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quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Comissão de DH da Câmara aprova garantia de inviolabilidade de tenda cigana

 

Projeto de lei segue em análise na Câmara dos Deputados. Chico Alencar: comunidade cigana merece uma norma específica

Fonte: Agência Câmara de Notícias

A Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 7774/14, da deputada Erika Kokay (PT-DF), que proíbe a violação de tendas ciganas. Segundo o texto, qualquer indivíduo que entrar nas tendas sem autorização do proprietário, ainda que seja policial, terá a mesma punição prevista no Código Penal para invasão de domicílio.

A pena prevista é detenção de um a três meses, ou multa. Em caso de uso de violência, a pena é ampliada para detenção de seis meses a dois anos, além da pena correspondente à violência. O Código Penal considera “casa” qualquer compartimento habitado, aposento ocupado de habitação coletiva e compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade.

O relator, deputado Chico Alencar (Psol-RJ), recomendou a aprovação do projeto. Ele disse que a proteção do domicílio é crucial em qualquer política de promoção dos direitos humanos. Seres humanos, afirmou, precisam de um espaço íntimo protegido para se constituírem como sujeitos de direitos.

“A comunidade cigana enfrenta problemas específicos no que diz respeito à proteção do domicílio e merece, por isso, norma também específica”, defendeu Chico Alencar.

Próximos passos
O projeto será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, antes de ser votado pelo Plenário da Câmara. Para virar lei, a medida precisa ser aprovada pelos deputados e pelos senadores.

Reportagem – Noéli Nobre

Edição – Roberto Seabra

Fonte: Agência Câmara de Notícias

Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1188150-comissao-aprova-garantia-de-inviolabilidade-de-tenda-cigana/

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Seminário apresenta resultado de pesquisa sobre famílias ciganas

Pesquisa representa um avanço na construção de políticas públicas para os povos ciganos brasileiros

Do MIR, Publicado em 29/05/2025 18h22

Ministério da Igualdade Racial (MIR) realizou, nessa quarta-feira (28), o Seminário Dados do Mapeamento Inicial de Famílias Ciganas, Rotas e Redes de Acesso a Políticas Públicas, na sede I do Banco do Brasil, em Brasília.

Realizada em parceria com universidades das cinco regiões brasileiras, a pesquisa que reúne o mapeamento representa um avanço significativo na obtenção de dados para a construção de políticas públicas de assistência aos povos ciganos brasileiros.

A coordenadora-geral de Políticas para Ciganos, Edilma Souza, afirma que o mapeamento foi idealizado pelo MIR em uma tentativa de cobrir uma lacuna histórica de informações. “O seminário com os dados preliminares foi um momento de confluência entre as regiões. Esse é um projeto inovador que traz a possibilidade de governo e sociedade conhecerem a realidade dos povos ciganos. A pesquisa visa excluir com esse apagão da referência da contribuição social dos povos ciganos brasileiros e contribuir para a construção de políticas públicas”, enfatiza.

O objetivo principal da pesquisa é produzir dados que orientem o Governo Federal a construir políticas públicas que possam atender os direitos da população cigana e orientar o de Políticas para Ciganos (IBGE) para o censo 2030.

A pesquisa compilou dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CADÚnico), das pesquisas municipais/estaduais do IBGE (Munic e Estadic), dados da Secretaria Especial de Cultura e Artes Integradas (SECAI) e do Sistema único de Saúde (SUS), além de coletas de dados feitas em visitas a ranchos e acampamentos ciganos.

O evento contou com a presença do secretário de Políticas para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos Ronaldo dos Santos; da diretora de Políticas para Quilombolas e Ciganos, Paula Balduíno; e de pesquisadores (ciganos e não-ciganos) responsáveis pelo mapeamento de cada uma das regiões.

Cada equipe apresentou os dados produzidos nessa ação sobre a presença cigana no território nacional. Os achados poderão servir de subsídio para a elaboração de políticas públicas adequadas às necessidades e especificidades dos modos de vida dos povos ciganos.

Dentre os temas pesquisados estão moradia; educação; saneamento básico, atenção a pessoa idosa; saúde; cultura e identidade; energia e internet; previdência social; trabalho e renda; e acesso a atendimento por órgãos de defesa dos direitos.

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/copy2_of_noticias/seminario-apresenta-resultado-de-pesquisa-sobre-familias-ciganas

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Comitê Gestor do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos toma posse

 

Olhar dos representantes desses povos será o diferencial para a gestão da política pública. Mandato é para o biênio 2025-2027

Do MIR, Publicado em 27/05/2025 12h25 

O Comitê Gestor (CG) do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos (PNPC), tomou posse, nessa terça-feira (27), no auditório do Edifício Parque da Cidade Corporate, onde fica a Coordenação-feral de Povos Ciganos do Ministério da Igualdade Racial (MIR), em Brasília. Eleitos para o biênio 2025-2027, os membros são representantes governamentais e dos povos ciganos que têm a missão de monitorar e avaliar a implementação do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos, solidificando o CG como espaço de participação. 

"Quem sabe dos ciganos são os ciganos, assim como quem sabe de quilombola é quilombola e quem sabe de favelado é favelado. É inadmissível não termos a própria comunidade falando do que precisa, porque senão não faz sentido", colocou a ministra da Igualdade Racial Anielle Franco, sobre a importância de ouvir os ciganos e da posse do Comitê Gestor. 

Os participantes fizeram durante a cerimônia, uma lembrança póstuma para a liderança cigana Cláudio Iovanovitchi, falecido em 2025.  O secretário de Políticas para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos, Ronaldo dos Santos, fez uma homenagem à Iovanovitchi entregando um troféu de reconhecimento à filha e a neta da liderança, que estavam presentes na cerimônia. 

Além da homenagem, o secretário Ronaldo falou da importância de mais esse passo na implementação do PNCP. "É com a instalação desse Comitê Gestor que iremos garantir que a política tenha uma boa gestão, incluindo o olhar dos povos ciganos. Nos esforçamos para que nosso país seja novamente um exemplo para o mundo –  já fomos na implementação da política – e agora na condução dessa política para o povo", colocou o gestor. 

"Temos uma expectativa boa e acho que o governo deu um passo importante com a política. Quero ver esse discurso na prática", colocou Lourdes Corrêa, representante dos povos ciganos.  

