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terça-feira, 11 de novembro de 2025

Ciganas de MT marcam presença na COP30

Jéssika Leme e Rafaela Sacramento, representantes da AEEC-MT, participarão de painel no Círculo dos Povos no dia 14/11, às 18h05. Foto: Maria Clara Aquino

Duas jovens ciganas de etnia Calon de Mato Grosso, Jéssika Lorrayne Alves Cabral Lima Leme, de Rondonópolis e Rafaela Caiado Sacramento, de Cuiabá, participarão da 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que ocorrerá entre os dias 11 e 21, em Belém do Pará (PA).

Jéssika, que é vice-presidente da AEEC-MT e Rafaela, que atua na coordenação de juventude da instituição, fazem parte da nova geração de lideranças ciganas no Estado. As duas representarão os povos ciganos mato-grossenses na maior conferência mundial para debater as emergências climáticas e questões ambientais.

Elas viajam no dia 11 de novembro e permanecem em Belém até o dia 17. Ambas já têm participação confirmada em um painel do Círculo dos Povos na Zona Verde (Green Zone), organizado pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR).

Jéssika e Rafaela vão integrar o painel “Mobilidade, territorialidade e Justiça Climática para os povos ciganos no Brasil”, que ocorre no dia 14 de novembro, entre 18h05 e 18h55. O painel também contará com representante da Associação Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul (ACIRGS).

As duas representantes da AEEC-MT na COP30 participam do evento por meio do patrocínio da chamada Mulheres Liderando Ações Climáticas do Fundo Casa Socioambiental 2024.

A Chamada do Fundo Casa patrocinou também a realização do III Encontro de Mulheres Ciganas de MT, que ocorreu entre os dias 23 e 24 de maio deste ano, no município de Tangará da Serra, reunindo em torno de 80 mulheres ciganas, das quais duas eram convidadas de outros Estados.

Segundo a vice-presidente da AEEC-MT, Jéssika Leme, a participação no evento será muito importante para colocar os povos ciganos na discussão acerca de questões que atravessam as injustiças climáticas, a exemplo do racismo contra as pessoas Calon, Rom ou Sini. 

“A minha participação na COP30, primeiramente é de aprendizado, contato com outras lideranças, organizações sociais e representantes de governos, para buscar dessas experiências conhecimento e melhorias e trazer  para minha comunidade e nosso meio em Mato Grosso. Queremos também levar nossas culturas, tradições, memórias e histórias, marcando presença e demonstrando que existimos e resistimos.”, pondera.

Vice-presidente da AEEC-MT, Jéssika Lorrayne Leme é também representante dos povos ciganos no Conselho Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais de MT (CEPCT/MT)

Jéssika acredita que uma discussão importante a se fazer é a relação dos povos ciganos de Mato Grosso e o bioma do cerrado. 

“As pessoas ciganas não são responsáveis pelo desmatamento, pelas grandes poluições ambientais. Mas inversamente, somos os que mais sofremos com os impactos causados por essa devastação. Os povos ciganos possuem identidades intimamente ligadas com o meio ambiente, que vivem e sobrevivem pela natureza, por exemplo, por meio dos artesanatos ou da medicina tradicional, atividades que boa parte da matéria prima do cerrado, como as ervas e raízes. Se o cerrado se acabar, acaba também nossa medicina tradicional”, explica a vice-presidente da AEEC-MT.

Para Rafaela Sacramento, a participação no evento vai servir para demonstrar que os povos ciganos têm uma relação intrínseca com a natureza. 

“As minhas expectativas em participar da COP30, um evento desta proporção, é entender mais sobre as relações entre meio ambiente, justiça climática e os direitos dos povos ciganos, entendendo como as mudanças ambientais afetam diretamente nossas formas de vida, nossas identidades e culturas. Também quero contribuir para ampliar a visibilidade dessas comunidades, que historicamente a gente sempre sofreu com racismo ambiental, exclusão social e a falta de acesso direitos básicos, como água, moradia e educação.

Neste contexto, de desigualdades ambientais e sociais das pessoas ciganas no Brasil e no mundo de hoje, a coordenadora de juventude da AEEC-MT acredita que pode ser uma ocasião para expressar as demandas por direitos e políticas públicas específicas. 

“Espero defender os nossos direitos ambientais, levando adiante a importância de políticas públicas que garantem não só a preservação ambiental, mas também a dignidade e reconhecimento dos saberes e tradições ciganas. Acredito que a educação ambiental é um caminho para promover esse diálogo intercultural e fortalecer a resistência romani e assim a gente construir um conhecimento mais justo, emancipador e humano”, conclui.

Rafaela Sacramento participa da coordenação de Juventude da AEEC/MT.

Pavilhão do Círculo dos Povos na COP30

Composto pelos Ministérios dos Povos Indígenas (MPI), Ministério da Igualdade Racial, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), o Círculo dos Povos contará com espaço exclusivo na Zona Verde, durante a 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que ocorre em Belém-PA, de 10 a 21 de novembro.

Presidido pela ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, o Círculo dos Povos visa ampliar a capacidade de escuta de demandas e contribuições de povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, afrodescendentes e agricultura familiar junto à Presidência da COP30.

