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sábado, 11 de julho de 2026

Ultradireita de Portugal escolhe povos ciganos como alvo preferencial de discursos xenófobos

 
No Dia Nacional da Pessoa Cigana, comunidade recorre à arte para frear discursos preconceituosos do partido Chega. Etnia relata explosão de ataques com a popularidade de André Ventura, mas avança no acesso a universidades

João Gabriel de Lima - Lisboa

Com sua fusão de música luso-flamenca, rumba e pop, o DJ Jorge Syllvah foi a estrela do Dia Nacional da Pessoa Cigana, comemorado em 24 de junho no bairro de Padre Cruz, em Lisboa.

Padre Cruz é conhecido pelas ruas com nomes de rios portugueses –Rio Ave, Rio Tâmega, Rio Cávado– e por abrigar uma das mais tradicionais comunidades ciganas da cidade, com cerca de 500 pessoas.

Syllvah é um ídolo em seu nicho musical, com 52 mil seguidores no YouTube –número próximo da totalidade da comunidade cigana no país lusitano, estimado em cerca de 60 mil pessoas.

"Em Portugal não é fácil ser cigano, há muito racismo e preconceito", diz Syllvah. "A música, uma linguagem universal, é um jeito de nos integrar à sociedade."

Antes de Syllvah, apresentou-se no mesmo palco Claudia Pargana, bailarina e professora de flamenco. Ela dá aulas de música e dança cigana em cinco escolas da rede pública lisboeta. "Com a arte mostramos a força da nossa criatividade, e os mais jovens tomam contato com nossa cultura desde pequenos", diz.

A comunidade cigana portuguesa vive um pesadelo desde que o partido político Chega, representante da ultradireita em Portugal, a escolheu como alvo preferencial de seu discurso xenófobo.

Seu líder, André Ventura, vocifera contra povos ciganos desde a fundação da legenda, em 2019, e aumentou o tom das críticas ao ver que geravam engajamento em redes sociais.

"O discurso da extrema direita tirou do armário os que tinham preconceito contra os ciganos. Hoje sentimos a discriminação em lugares públicos, como restaurantes, e também na internet", diz Bruno Oliveira, líder da Associação Intercultural Cigana, organizadora da celebração de 24 de junho.

Um dos mantras de Ventura é a expressão "subsidiodependência". O líder da ultradireita costuma acusar os povos ciganos de viver à custa do Estado português e de ter privilégios na aquisição de moradias populares.

"O que ocorreu, na verdade, é que fomos expulsos do centro para a periferia das cidades", diz a atriz e ativista Maria Gil, referência no movimento feminista português. "Meus avós viviam na região central da cidade do Porto e eram integrados e respeitados no bairro. Hoje muitos de nós vivem confinados em guetos".

A pressão da ultradireita, no entanto, estimulou a união e a organização dos povos ciganos portugueses. De acordo com a socióloga Maria Manuela Mendes, pesquisadora na Universidade de Lisboa, existem de duas a três dezenas de associações de povos ciganos em Portugal.

Essas organizações vêm conseguindo vitórias importantes. A mais noticiada, em tempos recentes, foi a decisão judicial que obrigou o Chega a retirar cartazes com mensagens xenófobas durante a última campanha presidencial. Na propaganda, uma foto do candidato André Ventura aparecia ao lado dos dizeres "os ciganos têm que cumprir a lei".

Em sua decisão exigindo a retirada dos cartazes, a juíza Ana Barão sustentou que "a frase foi pensada para causar um específico impacto relativamente a um grupo social".

Para o advogado Ricardo Sá Fernandes, que representou as associações ciganas no processo, a decisão teve um efeito pedagógico. "Espero que ninguém mais afixe cartazes discriminatórios e vexatórios para qualquer comunidade, como exige a defesa da dignidade de todos", disse ele em entrevista ao jornal Diário de Notícias.

"Nossa estratégia de luta é usar sempre as armas da democracia", afirma Bruno Gonçalves, presidente da associação cigana Letras Nômadas. Ele lembra que os povos ciganos estão em Portugal há mais de 500 anos. Sua presença está registrada até no teatro, na peça "Farsa das Ciganas", do dramaturgo Gil Vicente (1465-1536).

"Também lutamos contra os espanhóis pela independência de Portugal, em 1640, mas fatos como estes não aparecem nos livros de história", diz Gonçalves.

"Atualmente, os ciganos portugueses são um grupo diverso e difícil de quantificar", afirma a socióloga Maria Manuela Mendes.

Ela foi uma das coordenadoras do único estudo acadêmico aprofundado sobre comunidades ciganas em Portugal, em 2014, e agora está à frente de um projeto semelhante, cuja conclusão está prevista para 2027. Mendes estima que existam pelo menos 60 mil ciganos em Portugal –o censo do país lusitano, como ocorre em várias nações europeias, não inclui etnia em seus questionários.

O novo retrato produzido por ela deverá mostrar mudanças na organização social e melhorias na área da educação. Devido às leis da monarquia, povos ciganos não podiam se estabelecer em cidades portuguesas acima de um tempo determinado.

"Éramos obrigados a ser nômades, e isso teve um impacto na escolarização", diz Bruno Gonçalves. Recentemente, Portugal passou a seguir uma política europeia de integração das populações ciganas, o que trouxe acesso a bolsas de estudo. Começam a aparecer os primeiros integrantes dessas comunidades com mestrado e doutorado nas universidades portuguesas.

As lideranças ciganas temem que esses avanços sejam limitados pelo crescimento da ultradireita. "Um dos nossos problemas é a ausência de representação institucional", diz Maria Gil, que já concorreu à Câmara Municipal do Porto, mas não se elegeu.

