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domingo, 31 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Francisca e Francisco Pereira - O Tempo que a gente É!

Francisco de Assis Santos nasceu em Bambuí, Minas Gerais, no dia 18 de outubro de 1953. Ainda jovem, aos 17 anos, deixou sua terra natal e veio para Mato Grosso, estado onde construiu sua vida e permanece até hoje. Trabalhador dedicado, iniciou sua carreira na zona rural. Mais tarde, mudou-se para a cidade, onde trabalhou por 23 anos na empresa Comercial Rio Negro.

Foi em Mato Grosso, na região de Guiratinga e Beira Rio, que Francisco conheceu Francisca Pereira dos Santos, nascida em 16 de outubro de 1956, em Guiratinga, Mato Grosso.

Filha de José Alves Pereira e Isaura Cabral, Francisca cresceu vivendo a tradição cigana ao lado de sua família. Até os 15 anos, viveu viajando com os pais, acompanhando a rotina cigana, até que seu pai comprou um sítio e a família passou a viver no interior.

Ela relembra que, por conta das dificuldades da época e da vida itinerante, não teve oportunidade de estudar, mas aprendeu desde cedo o valor do trabalho e da união familiar.

Foi nesse contexto que Francisco encontrou Francisca. Depois do casamento, passaram a viver em Rondonópolis, onde construíram a família. Casados há mais de 42 anos, Francisco e Francisca tiveram dois filhos, Antony e João Miguel. Ambos se formaram e deram ao casal seis netos, entre eles José Arthur, que também segue com os estudos.

Francisco afirma que, depois de mais de 43 anos convivendo junto da família cigana, também se considera cigano: “Eu já me considero cigano também e queria aproveitar para dizer que amo todos eles. É uma família muito boa, que me ajudou muito quando adoeci”.

Francisca também demonstra com convicção o amor por suas origens: “Eu amo ser cigana, eu tenho orgulho de ser cigana e eu amo a minha tradição cigana!”. Em seu relato, ela relembra com carinho a experiência de participar da peça de teatro “Dai Purim”, atuando pela primeira vez como atriz no grupo Rarripe, durante o VI Encontro de Cultura Cigana.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Estroécio Rodrigues Cunha - O Tempo que a gente É!

Mais conhecido na família como tio Toesse, viveu a vida itinerante na juventude e depois como negociante fazendo gambira. Foto: Tami Lage

Estroécio Rodrigues Cunha nasceu em Jataí, no dia 28 de agosto de 1955. Cigano, relembra seus tempos com a família nas andanças entre Goiás e Mato Grosso, considera que teve uma infância muito boa. 

Em 1975, mudou-se para Tangará da Serra. Depois viveu em Juscimeira, em 1979, e, no ano seguinte, se casou com sua esposa, com quem construiu uma união de 46 anos. Juntos, moraram em Rondonópolis por 35 anos e formaram uma grande família.

Estroécio é pai de quatro filhos, André, Jonathan, Adriana e Italo, além de avô de quatro netos e bisavô de três bisnetos. Hoje, vive em Tangará da Serra novamente, há 11 anos.

Grande parte de sua história profissional foi construída através dos negócios. Trabalhou fazendo gambira: comprando, vendendo e trocando mercadorias. Também trabalhou na roça em alguns períodos da vida. “Eu criei minha família só no negócio”, relembra.

Além disso, Tio Toesse, como Estroécio é mais conhecido na família, é o principal falante hoje da língua Chibe, do tronco étnico Calon, nas comunidades ciganas de Mato Grosso, sendo um dos principais oficineiros em projetos de oficina de chibe realizados pela AEEC-MT.

Estroécio demonstra gratidão pelo projeto Encontro de Cultura Cigana realizado pela AEEC-MT:

“Esse evento é uma bênção de Deus. Meu sobrinho é caprichoso com nós. Ele acha que nós, ciganos, merecemos. Ele é abençoado por Deus. E a família dele também: a mãe, o pai, a irmã. A sobrinhada que eu tenho é muito inteligente, graças a Deus.”

TEXTO: LÍVIA FREIRE

sábado, 30 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Leila Cabral Nunes - O Tempo que a gente É!

Leila Cabral Nunes, conhecida como Tia Leila, nasceu em 31 de agosto de 1961, em Alto Garças (MT), onde seu pai, José Alves Pereira, era fazendeiro. Filha de José e Isaura Cabral Pereira, passou os primeiros anos de vida acompanhando a família pelas mudanças.