O espaço é formado pela Comissão Internacional Indígena, também sob a liderança da ministra Sonia Guajajara, e pela Comissão Internacional de Comunidades Tradicionais, Afrodescendentes e Agricultura Familiar, coordenada pela ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco.

A programação conta com uma série de atividades para debater a vivência e experiências como caminhos para a busca de soluções no combate à emergência climática global.

Confira a programação no seguinte link: https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias/confira-a-programacao-do-pavilhao-do-circulo-dos-povos-na-cop30

TEXTO: ALUÍZIO DE AZEVEDO, COM ASSESSORIA DO MIR

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

MEC abre 640 vagas em mestrado de Física com cotas para ciganos e outras minorias

30% das vagas de cada polo são reservadas para ações afirmativas, contemplando negros, quilombolas, indígenas, ciganos, pessoas trans e pessoas com deficiência

Por Natalia Marinho31 de agosto de 2025

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e a Sociedade Brasileira de Física (SBF), abriu o processo seletivo 2026 do Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física (MNPEF).

O edital oferece mais de 640 vagas distribuídas em polos de universidades e institutos federais em todas as regiões do país. O programa é um curso de pós-graduação stricto sensu em rede, gratuito, com turmas presenciais nos polos credenciados.

O objetivo é qualificar professores de Física e Ciências da Educação Básica, fortalecendo a formação docente por meio de pesquisas aplicadas e práticas inovadoras em sala de aula. As atividades acadêmicas terão início no primeiro semestre de 2026.

Distribuição das vagas

As vagas estão organizadas por polos regionais de instituições públicas de ensino superior. Entre eles, estão a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal de Sergipe (UFS), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a Universidade Estadual Paulista (UNESP), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e muitas outras.

O edital detalha a oferta de vagas em cada polo, totalizando mais de 640 oportunidades. Em conformidade com a política nacional de inclusão, 30% das vagas de cada polo são reservadas para ações afirmativas, contemplando candidatos autodeclarados negros, quilombolas, indígenas, ciganos, pessoas trans e pessoas com deficiência. Os 70% restantes seguem para ampla concorrência.

Quem pode participar

O mestrado é destinado exclusivamente a professores em exercício na Educação Básica que atendam aos seguintes critérios:

  • Ser regente de classe em Física ou Ciências no nível fundamental;
  • Ter diploma de graduação em Física (Licenciatura ou Bacharelado) ou áreas afins, reconhecido pelo MEC;
  • Estudantes no último período desses cursos também podem se inscrever, desde que apresentem o diploma até a matrícula.

Inscrições, prazos e taxa

As inscrições estarão abertas de 25 de agosto a 24 de setembro, exclusivamente pela internet, clicando aqui. A taxa de participação é de R$ 85,00, com prazo para pagamento até 26 de setembro. O edital completo, com todas as orientações e a lista de polos, está disponível no portal do MNPEF e no site da SBF.

Etapas do processo seletivo

O processo seletivo será dividido em dois grupos:

  • Grupo 1 (Ampla Concorrência – 70% das vagas): Prova Escrita Nacional, seguida da Defesa de Memorial.
  • Grupo 2 (Docentes com 15 anos ou mais de atuação – 30% das vagas): Análise de Currículo, seguida da Defesa de Memorial.

Em ambos os casos, a nota final será a média das duas etapas. A classificação será feita em ordem decrescente, respeitando o número de vagas disponíveis em cada polo.

A lista de aprovados e as chamadas para matrícula serão publicadas no site oficial da SBF, responsável pela coordenação acadêmica do programa.

Disponível em: https://www.horabrasil.com.br/2025/08/31/capes-mec-abrem-640-vagas-mestrado-nacional-fisica-2026/ 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Comissão de DH da Câmara aprova garantia de inviolabilidade de tenda cigana

 

Projeto de lei segue em análise na Câmara dos Deputados. Chico Alencar: comunidade cigana merece uma norma específica

Fonte: Agência Câmara de Notícias

A Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 7774/14, da deputada Erika Kokay (PT-DF), que proíbe a violação de tendas ciganas. Segundo o texto, qualquer indivíduo que entrar nas tendas sem autorização do proprietário, ainda que seja policial, terá a mesma punição prevista no Código Penal para invasão de domicílio.

A pena prevista é detenção de um a três meses, ou multa. Em caso de uso de violência, a pena é ampliada para detenção de seis meses a dois anos, além da pena correspondente à violência. O Código Penal considera “casa” qualquer compartimento habitado, aposento ocupado de habitação coletiva e compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade.

O relator, deputado Chico Alencar (Psol-RJ), recomendou a aprovação do projeto. Ele disse que a proteção do domicílio é crucial em qualquer política de promoção dos direitos humanos. Seres humanos, afirmou, precisam de um espaço íntimo protegido para se constituírem como sujeitos de direitos.

“A comunidade cigana enfrenta problemas específicos no que diz respeito à proteção do domicílio e merece, por isso, norma também específica”, defendeu Chico Alencar.

Próximos passos
O projeto será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, antes de ser votado pelo Plenário da Câmara. Para virar lei, a medida precisa ser aprovada pelos deputados e pelos senadores.