"Temos atividade política nas organizações, mas pouca presença dentro dos partidos, à direita e à esquerda. Precisamos dessa participação porque, quando André Ventura começou a pregar o anticiganismo, ficou claro que tínhamos entrado numa guerra."

O nome "cigano" surgiu como uma designação genérica e pejorativa atribuída a grupos étnicos que se instalaram na Península Ibérica. Organizações europeias e movimentos de afirmação recomendem o uso dos termos "roma" e "romani" para designar esses povos, enquanto em Portugal fala-se em "pessoas de etnia cigana" ou "comunidade cigana", dando ênfase à cidadania e pluralidade desses grupos.

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/07/ultradireita-de-portugal-escolhe-povos-ciganos-como-alvo-preferencial-de-discursos-xenofobos.shtml

 

 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Assista ao Filme Caminhos Ciganos na Mostra Cine Caos Socioambiental online

Filme estará disponível online nas próximas semanas, corra que logo vai sair do ar!

Atenção amantes do cinema Cigano,

Esta oportunidade é para quem ainda não viu o filme Caminhos Ciganos.

O filme estará disponível nas próximas semanas na 10ª edição da Mostra online CineCaos Socioambiental.

Para ver a obra, que tem 24 minutos e aborda comunidades ciganas de Brasil, Portugal, com pitadas da Festa de Santa Sara Kali, em França, basta acessar o link:

Os outros 14 filmes da mostra, que ocorreu também presencial no último dia 10 de agosto (domingo), em Cuiabá, podem ser acessados no seguinte link:

#povosciganos #cinecaossocioambiental #caminhosciganos #ciganos #calon #rom #sinti #romah #gitanos #gypsy #cinema #audiovisual #arte #cultura #culturacigana #Cuiabá #MT #Brasil #Portugal #França

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Livro O Cristo Cigano narra o sacrifício em nome da arte

 

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen apresentam a busca de um escultor pela expressão da dor humana

Cristina Horta de AlmeidaBelo Horizonte

Livro que integra a lista da Fuvest 2026, "O Cristo Cigano" aborda a solidão do homem, implicando uma preocupação social ao problematizar a figura de Jesus Cristo a partir da beleza do oprimido. Aliando lenda a um apelo cristão, a história escrita por Sophia de Mello Breyner Andresen destaca o sacrifício do amor em nome da arte.

"O destino eram

Os homens escuros

Que assim lhe disseram:

– Tu esculpirás Seu rosto

de morte e de agonia."

(trecho do livro 'O Cristo Cigano')

A seguir, saiba mais sobre a obra.

QUEM É A AUTORA

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu em 1919, na cidade do Porto (Portugal), e morreu antes de completar 85 anos, em Lisboa. De família aristocrata, foi criada em uma casa integrada à natureza, passando suas férias de verão em Vila Nova de Gaia. O contato com casas, jardins e o mar contribuíram para uma compreensão da espacialidade, que viria a aparecer recorrentemente em suas obras.

Com uma educação cristã, Sophia não se limitou às regras religiosas. "Ela recusava fórmulas no cotidiano, na religião, na expressão artística. Valorizava a independência, a lucidez e a expressão", afirma Fabiana Miraz, doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). Em 1936, cursou a disciplina de filologia clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudou línguas clássicas, entre elas o grego, marcante em sua produção.

Sua projeção veio com a obra poética. Sophia estreou aos 14 anos nos "Cadernos de Poesia", revista que reuniu autores heterogêneos, como Jorge de Sena e Ruy Cinatti. Também escreveu ensaios e contos, passando pelas narrativas infantis após se casar e ter filhos. Tornou-se crítica do regime ditatorial salazarista estabelecido em 1933 e foi eleita deputada à Assembleia Constituinte em 1975, após a Revolução dos Cravos. "Ela aderiu ao processo de construção da democracia portuguesa, mas se desiludiu ao ver que a pós-revolução não concretizou a mudança que ela empregava em suas falas", relata Miraz.

Entre as premiações que obteve estão o Camões, em 1999, e o Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, em 2003.

A influência

Quando Sophia conheceu o poeta João Cabral de Melo Neto na Espanha, em 1958, logo surgiu uma grande afinidade. Tanto que, para a pesquisadora Clara Rocha, em publicação da Fundação Calouste Gulbenkian, de 1994, Sophia compôs um pastiche sobre o estilo de Melo Neto em "O Cristo Cigano", em 1961. Inspirado em uma lenda contada pelo amigo, o texto apresenta a sua forma precisa. "Por isso os versos mais curtos, o ritmo, as rimas marcadas. Mas é importante ressaltar que ela adequou a sua linguagem à do poeta", observa Miraz.

A lenda

Em Sevilha, ao buscar inspiração para talhar um Cristo crucificado, um escultor viu um belo cigano, conhecido como Cachorro, ser esfaqueado por um homem ciumento da esposa. A cena permitiu ao artista vislumbrar um rosto marcante em agonia. Como é comum na tradição oral, a lenda apresenta outra versão: obcecado pela imagem, o próprio artista resolveu assassinar o cigano para conhecer a face da dor. Sophia opta pela segunda narrativa para, então, contar poeticamente o mito por trás da escultura "Cristo de la Expiración", de 1682, produzida por Francisco Ruiz Gijón.