Após a venda da fazenda em Alto Garças, a família mudou-se para Guiratinga, onde Leila foi criada até os quatro anos de idade. Mais tarde, seguiram para Rondonópolis, acompanhando o pai, que continuou trabalhando com fazendas na região. 

Foi nesse período, já na região de Juscimeira, que conheceu seu namorado, com quem mais tarde se casou. Dessa união nasceram seus dois filhos, Albericle e Dayane, que ela considera os presentes mais preciosos que Deus lhe deu.

Com o passar dos anos, a família cresceu com a chegada dos netos Adryan, Ryan, Myrian e Davi. Infelizmente, seu filho Albericle se foi cedo, faleceu aos 39 anos, vítima da COVID-19. Hoje está guardado com amor na memória de Leila e de seus familiares.

Leila vive em Rondonópolis há tantos anos que nem consegue calcular. Ao longo da vida trabalhou muito, construiu sua família e acompanhou a vida dos filhos, entre eles Dayane, que se tornou enfermeira. Hoje, é casada com um professor de Educação Física, onde vivem juntos na cidade.

Aos 64 anos, Tia Leila é feliz com a vida que leva: “Tô aqui, velhinha já, com a graça de Deus, vivendo minha vidinha de cigana. Adoro ser cigana! É minha vida ser cigana!". Uma mulher orgulhosa de suas origens e de tudo o que construiu.

TEXTO: LIVIA FREIRE

FOTOS: TAMI LAGE

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Projeto da Escola Maria Fragelli com povos ciganos é selecionado pela DRE de Rondonópolis

O projeto “Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos”, realizado pelo grêmio estudantil da Escola Estadual de Tempo Integral Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, de Guiratinga, para comemorar o mês comemorativo à História e Cultura dos Povos Ciganos, foi um dos três selecionados na etapa regional do processo lançado pela Diretoria Regional de Educação (DRE) de Rondonópolis e que visa a certificação do selo “Tereza de Benguela”. A DRE é um órgão da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC/MT).

O resultado foi anunciado nesta sexta-feira (30/05) pela DRE e, seguindo estritamente as diretrizes do documento Orientativo da instituição, o vídeo da Escola Maria Fragelli (e de outras duas escolas selecionadas: Escola Estadual Major Otávio Pitaluga e Escola Sagrado Coração de Jesus) foi publicado na página oficial da DRE e pode ser acessado no seguinte link: https://www.instagram.com/reels/DY7VENOx_IO/

De acordo com o comunicado da DRE, os avaliadores ficaram “profundamente impressionados com o engajamento, a criatividade e a sensibilidade demonstrada pelos nossos adolescentes/jovens na construção de cada material.  Parabenizamos cada estudante envolvido!”

O vídeo mostra como foi a programação da escola no último dia 19 de maio (terça-feira) em comemoração ao Dia Nacional dos Povos Ciganos (24 de Maio) e que contou com a parceria da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT).

Realizada pelo grêmio estudantil União Jovem, o projeto Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos, ocorreu no período da manhã e contou com a participação especial do grupo de Danças Tradição Cigana, de Rondonópolis. Integrando a rede estadual de ensino, o projeto foi coordenado pelos professores Joaquim Vilela Neto e Selma Ribeiro, esta última também cigana de etnia Calon e integrante da AEEC-MT.

A programação contou com apresentações de dança do Tradição Cigana e a presença do diretor da escola, das coordenadoras Clarice Terezinha Dallabrida e Neuracy trindade Santana, além do ator Ataíde Arcoverde, que é natural e morador de Guiratinga.

Além da participação do grupo de danças Tradição Cigana, o evento contou com um cine-debate que exibiu o filme “Caminhos Ciganos” e dois episódios da websérie “Diva e As Calins de Mato Grosso”: episódio 1 Mestra Diva e episódio água Terezinha Alves. Falando em nome da AEEC-MT, Nilva Rodrigues, que é coordenadora de mulheres da instituição reforçou algumas questões centrais acerca da cultura, das tradições, da identidade do tronco étnico Calon, bem como destacou o combate ao preconceito e ao racismo.

De acordo com Selma Ribeiro, o público do projeto são os alunos do ensino fundamental II e ensino médio. Segundo ela, o objetivo geral do projeto é proporcionar aos alunos o contato com a história, tradições e lutas dos povos ciganos, destacando sua presença em Mato Grosso.

Além disso, o projeto teve como objetivos compreender a trajetória nômade e a fixação das comunidades em MT; valorizar o papel da mulher cigana (Calin) na preservação da cultura e na conquista de espaços acadêmicos e políticosç; e estimular o pensamento crítico sobre os direitos das comunidades tradicionais.

