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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Inscrições abertas pra II Prêmio de Literatura Infantojuvenil Quilombola e Cigana

Edital permanece com inscrições abertas até o dia 03 de agosto de 2026. Foto: Maria Clara Aquino - AEEC-MT.

O Projeto “Fortalecimento Diversidade, Cultura e Território (FDCulT) para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos”, resultante da parceria celebrada entre o Ministério da Igualdade Racial (MIR) e a Universidade Federal de Goiás (UFG), torna público o Edital do II Prêmio de Literatura Infantojuvenil Quilombola e Cigana.

Atenção autores e autoras quilombolas e ciganas de todo o Brasil! Inscrições abertas para o II Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil Quilombola e Cigana, iniciativa realizada pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) por meio do Projeto FDCulT - Fortalecimento Diversidade, Cultura e Território para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos.

As inscrições estão abertas de 22 de junho a 3 de agosto de 2026 e devem ser realizadas exclusivamente por meio de formulário eletrônico disponibilizado neste site.

O prêmio tem como objetivo reconhecer, valorizar e fortalecer a produção literária infantojuvenil quilombola e cigana, contribuindo para a revitalização da cultura, da memória, da oralidade e dos saberes de povos quilombolas e ciganos.

A iniciativa busca incentivar um diálogo qualificado com temas como ancestralidade, memória e oralidades; cultura e tradição; gênero e geração; diversidade e desigualdade; direitos humanos; território e territorialidade; meio ambiente; diversidade linguística; tecnologias ancestrais e contemporâneas; combate à violência; e, saberes e fazeres quilombolas e ciganos.

1. EDITAL Nº 02/2026 - II PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA INFANTOJUVENIL QUILOMBOLA E CIGANA

2. ANEXO I DO EDITAL Nº 02/2026 - DECLARAÇÃO DE PERTENCIMENTO CIGANO  

3. ANEXO II DO EDITAL Nº 02/2026 - DECLARAÇÃO DE PERTENCIMENTO QUILOMBOLA 

4. ANEXO III DO EDITAL Nº 02/2026 - DECLARAÇÃO DE LIDERANÇA CONFIRMANDO PERTENCIMENTO CIGANO

5. ANEXO IV DO EDITAL Nº 02/2026 - DECLARAÇÃO DE LIDERANÇA CONFIRMANDO PERTENCIMENTO QUILOMBOLA

6. ANEXO V DO EDITAL Nº 02/2026 - RECURSO ADMINISTRATIVO CONTRA INABILITAÇÃO

7. ANEXO VI DO EDITAL Nº 02/2026 - RECURSO ADMINISTRATIVO CONTRA DESCLASSIFICAÇÃO, PONTUAÇÃO OU JULGAMENTO DE MÉRITO

8. FORMULÁRIO DE INSCRIÇÃO NO EDITAL Nº 02/2026   

Disponível em: https://rosaparks.fcs.ufg.br/n/202085-edital-n-02-2026-edital-do-ii-premio-de-literatura-infantojuvenil-quilombola-e-cigana 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

MT rompe séculos de silenciamento literário e publica livro com sabedorias das mulheres ciganas

Editada pela Editora Entrelinhas, a obra traz contos e frases de cinco mulheres Calins e uma entrevista especial com a Mestra da cultura mato-grossense, Maria Divina Cabral

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), a Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT) e a Editora Entrelinhas lançam, no próximo dia 06 de fevereiro (sexta-feira), em Rondonópolis, o livro “Calins do Cerrado – Medicinas e Sabedorias Ciganas”. Rompendo com séculos de invisibilidade e silenciamento na história oficial e na literatura mato-grossense, essa é a primeira obra literária publicada abordando o universo cigano no Estado.

A cerimônia de lançamento ocorre a partir de 19h, na Biblioteca Pública Municipal Manoel Severino da Silva, localizada na Vila Operária (Quadra 20A, Lote 1131, Avenida Filinto Muller).  O evento contará com programação que engloba a exibição do episódio “Zilma” da minissérie Luzia e As Calins de Mato Grosso, que ainda está inédita; e declamação da poesia “Sol”, que encerra o livro, de autoria da vice-presidente da AEEC-MT, Jéssika Lorrayne Alves Cabral Lima Leme, também a proponente e produtora executiva do livro.