A atuação do MIR foi reconhecida pelo representante cigano Francisco Figueiredo, na figura da ministra Anielle Franco. "A senhora foi a única ministra que esteve com o povo cigano, nos deu oportunidade de cobrar o que é direito nosso. Não queremos dinheiro, cobramos inclusão", colocou o representante conhecido como Bozano Cigano. Ele lembrou aos presentes, ainda, "que quando somos discriminados é como povos ciganos, não por nossas etnias e peço para que estejamos unidos como povo."  

Processo de seleção – Os integrantes ciganos do comitê foram escolhidos por meio de eleições. O edital que regeu o processo previu que as vagas seriam divididas buscando-se o critério paritário étnico, regional e de gênero, preferencialmente.  

Amplamente divulgado por canais oficiais do Ministério, o processo seletivo contou com etapas de recursos e para cada fase, tendo as orientações divulgadas em página própria. [LINK: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/editais/processos-seletivos] 

"Esse processo de transparência é fundamental para que o comitê possa trabalhar bem ao longo do biênio", colocou Paula Balduino, diretora de Políticas para Quilombolas e Ciganos. Ela enfatiza que o plano "passa a ter implementação qualificada a partir da posse do CG."  

"O Comitê Gestor como instância de participação e controle social deixa a marca do Ministério da Igualdade Racial, bem como a do presidente Lula, da ministra Anielle, do secretário Ronaldo e de toda a equipe nessa iniciativa tão importante", acrescentou a coordenadora-geral de Povos Ciganos, Edilma Nascimento. 

O Plano – Com o objetivo de promover medidas intersetoriais para a garantia dos direitos dos povos ciganos, o Plano foi instituído por meio do Decreto no 12.128, em 1o de agosto de 2024. 

"Estamos lançando uma segunda política nacional que, em toda sua transversalidade, carrega o compromisso de promover a igualdade étnico-racial para este povo”, celebrou o secretário Ronaldo dos Santos, à época do lançamento. 

O PNPC está estruturado em dez objetivos, que envolvem o combate ao anticiganismo, o reconhecimento da territorialidade própria dos povos ciganos, o direito à cidade, à educação, saúde, documentação civil básica, segurança e soberania alimentar, trabalho, emprego e renda e valorização da cultura. 

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/copy2_of_noticias/comite-gestor-do-plano-nacional-de-politicas-para-povos-ciganos-toma-posse

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Ativismo cigano desafia estigmas e busca visibilidade e políticas públicas

Por Escola de Ativismo

Ativistas ciganas Sara Macedo e Hayanne Iovanovitchi, do Coletivo Ciganagens, falam sobre o movimento de luta e dos desafios dessa população na busca por um mundo mais justo para suas comunidades

A arte e os povos ciganos estão totalmente imbricados”. É assim que Sara Macedo, cigana da etnia Calón e artivista, descreve a riqueza cigana que, mesmo diante de tantas injustiças e silenciamento, seguem mantendo suas culturas, modos de vida e oralidade forte e orgânica. Nos territórios cheios de afeto ou nas estradas, os povos ciganos lutam por políticas públicas enquanto reafirmam que existir e resistir são atos políticos de coragem e amor.

Mas você já ouviu falar sobre os povos ciganos? O que você sabe sobre essa população presente em tantas partes do Brasil e do mundo? Já parou para pensar que talvez o que você “conheça” seja  parte dos estereótipos criados e espalhados de forma preconceituosa? Ou já pensou no motivo de você ouvir falar tão pouco sobre essa população?  

Lideranças ciganas afirmam que o preconceito, a falta de informações e de ações das autoridades impedem o conhecimento pleno sobre esses povos e deixam essas comunidades sem acesso a serviços públicos de qualidade, que respeitem suas especificidades e modos de vida. Os impactos geram violações de direitos, violências e um movimento de apagamento dos povos que são fontes inesgotáveis de cultura e diversidade.

Quem são os povos ciganos?

Os povos ciganos fazem parte do grupo de Povos e Comunidades Tradicionais reconhecidos nacionalmente, assim como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e tantos outros. Comunidades tradicionais são grupos que mantêm modos de vida próprios, conectados com seus territórios, saberes ancestrais e formas coletivas de organização. O Decreto  Nº 6.040, DE 7 DE FEVEREIRO DE 2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, define essas comunidades como “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição”. 

Na teoria, os direitos das comunidades tradicionais são protegidos por uma série de normas, incluindo a Constituição Federal, Convenções Internacionais, leis e decretos. Estes direitos abrangem aspectos como igualdade, não discriminação, acesso à terra e território, educação intercultural, segurança alimentar e nutricional e participação nas decisões que afetam seus interesses. Mas na prática, essas comunidades enfrentam desafios históricos, como a negação de direitos, a violência territorial e a invisibilidade nas políticas públicas.

A cigana Sara Macedo, que também é assessora jurídica popular, bailarina e escritora, conta que “cigano é etnia”, mas também é, “pertencimento, reconhecimento mútuo e comunidade”. Essa relação se mantém firme mesmo diante de tantos estereótipos e discriminações. A jovem diz que um dos grandes desafios para os povos ciganos no Brasil é mostrar sua diversidade e romper com a falsa ideia de como os brasileiros pensam os povos ciganos de forma homogênea. 

“As comunidades ciganas representam um universo marcado pela simbiose ou oposição entre a identidade cultural supranacional e as identidades locais, regionais e de parentalidade em ambientes multiculturais, sejam itinerantes, ou sedentários, em territórios únicos, devido a nossa singularidade. Há tantas particularidades, que uma pessoa cigana de apenas uma etnia e de um território não poderia responder. Se formos pensar por meio da característica étnica supranacional, isso dá o indicativo do tom que devemos ser pensados. Línguas e sub línguas regionalizadas, a oralidade como um preceito muito forte do cigano brasileiro, proibindo a divulgação de nossas línguas como forma de proteção interna, é outro exemplo dessas particularidades”, afirma. Sara ao chamar atenção para a pluralidade dessas comunidades e etnias.

Mesmo diante das injustiças e quase total invisibilidade, os povos ciganos resistem.

Coletivo Ciganagens

E foi com o objetivo de formar uma rede de apoio mútuo que um grupo de ativistas ciganos criou o Coletivo Ciganagens. Além de fortalecer ações e narrativas ciganas, o grupo leva informação, arte, educação e atua em prol dos direitos dos Povos Ciganos no Brasil de forma sempre pautada pelo ativismo anticolonial, antirracista e antissexista, bem como pela via da integração LGBTQIAPN+.