A narrativa

O escultor e o cigano são os personagens centrais, em uma narrativa dividida em 12 poemas que mostram o percurso de criação de uma obra de arte. O mote evidencia a homenagem feita a João Cabral de Melo Neto, apresentando uma faca como metáfora da linguagem: ela é instrumento que corta, mata e esculpe. Depois, 11 poemas numerados retratam a relação do escultor com o tempo e a arte, e o jogo entre claro e escuro. O escultor, então, é a claridade que, encantado pelo cigano, conhece as sombras ao matá-lo. "Sophia fala daquele que morre injustamente. É o cristianismo movido pelo amor ao desvalido", explica Flávio de Castro, professor de literatura do Colégio Determinante.

Dimensões reflexivas da dor

Para Rita Oliveira, professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), o diálogo entre a lenda e a poesia é ampliado para o sofrimento humano coletivo da época, retratado na figura do cigano. Afinal, o mundo ainda lidava com as consequências de duas guerras, seguidas pela consolidação de ditaduras. Houve um investimento nos conflitos em detrimento aos direitos sociais fundamentais, resultando em desemprego, fome, doenças e cerceamento das liberdades civis. Nesse sentido, a obra de Sophia é atravessada por uma crítica social, usando a poesia como meio de friccionar o real.


SÉRIE ABORDA OS LIVROS DO VESTIBULAR 2026 DA FUVEST

Este é o quinto de uma série de textos que abordam a lista de livros do vestibular da USP deste ano. Pela primeira vez, a Fuvest selecionou obras só de escritoras mulheres. A cada semana, uma obra é tema de reportagem que explica a trajetória da autora e os principais pontos que podem ser cobrados na prova.

Os textos fazem parte do projeto Folha Estudantes, criado para ajudar jovens na preparação para o Enem e outros vestibulares. 

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2025/08/livros-da-fuvest-o-cristo-cigano-narra-o-sacrificio-em-nome-da-arte-conheca.shtml

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Documentário mostra repressão secular aos ciganos em Portugal


Um documentário feito em Elvas por 20 atores, dos quais 17 ciganos, mostra como um conjunto de leis repressivas ao longo dos séculos reprimiu a cultura e a língua ciganas, que praticamente não é falada em Portugal.

"É um documentário para não ciganos, para que fiquem a saber o que a comunidade sofreu e não para ciganos, porque iria gerar revolta", começou por dizer com alguma ironia Luís Romão, presidente da Associação Sílaba Dinâmica perante a plateia que hoje visionou o filme em Torres Vedras.

O documentário feito pela associação de Elvas, intitulado "500 anos de leis repressivas", tem a duração de 20 minutos e conta a história de uma família cigana que se pretende instalar em Portugal na esperança de encontrar um lugar seguro.

Neste percurso, encontra a hostilidade das ordens de expulsão, as dificuldades de comunicação entre o português e o romani ou a proibição de utilizar os seus trajes.

O objetivo era "anular a identidade cultural cigana visando a assimilação", conclui o narrador no filme, acrescentando que "falar romani era um ato perigoso que resultou em punições" como açoitamentos severos em público e "até a língua podia ser cortada" no que era um aviso aos que pretendessem manter as tradições.

Para contornarem a lei falavam em grupo, o que reforçava os seus laços e assumia uma forma de resistência.

O documentário mostra ainda como estas comunidades foram empurradas para "as margens das cidades" onde, apesar disso, puderam sobreviver e preservar algumas tradições como a música.

"O que pretendemos é fazer uma recriação das leis repressivas com algum realismo para ajudar a perceber, sobretudo decisores políticos, técnicos e professores o que aconteceu nos últimos 500 anos e de que forma poderíamos criar reflexões sobre medidas reparatórias para essas leis repressivas", explicou à Lusa Rui Salabanda Garrido, responsável da associação e ator no filme.

Uma das medidas reparatórias que "nós consideramos muito importante era o ensino do romani, como forma de reparação dessa proibição que fez com que as pessoas praticamente não falem o romani, lançamos esse repto", desafiou Rui Salabanda Garrido, o único não cigano da associação.

O presidente Luís Romão destacou que o objetivo da associação é mostrar "de formas diferentes" a história e cultura ciganas.

"Trabalhamos com a Aima [Agência para a Integração Migrações e Asilo], concorremos a fundos que nos permitem andar a nível nacional a apresentar este documentário sobre leis repressivas, mas já tivemos uma peça de teatro", exemplificou.

Nesse caso, a "História do ciganinho Chico" levou, num conto, a história e a cultura cigana a crianças de todo o país através de uma peça de teatro animada. Nessa peça mostrámos a nossa história e tradições, esse é o nosso objetivo, de formas diferentes, através do teatro e neste caso do documentário, mostrar a realidade das comunidades ciganas", adiantou.

O documentário já foi apresentado no Porto, Figueira da Foz, Portalegre, Borba, Elvas e Torres Vedras

Texto disponível em: https://www.rtp.pt/noticias/cultura/documentario-mostra-repressao-sobre-ciganos-ao-longo-dos-seculos_n1670183

Foto Disponível em: https://www.cm-tvedras.pt/artigos/detalhes/atividade-em-torres-vedras-abordou-a-historia-da-repressao-do-povo-cigano-em-portugal

 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

13 Festival de Cinema Periferias em Portugal homenageia povos ciganos

Documentário com Charles Chaplin é um dos mais esperados desta edição

A 13.ª edição do Periferias – Festival Internacional de Cine (ma) de Marvão e/y Valencia de Alcantara terá lugar de 8 e 16 de agosto

13.ª edição do Periferias – Festival Internacional de Cine (ma) de Marvão e/y Valencia de Alcantara terá lugar de 8 e 16 de agosto. Cinema, arte e música vão encher as localidades fronteiriças situadas no meio rural da Reserva da Biosfera Tejo Internacional e do Parque Natural de Alqueva, que não possuem salas de cinema.

programação desta nova edição, anunciada a 3 de julho na Casa do Comum em Lisboa, é dedicada à riqueza cultural do povo cigano, inclui a exibição de 26 longas-metragens e documentários reconhecidos internacionalmente, além de concertos, passeios noturnos, visitas guiadas, encontros e diversas atividades educativas e de lazer, dirigidas a todos os públicos.