“O Dia Nacional do Povo Cigano (24 de maio) é uma oportunidade para desconstruir estereótipos e combater o preconceito histórico contra as etnias ciganas. Ao focar em figuras locais, como Mestra Diva e Terezinha Alves, o projeto humaniza a história, conectando o conteúdo acadêmico à realidade do estado de Mato Grosso e promovendo a educação para a diversidade e igualdade racial”, explica Selma.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Nerana Cunha Pereira - O Tempo que a Gente É!

Nerana Cunha Pereira é a segunda homenageada do Ancestralidade Viva #MaioCigano. Nasceu em 2 de novembro de 1952, em Patos de Minas-MG. Apesar de ter vindo embora ainda muito pequena, nos braços da mãe, carrega consigo o orgulho de suas origens ciganas e a memória afetiva da família.

Casada com Euripes Alves Pereira, construiu sua vida entre Cuiabá e Tangará da Serra. Diferente de muitas narrativas associadas ao povo cigano, conta que viajou pouco. Seu pai possuía terras e, depois do casamento, ela e o marido passaram a viver próximos da família, criando raízes sem abandonar a identidade Calon.

Ao longo da vida, trabalhou como vendedora, comercializando enxovais e outros produtos. Sempre reforça, porém, que acima de qualquer ocupação, o que nunca abandonou foi o orgulho de ser cigana. “Nunca neguei”, afirma, dizendo que gosta de sua origem. 

A família aparece como o maior valor em sua vida. Nerana teve três filhos, já falecidos, e fala deles com amor. Hoje, encontra continuidade nos cinco netos e nos dois bisnetos, Laura e Benjamin. 

Nerana é também uma guardiã da língua chibe. Ela conta que ensinou os filhos a falarem e que continua ensinando os netos e bisnetos, porque acredita que a tradição não pode desaparecer. Para ela, preservar a língua chibe é também preservar a identidade cigana.

Sua história é marcada pela saudade das pessoas queridas que perdeu ao longo da vida, mas também pela firmeza com que sustenta sua memória e pertencimento. Ao falar de si, Nerana ressalta: é cigana, sente orgulho disso e deseja que as próximas gerações continuem carregando essa herança.

TEXTO: LIVIA FREIRE
FOTOS: MARIA CLARA AQUINO E KAREN FERREIRA



sábado, 23 de maio de 2026

Tradição Cigana participa de comemoração do dia nacional dos ciganos em escola de Guiratinga

Programação em comemoração ao dia nacional dos povos ciganos contou ainda com cine debate 

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) participou, no último dia 19 de maio (terça-feira) de programação em comemoração ao Dia Nacional dos Povos Ciganos (24 de Maio) da Escola em Tempo Integral Dona Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, no município de Guiratinga.

Realizada pelo grêmio estudantil União Jovem, o projeto Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos, ocorreu no período da manhã e contou com a participação especial do grupo de Danças Tradição Cigana, de Rondonópolis. Integrando a rede estadual de ensino, o projeto foi coordenado pelos professores Joaquim Vilela Neto e Selma Ribeiro, esta última também cigana de etnia Calon e integrante da AEEC-MT.

A programação contou com apresentações de dança do Tradição Cigana e a presença do diretor da escola, das coordenadoras Clarice Terezinha Dallabrida e Neuracy trindade Santana, além do ator Ataíde Arcoverde, que é natural e morador de Guiratinga.

Assista ao vídeo da participação do grupo de Danças Tradição cigana na Escola Maria Fragelli:


Além da participação do grupo de danças Tradição Cigana, o evento contou com um cine-debate que exibiu o filme “Caminhos Ciganos” e dois episódios da websérie “Diva e As Calins de Mato Grosso”: episódio 1 Mestra Diva e episódio água Terezinha Alves.

Falando em nome da AEEC-MT, Nilva Rodrigues, que é coordenadora de mulheres da instituição reforçou algumas questões centrais acerca da cultura, das tradições, da identidade do tronco étnico Calon, bem como destacou o combate ao preconceito e ao racismo.

"Eu estou muito feliz com a escola que promove esse projeto, inspirado pela minha prima Selma. Parabéns para todos os alunos e alunas que estão aqui aprendendo mais sobre respeito, cidadania e uma cultura tradicional. Graças a Deus, nós ciganos, em Mato Grosso, deixamos de ser nômades e na segunda geração temos professores, jornalista, advogados, enfermeiros e muitas pessoas ciganas formadas, que alcançaram a educação superior".