O livro foi publicado por meio do projeto “Mestra Diva – Ensinamentos e Sabedorias da Medicina Calon”, aprovado no Edital de Seleção Pública Viver Cultura – Identidades – Edição LPG 2023 da Secel/MT. Um dos temas centrais é a ligação entre as tradições ciganas, como a medicina Calon e a natureza, mais especificamente o cerrado, no caso das Calins que vivem no Estado.

A proponente do projeto do livro, Jéssika Lorrayne e sua avó, Mestra Diva.

Organizado pelo cigano de etnia Calon, Aluízio de Azevedo Silva Júnior, que também pesquisou a educação ambiental dos povos ciganos em seu mestrado no Programa de Pós-graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); o livro traz contos de cinco mulheres ciganas de quatro cidades de MT. Entre elas a Mestra da Cultura Mato-grossense, raizeira Maria Divina Cabral, a Mestra Diva, de Rondonópolis, que também é a entrevistada especial da edição.

Além disso, participam da obra a professora aposentada Irandi Rodrigues Silva (Chapada dos Guimarães), a assistente social, Terezinha Alves (Cuiabá), a matriarca da comunidade Calon de Tangará da Serra, Venerana Rodrigues Cunha Pereira e a ativista Nilva Rodrigues Cunha (Rondonópolis).

De acordo com Jéssika Lorrayne, este é o primeiro livro publicado na literatura mato-grossense inteiramente produzido por pessoas ciganas. Segundo a proponente, a obra é uma continuidade do projeto Diva e As Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã, que reconheceu e homenageou Maria Divina como mestra da Cultura Mato-grossense e se desdobrou na Exposição Multimídia Calin e na minissérie em 5 episódios Diva e As Calins de MT, que podem ser acessadas no seguinte link: www.galeriacalin.com .

“É muito importante a gente conseguir registrar em forma de contos, frases e fotos um pouco do que foi a história de nossas mulheres mais velhas, como a minha vó Diva e as tias Nerana, Terezinha, Irandi e Nilva, que estão no livro. No caso da minha vó ainda fica mais significativo, pois ela nunca teve a oportunidade de frequentar a escola, mas agora tem um livro que traz seus ensinamentos e sabedorias de vida”, emociona-se Jéssika, ao lembrar que as mulheres do tronco étnico Calon, se autodenominam como “Calins”, palavra na língua Chibe que pode ser traduzida como “Ciganas”.

Irandi Rodrigues (a esquerda), uma das autoras do livro e sua irmã Zilma Rodrigues (in memorian) que estrela um dos episódios da série Luzia e As Calins, que será exibido também no evento. Foto: Karen Ferreira.

Em uma das questões da entrevista, perguntada se “a cultura cigana tem sabedoria”, mestra Diva responde: “Tem sabedoria sim, o estudo deles vem de Deus. Olha, eu não tenho estudo, mas a minha medicina veio de Deus para mim”. Em outro trecho, ela revela a vontade de ter estudado:

“Eu aprendi muito na vida, o que é bom, o que é ruim. O que é mal fica pra lá, o que é bom, você traz pra você. Tudo que você faz hoje aqui na terra, Jesus te acolhe. Se você fazer o mal, você vai plantar arroz e colher feijão? Não! Você vai plantar, você tem que plantar o arroz e colher o arroz. Se você plantar ruindade, você vai colher ruindade. Se você vai plantar amor, você vai colher amor. Eu tinha uma vontade louca de estudar. Eu sei ler o abc, de cor, de trás pra frente e não sei decifrar”.

Conforme explica Aluízio de Azevedo, o trabalho é um híbrido entre literatura popular e livro-reportagem, organizado a partir de entrevistas em audiovisual com cada uma das autoras e depois um processo de transcrição e adaptação para a linguagem escrita. “Tudo isso, respeitando sotaques e modos de falar, inclusive o que na norma culta seria considerado como erro ortográfico. Fizemos questão de manter esse aspecto, para também ser um ato de resistência à colonização da língua”, pondera o autor.

Segundo Aluízio, o material vai preencher um vácuo no âmbito editorial, tanto da literatura mato-grossense, quanto brasileira, pois praticamente não há obras acerca da história e cultura dos povos ciganos e menos ainda obras produzidas por autores de origem cigana.

Para a editora da obra, Maria Teresa Carrión Carracedo, “A publicação de “Calins do Cerrado: Medicina e Sabedorias Ciganas”, livro organizado por Aluízio de Azevedo, é de grande importância para a cultura Cigana em Mato Grosso e para o registro da diversidade sociocultural neste território. As narrativas de lideranças ciganas apresentadas no livro trazem conhecimento ancestral de grande interesse, em edição que recebeu muita atenção em todo os processos. Estou muito feliz por ter sido convidada a participar desse lindo e importante projeto.”