Sara é uma das integrantes do Coletivo. Ela conta que o grupo surgiu em 2020, durante a pandemia do coronavírus, e segue produzindo e divulgando materiais educativos que somam na luta ativista cigana, como guias e cartilhas sobre diversidade, arte, juventude e mulheres.

A artivista explica que é importante poder contar as histórias sobre povos ciganos com pessoas ciganas sendo protagonistas. “Sempre tive vontade, desde criança, de mudar minha história familiar e comunitária, criar outra narrativa, não me transformar no que a sociedade não-cigana diz da gente. É muito perigoso entrar nessa estrada da assimilação e começar a repetir que as coisas são assim e que nada pode mudar… Ainda mais pra um povo tão associado à resiliência. O coletivo Ciganagens é essa vontade de não caminhar por essa estrada”.

Sara afirma que o Coletivo Ciganagens aborda vários temas. “Desde denúncias relacionadas a tragédias nas comunidades, memoriais de nossas datas, divulgação de vitórias ciganas, materiais educativos, construção de audiovisuais, dança, artes visuais… Enfim, de tudo um pouco, porque infelizmente é necessário, somos um povo altamente desconhecido no Brasil”. 

Invisibilidade cigana e negação de direitos

No Brasil, os povos ciganos enfrentam várias invisibilidades, incluindo a estatística. A falta de dados oficiais sobre a população cigana é uma das barreiras para o acesso a direitos. Por isso, uma das principais reivindicações desses povos é a inclusão no Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como grupo étnico específico e com a devida contabilização da sua população total.

Sara informa que essa reivindicação é feita desde o começo do século 21 e que o Ministério Público Federal já recomendou que essa contagem seja realizada. “As pesquisas servem para garantir o acesso desta população brasileira aos serviços públicos da área de saúde, educação, trabalho e segurança, bem como para o enfrentamento ao racismo institucional, ao preconceito e à discriminação”, destaca a recomendação.

“Um povo que sequer é contabilizado no território, não tem como ter verba destinada. Ser reconhecido no Estado tem muito haver com quem tem direito à cidadania, e quem não tem”, disse Sara. 

A ativista no movimento cigano Hayanne Iovanovitchi diz que as reivindicações dos povos ciganos perpassam todos os direitos fundamentais. “Ainda hoje o acesso é negado para muitos de nós. Queremos acessá-los como todos os cidadãos brasileiros, mas que nossas especificidades sejam consideradas. Nossas demandas envolvem educação, saúde, cultura, segurança pública, território, pois nossas tradições devem ser consideradas para que consigamos acessar esses direitos dentro da nossa realidade”, explicou. 

Para ela, é urgente dar visibilidade e soluções às lutas e reivindicações dessa população. “Houve uma evolução “pro form” – por formalidade – , os povos ciganos estão sendo colocados em projetos de governo e planos próprios, no entanto, nada muda nas dificuldades enfrentadas. Continuamos vivendo por nossa própria conta e risco.  Os povos ciganos precisam ser realmente enxergados por parte da estrutura para que sejam inclusos e suas especificidades sejam consideradas em cargos de tomada de decisão”, disse Hayanne. 

Desconstruindo estereótipos

Além da invisibilidade e negação de direitos, as comunidades ciganas no Brasil ainda enfrentam as barreiras dos rótulos, generalizações, invenções e estereótipos.  As imagens construídas para justificar exclusões e as narrativas distorcidas reforçam políticas de apagamento, dificultam a inclusão em políticas públicas e alimentam o preconceito cotidiano.

“Só existe, praticamente, o estereótipo cigano. O cigano que é conhecido por uma gigantesca parte das pessoas é o estereótipo e a fantasia, construído por pessoas não ciganas, que sobrevivem de práticas chamadas de “esotéricas” ou “exóticas”. Esse estereótipo gera muito dinheiro no Brasil, principalmente para pessoas que sequer conhecem ciganos de verdade, justificados num ‘misticismo recreativo’”, disse Sara Macedo. 

A situação faz com que o movimento cigano precise concentrar forças em mais um campo de enfrentamento. 

“Infelizmente grande parte de nosso ativismo que deveria estar concentrado em outras pautas, está em combater esse véu das mistificações, chegando ao ponto de perguntarem a pessoas da etnia, porque não nos vestimos igual ao ‘ciganos piratas’. É um trabalho cansativo e que não vemos fim. Cigano não é religião, nem um culto, e não há como ser batizado para se tornar um membro da comunidade. Cigano é etnia, pertencimento, reconhecimento mútuo e comunidade”, explicou. 

A ativista diz que um dos grandes estereótipos é de que os povos ciganos vivem de forma itinerante por critérios culturais e de escolha, uma realidade muito distante da materialidade atual do mundo e da vida dessa população. 

“Hoje no Brasil, praticamente somente a minha etnia, Calón, sobrevive de forma itinerante, ou semi itinerante. Estima-se que 20% dos Calón ainda estão na estrada. Categorizar todas as etnias ciganas como nômades é negar todas as complexidades do mundo que estamos inseridos. Um mundo que expulsa e desterritorializa pessoas por conta de sua racialidade e etnia, assim como da falta de condições materiais, naturais e climáticas para sobreviver como nossos antepassados”, disse Sara.

A ativista e bailarina explica que sedentarizar [fixar residência num determinado lugar] acaba sendo um destino da maioria dos ciganos porque não existem boas condições de estar no trecho, ainda que alguns ainda estejam. “É uma tradição que segundo os mais antigos, tem haver com o trânsito de estar com todos os primos, rotacionar a terra, acesso a novos alimentos, convivência com outras culturas e permanência onde somos bem vindos. Também tem haver com uma veia muito não proprietária, o que acaba gerando outros problemas no presente, como não ter onde sobreviver dignamente, para muitos ciganos que vivem em comunidade. Sei que os indígenas também já viveram assim, e o aldeamento que hoje é bastante defendido para manter as suas existências, também foi uma imposição institucional. Modos de vida diversos são sempre desrespeitados, e há que se lutar muito para não esquecer o que é nosso, e o que não é”. 

O movimento ativista cigano afirma que desconstruir os estereótipos é responsabilidade coletiva e que esse é um passo essencial para construir uma sociedade que respeite todas as formas de existir em diferentes territórios. Há muita luta pela frente. Esse enfrentamento pode gerar um mundo mais justo para as pessoas ciganas. 