Reportagem – Noéli Nobre

Edição – Roberto Seabra

Fonte: Agência Câmara de Notícias

Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1188150-comissao-aprova-garantia-de-inviolabilidade-de-tenda-cigana/

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Assista ao Filme Caminhos Ciganos na Mostra Cine Caos Socioambiental online

Filme estará disponível online nas próximas semanas, corra que logo vai sair do ar!

Atenção amantes do cinema Cigano,

Esta oportunidade é para quem ainda não viu o filme Caminhos Ciganos.

O filme estará disponível nas próximas semanas na 10ª edição da Mostra online CineCaos Socioambiental.

Para ver a obra, que tem 24 minutos e aborda comunidades ciganas de Brasil, Portugal, com pitadas da Festa de Santa Sara Kali, em França, basta acessar o link:

Os outros 14 filmes da mostra, que ocorreu também presencial no último dia 10 de agosto (domingo), em Cuiabá, podem ser acessados no seguinte link:

#povosciganos #cinecaossocioambiental #caminhosciganos #ciganos #calon #rom #sinti #romah #gitanos #gypsy #cinema #audiovisual #arte #cultura #culturacigana #Cuiabá #MT #Brasil #Portugal #França

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

MEC abre vagas em especialização com cotas para ciganos e outras minorias

Com 360 horas de carga horária, o curso será realizado no período noturno, no campus Derby da Fundaj

Profissionais da educação que desejam se especializar na área da infância têm uma nova oportunidade gratuita em Pernambuco. A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), vinculada ao Ministério da Educação (MEC), anunciou a abertura de inscrições para a Especialização em Infância e Educação Infantil. O curso será oferecido de forma presencial, em Recife, com início previsto ainda em 2025.

A formação é promovida pela Diretoria de Formação Profissional e Inovação (Difor) da Fundaj e tem como foco principal a atualização teórica e prática de professores, gestores escolares e demais profissionais da área. Com 360 horas de carga horária, o curso será realizado no período noturno, no campus Derby da Fundaj, e terá duração total de 18 meses.

O objetivo da especialização é fortalecer a atuação de quem trabalha com crianças pequenas, abordando debates contemporâneos sobre educação infantil. A proposta inclui dois módulos principais: o primeiro, com 12 meses de aulas presenciais; o segundo, com 6 meses voltados à elaboração e defesa do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

As aulas serão realizadas em horário noturno, para facilitar a participação de quem já atua na rede pública ou privada de ensino. O curso tem como diferencial a ênfase em práticas pedagógicas inovadoras e na troca de experiências entre os participantes.

Vagas e critérios de seleção

Estão disponíveis 50 vagas para a Especialização em Infância e Educação Infantil. A distribuição segue diretrizes de inclusão e diversidade estabelecidas pela Fundaj:

  • 50% das vagas para residentes do estado de Pernambuco;
  • 25% para candidatos autodeclarados negros, quilombolas, ciganos, indígenas, pessoas com deficiência ou da população trans;
  • 20% para inscritos no CadÚnico, pertencentes a famílias de baixa renda;
  • 5% para ampla concorrência.

A seleção dos candidatos será feita em etapa única, com base na análise curricular e de um memorial descritivo. O modelo do memorial está disponível no edital oficial. A avaliação considerará a experiência do candidato na área da educação infantil, a formação acadêmica e eventual produção intelectual.

Como se inscrever

O curso é voltado a profissionais com diploma de nível superior reconhecido pelo MEC, atuantes ou com interesse em atuar na educação infantil. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas exclusivamente pela internet, até o dia 14 de agosto.

Para efetivar a candidatura, é necessário preencher o formulário eletrônico disponível no site da Fundaj, clicando aqui, e anexar toda a documentação exigida. A classificação final será publicada com base na pontuação obtida pelos candidatos.

Disponível em: https://www.horabrasil.com.br/2025/08/09/especializacao-gratuita-educacao-infantil-fundaj-mec/

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Ciganos apresentam propostas para políticas públicas em plenária temática da V Conapir

Reconhecimento e valorização de sua cultura e identidade, acesso a serviços públicos de educação, saúde e trabalho são as principais reivindicações

Publicado em 22/07/2025 15h58

Ciganos representantes das comunidades Calon, Rom e Sinti se reuniram nessa terça-feira (22) para participar da Plenária temática para Povos Ciganos, que aconteceu no Gran Mercure Hotel, em Brasília. 

O evento é uma construção do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) - órgão colegiado consultivo que faz parte da estrutura do Ministério da Igualdade Racial tem como função principal a construção coletiva na execução das políticas de igualdade racial. 

Estiveram presentes, a ministra da igualdade racial, Anielle Franco; da deputada federal Érika Kokay; do secretário de Políticas para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos, Ronaldo dos Santos, do secretário de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Clédisson Júnior e de outros representantes do Ministério da Igualdade Racial.  

Em sua fala, a ministra Anielle Franco agradeceu a construção coletiva da plenária e destacou a importância da cultura cigana como patrimônio de pertencimento, representatividade e resistência. “O meu desejo hoje para essa plenária é que a gente escute mais uns aos outros, e avance em encaminhamentos concretos, respeitando as diferenças e aceitando aquilo que nos une”, comentou. 