Terezinha Alves, da comunidade cigana de Cuiabá, é uma das autoras do livro. Foto: Karen Ferreira.

Calins do Cerrado – Ensinamentos e Sabedorias Ciganas conta com direção de produção da Kaiardon Produções, direção de arte e consultoria de textos de Rodrigo Zaiden, que também assina a identidade visual do projeto. As fotografias são de Karen Ferreira, Maria Clara Aquino (da comunidade Calon de Tangará da Serra) e arquivos da AEEC-MT.

O projeto contou com Rafael Carracedo Ozelame e Manoel Carrecedo Ozelame como assistentes de edição e o projeto gráfico e arte-finalização é de Ricardo Miguel Carrión Carracedo.

A obra está dividida em 12 capítulos, incluindo a introdução, com o título “Cuidar entre as Calins”, por Aluízio de Azevedo, cinco contos, uma entrevista aprofundada com a mestra Diva, uma poesia e dois tópicos mais contextuais ao final: “Origens e Diásporas dos Povos Ciganos” e “Conheça a AEEC-MT: destaque internacional na defesa dos povos ciganos”.

Irandi Rodrigues Silva apresenta o conto “Lagarta, cobra, chuvas e dentes, da benzeção à vida!”; Terezinha Alves o conto “Árvores que Seguram o Vento”; Nilva Rodrigues Cunha a crônica “Minha mãe fazia fogo no chão”; Venerana Rodrigues Cunha Pereira o conto “As matas respondiam”; e, Mestra Diva a crônica “Na hora que você precisou de mim”.

Respeitando às pessoas que têm baixa visão, cegueira ou dificuldade de leitura, o projeto disponibilizou uma versão do livro em audiodescrição, que pode ser baixado no seguinte link:

Em breve o livro poderá ser acessado no site da Exposição Muiltimídia Calin, no endereço www.galeriacalin.com .

SERVIÇO:

O que: Lançamento do livro Calins do Cerrado – Medicina e Sabedorias Ciganas

Quando: 06/02/2026 – sexta-feira

Horário: 19h

Onde: Biblioteca Pública Municipal Manoel Severino da Silva, localizada à Avenida Filinto Muller, Quadra 20A, Lote 1131, Vila Operária, Rondonópolis-MT.

TEXTO: ASSESSORIA DE IMPRENSA

FOTOS: KAREN FERREIRA E MARIA CLARA AQUINO



sábado, 16 de agosto de 2025

AEEC articula com Seduc políticas educacionais aos povos ciganos

 

O Assessor para Ciência e Comunicação, Aluízio de Azevedo, se reune com a coordenadora  da Educação Étnico-racial e Ambiental da Secretaria de Estado de Educação de MT, Ruthnéia Pereira Moraes (Direita) e a equipe antiracista da pasta

Pensar políticas públicas e ações conjuntas em prol da educação para os povos ciganos mato-grossenses. Com esse objetivo, o gerente de projetos da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Aluízio de Azevedo e a Coordenadora da Educação Étnico-racial e Ambiental da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT), Ruthnéia Pereira Moraes, se reuniram na manhã desta quinta-feira (14.08).

O encontro ocorreu na sede da Seduc-MT pela manhã e, na ocasião, Aluízio de Azevedo, apresentou a atuação da AEEC-MT à coordenadora e pediu apoio da pasta para fortalecer os dois projetos atuais executados pela organização: a Exposição Mato Grosso Solo Cigano e o livro Calins do Cerrado: Medicina e Sabedorias Ciganas (Editora Entrelinhas).

Ambos os projetos terão o seu lançamento no próximo dia 26 de setembro (sexta-feira), na Galeria Lava Pés, em Cuiabá, onde a exposição permanecerá por 30 dias, até o dia 25 de outubro, aberta a visitação pública, em horário comercial.

A AEEC-MT propôs à Seduc que a pasta viabilizasse a participação de escolas estaduais da Capital Mato-grossense em visita guiada na exposição, alcançando cerca de 200 estudantes.

Além da participação de escolas estaduais na exposição, a AEEC-MT solicitou à Secretaria parceria para distribuição de livros a todas as escolas estaduais de Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra, locais com maiores comunidades ciganas em Mato Grosso.

