia de que, na prática, não há diferença entre gestão de esquerda e de direita. Nos últimos anos, o Brasil entrou numa crescente polarização política. Como analisa isso? A direita e a esquerda são maquinistas que dirigem o mesmo trem colonialista. Escolher o vagão permite decidir os passageiros com quem você vai viajar. Mas a viagem é a mesma, vai para o mesmo caminho.

É preciso uma mudança estrutural. Cabe a nós, quilombolas e indígenas, extrair tudo o que pudermos deste Estado para criar nossas próprias estruturas.

Lula não fez reforma agrária favorável aos agricultores familiares porque não teve coragem. Fez reforma agrária para o agronegócio. Ele diz que acabou com a fome do povo e fará isso de novo. Ora, o que acabou, acabou. Se voltou é porque não acabou.

E quanto à gestão Bolsonaro? Não tive a oportunidade de extrair tanto dele, mas pude conhecer melhor o Estado e certas pessoas. Foi um governo sem máscaras, literalmente —nem contra Covid nem política.

Também serviu para quebrar alguns intermediários. Tinham setores da esquerda que nunca protagonizavam a própria vida mas queriam mexer na nossa.

Para nós, quilombolas, foi o momento de preparar nossas defesas e refletir. Agora, ninguém trata Lula igual das outras vezes.

Há semelhanças entre Lula e Bolsonaro? Qual a diferença entre Bolsonaro e um governo que autoriza a mineração em território quilombola sem cumprir os protocolos da Convenção 169? Do ponto de vista da mineração, não há diferença. Quem manda são as mineradoras.

O que quero dizer é que, sim, Bolsonaro e Lula são diferentes, mas essas diferenças não são tão favoráveis.

O que Lula fez para o povo quilombola? Criou o quê? Qual é o nosso espaço de poder dentro deste governo? Pergunto porque é dos amigos que a gente deve cobrar o melhor acolhimento.

Apesar de hoje dizer que direita e esquerda caminham juntas para o mesmo destino, o sr. já foi filiado ao PSB e ao PT, considerados de esquerda. O que fez se desvincular desse meio? Atuei em movimento sindical, partido e movimentos sociais por um bom tempo. Ao contrário da minha criação, me deparei com um conhecimento todo escriturado. Tentaram me convencer de que a sociedade era composta por duas classes, a trabalhadora e a patronal. Eu nasci e me criei na roça, numa comunidade quilombola. Como lavrador, nunca fui ou tive patrão.

Também diziam que os quilombos são formados por povos que fugiram da escravidão. Isso é muito pouco. [Na época da escravidão] Você podia fugir e aceitar trabalhar na condição dos colonos, mas não foi o que aconteceu com os quilombolas. Os quilombos continuam resistindo ao sistema como um todo.

Desde então, qual sua relação com a política? A última vez que votei foi em 1996, e em 1998, me desvinculei do movimento sindical. Hoje participo de uma mobilização para estruturamos a nossa comunidade. Essa é a nossa grande luta de defes

RAIO-X | ANTÔNIO BISPO DOS SANTOS, 63
É membro da comunidade Saco do Curtume, no Piauí, onde atua em defesa dos povos quilombolas. Seus livros lançados são "Colonização, Quilombos, Modos e Significações" e "A Terra Dá, a Terra Quer".

A TERRA DÁ, A TERRA QUER

  • Preço R$ 49,41 (112 págs.)
  • Autoria Antônio Bispo dos Santos
  • Editora Ubu; Piseagram

 Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2023/05/esquerda-e-direita-dirigem-o-mesmo-trem-colonialista-diz-quilombola-antonio-bispo.shtml 

 

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Como a Covid-19 afeta populações tradicionais? Veja os impactos nas comunidades ciganas


Vice-presidente da Associação Estadual Cultural de Direitos e Defesa dos Povos Ciganos, Valdinalva Barbosa faz exame para detecção do coronavírusArquivo pessoal


Novo episódio do 'Outra estação', da Rádio UFMG Educativa, mostra como ciganos, indígenas e quilombolas estão combatendo a pandemia

Uma grande diversidade de modos de vida está contida na classe das comunidades tradicionais, desde populações mais conhecidas, como as indígenas e quilombolas, até outras pouco noticiadas, como os ciganos. São comunidades distribuídas por todas as regiões do país com formas próprias de organização social e que estão desprotegidas diante da ameaça da Covid-19, doença causada pelo coronavírus.