A ministra ressaltou, também, a importância do papel do Ministério da Igualdade Racial como órgão do governo federal responsável pela gestão das políticas para a garantia de direitos dos povos ciganos, bem como da assinatura do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos que visa promover medidas intersetoriais para garantir o reconhecimento da territorialidade cigana, acesso à educação, saúde, documentação, segurança alimentar, trabalho e valorização da cultura.     

“Este ministério está aqui para caminhar ao lado de vocês, acolhendo coletivamente as reivindicações. Hoje nós temos uma gestão de governo democrática, que está do lado dos povos ciganos, para que isso fique de legado para as próximas gerações e de patrimônio”, enfatizou. 

A diretora de Políticas para Quilombolas e Ciganos do MIR, Paula Balduíno, afirmou que só é possível fazer políticas públicas com participação social. “Eu entendo que essa uma das plenárias mais importantes, porque é o espaço prioritário que vai garantir que a voz dos ciganos estejam presentes na V Conapir”, finaliza.  

30 delegados e delegadas ciganas foram eleitos e participarão da V Conapir em Brasília no período de 15 a 19 de setembro

Voz cigana no centro do poder – Hayanne Iovanovitchi, cigana da etnia Rom e fundadora do Coletivo de Mulheres Ciganas no Brasil destacou a necessidade de pensar em propostas que contemplem as reivindicações históricas do movimento de ciganos no Brasil. “Só existe democracia, justiça e reparação, se a gente pensar em políticas públicas com os povos ciganos, esse é o momento que podemos construir com uma plenária temática específica para discutir as especificidades da nossa realidade”, destaca.  

Destacou ainda a necessidade de garantir que pessoas ciganas estejam como atores dentro de seus estados, atuantes nas secretarias e nos órgãos de promoção da igualdade racial, políticas para mulheres e pessoas com deficiência. “Esse é o nosso momento para construir coletivamente para conseguir que as nossas políticas sejam implementadas”, finaliza. 

Francisco Figueiredo, conhecido como Bozano Cigano, da etnia Calon, trouxe em sua fala que democracia é justiça e fez ainda uma contextualização da trajetória dos percalços enfrentados pelos povos ciganos no Brasil. “Nós contamos com o Ministério da Igualdade Racial para acreditar no Brasil como um país de transformação’, finaliza.  

Atuação do CNPIR – A vice presidenta do CNPIR, Marina Duarte, ressaltou a importância dessa plenária temática como instrumento de direcionamento das políticas públicas para os povos ciganos e da eleição de pessoas delegadas para a etapa nacional da conferência nacional.

“Daqui vão sair propostas que vão compor o caderno final da V Conapir. Precisamos focar no que é garantia de direitos para as políticas públicas de um povo, a gente sabe que as adversidades existem, mas vocês têm que centrar na luta pela vida e pelo reconhecimento de dados e estatísticas de educação, saúde, moradia para todos. Viva a luta dos povos e comunidades ciganas”, finaliza.  

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/copy2_of_noticias/ciganos-apresentam-propostas-de-construcao-para-politicas-publicas-em-plenaria-tematica-em-brasilia

 

 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

MIR destina R$1,5 milhão para projetos junto a Povos Ciganos

Edital, parceria com o PNUD, irá selecionar iniciativas destinadas a ampliar o acesso ao trabalho, ao emprego e à renda para pessoas ciganas

DO MIR, Publicado em 15/07/2025

Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lança nesta terça-feira (15), um edital de seleção de pequenos projetos que visa ampliar o acesso de pessoas ciganas a trabalho, emprego e renda. Cada uma das dez propostas escolhidas receberá R$150 mil para serem implementados em até 18 meses, totalizando um investimento de R$1,5 milhão. 

A oportunidade é mais um passo para a implementação do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos (PNPC) e as ações devem ser implementadas por Organizações da Sociedade Civil. 

Serão aceitas propostas em dois eixos temáticos. O primeiro deles, trata do fomento à produção familiar e à economia criativa, tais como artesanato (da fabricação até a comercialização de itens, incluindo a melhoria da gestão de pequenos negócios); sistemas agroecológicos; criação de animais de pequeno porte; e apoio à formação de cooperativas e redes de economia solidária. 

Já o segundo eixo diz respeito à produção artística/cultural e apoiará ações de fomento à capacitação e produção da cultura cigana; promoção de festivais e mostras culturais; iniciativas de documentação e difusão da história, cultura, tradição, conhecimento e saberes ciganos; e promoção de intercâmbio entre comunidades para fortalecimento de redes. 

O edital é uma das atividades previstas no projeto "Apoio à implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola, e fortalecimento de povos ciganos, de matriz africana e de Terreiros”, parceria assinada entre o PNUD e o MIR, por meio da Secretaria de Políticas para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos (SQPT) no fim de 2024.  

Seleção – As propostas devem seguir o modelo definido no edital e precisam ser submetidas por organizações da sociedade civil que tenham pelo menos três anos de funcionamento. Elas devem ser encaminhadas para o endereço eletrônico cgpc@igualdaderacial.gov.br até o dia 15 de agosto. Organizações lideradas por pessoas ciganas terão acréscimo de dez pontos.