“Também sugerimos a Secretaria em financiar uma nova publicação de uma segunda edição da obra exclusiva para destinar as escolas estaduais presentes nos demais 139 municípios que ficaram de fora da primeira doação”, explica Aluízio, ao acrescentar, que:

“O nosso diálogo foi muito bom. Nos colocamos à disposição para pensar ações antiracistas incluindo também os povos ciganos e suas três etnias, os Calon, os Rom e os Sinti. Além disso, a educação de base é fundamental para fortalecer o combate aos estereótipos e anticiganismo porque sofrem as pessoas ciganas, por isso a Seduc é uma parceira estratégica”, reforça Aluízio.

Na ocasião, Ruthneia informou que vai levar as demandas para serem debatidas junto à Secretária Adjunta de Gestão Educacional (SAGE), Jéssyca Kelly Castro Campos e ao secretário da pasta, Alan Porto, para averiguarem a possibilidade.

 “Acreditamos ser de suma importância essa parceria para podermos agregar os povos ciganos na política antirracista. Em relação à visita dos estudantes das escolas à exposição, vamos viabilizar junto a Diretoria Metropolitana de Educação de Cuiabá e em relação ao financiamento, vamos levar a solicitação à secretária adjunta e ver se a Seduc pode atender a solicitação”, finaliza Ruthneia.

Cultura e História dos Povos Ciganos em foco

MT Solo Cigano, que é executada por meio do Edital Viver Cultura – Identidades – Categoria Povos Ciganos da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT), aborda a história, a presença e a cultura dos povos ciganos no Estado. A exposição traz fotos, vídeos-artes, instalações e poemas.

Além de informações verídicas e fidedignas acerca dos povos ciganos, quebrando estereótipos e preconceitos históricos sobre os Calon, os Rom e os Sinti, o trabalho traz obras em múltiplas linguagens, como fotos, vídeos-artes, instalações e poemas de artistas ciganos, como videomakers, poetas e fotógrafos. Os profissionais foram convidados a partir de uma curadoria realizada pela presidente da AEEC-MT, Rosana Cristina Alves de Matos Cruz, a secretária da instituição, Irandi Rodrigues Silva e o diretor de cultura, Rodrigo Zaiden.

Já a obra “Calins do Cerrado: Medicina e Sabedorias Ciganas”, que também é executado por meio do mesmo edital da Secel/MT, tem como foco os ensinamentos da Mestra da Cultura Mato-grossense, a raizeira e benzedeira de etnia Calon, Maria Divina Cabral, a Mestra Diva (Rondonópolis).

Além de ter um uma biografia da Mestra Diva e uma entrevista em profundidade com a Calin (modo como as mulheres ciganas de etnia Calon se autodenominam), o livro traz tambem contos e frases de outras quatro mulheres ciganas, que também são consideradas pela AEEC-MT como mestras da cultura cigana em MT.

A obra surgiu a partir do material coletado no projeto “Diva e As Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã”, que também abordou a história de vida de Diva e outras cinco mulheres ciganas parentas da Mestra. São elas: Terezinha Alves (assistente social, Cuiabá), Nilva Rodrigues Cunha (ativista, Rondonópolis), Irandi Rodrigues Silva (professora aposentada, Chapada dos Guimarães) e Venerana Rodrigues Cunha Pereira (Tangará da Serra).

Para saber mais sobre “Diva e As Calins de MT”, acesse a plataforma digital do projeto no link: www.galeriacalin.com onde está disponível a Exposição Multimídia Calin com 35 mulheres ciganas que vivem em comunidades mato-grossenses e os cinco episódios da minissérie com Diva e suas quatro parentas.

 Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Livro O Cristo Cigano narra o sacrifício em nome da arte

 

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen apresentam a busca de um escultor pela expressão da dor humana

Cristina Horta de AlmeidaBelo Horizonte

Livro que integra a lista da Fuvest 2026, "O Cristo Cigano" aborda a solidão do homem, implicando uma preocupação social ao problematizar a figura de Jesus Cristo a partir da beleza do oprimido. Aliando lenda a um apelo cristão, a história escrita por Sophia de Mello Breyner Andresen destaca o sacrifício do amor em nome da arte.

"O destino eram

Os homens escuros

Que assim lhe disseram:

– Tu esculpirás Seu rosto

de morte e de agonia."