Antes da 13.ª edição do Festival, são realizadas uma série de extensões nas localidades de Arronches, 4 e 5 de julho, Portalegre, 11 e 12 de julho, Cáceres, 17 de julho, Piedras Albas, 25 e 26 de julho, e Alconchel, 1 e 2 de agosto, com uma ampla programação que inclui cinema, música, arte e lazer.

Nesta nova edição, o Periferias consolida-se como evento cultural transfronteiriço de referência na produção de filmes de autor focados na defesa e promoção dos Direitos Humanos, na preservação do meio ambiente e no impulso da arte cultural, com o objetivo de contribuir para uma efetiva descentralização da cultura no meio rural.

A diretora do Festival Internacional de Cinema Periferias, Paula Duque, destacou que este festival, criado em 2013, tem como objetivo promover a cultura cinematográfica e impulsionar a indústria audiovisual, dando a conhecer o valioso património histórico-cultural das aldeias e locais mais emblemáticos da fronteira entre o Alentejo e a Extremadura, transformando-os em verdadeiras salas de cinema ao ar livre.

Neste sentido, Duque sublinhou que o Periferias se define pelo seu compromisso com o território e por aproximar o cinema a zonas que tradicionalmente têm estado à margem dos grandes circuitos de exibição, concebendo arte cinematográfica como instrumento que convida à reflexão, ao pensamento e ao conhecimento.

Esta 13.ª edição de Periferias acolhe grandes títulos cinematográficos de géneros como a ficção, o documentário e a animação, provenientes de diferentes países, promovendo o diálogo e o fortalecimento dos laços entre povos vizinhos, assim como diversas ações dirigidas ao público infantil. Tudo isto, sob o signo da busca de novas oportunidades através do cinema para alcançar a justiça, a integridade e a ética social.

Este ano, o tema central gira em torno da riqueza cultural do povo cigano, com a exibição de longas-metragens, documentários e concertos musicais que têm como objetivo aproximar a história e a cultura cigana, além de reconhecer as contribuições do povo cigano à sociedade, através das artes cénicas e audiovisuais.

Merece atenção especial o documentário “Chaplin, espírito cigano”, realizado pela neta do reconhecido ator inglês, Carmen Chaplin, que é exibido na extensão de Cáceres, no âmbito  desta décima terceira edição, em colaboração com a Filmoteca de Extremadura.

Também se destacam outros títulos como a longa-metragem “A menina da cabra”, de Ana Asensio, o filme documentário “A guitarra flamenca de Yeray Cortés”, dirigido pelo artista madrileno Antón Álvarez (C. Tangana), ou a curta- metragem documental “Entrelaçadas pela interseccionalidade”, do Coletivo Cala, que recolhe os relatos, reflexões e afetos da Associação de Mulheres Ciganas de Plasencia, o Movimento de Mulheres Migrantes da Extremadura e a AMPA de Membrío.

A programação inclui ainda diferentes títulos com importantes reconhecimentos nos melhores festivais de cinema internacionais, provenientes de diferentes países como Espanha, Peru, Portugal, Brasil, México, Chile, Países Baixos, França, Roménia, Argentina, Uruguai, Cabo Verde e Suíça.

Esta 13.ª edição regressa a cenários emblemáticos das localidades fronteiriças de Marvão, Beirã, Valencia de Alcántara, Salorino, La Fontañera, Castelo de Vide, Galegos ou Portalegre, e, pela primeira vez, chegará a Alconchel e a Cáceres.

Tudo isto, com o objetivo de contribuir para uma descentralização cultural impulsionando o desenvolvimento das comunidades com as quais trabalha, assim como fomentar o acesso a uma oferta cultural relevante, priorizando a criação de novos públicos.

A 13.ª edição do Festival de Cinema Periferias arrancará em Marvão com a exibição do filme “O Último Azul“, de Gabriel Mascaro, e encerrará com uma grande gala de encerramento no Centro Cultural de Salorino onde será entregue o Prémio Tejo/Tajo ao melhor filme, após o qual será exibida a longa- metragem “Sorda”, realizada por Eva Libertad.

O festival Periferias conta com os apoios institucionais da Junta de Extremadura, das diputaciones de Badajoz e Cáceres, além da Câmara Municipal de Marvão, entre outras instituições, assim como o patrocínio de Azeites Castelo de Marvão do Lagar Museu António Picado Nunes.

Disponível em: https://www.cinema7arte.com/13-a-edicao-do-festival-periferias-com-programacao-completa-dedicada-a-riqueza-cultural-do-povo-cigano/

terça-feira, 23 de abril de 2024

Caminhos Ciganos é selecionado para o FICA 2024

O curta-metragem concorrerá na Mostra de Cinema Indígena e de Povos Tradicionais do 25 Festival Internacional de Cinema Ambiental

Caminhos Ciganos (24’, 2023) foi um dos curta-metragens selecionados para participar no 25º Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA), com o tema “Tecnologia, Inovação e Mudanças Climáticas”.