“Precisamos de mais de nós dentro da universidade, dos espaços de tomada de decisão e dos espaços de pesquisa. Queremos falar de nós e para nós e queremos que entendam que somos capazes e não precisamos de tutela alguma, conseguimos caminhar com nossas próprias pernas. Precisamos de oportunidades, que nossa existência seja reconhecida e valorizada, pois a formação desse país tem muito de nosso sangue e suor”, finalizou a ativista Hayanne Iovanovitchi. 

Disponível em: https://escoladeativismo.org.br/ativismo-cigano-desafia-estigmas-e-busca-visibilidade-e-politicas-publicas/

Ciganos cobram inclusão no Censo e mais acesso a políticas públicas

Estimativa é que no Brasil haja de 800 mil a 1 milhão de ciganos

Letycia Bond - Repórter da Agência Brasil

Publicado em 24/05/2025 - 10:21 - São Paulo

Um povo que resiste, que carrega na memória séculos de diáspora e perseguição, mas também de cultura, tradição e luta pela autodeterminação. Assim é o povo romani — ou povos ciganos —, composto principalmente pelas etnias calon, rom e sinti, que integra a diversidade dos povos tradicionais do Brasil.

Mesmo com esse legado, o povo romani segue entre os grupos mais invisibilizados do país, apontando pouca presença no debate público e nas políticas públicas. Como outros povos tradicionais, reivindica direitos básicos, como moradia digna, acesso à educação e ao trabalho.

A série de reportagens Invisíveis do Brasil, da Agência Brasil, publicada por ocasião do Dia Nacional do Cigano (24 de maio), amplia a voz dessas lideranças e revela as principais demandas e desafios enfrentados pelo movimento romani no país. O dia foi instituído em 2006, por meio de decreto presidencial, em homenagem ao povo romani e à sua padroeira, Santa Sara Kali.

Estima-se que, no Brasil, a população cigana (também conhecida como romani) seja de 800 mil a 1 milhão de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O povo romani tem uma história de diáspora, higienização étnica, genocídio e perseguição, inclusive, pelos nazistas. Um dos 28 povos tradicionais relacionados no Decreto nº 8.750/2016, os ciganos habitam o Brasil pelo menos desde 1574, ano em que o primeiro calon, João Torres, chegou ao país com a esposa e os filhos, vindo de Portugal.

Em 1686, o país começou a deportar ciganos para o Brasil. Documentos portugueses datados daquele ano registram que eles deveriam ser degredados para o Maranhão. Antes, eram levados somente para as colônias africanas.

O multiartista, pesquisador, ativista, jornalista e produtor cultural Aluízio de Azevedo destaca que as pessoas de sua etnia, a calon, sempre tiveram uma ligação com a Península Ibérica, ainda que não fossem de lá. Ele tem a clareza de que as manifestações de repulsa que os colonizadores do Brasil direcionavam aos calon eram reproduzidas no trato com as outras etnias.

"Portugal e Espanha sempre rejeitaram muito os ciganos e os proibiam de falar a sua língua, de praticar ofícios tradicionais, como a leitura de mãos, de uma série de coisas. Por exemplo, de ficar mais de 48 horas em um mesmo lugar. Daí o nomadismo ser uma coisa um pouco forçada. E as penas eram degredo para seu país e suas colônias", explica.

Segundo Azevedo, por três séculos, Portugal conservou a postura de repelir esses povos. "Além dessas políticas persecutórias e colonialistas que Portugal fez, chegando ao Brasil, o Brasil seguia as mesmas regras, porque era uma colônia portuguesa. Era Portugal quem mandava. E, depois, isso permaneceu no Estado brasileiro, quando ele se liberta administrativa e politicamente de Portugal. Continua com o modus operandi", observa.

"Durante séculos, o Estado brasileiro foi muito mau com os ciganos, foi muito ruim. Inclusive, ocorreram episódios que ficaram conhecidos como as correrias ciganas, que era a polícia invadir acampamento, matar todo mundo e provocar a correria de todo mundo em fuga", emenda.

"Isso aconteceu até muito recentemente, com mais força até a década de 1970, mas ainda acontece", completa Aluízio de Azevedo.

No Brasil, entre os problemas ainda enfrentados por essa parcela da população estão o racismo, o preconceito e a falta de acesso a políticas públicas específicas, como apontam lideranças ciganas entrevistadas pela Agência Brasil.

"Sempre o racismo, o preconceito e a discriminação têm nos distanciado de acessarmos as oportunidades e feito uma diferença entre nós e a sociedade em geral. Nosso sangue é vermelho, igual ao dos outros, também sentimos fome, sede, dor, alegria, paixão. Somos seres humanos comuns, iguais a todos", diz o presidente administrativo da Associação Nacional das Etnias Ciganas (Anec), o calon Wanderley da Rocha.

O fundador da Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci), Claudio Iovanovitchi, rom do Paraná, argumenta que o povo romani não está pedindo nada excepcional. "Não queremos inventar a roda, o fogo, novos caminhos para as Índias, coisas diferentes. Não é isso. Queremos o que já existe: o acesso à educação, à escola, à saúde, à habitação. Tudo que queremos já existe. Respeitando as especificidades dos ciganos", pontua.

"Eu não quero gueto. Não quero gueto na escola. Quero que meu ciganinho seja bem-vindo na escola, com professores preparados", declara.

Em um de seus artigos científicos, intitulado A incriminação pela Diferença, o pesquisador Felipe Berocan Veiga pontua que "os ciganos ora são vistos como uma sobrevivência ou um arcaísmo, ora como uma recorrente ameaça".

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), ele explica que a aversão ao povo romani tem "raízes profundas no imaginário, na iconografia, na literatura e nos contos populares", que acabam ativando "medos infantis e evitações inconscientes". E que estes, por sua vez, são capazes de aguçar os mais intolerantes a cometer atos de "violência mais explícita" contra membros de suas comunidades.

Desde o século 16, os povos ciganos ainda pleiteiam a contagem atualizada da população e a vigência do Estatuto dos Povos Ciganos, a ser criado por meio de projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional. Atualmente, a matéria (Projeto de Lei nº 1.387/22) está parada na Câmara dos Deputados.

Apresentado pelo senador Paulo Paim (PT-RS), o projeto já foi aprovado na Casa e é considerado imprescindível pelas lideranças porque obrigaria o Estado a cumprir seus deveres para com os ciganos.