(trecho do livro 'O Cristo Cigano')

A seguir, saiba mais sobre a obra.

QUEM É A AUTORA

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu em 1919, na cidade do Porto (Portugal), e morreu antes de completar 85 anos, em Lisboa. De família aristocrata, foi criada em uma casa integrada à natureza, passando suas férias de verão em Vila Nova de Gaia. O contato com casas, jardins e o mar contribuíram para uma compreensão da espacialidade, que viria a aparecer recorrentemente em suas obras.

Com uma educação cristã, Sophia não se limitou às regras religiosas. "Ela recusava fórmulas no cotidiano, na religião, na expressão artística. Valorizava a independência, a lucidez e a expressão", afirma Fabiana Miraz, doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). Em 1936, cursou a disciplina de filologia clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudou línguas clássicas, entre elas o grego, marcante em sua produção.

Sua projeção veio com a obra poética. Sophia estreou aos 14 anos nos "Cadernos de Poesia", revista que reuniu autores heterogêneos, como Jorge de Sena e Ruy Cinatti. Também escreveu ensaios e contos, passando pelas narrativas infantis após se casar e ter filhos. Tornou-se crítica do regime ditatorial salazarista estabelecido em 1933 e foi eleita deputada à Assembleia Constituinte em 1975, após a Revolução dos Cravos. "Ela aderiu ao processo de construção da democracia portuguesa, mas se desiludiu ao ver que a pós-revolução não concretizou a mudança que ela empregava em suas falas", relata Miraz.

Entre as premiações que obteve estão o Camões, em 1999, e o Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, em 2003.

A influência

Quando Sophia conheceu o poeta João Cabral de Melo Neto na Espanha, em 1958, logo surgiu uma grande afinidade. Tanto que, para a pesquisadora Clara Rocha, em publicação da Fundação Calouste Gulbenkian, de 1994, Sophia compôs um pastiche sobre o estilo de Melo Neto em "O Cristo Cigano", em 1961. Inspirado em uma lenda contada pelo amigo, o texto apresenta a sua forma precisa. "Por isso os versos mais curtos, o ritmo, as rimas marcadas. Mas é importante ressaltar que ela adequou a sua linguagem à do poeta", observa Miraz.

A lenda

Em Sevilha, ao buscar inspiração para talhar um Cristo crucificado, um escultor viu um belo cigano, conhecido como Cachorro, ser esfaqueado por um homem ciumento da esposa. A cena permitiu ao artista vislumbrar um rosto marcante em agonia. Como é comum na tradição oral, a lenda apresenta outra versão: obcecado pela imagem, o próprio artista resolveu assassinar o cigano para conhecer a face da dor. Sophia opta pela segunda narrativa para, então, contar poeticamente o mito por trás da escultura "Cristo de la Expiración", de 1682, produzida por Francisco Ruiz Gijón.

A narrativa

O escultor e o cigano são os personagens centrais, em uma narrativa dividida em 12 poemas que mostram o percurso de criação de uma obra de arte. O mote evidencia a homenagem feita a João Cabral de Melo Neto, apresentando uma faca como metáfora da linguagem: ela é instrumento que corta, mata e esculpe. Depois, 11 poemas numerados retratam a relação do escultor com o tempo e a arte, e o jogo entre claro e escuro. O escultor, então, é a claridade que, encantado pelo cigano, conhece as sombras ao matá-lo. "Sophia fala daquele que morre injustamente. É o cristianismo movido pelo amor ao desvalido", explica Flávio de Castro, professor de literatura do Colégio Determinante.

Dimensões reflexivas da dor

Para Rita Oliveira, professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), o diálogo entre a lenda e a poesia é ampliado para o sofrimento humano coletivo da época, retratado na figura do cigano. Afinal, o mundo ainda lidava com as consequências de duas guerras, seguidas pela consolidação de ditaduras. Houve um investimento nos conflitos em detrimento aos direitos sociais fundamentais, resultando em desemprego, fome, doenças e cerceamento das liberdades civis. Nesse sentido, a obra de Sophia é atravessada por uma crítica social, usando a poesia como meio de friccionar o real.


SÉRIE ABORDA OS LIVROS DO VESTIBULAR 2026 DA FUVEST

Este é o quinto de uma série de textos que abordam a lista de livros do vestibular da USP deste ano. Pela primeira vez, a Fuvest selecionou obras só de escritoras mulheres. A cada semana, uma obra é tema de reportagem que explica a trajetória da autora e os principais pontos que podem ser cobrados na prova.