>>Confira o edital

Uma comissão de seleção composta por equipes do MIR e do PNUD irá escolher as dez as dez propostas mais bem pontuadas nos critérios de relevância social do projeto e estratégia de atuação, considerando-se os critérios do edital.  Ao longo do projeto, as organizações contarão com assistência técnica para gestão e monitoramento da iniciativa. 

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/copy2_of_noticias/mir-destina-r-1-5-milhao-para-projetos-junto-a-povos-ciganos

  

terça-feira, 15 de julho de 2025

Forjaram um folclore tão forte de Nós, que perdemos o direito a ter nossas próprias individualidades

Arte: Danillo Kalón

Por Sara Macedo, Coletivo Ciganagens

É categórico, nós povos ciganos somente somos mencionados na escola formal, no dia 22 de agosto (são raras as exceções). A mentira se tornou verdade, e até no ensino escolar nossa história não é outra. Somos mula sem cabeça e saci-pererê, apenas conto e mística, nem parece que estamos vivos.  

Cigano virou adjetivo relacionado a religião, misticismo recreativo, liberdade pra inglês ver, exotismo predatório, sedução que nos objetifica e desonestidade sem um pingo de crédito. Recurso esotérico de uma população que tem grande fetiche em povos que consideram estar distantes o suficiente da sua própria realidade individual, para não se incomodar em serem transformados em brincadeira mística. 

Nessa estrada folclórica de nós mesmos, em que não conhecem nossas verdadeiras tradições, nossa identidade se transformou num boneco sem vida. Sem direito à discussão de sexualidade, gênero e racialidade própria. O folclore não deixa espaço para isso, pois estamos sempre sendo convocados a responder demandas que nos atacam, carregadas de estereótipos e fantasiação. 

Entendemos a vontade de pessoas ditas “progressistas” em não mais se associar a rituais religiosos cristãos, por todo o saldo de devastação que esses dogmas trouxeram ao mundo. Mas, se apropriar e passar por cima da tradição de diversos povos (que sequer conhecem pessoalmente), revela a face de outra cartilha colonial. Aquela que não pede licença, não dá nenhum retorno às comunidades, e que fala em nosso lugar, se autodeclarando cigano. 

Nesse contexto, não temos temporalidade para debater nossas dissidências sexuais e de gênero dentro de nossas comunidades, fortalecer um orgulho epistêmico, encorajar os nossos primos a adentrar a educação formal, discutir se um feminismo cigano vale a pena, falar sobre demarcação de território cigano, entre tantas outras demandas urgentes. 

Na terra do cigano “pirata” vestido de cetim sem nexo, temos buscado energia e saúde mental para colocar em pauta o que verdadeiramente importa. Que somos diversos, que podemos fazer tudo, que somos também humanos. 

  

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Comissão da Câmara dos Deputados aprova Dia Nacional da Mulher Cigana

Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais aprova Dia Nacional da Mulher Cigana: Proposta ainda será analisada por outras duas comissões da Câmara dos Deputados. Foto: Karen Ferreira

Publicado em 08/07/2025 21h03 Atualizado em 08/07/2025 21h07

A Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais (CPOVOS) da Câmara dos Deputados, se manifestou favoravelmente à criação do Dia Nacional da Mulher Cigana, nesta terça-feira (8). De Autoria da deputada Luizianne Lins (PT-CE), o Projeto de Lei (PL) nº 2639/2024 ainda será apreciado no âmbito das Comissões de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial e de Constituição, Justiça e Cidadania. O parecer aprovado é de relatoria da deputada Juliana Cardoso (PT-SP) 

Chefe da Assessoria Especial de Assuntos Parlamentares, Nailah Veleci conta que o Ministério da Igualdade Racial (MIR) está empenhado em articular uma agenda legislativa robusta, que defenda os direitos dos povos ciganos. “Temos adotado a estratégia de fortalecer o debate por meio da tramitação de proposições como o PL das Mulheres Ciganas, que ajudam a sensibilizar o Parlamento”, colocou.  

Ela explica que essa estratégia foi adotada para que futuramente seja possível aprovar projetos maiores, como o Estatuto dos Povos Ciganos. “Esse projeto depende, no entanto, da criação de uma comissão especial e seguiremos atuando com firmeza para garantir que essas pautas avancem no Congresso Nacional”, completou.  

“A criação do Dia Nacional da Mulher Cigana é uma conquista simbólica e política importante, que reconhece a luta e a resistência das mulheres ciganas frente ao racismo, ao preconceito e à invisibilidade histórica”, acrescentou a coordenadora de Políticas para Povos Ciganos, Edilma Nascimento.  

Foto: Aspar/MIR

Proposta – O projeto de lei determina que, na data, os poderes públicos realizem campanhas educativas para promover a cultura cigana e combater estereótipos, além de promover ações de formação e sensibilização de agentes públicos de diversas áreas quanto às especificidades das mulheres ciganas de todas as etnias. Além disso, o texto prevê a veiculação de mensagens institucionais com participação direta dessas mulheres.   

Articulação permanente – Outra conquista da articulação do Ministério foi a instituição, em 2024, do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos (PNPC), por meio do Decreto Presidencial nº 12.128 de 2024.   