O filme será exibido na Mostra de Cinema Indígena e de Povos Tradicionais. Novidade neste ano, a mostra é dedicada a exibição de filmes de cineastas indígenas e de comunidades tradicionais, com premiação para longas e curtas-metragens.

53 produções audiovisuais se inscreveram para a Mostra Indígena e de Povos Tradicionais. Do Brasil, de estados como Roraima, Amazonas, Bahia, São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais e apenas seis foram selecionados.

Dirigido por Aluízio de Azevedo e codirigido por Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira, Caminhos Ciganos aborda e tece relações, por meio do audiovisual entre diferentes comunidades ciganas brasileiras do tronco étnico Calon e entre distintas comunidades de Brasil e Portugal.

Para saber mais, acesse o site do filme Caminhos Ciganos.

A produção é realizada por meio de seleção no edital Cine Motion 2021 da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), com o apoio da AEEC-MT, GIZ, Ministério Público Federal (MPF), Assembleia Social, Prefeitura Municipal de Tangará da Serra.

Para conhecer todos os filmes selecionados para as mostras competitivas, basta acessar ao link: https://fica.go.gov.br/filmes-em-competicao/

Panorama da produção cinematográfica ambiental

Neste ano, 1.078 produções foram inscritas para participação no Festival, que será realizado de 11 a 16 de junho, na cidade de Goiás (GO e vai destinar premiações que variam de R$ 5 mil a R$ 35 mil, além de troféus e menções honrosas.

As comissões responsáveis pela avaliação do material audiovisual são formadas por profissionais com notória experiência e conhecimentos na área e, em sua maioria, estão compostas por membros escolhidos a partir de chamada pública, contando também com indicações da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e do Conselho Estadual de Cultura do Estado de Goiás.

De acordo com o site do festival, a temática foi escolhida para fazer coro com as metas da COP30, que ocorrerá em 2025, em Belém do Pará, no Brasil.

“o objetivo é trazer para os holofotes o debate sobre o papel da tecnologia na transição em direção a uma economia de baixo carbono e alinhar o festival com os debates que ocorrem rumo à COP-30, em 2025, na cidade de Belém”, diz trecho no site.

O FICA - 25 Anos de História

O primeiro festival de cinema a abordar a temática ambiental do Brasil e um dos pioneiros no mundo, completa bodas de prata no ano de 2024. Consolidado como um dos eventos mais expressivos no gênero, o festival é referência tanto no cenário nacional quanto internacional.

A cada ano, nas telas do histórico Cine Teatro São Joaquim, na cidade de Goiás, é exibido um recorte do que há de mais novo, relevante e inquietante em termos de filmes que tratam da relação entre ser humano e natureza.

O Fica é um fórum de debates ambientais de alto nível, reunindo sempre grandes pensadores e líderes internacionais para discutir o presente e o futuro do planeta e da humanidade.

Por suas sessões de cinema e debates ambientais já passaram os mais importantes nomes do cinema e do meio ambiente no Brasil e no mundo, como Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Eduardo Escorel, Nelson Pereira dos Santos, João Batista de Andrade, Marina Silva, Miriam Leitão, Washington Novaes, entre outros.

Imagem do filme em Saintes-Maries-De-La-Mer, França, na Festa de Santa Sara kali

O Fica é inseparável da cidade de Goiás. Foi parte importante do processo que levou ao reconhecimento da cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e segue contribuindo com a economia e a cultura da antiga capital do estado, parceira de sua realização.

Realizado pelo Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), o festival conta com a correalização da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Fundação de Rádio e Televisão Educativa e Cultural (Fundação RTVE).

Assessoria de Comunicação do filme Caminhos Ciganos, com informações do Site do FICA

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Filme “Caminhos Ciganos” viaja no universo romani de Brasil, Portugal e França

Músicos ciganos tocam durante a peregrinação de Santa Sara Kali, em Saintes-Maries-De-La-Mer, França, reunindo ciganos do mundo todo, no dia 24 de maio, quando se comemora a padroeira cigana

Com uma linguagem cinematográfica, que inova ao apresentar cenas e cores vibrantes e uma estética romani tão íntima, que só quem é de dentro consegue captar; o curta metragem “Caminhos Ciganos” registra a longa viagem de um cineasta de etnia Calon, Aluízio de Azevedo, que ocorreu em 2017, no intuito de reconhecer e fortalecer sua identidade e ancestralidade. Aprovado no Edital Audiovisual 2021 – Cine Motion da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), o trabalho está em fase de finalização e deve ser lançado no início do segundo semestre deste ano.

A trajetória pelo universo cigano inicia em seu microcosmo familiar, com seus tios-avós, os cunhados Eurípedes e Araxides e Stoesse, em Tangará da Serra (MT). De lá, o cineasta, percorreu milhares de quilômetros, de carro, ônibus, avião e barco, entre Brasil, Portugal e França. Mas foi na cidade, sua terra natal, que surgiu ideia de enviar recados de seus parentes, que pertencem ao tronco étnico Calon – os outros dois são os Rom e os Sinti – para os ciganos que encontrasse no caminho.

Trailler - barraco improvisado, sem água e luz, na cidade de Beja, Portugal

Com cenas completamente inéditas do universo cigano, a produção audiovisual entrelaça as sutilezas e surpresas desses encontros, a produção reconecta pessoas separadas por séculos. A exemplo dos irmãos cantores sertanejos Jefferson e Wanderley, do Acampamento Nova Canaã, em Brasília; ou das “Marias” Rosa e Amélia, da cidade de Beja, em Portugal, que apresentam os dramas e os modos de vida romani no país.