Os textos fazem parte do projeto Folha Estudantes, criado para ajudar jovens na preparação para o Enem e outros vestibulares. 

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2025/08/livros-da-fuvest-o-cristo-cigano-narra-o-sacrificio-em-nome-da-arte-conheca.shtml

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Prorrogadas inscrições para Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos

 

Iniciativa valoriza a tradição oral, a memória e a produção literária de autores quilombolas e ciganos; São R$585 mil distribuídos em prêmios

Publicado em 15/04/2025 16h30

O I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos teve suas inscrições prorrogadas. É possível se inscrever na iniciativa até o dia 31 de maio. Promovida pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), ela busca fomentar e reconhecer a produção literária voltada ao público infantojuvenil realizada por pessoas quilombolas e ciganas de todo o território brasileiro. 

>>Clique para se inscrever

Com investimento total de R$585 mil, o edital irá premiar 36 autores e autoras em três categorias distintas: incentivo à publicação de obras inéditas já finalizadas; incentivo à escrita de textos inéditos ainda em fase de finalização; e incentivo à republicação de obras já publicadas. “Queremos fortalecer o protagonismo dessas comunidades na literatura brasileira, além de valorizar a diversidade cultural e ampliar o acesso de crianças e jovens a narrativas que expressem diferentes vivências e identidades”, explica a coordenadora-geral de Políticas para Povos Ciganos, Edilma Nascimento. 

>>Clique para acessar a página do edital

A categoria voltada à Literatura Infantojuvenil Quilombola contará com 20 prêmios, totalizando R$325 mil. Já a categoria dedicada à Literatura Infantojuvenil Cigana premiará 16 autores, com valor total de R$260 mil.  

Mais do que uma premiação em dinheiro, o prêmio representa um incentivo à continuidade de práticas ancestrais de oralidade e memória, e à criação de registros que assegurem a preservação das culturas quilombola e cigana para as futuras gerações.  

As inscrições podem ser feitas até o dia 31 de maio, por meio de formulário. Podem participar pessoas quilombolas e ciganas que tenham obras inéditas ou já publicadas dentro do universo infantojuvenil.  

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/copy2_of_noticias/prorrogadas-as-inscricoes-para-o-premio-nacional-de-literatura-infantojuvenil-para-quilombolas-e-ciganos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos está com inscrições abertas

Inscrições para o prêmio vão até 15 de abril de 2025

I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos tem o objetivo de fomentar as produções literárias infantojuvenis realizadas por pessoas quilombolas e ciganas de todo território brasileiro, no intuito de enfatizar a importância da memória, tradição, oralidade e esforço na produção de registros que assegurem a valorização da história e cultura dos respectivos povos e comunidades tradicionais.

As inscrições estão abertas até o dia 15 de abril de 2025. É possível acessar o edital para mais informações.

A premiação, além de fomentar a criação e circulação de literaturas quilombolas e ciganas, pretende convocar a sociedade a conhecer as culturas desses grupos sociais e, ao mesmo tempo, fortalecer os registros de memórias e histórias.

Com as 36 obras literárias que serão premiadas haverá oportunidade destas histórias chegarem a muitas pessoas, bem como a valorização e fortalecimento de autores ciganos e quilombolas que estão iniciando ou já tem uma carreira consolidada.

A premiação irá contemplar 36 autores e autoras de livros infantojuvenil e o prêmio pode chegar até R$ 20 mil para cada pessoa contemplada.

O Prêmio é promovido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), por meio do DIVERSIFICA - Inclusão e Diversidade, e pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR).

 

SERVIÇO

I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos

As inscrições vão até 15 de abril de 2025

Acesse o edital para mais informações

Disponível: https://www.publishnews.com.br/materias/2025/02/21/i-premio-nacional-de-literatura-infantojuvenil-para-quilombolas-e-ciganos-esta-com-inscricoes-abertas

sábado, 24 de setembro de 2022

Tereza Albues: Mestra da Cultura Mato-Grossense

Filme-ensaio Albuesas será lançado na próxima terça (27.09) no teatro do Sesc Arsenal e aborda diferentes aspectos da vida e obra de Tereza Albues

“Minha mãe me pariu de pé, tanta pressa tinha eu de vir ao mundo”. A frase, da genial romancista Tereza Albues, é um dos primeiros impactos que temos ao assistir “Albuesas”, curta-metragem de Glória Albues, que terá estreia na próxima terça-feira (27.09), no teatro do Sesc Arsenal. Quando conheci Glória em 2007 – amiga querida e parceira de primeira hora, dada nossas afinidades, inclusive a ascendência cigana –, sua “mais que irmã, amiga de nascença”, a escritora e poeta, Tereza Albues, lamentavelmente, já não estava mais entre nós.