O plano visa combater o preconceito e a discriminação étnico-racial contra os povos ciganos, bem como ampliar seu acesso a serviços públicos e direitos sociais.  Construído com a participação de dez ministérios, o PNPC está estruturado em dois eixos: Direitos sociais e cidadania e Inclusão produtiva, econômica e cultural. O plano está sendo implementado até 2027 e conta com investimentos para uma campanha nacional de valorização da história e cultura ciganas, assim como prêmios literários e a formação gestores e servidores públicos sobre os direitos desses povos. 

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/copy2_of_noticias/comissao-da-amazonia-e-dos-povos-originarios-e-tradicionais-aprova-dia-nacional-da-mulher-cigana

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Líderes dos povos ciganos e aliados se mobilizam por direitos

Ações reivindicam garantias nas esferas política, social e jurídica

Letycia Bond - repórter da Agência Brasil, Publicado em 13/06/2025 - 07:02, São Paulo

O presidente administrativo da Associação Nacional das Etnias Ciganas (Anec), Wanderley da Rocha, lidera um trabalho para que os direitos de seu povo tenham visibilidade no Congresso Nacional e em outras esferas de poder no Estado Brasileiro. Membro da etnia calon, um dos três grupos do povo romani no Brasil, ele tenta convencer mais parlamentares a se sensibilizarem por suas bandeiras, como a produção de dados oficiais, a aprovação do Estatuto dos Povos Ciganos e a proteção contra a violência e o ódio.https://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.png?id=1645855&o=nodehttps://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.gif?id=1645855&o=node

"Sabemos que, na luta dos povos ciganos, hoje, no Brasil, não estamos pedindo nada a ninguém. Nós estamos cobrando o direito de ter direitos. Como autoridade, [os políticos] eles têm que fazer o que é certo”, disse em entrevista à Agência Brasil.

Rocha fundou a Anec, com o objetivo de reunir roma [como também são chamadas as pessoas do povo romani] de todo o país em uma entidade. Atualmente, a associação chega a mais de 30 grupos em 20 estados, incluindo as três etnias ─ rom, sinti e calon. O alagoano destaca que as três etnias não tinham, até pouco tempo atrás, tanto vínculo entre si, mas decidiram se unir para se proteger a partir da coesão.

"Sabemos que nós temos várias demandas, mas entendemos que a luta é só uma. Graças a Deus, tanto a etnia calon como os sinti, de uns anos para cá, fizeram um acordo, entenderam que o Estatuto [dos Povos Ciganos] valeria agora para a nossa geração presente e a vindoura", comemora.

Estatuto dos Povos Ciganos

Apresentado pelo senador Paulo Paim (PT-RS), o Projeto de Lei nº 1387/22 cria o estatuto a que Rocha se refere. A proposta já foi aprovada na Casa, mas estacionou na Câmara dos Deputados.

O debate sobre o estatuto no plenário do Senado Federal foi uma oportunidade para dar visibilidade a denúncias antigas do povo romani, como o racismo e discriminação, também chamada de romafobia ou ciganofobia. 

"Nesse dia, eles pediram a palavra. [Disseram:] 'Paim, nós somos praticamente invisíveis. Queremos o Estatuto", recordou o parlamentar à Agência Brasil. "O Estatuto é um passo importantíssimo na promoção de direitos e na valorização da cultura das comunidades ciganas no Brasil, é uma iniciativa vital para esse setor", sintetiza.

Paim concorda com a percepção de que o povo romani é, historicamente, alvo de discriminação, marginalização e violação de direitos. Outro avanço que a aprovação do texto poderia trazer, destaca o senador, diz respeito à participação das comunidades na formulação das políticas públicas.

Participação social

Para a fundadora e presidenta da Associação Internacional Maylê Sara Kalí (AMSK), Elisa Costa, o governo federal tem conduzido de forma problemática o delineamento do Plano Nacional de Política para Povos Ciganos, instituído em agosto de 2024, pois teria falhado ao não escutar seus beneficiários extensamente.

Ela questiona, por exemplo, que, entre as 20 entidades não governamentais que têm assento no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, 18 representam vertentes do movimento negro, e apenas uma, os roma, que é a Associação Nacional das Mulheres Ciganas. A outra instituição que é membro do conselho é a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

"Nossa luta pela consulta pública [no Plano Nacional de Política para Povos Ciganos] é porque o governo não tem noção de quem somos", pontua. "A gente continuou sem dados, temos hoje microdados de análise. Se você pensar, temos uma população em situação de grande vulnerabilidade social", diz a líder da AMSK, que estima que a Bahia tem a maior população romani do Brasil.

A diretora de Políticas para Quilombolas e Ciganos, do Ministério da Igualdade Racial (MIR), Paula Balduino de Melo, afirma que a representação dos ciganos se dá pelo Comitê Gestor do Plano Nacional de Política para Povos Ciganos. O comitê tomou posse no final do mês passado. Foram eleitas, por meio de votação, figuras como Wanderley da Rocha, entrevistado nesta reportagem; Rosecler Winter, porta-voz dos sinti; e a calin ─ termo para designar mulheres e meninas do povo calon ─ Nardi Terezinha Casanova. Também foi eleito o líder dos rom Cláudio Domingos Iovanovitchi, porém ele morreu em março deste ano. 