Veja no vídeo o discurso de Nilva na íntegra:

 

De acordo com Selma Ribeiro, o público do projeto são os alunos do ensino fundamental II e ensino médio. Segundo ela, o objetivo geral do projeto é proporcionar aos alunos o contato com a história, tradições e lutas dos povos ciganos, destacando sua presença em Mato Grosso.

Além disso, o projeto teve como objetivos compreender a trajetória nômade e a fixação das comunidades em MT; valorizar o papel da mulher cigana (Calin) na preservação da cultura e na conquista de espaços acadêmicos e políticosç; e estimular o pensamento crítico sobre os direitos das comunidades tradicionais.

“O Dia Nacional do Povo Cigano (24 de maio) é uma oportunidade para desconstruir estereótipos e combater o preconceito histórico contra as etnias ciganas. Ao focar em figuras locais, como Mestra Diva e Terezinha Alves, o projeto humaniza a história, conectando o conteúdo acadêmico à realidade do estado de Mato Grosso e promovendo a educação para a diversidade e igualdade racial”, explica Selma, ao acrescentar que:

“Em Guiratinga, não poderia ser diferente, poderemos contar com a participação e mostrar da diversidade cultural destes povos através do grupo Tradição Cigana de Rondonópolis com danças típicas, o dialeto, as vestimentas, na etnobotânica, nos fitoterápicos, na transformação de metais como tachos de cobre, contribuição essencial ao comercio entre tantas outras contribuições”, finaliza Selma.


domingo, 17 de maio de 2026

Projeto Lacho Drom celebra dia nacional dos povos ciganos com monólogo de Taty Iovanovitch

Projeto Latcho Drom conta com peça protagonizada por Tatiane Iovanovitch e palestras que buscam valorizar e ressignificar a cultura cigana em homenagem ao maio cigano. Foto: Assessoria.

No dia 24 de maio é celebrado o Dia Nacional dos Povos Ciganos. Instituída há cerca de 20 anos, a data busca valorizar a cultura de um povo que faz parte da história do Brasil, mas que ainda hoje enfrenta invisibilidade, preconceitos e estigmas sociais. E para quebrar esses paradigmas, Curitiba recebe o projeto Latcho Drom, que na língua romani significa boa jornada e que, por meio de ações culturais trará a Curitiba uma série de atividades culturais gratuitas de 19 de maio a 4 de junho.

Na programação, o público poderá conferir um espetáculo solo protagonizado pela atriz Tatiane Iovanovitch, filha de um dos principais ativistas da causa cigana e um dos nomes mais representativos da cultura no Paraná, Cláudio Domingos Iovanovitch, falecido em março de 2025.

O espetáculo Paramitcha Calipe – dos Jazigos aos Berços, que tem dramaturgia coletiva, direção de Neiva Camargo e concepção cênica de Pedro Almeida, propõe um olhar íntimo, político e sensível sobre a realidade das mulheres ciganas no Brasil.

A peça, que será apresentada em duas temporadas, revisita memórias pessoais, experiências de violência, pertencimento e identidade para discutir os desafios enfrentados dentro e fora da comunidade cigana.

A montagem nasce do legado de Cláudio Domingos Iovanovitch, que idealizou inicialmente o projeto. Filha única do ativista, Tatiane decidiu levar a proposta adiante como forma de preservar a memória do pai e ampliar o debate sobre invisibilidade e representatividade dos povos ciganos. 

“Nós, povos ciganos, falamos pouco sobre nós mesmos. E o projeto e o espetáculo propõem justamente isso: uma perspectiva cigana sobre o nosso povo e a nossa cultura”, afirma a atriz.

Muito além do imaginário popular

Além do monólogo, o projeto traz também palestras com nomes da cultura cigana das mais diferentes áreas, com pesquisadores, artistas e ativistas da cultura cigana, como é o caso da palestra com o cigano da etnia Calon Aluízio de Azevedo Silva Júnior, que é doutor em Comunicação e Saúde dos Povos Ciganos de Brasil e Portugal pela Fiocruz. “Queremos ampliar esse debate e mostrar o quanto os povos ciganos contribuíram para a formação do povo brasileiro”, afirma Tatiane.

Ainda, o jornalista e artista Roy Rogeres Fernandes Filho, que pesquisa a participação da cultura cigana na arte circense brasileira e a ativista Hayanne Iovanovicth, idealizadora do projeto Museu Cigano Virtual Romano, estarão presentes na programação, que está distribuída em Santa Felicidade e no Memorial de Curitiba.