Com a mesma pressa com que veio ao mundo, também já o deixou (2005), no auge de sua produção literária e reconhecimentos, vítima de um câncer. Embora nunca tenha encontrado Tereza pessoalmente, posso dizer que a conheço bem pelas memórias e narrativas de Glória, que sempre escutei com o maior carinho e admiração. Agora tive a oportunidade de conhecê-la um pouco mais, pela maneira sensível, delicada e poética em “Albuesas”, que mostra a ligação entre as duas irmãs e, ao mesmo tempo, nos desperta uma imensa curiosidade para conhecer mais a autora e suas obras.

A literatura de Tereza Albues é mato-grossense, brasileira e universal, com obras que estão ambientadas em diferentes cenários e países. Entre elas, “A Dança do Jaguar”, também lançada em versão impressa na próxima terça, cuja história se passa toda ambientada em São Francisco, onde a autora viveu, ou “O Berro do Cordeiro em Nova York”, obra que conecta dois mundos, sua terra natal, o pantanal mato-grossense, onde foi “parida de pé”, à moderna Nova York, onde viveu 25 anos e consolidou a carreira internacional, sendo homenageada como patrona das Letras Brasileiras pela Brazilian Endowment for the Arts.

Apesar de todo esse talento, Tereza ainda é pouco conhecida do público em geral, inclusive dentro de seu próprio Estado. Assim, com o filme, Glória honra a memória da irmã e mantém vivo seu legado, imortalizando-a nas telas. Mas atenção, Albuesas não é uma cinebiografia”, como a própria Glória faz questão de ressaltar.

Glória Albues honra a memória da irmã, Tereza Albues, levando ao público a face íntima e pessoal da brilhante escritora

Trata-se de um filme arte, um ensaio leve e fresco, que vai desvendando uma Tereza humana, vivaz e misteriosa. Em 20 minutos, o filme-ensaio adentra não apenas o universo literário, trazendo várias reflexões inéditas de Tereza Albues, como também enfoca seu universo existencial, especialmente, por suas ligações íntimas e afetivas que fazia questão de manter com a sua terra natal.

“São duas realidades distintas, Mato Grosso e a cosmopolita Nova York, que se confrontam e convivem simultaneamente, quase que numa dimensão paralela, num discurso inacabado, misterioso e evocativo como a própria existência e que permite revelar momentos de incisiva reflexão em meio ao preconceito e as humilhações que pontuaram a vida da protagonista”, destaca Glória.


Veja acima o teaser de Albuesas

“As histórias podem não ter sentido, mas qual é o sentido do mundo?”

As histórias contadas por Tereza em seus livros, algumas delas tão belamente trazidas por Glória em Albuesas, podem até não ter sentido, como a própria autora descreve. Entretanto, o mundo, como ela mesma diz, também não faz sentido e esse é o mistério da vida e da arte. “Tem muita tristeza, mas ao mesmo tempo é assim um hino de amor, um hino de luta, porque eu sou uma mulher guerreira, inclusive esse filme, esse filme não, ah tomara que dê filme, né?”

Como previu Tereza sua vida e obra, deu filme e dos bons! Aliás, se levarmos em conta toda a sua produção literária, que ainda guarda ineditamente sete obras completas, seus escritos dão muitos filmes. Em Albuesas, Glória constrói uma linguagem imagética muito próxima do surrealismo. 

Em conjunto com o olhar aguçado da direção de fotografia de Luzo Reis e do cineasta Murat Eyuboglu, com o apoio da câmera de Felipe Albues, que aos nove anos já revelava seu talento captando imagens da tia, como se pode ver no próprio filme, Glória elabora um roteiro que prima pela construção de uma rede de afetos que circundam a personagem (irmã, sobrinho, marido, cunhado e amigos), excluindo entrevistas, textos laudatórios de personalidades, tão presentes em filmes dessa natureza. A montagem aprimora esse contexto trazendo ao filme uma intimidade enternecedora.