Sem dados

A falta de dados oficiais básicos, como a própria contagem populacional, é uma das críticas históricas das lideranças dos romani ao poder público. Segundo os ativistas, um dos argumentos já ouvidos é o de que a itinerância de alguns grupos dificulta a apuração dos dados. Apesar disso, a realidade é que o nomadismo não é uma característica inerente a todas as comunidades ciganas, e boa parte delas se mantém fixa em um mesmo endereço. 


"Agora, nós não temos dados sobre qual é a maior concentração no país, de uma forma geral. E não ter um levantamento oficial já é uma forma, inclusive, reproduzida e reconhecida por nós até no contexto internacional, de ampliação do anticiganismo, da romafobia", afirma Elisa Costa, que também é diretora do escritório da International Romani Union (IRU) no Brasil. 

Na falta de uma base de dados, a AMSK desagrega dados do Cadastro Único (CadÚnico) e do programa Bolsa Família para mensurar a população romani no país. A entidade verifica o total de pessoas que, mediante autodeclaração, dizem pertencer a Grupos Populacionais Tradicionais e Específicos (GPTE), com marcação “família cigana” em situação de vulnerabilidade social.

Também no final de maio deste ano, foi realizado em Brasília um seminário sobre o Mapeamento Inicial de Famílias Ciganas, Rotas e Redes de Acesso a Políticas Públicas, feito pelo MIR. A pesquisa também usou o CADÚnico, como a AMSK, somado a dados das pesquisas municipais/estaduais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (Munic e Estadic), da Secretaria Especial de Cultura e Artes Integradas (Secai) e do Sistema Único de Saúde (SUS), além de coletas de dados feitas em visitas a ranchos e acampamentos ciganos.

A diretora Paula Balduino de Melo diz que o IBGE participou da apuração dos dados do mapeamento. “Além disso, estamos firmando um acordo de cooperação técnica entre o MIR e o IBGE, que prevê a produção de dados relacionados aos povos ciganos”, antecipou, acrescentando que, caso exista um Censo específico, considera eventuais contribuições do instituto essenciais e que a pasta tem procurado salvaguardar as metas do PNPC, mesmo com cortes orçamentários.

Questionado sobre as críticas dos militantes roma, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não repondeu à reportagem. O problema da falta de pesquisas do instituto sobre esse tema também já foi apontado pelo Ministério Público Federal (MPF), que fez uma recomendação pedindo a inclusão do povo romani no último Censo Demográfico.

Ministério Público Federal

A atuação do Ministério Público na cobrança de maior visibilidade para o povo romani, como no caso do IBGE, é um indício de omissões do Estado nesse trabalho. Essa é a avaliação do subprocurador-geral da República Luciano Mariz Maia, que, em sua época de procurador, foi um aliado na luta pelos direitos dessa população. 

"Não havendo uma agência oficial, não havendo uma Funai [Fundação Nacional dos Povos Indígenas], uma Fundação Cultural Palmares para os ciganos, nós tivemos que construir informação antropológica sobre os grupos ciganos, informação sociológica também e um aprofundamento jurídico. Por isso, o MPF terminou se tornando, no Brasil, a instituição com o maior conjunto de informações antropológicas e jurídicas sobre os ciganos no país. De fato, foi uma mudança muito grande", ressalta. 

Mariz Maia começou a atuar nesse âmbito em 1991, depois de ganhar visibilidade com um projeto em favor dos indígenas potiguara, que vivem no estado em que ele atuava, a Paraíba, e também no Ceará, em Pernambuco e no Rio Grande do Norte.

"Houve uma grande repercussão e isso fez com que o senador Antonio Mariz, que, há muitos anos, defendia os ciganos, identificasse a possibilidade de o Ministério Público cuidar também dos ciganos, enquanto minoria. A experiência com os indígenas vinha de muito tempo já, mas a experiência com os ciganos não existia", comenta Mariz Maia, que também leciona na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e foi recentemente eleito para integrar o Subcomitê de Prevenção à Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (SPT), da Organização das Nações Unidas (ONU).

"O senador disse assim: tem quem cuide de índio, tem quem cuide de negro, tem que cuide de homossexual, mas não tem quem cuide dos ciganos”, lembra o subprocurador-geral, que, então, perguntou o que teria de ser feito. “Ele disse: ‘vá você conhecer, que aí irá identificar’. Fui, conheci a comunidade dos ciganos em Sousa (PB), em agosto de 1991 e, desde então, temos caminhado juntos".

No sertão paraibano, a comunidade de Sousa, dos calon, é uma das maiores da América Latina e contou com o suporte do Ministério Público Federal (MPF) para a regularização fundiária. Em abril de 2021, o órgão ajuizou uma ação para que fosse declarada a usucapião coletiva de imóveis de quatro comunidades ciganas, em Sousa, distante 432 quilômetros da capital. 

De acordo com o MPF, 522 famílias ciganas tinham fixado residência lá, há 40 anos, "por questões de sobrevivência". Eram, ao todo, 1.845 pessoas, a maior comunidade cigana geograficamente fixada do Nordeste brasileiro, e a área que pleiteavam tinha 171.319,08 m² e fazia parte de um território maior reivindicado.