Plano Nacional

Em agosto de 2024, o governo federal instituiu o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos, que engloba ações previstas para serem implementadas no período de 2024 a 2027 e oficializa a criação de seu comitê gestor. Com o Decreto 12.128/24, o Brasil se tornou o segundo país do mundo a lançar uma política nacional voltada estritamente para o povo romani.

Ao todo, o plano foi estruturado em dez objetivos, que envolvem combate ao anticiganismo, reconhecimento da territorialidade própria dos povos ciganos, direito à cidade, educação, saúde, documentação civil básica, segurança e soberania alimentar, trabalho, emprego e renda e valorização da cultura.

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-05/ciganos-cobram-inclusao-no-censo-e-acesso-politicas-publicas

sábado, 15 de março de 2025

Câmara de Cuiabá aprova criação do dia Municipal dos Ciganos

De autoria do vereador Mario Nadaf (PV - foto de terno), o projeto foi aprovado em segunda votação por 19 vereadores da Casa Parlamentar

A Câmara municipal de Cuiabá aprovou, no último dia 11 de março (terça-feira), após segunda votação em plenário, projeto de lei que institui o Dia Municipal dos Ciganos, a ser comemorado anualmente, no dia 24 de maio, mesma data do Dia Nacional dos Ciganos.

Proposto pelo vereador Professor Mario Nadaf (PV), o projeto de lei inclui o Dia Municipal dos Ciganos no Calendário Oficial de Eventos do Município de Cuiabá e foi aprovado com o apio de 19 vereadores da Casa Legislativa Cuiabana.

O projeto foi articulado pelo representante dos povos ciganos no Conselho Nacional de Promoção de Igualdade Racial (CNPIR), Marcos Gattas, por meio do seu Instituto Cultural das Etnias ciganas em Mato Grosso.

“Para a gente foi uma grande surpresa de ir duas sessões e das pessoas entenderem que hoje os povos ciganos tem decretos nacionais e leis que nos amparam e agora vem mais este no município. Os vereadores compreenderam que nós queremos políticas públicas específicas e o direito de viver e passar. Muito importante para nossa cultura, para saúde, para educação dos povos ciganos. Temos esperança que seremos vitoriosos nas nossas lutas e militâncias”, destaca Marcos.

Justificativa para aprovação do projeto

A justificativa do vereador para aprovação do projeto, destaca que a propositura “tem como objetivo principal incluir a data de 24 de maio como Dia Municipal dos Ciganos no Calendário Oficial de Eventos do Município de Cuiabá. Inicialmente, o povo cigano só foi reconhecido como minoria étnica no Brasil com a Constituição de 1988”.

Além disso, a justificativa destaca que “a escolha da data deve-se ao fato de o dia 24 de maio ser dedicado à Santa Sara Kali, padroeira dos povos ciganos. A população cigana inclui os grupos Rom, Sint e Calon formados pela diáspora de um povo nômade originário do norte da Índia, que passou por várias regiões do Oriente Médio e Europa, e depois espalhou-se por outros continentes”.

Por fim, o documento, pontua que “a população cigana está em constante movimento, seja pela sobrevivência ou pelo simples direito de existir em conformidade com suas tradições e valores. Não raro, é vista como intrusa e como ameaça à sociedade. Instituir uma data para homenagear os ciganos é também uma ação política, um esforço para que essa população se aproxime do Estado, tornando-se alvo de políticas públicas de inclusão, além de ser uma forma de se promover sua participação em conselhos e órgãos colegiados”.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Inscrições abertas para Comitê Gestor do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos

 
Serão selecionados 12 representantes que terão o compromisso de monitorar as políticas públicas voltadas para essa população

DO MIR, Publicado em 26/12/2024 17h20 Atualizado em 26/12/2024 17h33

Ministério da Igualdade Racial torna público nessa quinta-feira (26), a abertura de inscrições para o edital nº 4/2024 para seleção de representantes ciganos para o comitê gestor do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos. 

O comitê terá a missão de monitorar e avaliar a implementação das políticas públicas voltadas para essa população. 

Instituído por decreto presidencial, o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos foi lançado em agosto de 2024 com a finalidade de promover medidas intersetoriais para a garantia dos direitos dos povos ciganos. 

O Plano está estruturado em dez objetivos, que envolvem o combate ao anticiganismo, o reconhecimento da territorialidade própria dos povos ciganos, o direito à cidade, à educação, saúde, documentação civil básica, segurança e soberania alimentar, trabalho, emprego e renda e valorização da cultura. 

O processo seletivo para o Comitê Gestor estabelece normas relativas à seleção de representantes da sociedade civil pertencentes aos povos ciganos para o biênio 2025-2027. 

As inscrições vão até o dia 31 de janeiro de 2025. 

Serão selecionados 12 representantes dos povos ciganos, sendo seis titulares e seis suplentes, que devem pertencer a uma das etnias dos povos ciganos reconhecidas no Brasil, ter idade mínima de 18 anos e possuir experiência em atividades relacionadas à promoção dos direitos dos povos ciganos e/ou em espaços de participação e controle social. 

A ministra da igualdade racial, Anielle Franco ressalta que a seleção do comitê para a gestão do plano é mais um passo na proteção de direitos dessa população. 

“Esse compromisso do Governo Federal com a participação justa e democrática dos povos ciganos nos processos de decisão, a valorização de suas tradições e culturas e o reconhecimento da cidadania plena dos direitos ciganos, nos dá muito orgulho e a certeza de que estamos consolidando um futuro que respeita a contribuição histórica dos povos ciganos no nosso país”, afirma. 

Para mais informações sobre perfil, habilitação, seleção, divulgação de resultados, recursos e homologação do resultado final, clique em Edital nº 4/2024 de Seleção de Representantes Ciganos para o Comitê Gestor do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos - Biênio 2025-2027.  

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/copy2_of_noticias/estao-abertas-as-inscricoes-para-a-selecao-do-comite-gestor-do-plano-nacional-de-politicas-para-povos-ciganos

domingo, 15 de dezembro de 2024

Criado o comitê gestor do Plano de Políticas para Povos Ciganos

Plano visa promover medidas que garantam os direitos dos povos ciganos. FOTO: MIR.

Fabiana Sampaio - Repórter da Rádio Nacional - 12/12/2024 - 21:15 - Brasília

Foi publicada, nesta quinta-feira, no Diário Oficial da União a portaria que cria o Comitê Gestor do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos para o período 2024 a 2027.