Além de estarem expostos à contaminação pelo vírus, esses grupos têm suas atividades econômicas e modos de vida diretamente impactados pela pandemia. Um dos motivos é a falta de acesso dessas populações aos próprios territórios, o que dificulta por exemplo o plantio de alimentos. O enfraquecimento das políticas de direitos humanos nos últimos anos é outro fator que contribui para a maior vulnerabilidade das populações tradicionais ao coronavírus.
Essas e outras questões são discutidas no novo episódio do Outra estação. O programa ouviu indígenas, quilombolas e ciganos que contam como estão sendo afetados pela Covid-19 e quais são as estratégias que vêm construindo para enfrentar esse momento de pandemia. O programa também entrou em contato com uma série de órgãos públicos para saber o que está sendo feito para atender às demandas dos povos tradicionais e falou sobre as ações da UFMG voltadas para esses grupos. 
Direitos dos povos tradicionais 

O primeiro bloco do programa explica o conceito de povos e comunidades tradicionais no Brasil. Eles foram reconhecidos formalmente pelo governo federal em 2007 por meio de um decreto que criou a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. O texto define esses grupos como sendo aqueles que possuem formas próprias de organização social e que, na ocupação de seus territórios, vivem suas diferenças econômicas, religiosas e culturais. 

Cabe ao poder público garantir que as comunidades tradicionais possam ocupar seus territórios e ter acesso aos recursos naturais que utilizam como forma de garantir suas existências físicas, econômicas e culturais. Porém, é comum que o direito não seja cumprido. A falta de acesso integral a seus territórios é uma das razões para muitas comunidades enfrentarem condições de vida precárias. 
Os entrevistados nessa parte do programa foram o professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG Aderval Costa Filho, que foi o responsável por coordenar a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais na época em que ela foi construída e implementada e a superintendente de Participação e Diálogos Sociais da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, Ana Carolina Gusmão.
Em meio a essa crise provocada pela pandemia de Covid-19, os gestores públicos devem definir junto com as comunidades tradicionais as formas de auxiliá-las, tanto em questões de saúde, quanto para diminuir prejuízos econômicos. A questão foi destacada pela pró-reitora de Extensão da UFMG Cláudia Mayorga.
"Muitas vezes nós vemos uma relação unilateral, a política pública vem com uma série de medidas, soluções, propostas, que acabam desconsiderando os saberes e conhecimentos tradicionais, o que acaba tendo um efeito de violência sobre esses povos" 

A professora também falou sobre as ações que a UFMG têm desenvolvido como o acompanhamento da situação dos povos indígenas maxacalis e a produção de boletins semanais com campanhas de apoio a indígenas, quilombolas e terreiros de axé.

Taxa de letalidade do vírus é alta entre quilombolas

A coordenadora da Conaq Givânia Silva: Arquivo pessoal



O primeiro bloco do programa destacou ainda os impactos do coronavírus para os quilombolas. Até esta quarta-feira (13), foram registradas 21 mortes por Covid-19 entre quilombolas, de um total de 128 casos de infecção confirmados, segundo os dados levantados pela Coordenação Nacional de de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). Esses números indicam uma morte a cada 6 infecções entre quilombolas, enquanto no país como um todo os registros giram em torno de uma morte a cada 14 infecções confirmada.

Uma das coordenadoras da Conaq, Givânia Silva, contou que vários problemas de ordem socioeconômica dificultam que os quilombolas cumpram recomendações feitas pelas pelas autoridades da área da saúde para frear a Covid-19. Por exemplo, alguns moradores precisam ir à cidade para manter suas rendas ou buscar serviços de saúde, já que várias comunidades carecem desse tipo de atendimento. Eles também vêm enfrentando dificuldades para solicitar o auxílio emergencial de 600 reais do governo federal, já que o pedido deve ser feito, preferencialmente, pela internet.
"Em alguns lugares as pessoas não têm terra para plantar. Como elas ficam em casa? Como elas vão lavar as mãos toda hora se, às vezes, não têm água potável nem para beber?"

Sem terras demarcadas, indígenas têm dificuldade de implantar medidas de isolamento social

O segundo bloco do Outra estação abordou as condições dos indígenas brasileiros diante da pandemia. Segundo a plataforma de monitoramento da situação indígena na pandemia da Covid-19 no Brasil, uma parceria entre o Instituto Socioambiental e pesquisadores da UFMG, até esta quarta-feira foram registradas 277 infecções por coronavírus entre indígenas e 19 mortes pela doença. Esses números se referem à zona rural, já que, segundo o site, não há um levantamento oficial de casos entre indígenas que vivem na área urbana.