Ter desempenhado função semelhante em prol dos indígenas potiguaras e, seguidamente, dos ciganos demonstrou a Mariz Maia que os dois enfrentam dificuldades diferentes apesar de algumas semelhanças, pois cada minoria étnica tem suas particularidades. 

"Enquanto indígenas e quilombolas são vinculados à terra, e a terra recebe deles a identidade e também dá a eles a identidade, os ciganos são grupos étnicos que constroem suas fronteiras identitárias por outras razões. Pelo modo de se expressar, eles têm sua língua própria, pelo modo de construir seus hábitos e se organizarem coletivamente, de manterem, de maneira geral e muito intensa, os casamentos dentro da comunidade", explica.

Ao comparar os contextos, o docente paraibano qualifica como "muito mais judicializada" a atuação do MPF no caso dos ciganos. "Nossa atuação acaba sendo de articulação, de coordenação, de um empoderamento das lideranças locais, fazendo com que possamos mediar contatos com prefeituras, secretarias de estado, lideranças governamentais dos vários níveis, para que os ciganos possam localizar suas demandas. Nós damos o respaldo para apresentar a base jurídica dessas demandas e poderem se converter em políticas públicas", detalha Mariz Maia.

Diversidade e violência


Também da Paraíba, o procurador da República José Godoy dá continuidade ao trabalho de acolher as queixas e necessidades do povo romani, em especial, dos calon. Em 2017, fez uma viagem para conhecer as comunidades de Sousa e Patos, que ficam a três horas de carro uma da outra. Na oportunidade, foi apresentado por Mariz Maia e esteve em Condado, que fica entre as duas cidades.

Godoy concorda que o fato de os povos ciganos serem atendidos pelo MPF já expõe o vazio deixado pelas gestões municipais e estaduais. 

"Isso já é sintomático, porque os órgãos locais não os atendem, a não ser que a gente chame. A Defensoria Pública, nos casos em que eles são vítimas, e infelizmente, até nisso tem dificuldade de fazer a defesa deles, quando são criminalizados nas suas atuações. Então, a atuação do MPF já demonstra que não têm acesso a outros órgãos, que deveriam fazer seu papel”. 

Com uma rede de contatos que vai além de seu estado, ele se mantém atualizado sobre o que passa em comunidades de todo o país. "Acho que os povos ciganos, no Brasil, têm uma diversidade muito grande. Não só de moradia, mas diria um pouco quanto a se organizar e até as condições sociais. Aqui no Nordeste, há ciganos muito pobres. Na Bahia, nem tanto, há povos ciganos com uma condição financeira não tão vulnerável. Em São Paulo, tem alguns com condição financeira até interessante. Então, vai ter uma variação", diz ele.

"A única coisa que os une realmente é o preconceito e a violência policial contra eles. Eles sofrem muito preconceito, mais do que qualquer outro [grupo minorizado] com o qual eu tenha trabalhado. Nenhum chega ao nível de preconceito que os ciganos sofrem. E violência policial. Os ciganos da Bahia não são pobres, mas sofreram um processo de assassinato brutal pela polícia. Aqui na Paraíba, tem histórico de violências terríveis. Em todos os espaços, eles são muito violentados", assinala.

Na Bahia, os roma foram vítimas recorrentes de crimes nos últimos anos. Em 2021, uma chacina deixou oito vítimas, executadas por policiais. Em 2022, pelo menos cinco ciganos foram assassinados no estado, e, em 2023, seis pessoas foram mortas dentro de casa, das quais quatro eram do povo romani. 

Perseguição por poderes locais

Godoy acredita que essa atmosfera de perseguição e ódio fez, há algum tempo, com que muitos ciganos quisessem passar despercebidos por não ciganos. Nos últimos anos, entretanto, o procurador acredita que eles intensificaram a luta para serem atores e sujeitos de direitos e não objetos dos preconceitos e das violências.

Para Godoy, os povos ciganos estão legalmente ainda mais desamparados do que os indígenas e os quilombolas. 

"Os povos ciganos ficam à margem do Direito, à margem da cidadania. Há cidades, muitas cidades, que têm legislação contra cigano. É surreal. É inconstitucional? É, mas a força dos poderes locais atua contra eles."

Em 2023, o procurador interveio ao saber que a prefeitura de São João do Rio do Peixe (PB), de gestão de Luiz Claudino de Carvalho Florêncio (PSB) e Regilanio Geraldo de Morais (PSB), havia expulsado ciganos da cidade. Em 2024, Florêncio e Morais, mais conhecidos como Luiz Claudino e Regis Morais, foram reeleitos no primeiro turno, com 82,79% dos votos, e continuam no comando da cidade. A Agência Brasil procurou a prefeitura municipal de São João do Rio do Peixe, mas não teve retorno até o fechamento desta reportagem.

Alguns entrevistados confirmaram à reportagem a existência de leis contra os roma em certas localidades, mas tiveram receio de que a divulgação desses municípios aumentasse o número de apoiadores dessas medidas.

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-06/lideres-romani-e-nao-ciganos-aliados-se-mobilizam-por-direitos