Road movie dirigido por cineasta de etnia Calon aborda culturas e identidades ciganas numa narrativa poética e intimista

Acompanhado por dois parceiros de viagem, os codiretores Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira e partindo da técnica de câmera na mão, o trabalho é recheado de travellings, conversas coletivas e registros cotidianos de diferentes comunidades ciganas dos três países. Nada convencional, a narrativa traz reconhecimentos identitários mútuos, a r-existência na manutenção de valores e estilos de vida distintos das sociedades majoritárias, bem como o passado comum de perseguição e racismo.

“Em 2017, percorremos inúmeras cidades brasileiras, portuguesas e francesas, no intuito de conhecer outras comunidades ciganas, conviver com elas e imergir em seus cotidianos. Passamos por mais de quatro cidades no Brasil, 10 cidades em Portugal e uma cidade na França. Cruzamos e conversamos com personagens marcantes da vida romani, que encantam pela visão sabedoria e simplicidade e contam como acontecem suas relações com os não-ciganos, a hibridação e/ou a manutenção das identidades Romani”, lembra Aluízio de Azevedo.

Aluízio conversa com o Rom Kalderash, Rosan Mifalu, de Hungria, em frente à Catedral de Saintes-Maries-De-La-Mer, de onde sai a peregrinação de Santa Sara Kali

O diretor e roteirista explica que historicamente, os povos ciganos foram vítimas de políticas colonialistas/racistas, processos de invisibilização e silenciamento. Filmes, livros de literatura e estudos científicos oscilam entre representações de ódio e romantização, ora como bandidos perigosos, ora pontuando aspectos da sensualidade/sexualidade das mulheres, visões equivocadas.

“Essa realidade perpetuou imaginários negativos e impede o acesso à cidadania e serviços como educação, saúde, transporte, moradia ou trabalho formal. Assim, propomos um trabalho de autorrepresentação em todo o processo fílmico, desde a idealização, até a edição e circulação, aprofundando nos olhares ciganos, de maneira a transformar imaginários preconceituosos seculares”, enfatiza.

Saintes-Maries-De-La-Mer – Tendo por método orientador o cinema compartilhado de Jean Rouch, o filme-ensaio traz elementos identitários, como a língua, o trabalho tradicional com as vendas ou a leitura de mãos, a manutenção de manifestações culturais e tradições”, pondera o codiretor Rodrigo Zaiden, ao destacar que um dos pontos altos é a peregrinação de Santa Sara Kali.

Santa Sara Kali durante peregrinação na cidade de Saintes-Maries-De-La-Mer, em França, é acompanhada por multidão até o mar onde é banhada revivendo o mito de como chegou na cidade

“Acompanhamos a tradicional lavagem da padroeira cigana no mar mediterrâneo, junto com os amigos Florance Michel (Sinti de Itália), Rosan Mifalu (Rom de Hungria), e Monet Françoa (Manush de França), que fazem questão de comemorar anualmente. A peregrinação não é apenas uma manifestação de muita fé,  reunindo muita música e dança; elementos que os ciganos mantém em todos os territórios visitados e que brindam o público com sua originalidade”, conta Zaiden, que também atua como produtor e assistente de montagem na produção.

Como uma personagem coletiva que vai ligando personagens e territórios romani; a peregrinação de Santa Sara Kali aparecerá ao longo da narrativa com planos e sequências do ritual e dos acontecimentos profanos e musicais em seu entorno. “Abordamos o universo cigano por uma perspectiva dinâmica, cuja linha condutora são as viagens e vozes romani, que apresentam seus mundos de dentro para fora”, pontua a também codiretora e diretora de fotografia Karen Ferreira, ao enfatizar que:

“Um dos objetivos é o registro fílmico como fortalecimento das culturas e identidades ciganas, visando a quebra de estereótipos negativos. Outro é trazer novos materiais de pesquisa, por meio do diálogo intercultural promovido entre as comunidades visitadas dos diferentes países; para repensar questões relativas as estruturas sociais e a forma que a sociedade ocidental vê e (re)trata os povos ciganos”, complementa karen.

Tio Eurípedes Alves Pereira (in memorian), Tangará da Serra, tem presença marcante no documentário

Estratégia de distribuição – O projeto prevê a realização de circuito de lançamento com exibições presenciais específicas para as comunidades ciganas das quatro cidades/comunidades de Mato Grosso que participam: Tangará, Rondonópolis, Cuiabá. Também conta a criação de uma plataforma digital para divulgar informações como ficha técnica, trailer, teaser, making off, materiais de assessoria de imprensa e marketing (peças gráficas como cartaz, cartões, cards).

O site servirá ainda para ancorar redes sociais no Insta e YouTube, que serão criadas, exclusivas para divulgação do trabalho; espaço para clipagem de todo conteúdo da obra; e ao cabo de três anos de lançamento, a própria obra.

Barraca no Acampamento Nova Canaã, Rota do Cavalo, Sobradinho I, Brasília DF, que é uma das comunidades ciganas brasileiras que participam do filme

Sinopse

Os caminhos que levam ao universo romani em três países, Brasil, Portugal e França, são apresentados numa narrativa poética e intimista, inspirada na estética do premiado cineasta cigano Tony Gatlif, diretor de “Lacho Drom” (1992) e “Gadjo Dilo” (1997). Em destaque as culturas ciganas vistas de dentro, valorizando imaginários próprios. A viagem inicia com a família de um cineasta de etnia Calon em Mato Grosso; que corta o Brasil e atravessa o oceano Atlântico para reencontrar com sua ancestralidade, registrando cada comunidade, suas personagens e cotidianos marcantes, nuances de manifestações culturais, modos de vida e tradições romani, como também denúncias de exclusão e perseguição históricas.