A portaria também estabelece as ações e compromissos estratégicos do Plano, lançado em agosto deste ano para promover medidas que garantam os direitos dos povos ciganos no país. O plano prevê investimento de mais de R$ 6 milhões do Ministério da Igualdade Racial.

O Comitê Gestor será composto por representantes de onze Ministérios e seis representantes dos Povos Ciganos e vai monitorar e avaliar a implementação das metas e ações do Plano.

Entre as metas está a ampliação do atendimento às famílias ciganas no Pró-Moradia do Programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo dados do Observatório do Cadastro Único, 7.285 famílias ciganas não têm domicílio permanente.

Há ainda ações na área de acesso à água, com implantação de sistemas simplificados de abastecimento de água, visibilidade, com o mapeamento dos territórios, rotas e famílias ciganas, valorização das histórias e da cultura dos povos ciganos, acesso à documentação civil, entre outros programas nas áreas da educação, inclusão produtiva, econômica e cultural.

O assessor para Ciência e Comunicação da Associação Estadual das Etnias Ciganas do Mato Grosso, Aluízio de Azevedo, cigano da etnia Calon, disse estar otimista com o Plano, por ser uma das primeiras vezes que o estado brasileiro faz uma política pública específica para povos ciganos, no entanto, questiona até que ponto a lei vai se converter em ações práticas e faz críticas a questões pontuais do Plano.

Ouça na íntegra a reportagem aqui.

O assessor também pressiona pela aprovação de um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional que institui o estatuto dos povos ciganos. Aluízio de Azevedo lembra que essa população está no Brasil desde a colonização e teve sua contribuição excluída da sociedade brasileira.

O Ministério da Igualdade Racial foi procurado, sobre as críticas de Aluízio de Azevedo ao plano, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Edição: Sheily Noleto / Beatriz Arcoverde

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2024-12/criado-o-comite-gestor-do-plano-de-politicas-para-povos-ciganos 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

MIR publica portaria com ações do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos

Instrumento normativo também estabelece comitê gestor. Divulgação acontece no Dia Mundial da Língua dos Povos Romani

Ministério da Igualdade Racial (MIR) publicou nesta terça-feira (5) a Portaria Ministerial nº 194/2024, que aprova ações e compromissos estratégicos do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos no período 2024 a 2027 e institui o seu comitê gestor. Na mesma data é comemorado o Dia Mundial da Língua dos Povos Romani, conhecidos no Brasil como povos ciganos.    

Além de 12 metas, o instrumento traz a definição do processo de escolha do comitê gestor com representantes ministeriais e representantes dos povos ciganos. O Edital de chamamento público está fase de elaboração e, uma vez finalizado, irá receber candidaturas para que seja possível construir coletivamente o processo de avanço da seguridade dos direitos básicos aos Povos Ciganos.   

A portaria regula o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos, publicado em 1º de agosto de 2024 por meio do decreto 12.128/24. Na ocasião, o Brasil se tornou o segundo país do mundo a lançar uma política nacional direcionada a estes povos.   

“Hoje damos mais um passo importante na institucionalização das ações do Estado brasileiro junto aos Povos Ciganos. As ações do Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos garantem o direito à moradia, acesso à água, visibilidade, educação, cultura e inclusão produtiva e econômica”, afirma a diretora de Políticas para Quilombolas e Ciganos do MIR, Paula Balduíno. Para ela, outra inovação da política são as ações de monitoramento do plano e compromissos estratégicos desta política “que possui um arranjo de governança arrojado, com a participação de representantes dos povos ciganos e de onze órgãos públicos", complementa.   

As 12 metas previstas no documento são distribuídas em dois eixos e serão implementadas até 2027. A previsão de investimento do Plano é de cerca de R$190 milhões nas ações do eixo Direitos Sociais e Cidadania e pouco mais de R$6 milhões no eixo Inclusão Produtiva, Econômica e Cultural. Além do MIR, coordenador do plano, estão envolvidos nas ações os Ministérios da Educação; das Cidades; da Integração e do Desenvolvimento Regional; dos Direitos Humanos e Cidadania; da Cultura; das Mulheres; e do Trabalho e Emprego. As ações envolvem, por exemplo, construções de moradias, perfuração de poços, emissão de documentação civil básica.  

Atuante na construção da política, a coordenadora-geral de políticas para ciganos, Edilma Nascimento, afirma que o MIR segue fazendo história com o normativo. “É uma alegria saber que somos um dos ministérios que não apenas retoma as políticas para igualdade étnico-racial do país, mas que constrói história com as inovações políticas voltadas para povos ciganos.”  

Algumas ações já estão em curso, como a entrega de unidades habitacionais para famílias ciganas da Paraíba, celebrando uma parceria entre os Ministérios da Igualdade Racial e das Cidades, e o governo do estado.   

Povos Ciganos/Romani – Mais conhecidos internacionalmente como Povos Romani, mas amplamente chamados no Brasil de Povos Ciganos, este segmento se subdivide no território brasileiro em redes familiares das etnias Calon, Rom e Sinti. Atualmente, estima-se que haja cerca de 800 mil pessoas ciganas no país.

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/copy2_of_noticias/mir-publica-portaria-com-acoes-e-compromissos-estrategicos-do-plano-nacional-de-politicas-para-povos-ciganos

sábado, 19 de outubro de 2024

Povos ciganos resistem apesar do preconceito e da marginalização

 

Governo federal lança plano para garantir direitos dos ciganos, mas representantes de diferentes etnias denunciam falta de ações efetivas. Foto: Karen Ferreira

Por Micael Olegário | ODS 10

Publicada em 18 de outubro de 2024 - 09:28 • Atualizada em 18 de outubro de 2024 - 19:39

“É muito injusto o que acontece”. A frase é da fotógrafa Rosecler Winter, 61 anos, mais conhecida como Rose, moradora de São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre. O sentimento de injustiça está atrelado ao cotidiano de preconceitos e marginalização vivenciado pelos povos ciganos no Rio Grande do Sul. Uma rápida pesquisa do verbo “ciganear” em um dicionário permite compreender a profundidade dos pré-conceitos que afetam as etnias ciganas no Brasil. Entre as diferentes definições da palavra estão levar uma vida errante e agir com falsidade.