Entre os problemas enfrentados pelos indígenas estão a falta de demarcação das terras, o que cria entraves para o isolamento dessas populações. A questão foi levantada pelo estudante de medicina da UFMG Otávio Kaxixó, que é o coordenador estudantil do Programa de Educação Tutorial Indígena da universidade. 

Otávio também falou sobre o projeto de prevenção e combate ao novo coronavírus em aldeias indígenas que está sendo desenvolvido por ele e outros alunos de graduação em parceria com a professora Lívia Pancrácio, coordenadora do Colegiado Especial do Programa de Vagas Suplementares para Estudantes Indígenas na UFMG. A ideia é não apenas conhecer os diversos meios que as comunidades têm adotado para se proteger, mas também passar orientações para líderes indígenas e equipes de saúde que atuam nas aldeias.

"Existem algumas dificuldades em fechar as aldeias porque ainda não temos nossos territórios demarcados".

Outro entrevistado foi Dinamam Tuxá, um dos coordenadores executivos da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib). Ele falou sobre o aumento das invasões nas terras indígenas durante o período de pandemia e sobre a falta de participação dos indígenas no planos de combate à Covid-19 elaborados pelos governos estaduais. 

"A questão primordial é a vulnerabilidade dos indígenas em termos de imunidade. O risco do coronavírus dentro das aldeias é de um verdadeiro genocídio".

Coronavírus já atinge acampamentos ciganos

Outra população tradicional que vem enfrentando dificuldades neste período de pandemia de Covid-19 são os ciganos. Boa parte deles vive em acampamentos que são formados por barracas, não possui saneamento básico, e muito menos, banheiros, o que dificulta o acesso à água para seguir as recomendações de higiene tão necessárias para o combate ao coronavírus. A pandemia também têm deixado os ciganos sem renda.

Os relatos sobre a situação dos ciganos foram feitos pelo doutor em Informação e Comunicação em Saúde e Assessor para Ciência e Comunicação da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso, Aluízio de Azevedo Silva Júnior, pelo  presidente da Associação Estadual Cultural de Direitos e Defesa dos Povos Ciganos, Itamar Pena Soares e pela vice-presidente da Associação Estadual Cultural de Direitos e Defesa dos Povos Ciganos, Valdinalva Barbosa. Ela mora em Ibirité, na região metropolitana de BH, e foi infectada pelo coronavírus.

"Sou do grupo de risco, tenho diabetes. Fiquei mais de 20 dias sem poder sair da barraca, me sentia muito mal. Nós não temos saneamento básico. O mato é o nosso banheiro".

Para saber mais sobre o tema

Entrevista completa com doutor em Informação e Comunicação em Saúde e Assessor para Ciência e Comunicação da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso, Aluízio de Azevedo Silva Júnior. 





Site do programa Saberes Tradicionais da UFMG

Site do IBGE sobre a Covid-19


Produção

O episódio 40 do programa Outra estação é apresentado por Beatriz Kalil, a produção é de Breno Benevides, Tiago de Holanda e Arthur Bugre, a edição é de Tiago de Holanda, os trabalhos técnicos são de Breno Rodrigues e a coordenação de jornalismo é de Paula Alkmim. 

O programa inseriu trechos de três músicas. A primeira é cantada pela mestra Makota Valdina, de um terreiro localizado em Salvador (BA) -- a gravação completa pode ser ouvida no no canal Saberes Tradicionais UFMG no YouTube. A segunda música é um canto do grupo indígena Kaxixó e foi gravada em um encontro de jovem indígenas desse grupo. A gravação foi enviada à Rádio UFMG Educativa por Otávio Kaxixó. A terceira música se chama “Bute Pilon”, é cantada em uma língua cigana e sua inclusão no programa também foi sugerida pelos entrevistados. A gravação utilizada foi feita pela dupla Edy Britto e Samuel. 

Outra estação aborda, semanalmente, um tema de interesse social. Na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM), vai ao ar às quintas-feiras, às 18h, com reprise às sextas, às 7h30. O conteúdo também está disponível nos aplicativos de podcast, como o Spotify.