Ficha Técnica

Pesquisa, Roteiro e Direção: Aluízio de Azevedo

Codireção: Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira

Produção Executiva: Irandi Rodrigues Silva

Direção de Produção: Rodrigo Zaiden

Produções Local Portugal: Pimênio Ferreira

Produção Local Brasil: Fernanda Alves Caiado

Direção de Fotografia: Karen Ferreira

Fotografia complementar: Rodrigo Zaiden e Aluízio de Azevedo

Montagem: Juliana Corsino e Aluízio de Azevedo

Assistente de Montagem: Rodrigo Zaiden

Edição: Juliana Corsino

Finalização/Colorização: Isabela Padilha

Designer Gráfico e Webdesigner: André Victor

Assessoria de Comunicação e Imprensa: Aluízio de Azevedo

 

sábado, 29 de maio de 2021

Seminário Internacional abordará comunidades ciganas de Brasil e Portugal na contemporaneidade

Realizado pela Universidade Aberta de Lisboa (UAb), evento ocorre no dia 18 de junho com a participação do membro da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo 

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) convida a todos os seus membros, aos ciganos brasileiros e portugueses e a todas as pessoas não ciganas interessadas no universo romani a acompanharem o Seminário Internacional “Ciganos no Brasil e em Portugal na Contemporaneidade: Desafios comunicacionais e interculturais em saúde”.

O seminário tem como conferencista o cigano de etnia Calon, pesquisador e assessor para ciência e comunicação da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo. Além disso, contará com a moderação e comentários da coordenadora científica do CEMRI/UAb, professora doutora Natália Ramos; e do professor doutor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), José Francisco Serafim.

Organizado pelo Grupo de Investigação Saúde, Cultura e Desenvolvimento do Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais (CEMRI) da Universidade Aberta de Lisboa (UAb); o evento ocorrerá entre 17h e 19h de Lisboa (13h às 15h de Brasília e 12h às 14h de Cuiabá) do dia 18 de junho de 2021 por meio da plataforma zoom, no seguinte link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/85430202396?pwd=ZmhWcktyOVNYTWVqRnpBbG9xNjFnUT09.

Outras informações pelo endereço eletrônico cemri@uab.pt.

Serviço: Seminário Internacional Ciganos no Brasil e em Portugal na Contemporaneidade: Desafios Comunicacionais e Interculturais em Saúde.

Quando: 18 de junho de 2021

Horário: 17h às 19h de Lisboa, 13 às 15h de Brasília e 12h às 14h de Cuiabá

Onde: Universidade Aberta de Lisboa (UAb)

Plataforma Zoom: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/85430202396?pwd=ZmhWcktyOVNYTWVqRnpBbG9xNjFnUT09

Assessoria de Comunicação da AEEC-MT




terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Feminismo cigano: Existimos e resistimos! – Entrevista a Maria Gil

Cigana, atriz e portuguesa Maria Gil, ativista do movimento "Mulheres e Ciganas Existem e Resistem!"

Por HELENACARLAG

Combinei encontrar-me com a Maria Gil nos jardins do Palácio de Cristal. Um dos locais mais bonitos do Porto, Portugal. Amplo e verde, permite-nos usufruir de todos os raios de sol a que nós, mulheres, temos direito! Afinal, estamos no Verão! E, vamos falar de feminismos, mais propriamente de feminismo cigano. A Maria Gil é mulher e cigana. “Não é mulher vírgula cigana”, explica, “é mulher e cigana, o e é muito importante porque acrescenta algo. Ao facto de eu ser mulher, acrescento o cigana, é uma soma e o resultado desta soma é o que eu sou e me orgulho muito de ser”. Para além disto, também é feminista desde os dez anos de idade e sente na pele a intersecção destas três fortes camadas: mulher e cigana e feminista. 

Helena Ferreira (HF) – Diz-me como te tornaste mulher e resistente no seio de uma comunidade que, por um lado, é vítima de violência constante ao longo dos séculos por parte do patriarcado “branco” heteronormativo e por outro, é vítima do seu próprio patriarcado dentro da sua comunidade.

Maria Gil (MG) – A minha primeira resistência começou aos dez anos de idade, quando comecei a questionar porque me tratavam de forma diferente em relação aos rapazes e em relação às meninas da comunidade dita “branca”. Por exemplo, nunca percebi porque é que não podia estudar até porque o meu pai que era cigano sempre me disse que eu teria que estudar mas, entretanto este quadro alterou-se com a sua morte. De repente, fico sem pai, com uma mãe extremamente fragilizada e conservadora, que uniu a sua dor à necessidade de defender a sua versão da tradição e que aos sete anos me veste de negro e me tira da escola. Aí tomei a consciência da gravidade da situação, porque estava a ser alvo de uma superprotecção mal direccionada. Quando regresso à escola, com oito anos, volto uma menina vestida de negro e sou alvo de bullying por parte das outras crianças. Perdi o direito à cor e perdi o chão. Estou a falar nisto porque é muito importante que todas as mães e pais percebam que tirar as crianças da escola, principalmente as meninas, é uma violência e que só as estão a encaminhar para situações de fragilidade social e a dependências de terceiros.

"O patriarcado cigano, como todas as comunidades ciganas de uma forma geral, encontra-se entrecruzado pelas conjunturas de marginalidade, subalternidade e exclusão social"

HF – Existe a ideia pré-concebida de que a comunidade cigana é extremamente machista… Mais que a nossa, a dos ditos “brancos”?