"Eu me sinto liquefeita, escorro por todos os cantos de mim, sem pudor, desaguando de sal, as lágrimas...” Tereza Albues (à direita de azul), Robert Eisenstat, Alfredo Martins e Glória Albues, no casamento de Tereza, em São Francisco (1980).

Entre imagens de acervo pessoal e cenas capturadas no Pantanal e em Nova York, a narrativa hibridiza a força da menina preta mato-grossense à brilhante escritora cidadã do mundo e os seus locais de pertencimento, que oram saltam aos olhos por meio de um caminhar furtivo e frio nas ruas congelantes de Nova York e noutra navega nas gigantes asas da “Cabeça Seca”, garça que sobrevoa as águas da Bahia de Chacororé, em pleno pantanal de Barão de Melgaço.

A inspirada trilha sonora original congrega e une algumas realidades e sentimentos, que por vezes, parecem inconciliáveis, como o fogo no pantanal, que remete ao preconceito intrafamiliar sofrido pela autora por ser negra; ou a neve em Nova York, que nos traz a superação da vida acima dos tempos fechados e tempestades.

Mesclando influências do jazz, blues e ritmos latino-americanos aos sons dos bichos do pantanal, especialmente, aves e a onça pintada, o trabalho é fruto de uma parceria entre os músicos sul mato-grossenses Lenilde Ramos (comadre de Tereza) e Anderson Rocha. A força literária dos escritos de Tereza, encontram ecos na comovente narração da atriz Fernanda Marimmon. E a sensível consultoria do cineasta Joel Pizzini acompanha a roteirista e diretora na intencionalidade de realizar um filme que ao fugir do didatismo, transgride a realidade dita objetiva e cria uma linguagem audiovisual intensamente poética , com evidente sucesso.

Tal como Tereza, que viaja “em direção ao infinito e pelo caminho vai recolhendo pedaços de sonhos, em forma de contos e romances”; em Albuesas vamos navegando na fluidez das águas pantaneiras ao encontro das águas do Hudson, ouvindo a sua voz: “Eu me sinto liquefeita, escorro por todos os cantos de mim, sem pudor, desaguando de sal, as lágrimas...”

Capa do livro A Dança do Jaguar

Literatura  - O livro e o filme integram o projeto “Conexão Tereza Albues”, proposto pela editora da Entrelinhas, Maria Teresa Carrión Carracedo, em que ao lado de outras 70 personalidades, Teresa foi reconhecida como Mestra da Cultura Mato-grossense, por meio do edital Conexão Mestres da Cultura, da Lei Aldir Blanc da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT).

Natural de Várzea Grande (MT), foi em Nova York, que Tereza escreveu toda sua obra, que será reeditada pela editora Entrelinhas, inclusive vários livros ainda inéditos. A Dança do Jaguar, por exemplo, foi lançado somente em formato digital, no Salão do Livro de Paris, em 2002 e agora será publicado em formato impresso.

Em 2020, a Editora Entrelinhas já havia lançado quatro de suas obras, Pedra Canga, Chapada da Palma Roxa, “Travessia dos Sempre Vivos” e O Berro do Cordeiro em Nova York, em edição no formato box, cada um dos livros com a capa assinada por um artista plástico de MT, como era o desejo da autora.

Graduada em Direito, Letras e Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a escritora tem reconhecimentos importantes, como do editor Ênio Silveira, que publicou seus primeiros livros: "- Tereza tanto pode ser vista como escritora quanto uma força da natureza, por sua prosa de ficção ser tão rica e surpreendente”. Já para o diretor de teatro e ópera Gerald Thomas, “Tereza é uma escritora fenomenal”, “é um terremoto literário”.

Em A Dança do Jaguar, o leitor acompanha uma trama de mistério, suspense e sensualidade ambientada em São Francisco, na Califórnia. A jovem pintora Nayla Malloney aluga um espaço no Solar Maltesa, casa vitoriana de três andares, que aos poucos tem sua história sombria e sinistra revelada. Dividindo o lugar com o excêntrico e recluso botânico Tristan O’Hara, Nayla embarca em uma jornada repleta de aparições, sonhos e pressentimentos.

Serviço

O que: lançamento do filme Albuesas e do livro A Dança do Jaguar

Quando: terça-feira (27 de outubro de 2022)

Onde: Teatro do Sesc Arsenal, em Cuiabá

Horário: 19h

Por Aluízio de Azevedo

Livros de Tereza publicados pela Editora Entrelinhas em 2020