Descendente de imigrantes alemães, Rose pertence à etnia Sinti, um dos três principais ramos dos povos ciganos no país. A profissão de fotógrafa é uma herança do pai, Nilo Iloire Winter. Legado que também transmitiu ao filho Kim Winter Flores. Para ela, ser cigana é ter que enfrentar olhares de desconfiança constantes. Nos últimos anos, ela foi levada a fechar seu estúdio e perdeu muitos clientes. O motivo: a descoberta de sua origem cigana.

“O cigano é rotulado, não importa a etnia. No momento que sabem que tu é (cigana), a pessoa perde a amizade, perde o trabalho O estúdio fotográfico aqui que é uma coisa de família, já tinha mais de 50 anos, quando foi em 2014, eu tive que fechar”, descreve Rose Winter. Em um dos piores episódios de ódio e preconceito, ela conta ter sido atacada por um grupo de skinheads nazistas perto dos trilhos do Trensurb, em Porto Alegre: “Eles tentaram me jogar nos trilhos do trem chegando e fui salva por um casal LGBT+”. 

Não estamos nas estatísticas do SUS e da educação. Estamos completamente invisibilizados e o Estado, durante anos e anos, só aplicou políticas persecutórias, racistas e violentas. Não quis saber de cigano. Aluízio de Azevedo, Pesquisador e produtor cultural da etnia Calon

Em agosto deste ano, o Ministério da Igualdade Racial (MIR) lançou o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos. Entre os objetivos do decreto, está o combate ao anticiganismo, o reconhecimento da cultura e dos modos de vida dos ciganos, além da elaboração de políticas públicas para garantir os direitos dessa parcela da população brasileira.

Apesar de representar uma conquista política para os movimentos dos povos ciganos, o documento tem sido alvo de críticas pelo pouco detalhamento e a ausência de medidas práticas. “Esse plano foi criado e construído sem qualquer diálogo com os povos ciganos, foi imposto de cima para baixo. É um plano que, se você for olhar, é uma vergonha do ponto de vista da construção, porque tem duas páginas. Na área da saúde, que é onde eu pesquisei, tem uma única linha”, lamenta Aluízio de Azevedo, pesquisador e produtor cultural pertencente à etnia Calon.

Doutor em Informação e Comunicação em Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Aluízio aponta que o decreto sequer menciona os resultados das ações do programa Caravana Brasil Cigano, série de encontros de escuta com ciganos de diferentes regiões do Brasil promovidos pelo MIR. 

Integrante da Associação Estadual das Etnias Ciganas do Mato Grosso e do coletivo “Ciganos Juntos Somos Mais Fortes”, o pesquisador descreve a dificuldade em alcançar medidas efetivas para atender às necessidades dos povos ciganos. Uma delas é a carência de dados atualizados sobre a população cigana no Brasil. Estimativas do IBGE de 2011 indicavam entre 800 mil a um milhão. O Censo 2020 não investigou esse recorte da população brasileira.

“A gente também não está na história oficial, nos livros didáticos ou nos currículos escolares. Não estamos nas estatísticas do SUS e da educação. Estamos completamente invisibilizados e o Estado, durante anos e anos, só aplicou políticas persecutórias, racistas e violentas. Não quis saber de cigano”, complementa Aluízio, natural de Tangará da Serra (MT).

Origem e perseguição

No Brasil, as principais etnias ciganas são Rom, Calon e Sinti, entre essas ainda existem diversos subgrupos, clãs e nações. Uma das imagens mais comuns associada a esses povos é a da itinerância. Porém, atualmente nem todas as etnias mantêm essa tradição, muitos já estabeleceram residência fixa, principalmente entre os Rom. Ser cigano também não tem nada a ver com uma crença religiosa, mas sim com a descendência: só é considerado cigano quem possui mãe e pai ciganos. 

A origem desses povos é controversa, porém, a versão mais aceita é de que teriam surgido na região da Índia. Com o passar dos anos, os ciganos se espalharam por outros territórios do Oriente Médio e Europa – até chegar nas Américas no período colonial, na maioria dos casos expulsos e deportados de países como Portugal, França, Itália, Espanha e Alemanha.

Professor e mestre em Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Sandro Rista explica que a itinerância dos ciganos nunca foi apenas uma escolha, ainda que tenha sido incorporada na cultura desses povos. Ainda segundo ele, a resistência de interagir socialmente de algumas etnias ciganas está ligada a séculos de perseguição. 

Eles acham que vão roubar na cidade deles ou que querem tomar a terra de alguém, são vários os preconceitos e em algumas cidades não tem diálogo nenhum. Núbia Ribas, Produtora cultural e descendente de Calon

Em Minas Gerais, entre o final do século XIX e início do século XX, ciganos eram perseguidos pela polícia e obrigados a fugir de seus acampamentos, episódio que ficou conhecido como as “Correrias Ciganas”. Durante a Segunda Guerra Mundial, estima-se que entre 250 a 500 mil ciganos tenham sido mortos em campos de concentração nazistas, no que se define como “Porajmos” (devorar na língua Romani) ou Holocausto Cigano.

“A gente vê uma falta de critério das pessoas para com ciganos. Falta até uma humanização com os povos ciganos no geral. E talvez isso se resolva no momento em que as pessoas conhecerem os costumes e as tradições. Conhecerem as perseguições históricas”, argumenta Sandro Rista, que faz parte da etnia Rom e atua como professor de História em uma escola pública do município de São Francisco de Assis (RS). 

De acordo com Aluízio de Azevedo, entre os resultados desse histórico de marginalização, os ciganos acabaram excluídos de discussões sobre habitação e da organização da vida nas cidades, justamente também por conta da itinerância. “Fomos excluídos da divisão do território nacional, assim como outros povos e outras pessoas pobres”, comenta o pesquisador, que compara essa situação com a dos povos indígenas, que possuem origens ligadas à itinerância.

Rose Winter descreve o ódio e preconceito enfrentado pelos ciganos; na esquerda, em evento de lançamento do plano para os povos ciganos, na foto da direita, Rose ao lado do filho Kim (Foto: Arquivo Pessoal)

Anticiganismo e diversidade

Descendente de ciganos Calon e produtora cultural em Charqueadas (RS), Núbia Regina Ribas descreve os desafios enfrentados por grupos que seguem itinerantes para montar seus acampamentos em cidades gaúchas – os Calon são a principal etnia que preserva a tradição da itinerância. “Está cada vez mais difícil eles conseguirem espaços para acampar nos municípios, mesmo com as portarias que já existem”, enfatiza Núbia.