Mais do que reforçar imagens folclorizadas normalmente associadas aos povos ciganos, o projeto aposta na reflexão. “Estamos falando de uma programação muito longe daquele imaginário popular, ou seja, o público não vai encontrar dança e música o tempo inteiro. O monólogo, por exemplo, é sobre escuta, memória, silenciamento e realidade, e os debates querem trazer conhecimento ao público”, explica Tatiane.

A proposta é ampliar o diálogo com o público sobre identidade, preconceito e apagamento cultural. “A gente espera que o público venha com o coração aberto para entender um pouco mais dessa cultura”, finaliza.

Serviço:

PROGRAMAÇÃO do Pojeto Latcho Drom

Datas:

👉🏼19 a  21 de maio às 21h

Apresentações do espetáculo Paramitcha Calipe – dos Jazigos aos Berços, por Tatiane Iovanovitchi no Teatro do Espaço da Criança em Santa Felicidade

Rua Domingos Strapasson, 620

👉🏼1 a 4 de junho

Palestras sobre a cultura cigana no Teatro do Memorial de Curitiba

R. Dr. Claudino dos Santos, 79 - São Francisco

👉🏼30 de maio a 4 de junho às 21h

Apresentações do Espetáculo Paramitcha Calipe – dos Jazigos aos Berços por Tatiane Iovanovitchi no Teatro do Memorial de Curitiba.

Rua Doutor Claudino dos Santos, 79 - São Francisco, Curitiba - PR

🎫INGRESSOS GRATUITOS e disponíveis em: https://www.sympla.com.br/evento/paramitcha-calipe-dos-jazigos-aos-bercos/3424871?share_id=copiarlink

Saiba mais:https://www.instagram.com/paramitchacalipe?igsh=MWh6czNubzcxZmZpbA==

terça-feira, 3 de junho de 2025

III Encontro de Mulheres Ciganas de Mato grosso

Evento reuniu mulheres de cinco cidades de MT e três convidadas dos Estados de Goiás, São Paulo e Bahia

Cerca de 130 pessoas, das quais em torno de 80 mulheres ciganas, do tronco étnico Calon que vivem em diversas cidades do Estado, como Rondonópolis, Cuiabá e Várzea Grande, participaram nos  dias 23 e 24  de maio, em Tangará da Serra (a 240 km de Cuiabá) do “III Encontro de Mulheres Ciganas de Mato Grosso: medicina Calon, cerrado e (in)justiças climáticas”.

Realizado pela Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), o evento ocorre marcando o Dia Nacional dos Ciganos, comemorado desde 2006 a todo 24 de maio. A ação integra as programações paralelas realizadas pela associação durante todo o mês, denominada “ V Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso - Maio Cigano”, que também integra outras ações, como a Mostra de Audiovisual Calon Lachon, a Assembleia Geral da AEEC-MT 2025, que ocorrem na mesma data e mais o dia 25 de maio.

Neste ano, o Encontro de Mulheres tem financiamento do Fundo Casa Socioambiental, por meio de seleção na Chamada de projetos “Resiliência Climática e Equidade de Gênero: Fortalecendo Comunidades para Promoção da Inclusão e Diversidade” e apoio da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES/MT).

Além de contar com a participação de mulheres ciganas vindas de vários municípios mato-grossenses, a novidade é que o Encontro também terá a presença de algumas convidadas especiais do movimento cigano nacional.

Participaram do Encontro em Tangará: a Conselheira Nacional de Igualdade Racial representando os povos ciganos, Edvalda Bispo dos Santos; a integrante do Coletivo Ciganagens e advogada, Sara Macedo e a coordenadora da Roda Cigana Rede Humanitária, Lourdes Corrêa, que também é representante dos povos Rom no Comitê Nacional de Acompanhamento do Plano Nacional de Políticas Públicas para Povos Ciganos do Ministério da Igualdade Racial (MIR).

O encontro contou a presença de uma comitiva da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT), composta por três técnicos: dois do Grupo Técnico de Equidade da pasta, Milton Fleury e Dr. Foguinho e a representante da Escola de Saúde Pública (ESP) da SES/MT, Rita Meurer. Também contou com a participação do presidente do Conselho Estadual de Igualdade Racial de MT (CEPIR/MT), Manoel Silva.