MG – Não. O patriarcado cigano, como todas as comunidades ciganas de uma forma geral, encontra-se entrecruzado pelas conjunturas de marginalidade, subalternidade e exclusão social. Neste sentido, reivindicar a masculinidade e responder às normas que lhes são impostas é de vital importância para a afirmação da própria identidade, estigmatizada e desconsiderada pela sociedade dos payos (pessoas que não são ciganas). Por isso, não os posso considerar mais machistas, mas sim homens que se movem pelas circunstâncias que o meio social lhes proporciona que, por vezes, são extremamente violentas. Transgredir as leis e as normas na nossa comunidade ganha uma visibilidade absoluta. Há sempre a tendência para apresentar a nossa população como um grupo homogéneo, como se o sexismo e a opressão patriarcal fossem prerrogativas de culturas exoticizadas como a nossa. Por exemplo, se ocorrer uma violação dentro da comunidade cigana, os ciganos passam a ser todos violadores e é uma notícia que tem grande impacto na comunicação social.

HF – Sim, dá a sensação que assistimos ao aumento da violência contra a população cigana na Europa, o que se comprova com as declarações racistas que temos presenciado nos últimos dias no nosso pequeno país. Como sentes isto?

MG – Acho que toda esta violência social geral que se tem vindo a desenvolver, tem como ponto de partida o patriarcado. Não se chegava a este ponto de violência racial se as sociedades não colocassem na sua organização as relações de alteridade, de superioridade de uns seres humanos sobre os outros. E todos estes acontecimentos tornam urgente a necessidade de um activismo sempre presente e de um feminismo cigano em estado de alerta. Por exemplo, devíamos estar já nesta fase, na primeira década do século XXI, a discutir a partilha de responsabilidades e a afirmação nos processos de integração e de negociação com a sociedade dita maioritária, isto é, termos voz de igual para igual e isso não acontece. Os payos, e as payas também, ainda pretendem falar por nós, dizer-nos o que está certo e o que está errado. A cultura dominante impõe-nos uma identidade e insere-nos numa gaveta e a questão é como constróis e desconstróis a tua própria identidade e resistes a ser colocada nessa gaveta. Por outro lado, e em simultâneo, tens as lutas dentro da tua própria comunidade, pela visibilidade das mulheres e igualdade de género, o que não é fácil porque o machismo é tão perverso que gera nas mulheres um sentimento de protecção e elas sentem-se umas patetas alegres (vítimas felizes), porque o homem toma conta delas. São estas patetas alegres que defendem a divisão entre as mulheres sérias e as outras. As sérias são as firmes, as castradoras, as grandes defensoras do patriarcado contra aquelas que assumem as suas identidades, que ousam e que são verdadeiras consigo mesmas e com a dupla sociedade que enfrentam(a dos payos e a cigana) e que fazem as suas opções. Tenho a certeza que se as patetas alegres tivessem noção que são oprimidas, mais mulheres ciganas seriam feministas e livres.

HF – Existem vários estereótipos instaurados no nosso imaginário social: todas as mulheres ciganas são feirantes (vendedoras ambulantes), não estudam, casam cedo e com ciganos, e são mães de famílias numerosas.

MG – Isso é tão ridículo como eu dizer que as mulheres payas portuguesas têm todas bigode e vestem todas de preto. Sempre existiram mulheres ciganas resistentes, embora não tenham sido apelidadas de feministas. A verdade é que não têm que ser apelidadas de feministas ou considerarem-se assim. Existem mulheres ciganas em todas as profissões e que estudam. Já existem muitas mulheres ciganas licenciadas e doutoradas e que não casam nem têm filhos. Ou seja, que fazem as suas escolhas e lutam por elas. Tenho, no entanto, que referir que o grande desafio é criticar as estruturas patriarcais internas e, ao mesmo tempo, tentar evitar reforçar os estereótipos negativos sobre a nossa comunidade, por exemplo, porque defendo que todas as meninas devem estudar, não posso permitir que isso seja visto pelos payos logo como: “Pois, eles não deixam as meninas estudar porque as casam muito cedo”, ou seja, evitar que as reivindicações de género se tornem um instrumento de alterização e de estigmatização de um grupo subalterno e racializado. Tenho ainda que falar aqui da interseccionalidade que mostra o cruzamento de diferentes opressões: de género, classe, “raça” e sexualidade, sofridas pelas mulheres ciganas. As formas de discriminação interagem umas com as outras, há que afirmar a consequente necessidade de uma luta plural contra o racismo, a opressão de classe e contra o machismo tanto interno, como externo às comunidades.

HF – Passava dias a falar contigo, mas temos que terminar por agora, claro, porque vamos voltar a conversar, com toda a certeza. E, para terminar, tenho que te perguntar: O que podemos nós, mulheres “brancas” feministas fazer para apoiar as mulheres ciganas?

MG – Deixar de lado o paternalismo e sobretudo valorizar a nossa voz, porque a temos, como vês. Não podem impor-nos a vossa cultura. Deixem-nos evoluir conscientemente, construir e desconstruir a nossa identidade, tornar-nos mulheres, como referiu a Simone de Beauvoir. Não nos salvem, não precisamos de ser salvas. Nós somos a semente das Mulheres e Ciganas que não foram queimadas e esterilizadas. Existimos e resistimos.

Disponível em: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/08/05/feminismo-cigano-existimos-e-resistimos-entrevista-a-maria-gil/ 


Assista aqui a uma entrevista da TV Portuguesa à Maria Gil: https://www.youtube.com/watch?v=4N-E1qDDiHc