Durante a pandemia de Covid-19, Núbia relata que muitas organizações voluntárias negaram ajuda ao descobrir que seria destinada para ciganos. Durante alguns anos, ela fez parte do Instituto Cigano do Brasil e atualmente atua com a Rede Brasileira dos Povos Ciganos (RBPC), na defesa dos direitos e políticas públicas para grupos Calon.

Núbia também critica o plano elaborado pelo MIR e que, segundo a ativista, desconsidera a realidade e as necessidades particulares de cada etnia em seu contexto. Além disso, ela vê com desconfiança novas legislações, uma vez que, as atuais políticas são desrespeitadas pelos municípios, como a portaria n°4.384/2018 que instituiu normas para os atendimentos de saúde aos ciganos. “Eles acham que vão roubar na cidade deles ou que querem tomar a terra de alguém, são vários os preconceitos e em algumas cidades não tem diálogo nenhum”, pontua.

Na visão de Aluízio de Azevedo, para que as políticas públicas para os povos ciganos sejam efetivas, é necessário haver a circulação e apropriação pelos diferentes movimentos e etnias. “Os calons têm um estilo de vida, os Rom têm outro. Então, é importante reconhecer, saber diferenciar, entender que são culturas diferentes”, destaca o pesquisador.

Desde que assumiu o cargo de professor, Sandro Rista afirma nunca ter sido discriminado por um estudante. Por outro lado, enfrentou problemas como uma colega docente que somente o chamava de cigano, nunca pelo nome, mesmo dentro da escola e na presença dos alunos. “Onde ela me via, se fosse na rua ou dentro da escola, era só cigano. Eu pedi: ‘olha, colega a gente trabalha junto, quando a gente tá fora da escola e quer me chamar de cigano, tudo bem. Mas, aqui dentro da escola, ou pelo nome ou por professor, para não gerar problema com os alunos’”, relata ele. 

Sandro admite que o problema não está na palavra em si, mas nos estereótipos construídos em torno dos ciganos, como a trapaça e o roubo. Esses discursos e as práticas de ódio atreladas a eles fazem com que muitos prefiram esconder sua origem, para evitar ataques como o sofrido pela fotógrafa Rose Winter.

“Tem bastante ciganos aqui que não se reconhecem, preferem se dizer alemães para não ter o problema do preconceito”, descreve Rose sobre a realidade de São Leopoldo, cidade conhecida como berço da colonização alemã no Rio Grande do Sul. No estado, a maioria das etnias ciganas estão concentradas em cidades de fronteira com a Argentina e Uruguai, sendo considerados povos tradicionais do bioma Pampa.

Aluízio, esquerda, em uma das gravações do filme Caminhos Ciganos; produção audiovisual é alternativa para preservar cultura (Foto: Rodrigo Zaiden)

Oralidade, cultura e artes visuais

Presidente da Associação Cigana Itinerante do Rio Grande do Sul e gestora do Comitê dos Povos Tradicionais do Pampa, Rose conta que a maioria dos Sinti no Rio Grande do Sul sempre esteve ligada às artes, incluindo muitos grupos de ciganos circenses. Apesar disso, poucos circos se identificam dessa forma. “É triste, mas se as pessoas sabem que aquele circo é de cigano, eles não vão entrar (no município)”, explica a fotógrafa.

Rose conta que durante muitos anos também viajou por diferentes estados e países vizinhos, como Argentina e Uruguai. Desde os 14 anos também faz leitura da sorte, uma das características culturais das ciganas, junto das danças, como a  Rumba Gitana, Ghawaze, Rom e Khalbelia, marcadas pela alegria e mistura de diferentes elementos. 

Os vestidos e o uso de metais preciosos, inclusive nos dentes, são outros aspectos que compõem a cultura dos povos ciganos. Núbia Ribas ressalta, contudo, que existem diferenças no poder aquisitivo de cada grupo e etnia, o que interfere nos acampamentos e nas vestimentas. “As ciganas que tem um poder aquisitivo maior, elas estão sempre vestidas com os vestidos mais de festa. Já as ciganas que não tem tanto poder aquisitivo vão usar uma saia mais simples”, acrescenta.

Na culinária, a simplicidade é valorizada e é acompanhada de diferentes temperos e ervas medicinais, fruto também de uma relação próxima com a natureza e da valorização do benzimento. Outra marca das tradições ciganas é a oralidade. A maioria das línguas e dialetos ciganos são ágrafos, como o Romani, idioma dos Rom, e o Chib, falado pelos Calon. 

A maioria desses elementos das culturas ciganas estão registrados em produções audiovisuais como a série “Diva e as Calins de MT”, produção da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso, dirigida por Aluizio de Azevedo. Segundo o produtor cultural Calon, os documentários e filmes têm sido uma das alternativas para evitar a perda de tradições, um desafio encarado por diferentes culturas orais.

“É uma cultura milenar que enriquece a nossa diversidade brasileira. Muitas das características culturais do brasileiro que se atribuem aos portugueses, de verdade, são dos ciganos. Por exemplo, se você pensar a moda de viola, o sertanejo, isso é um traço muito característico dos calons”, ressalta Aluízio. Uma das produções audiovisuais recentes do produtor cultural é o filme “Caminhos Ciganos”, que também documenta a presença de ciganos em diferentes localidades do Brasil e de Portugal.

Segundo Aluízio, esses movimentos permitem começar a quebrar barreiras entre os ciganos e não ciganos. “É uma construção histórica que vai se desenhando. Antes também os casamentos eram muito mais endogâmicos. Hoje já tem muito mais pessoas ciganas casando com não ciganas. Tem muito mais ciganos frequentando a escola, com acesso à educação”, complementa o pesquisador e ativista.

Entre os depoimentos de Aluízio, Sandro, Núbia e Rose, ecoam as mazelas e os preconceitos que afetam os povos ciganos no Rio Grande do Sul e no Brasil. Do mesmo modo, transparece a diversidade e a riqueza cultural das diferentes etnias e de suas tradições, relegadas a uma posição subalterna na história do Brasil, justamente o país que possivelmente teve o único presidente descendente de ciganos, Juscelino Kubitschek (1956-1961).

Disponível em: https://projetocolabora.com.br/ods10/povos-ciganos-resistem-apesar-do-preconceito-e-da-marginalizacao/