De acordo com a presidente da AEEC-MT, Rosana Cristina Alves de Matos Cruz, “o objetivo é promover tanto um intercâmbio intergeracional, entre mulheres ciganas de diferentes idades, mas especialmente, promovendo a conexão entre as jovens e as velhas, quanto um intercâmbio entre mulheres ciganas de diferentes cidades e Estados”.

“Também buscamos com o encontro fortalecer a formação política pela inclusão das mulheres ciganas e suas lutas e demandas, que incluem a promoção da justiça climática e ambiental. Ao final do evento queremos elaborar uma carta das mulheres ciganas em defesa do Cerrado e da manutenção das tradições ciganas”, explica Rosana.

Programação – O Encontro de Mulheres Ciganas de MT trará nesta edição duas temáticas principais: a primeira delas será as questões climáticas e ambientais, que estão diretamente ligadas à segunda, a medicina tradicional Calon e à saúde das mulheres ciganas.

Um dos pontos altos do evento, foi a oficina promovida pela Mestra da Cultura Mato-grossense, a raizeira e benzedeira, Maria Divina Cabral, a Mestra Diva, “preparando uma garrafada para a saúde da mulher".

Além disso, o evento teve uma intensa programação cultural, composta pela vivência de dança "Saia Cigana", ministrada pela Calin Sara Macedo e exclusiva para mulheres; bem como a oficina de circo e teatro para as 20 crianças que participaram do evento.

O encontro contou ainda com o lançamento de produções audiovisuais inéditas, sendo uma delas, a minissérie “Luzia e As Calins do Cerrado”, cujo foco são as mulheres ciganas que vivem no Cerrado, especialmente, nos Estados de Mato Grosso e Goiás.

Participação - Uma das produtoras locais do III Encontro de Mulheres Ciganas de MT, Aldi Rodrigues Angola, comentou que "foi bem emocionante ver a minha família chegar de outros municípios de MT, contemplar, ficar junto, comemorar a vida, duas tias estavam fazendo aniversário". 

"É bom reencontrar as pessoas que compartilham da mesma etnia que você, é muito importante, porque o preconceito é bastante, então, quando a gente vê as pessoas da nossa família, é um aconchego, me senti muito feliz. Nós teremos algumas pessoas importantes que irá nos visitar e ver o movimento dos ciganos. É também um encontro político, para buscar melhoria para nossas comunidades", destacou Aldi.

Segundo Lourdes Corrêa, uma das coisas que mais impressionou foi o respeito as pessoas mais velhas. "Achei bem interessante a reunião da família, a questão do respeito, principalmente, no que se refere a questões de religiões diversas convivendo harmonicamente, de estar se resgatando a questão cultural, como as vestimentas, as danças ciganas, a Chibe e outras manifestações. Achei muito importante também a participação dos mais velhos, das matriarcas ciganas e o respeito as histórias de vidas e conhecimentos daqueles que mais viveram e mais têm a compartilhar".

Já a estudante de enfermagem, Simone Carla Rodrigues de Oliveira, também foi uma oportunidade para trazer visibilidade aos povos ciganos. 

"Para mim foi muito bom, até porque já tinha muito tempo que eu não via alguns de meus parentes, nem me lembrava de alguns deles e nem é tão longe, porque Rondonópolis é bem ali, só cinco horas de viagem. Só que a rotina, o dia a dia da gente nunca permite que nós consigamos visitá-los ou vice-versa. E também para dar um pouco mais de visibilidade para os ciganos, porque nós somos povos esquecidos", enfatizou simone.

Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

Fotos: Maria Clara Aquino


 

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Ativismo cigano desafia estigmas e busca visibilidade e políticas públicas

Por Escola de Ativismo

Ativistas ciganas Sara Macedo e Hayanne Iovanovitchi, do Coletivo Ciganagens, falam sobre o movimento de luta e dos desafios dessa população na busca por um mundo mais justo para suas comunidades

A arte e os povos ciganos estão totalmente imbricados”. É assim que Sara Macedo, cigana da etnia Calón e artivista, descreve a riqueza cigana que, mesmo diante de tantas injustiças e silenciamento, seguem mantendo suas culturas, modos de vida e oralidade forte e orgânica. Nos territórios cheios de afeto ou nas estradas, os povos ciganos lutam por políticas públicas enquanto reafirmam que existir e resistir são atos políticos de coragem e amor.

Mas você já ouviu falar sobre os povos ciganos? O que você sabe sobre essa população presente em tantas partes do Brasil e do mundo? Já parou para pensar que talvez o que você “conheça” seja  parte dos estereótipos criados e espalhados de forma preconceituosa? Ou já pensou no motivo de você ouvir falar tão pouco sobre essa população?  

Lideranças ciganas afirmam que o preconceito, a falta de informações e de ações das autoridades impedem o conhecimento pleno sobre esses povos e deixam essas comunidades sem acesso a serviços públicos de qualidade, que respeitem suas especificidades e modos de vida. Os impactos geram violações de direitos, violências e um movimento de apagamento dos povos que são fontes inesgotáveis de cultura e diversidade.

Quem são os povos ciganos?

Os povos ciganos fazem parte do grupo de Povos e Comunidades Tradicionais reconhecidos nacionalmente, assim como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e tantos outros. Comunidades tradicionais são grupos que mantêm modos de vida próprios, conectados com seus territórios, saberes ancestrais e formas coletivas de organização. O Decreto  Nº 6.040, DE 7 DE FEVEREIRO DE 2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, define essas comunidades como “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição”. 

Na teoria, os direitos das comunidades tradicionais são protegidos por uma série de normas, incluindo a Constituição Federal, Convenções Internacionais, leis e decretos. Estes direitos abrangem aspectos como igualdade, não discriminação, acesso à terra e território, educação intercultural, segurança alimentar e nutricional e participação nas decisões que afetam seus interesses. Mas na prática, essas comunidades enfrentam desafios históricos, como a negação de direitos, a violência territorial e a invisibilidade nas políticas públicas.

A cigana Sara Macedo, que também é assessora jurídica popular, bailarina e escritora, conta que “cigano é etnia”, mas também é, “pertencimento, reconhecimento mútuo e comunidade”. Essa relação se mantém firme mesmo diante de tantos estereótipos e discriminações. A jovem diz que um dos grandes desafios para os povos ciganos no Brasil é mostrar sua diversidade e romper com a falsa ideia de como os brasileiros pensam os povos ciganos de forma homogênea. 

“As comunidades ciganas representam um universo marcado pela simbiose ou oposição entre a identidade cultural supranacional e as identidades locais, regionais e de parentalidade em ambientes multiculturais, sejam itinerantes, ou sedentários, em territórios únicos, devido a nossa singularidade. Há tantas particularidades, que uma pessoa cigana de apenas uma etnia e de um território não poderia responder. Se formos pensar por meio da característica étnica supranacional, isso dá o indicativo do tom que devemos ser pensados. Línguas e sub línguas regionalizadas, a oralidade como um preceito muito forte do cigano brasileiro, proibindo a divulgação de nossas línguas como forma de proteção interna, é outro exemplo dessas particularidades”, afirma. Sara ao chamar atenção para a pluralidade dessas comunidades e etnias.

Mesmo diante das injustiças e quase total invisibilidade, os povos ciganos resistem.

Coletivo Ciganagens

E foi com o objetivo de formar uma rede de apoio mútuo que um grupo de ativistas ciganos criou o Coletivo Ciganagens. Além de fortalecer ações e narrativas ciganas, o grupo leva informação, arte, educação e atua em prol dos direitos dos Povos Ciganos no Brasil de forma sempre pautada pelo ativismo anticolonial, antirracista e antissexista, bem como pela via da integração LGBTQIAPN+.

Sara é uma das integrantes do Coletivo. Ela conta que o grupo surgiu em 2020, durante a pandemia do coronavírus, e segue produzindo e divulgando materiais educativos que somam na luta ativista cigana, como guias e cartilhas sobre diversidade, arte, juventude e mulheres.

A artivista explica que é importante poder contar as histórias sobre povos ciganos com pessoas ciganas sendo protagonistas. “Sempre tive vontade, desde criança, de mudar minha história familiar e comunitária, criar outra narrativa, não me transformar no que a sociedade não-cigana diz da gente. É muito perigoso entrar nessa estrada da assimilação e começar a repetir que as coisas são assim e que nada pode mudar… Ainda mais pra um povo tão associado à resiliência. O coletivo Ciganagens é essa vontade de não caminhar por essa estrada”.

Sara afirma que o Coletivo Ciganagens aborda vários temas. “Desde denúncias relacionadas a tragédias nas comunidades, memoriais de nossas datas, divulgação de vitórias ciganas, materiais educativos, construção de audiovisuais, dança, artes visuais… Enfim, de tudo um pouco, porque infelizmente é necessário, somos um povo altamente desconhecido no Brasil”. 

Invisibilidade cigana e negação de direitos

No Brasil, os povos ciganos enfrentam várias invisibilidades, incluindo a estatística. A falta de dados oficiais sobre a população cigana é uma das barreiras para o acesso a direitos. Por isso, uma das principais reivindicações desses povos é a inclusão no Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como grupo étnico específico e com a devida contabilização da sua população total.

Sara informa que essa reivindicação é feita desde o começo do século 21 e que o Ministério Público Federal já recomendou que essa contagem seja realizada. “As pesquisas servem para garantir o acesso desta população brasileira aos serviços públicos da área de saúde, educação, trabalho e segurança, bem como para o enfrentamento ao racismo institucional, ao preconceito e à discriminação”, destaca a recomendação.

“Um povo que sequer é contabilizado no território, não tem como ter verba destinada. Ser reconhecido no Estado tem muito haver com quem tem direito à cidadania, e quem não tem”, disse Sara. 

A ativista no movimento cigano Hayanne Iovanovitchi diz que as reivindicações dos povos ciganos perpassam todos os direitos fundamentais. “Ainda hoje o acesso é negado para muitos de nós. Queremos acessá-los como todos os cidadãos brasileiros, mas que nossas especificidades sejam consideradas. Nossas demandas envolvem educação, saúde, cultura, segurança pública, território, pois nossas tradições devem ser consideradas para que consigamos acessar esses direitos dentro da nossa realidade”, explicou. 

Para ela, é urgente dar visibilidade e soluções às lutas e reivindicações dessa população. “Houve uma evolução “pro form” – por formalidade – , os povos ciganos estão sendo colocados em projetos de governo e planos próprios, no entanto, nada muda nas dificuldades enfrentadas. Continuamos vivendo por nossa própria conta e risco.  Os povos ciganos precisam ser realmente enxergados por parte da estrutura para que sejam inclusos e suas especificidades sejam consideradas em cargos de tomada de decisão”, disse Hayanne. 

Desconstruindo estereótipos

Além da invisibilidade e negação de direitos, as comunidades ciganas no Brasil ainda enfrentam as barreiras dos rótulos, generalizações, invenções e estereótipos.  As imagens construídas para justificar exclusões e as narrativas distorcidas reforçam políticas de apagamento, dificultam a inclusão em políticas públicas e alimentam o preconceito cotidiano.

“Só existe, praticamente, o estereótipo cigano. O cigano que é conhecido por uma gigantesca parte das pessoas é o estereótipo e a fantasia, construído por pessoas não ciganas, que sobrevivem de práticas chamadas de “esotéricas” ou “exóticas”. Esse estereótipo gera muito dinheiro no Brasil, principalmente para pessoas que sequer conhecem ciganos de verdade, justificados num ‘misticismo recreativo’”, disse Sara Macedo. 

A situação faz com que o movimento cigano precise concentrar forças em mais um campo de enfrentamento. 

“Infelizmente grande parte de nosso ativismo que deveria estar concentrado em outras pautas, está em combater esse véu das mistificações, chegando ao ponto de perguntarem a pessoas da etnia, porque não nos vestimos igual ao ‘ciganos piratas’. É um trabalho cansativo e que não vemos fim. Cigano não é religião, nem um culto, e não há como ser batizado para se tornar um membro da comunidade. Cigano é etnia, pertencimento, reconhecimento mútuo e comunidade”, explicou. 

A ativista diz que um dos grandes estereótipos é de que os povos ciganos vivem de forma itinerante por critérios culturais e de escolha, uma realidade muito distante da materialidade atual do mundo e da vida dessa população. 

“Hoje no Brasil, praticamente somente a minha etnia, Calón, sobrevive de forma itinerante, ou semi itinerante. Estima-se que 20% dos Calón ainda estão na estrada. Categorizar todas as etnias ciganas como nômades é negar todas as complexidades do mundo que estamos inseridos. Um mundo que expulsa e desterritorializa pessoas por conta de sua racialidade e etnia, assim como da falta de condições materiais, naturais e climáticas para sobreviver como nossos antepassados”, disse Sara.

A ativista e bailarina explica que sedentarizar [fixar residência num determinado lugar] acaba sendo um destino da maioria dos ciganos porque não existem boas condições de estar no trecho, ainda que alguns ainda estejam. “É uma tradição que segundo os mais antigos, tem haver com o trânsito de estar com todos os primos, rotacionar a terra, acesso a novos alimentos, convivência com outras culturas e permanência onde somos bem vindos. Também tem haver com uma veia muito não proprietária, o que acaba gerando outros problemas no presente, como não ter onde sobreviver dignamente, para muitos ciganos que vivem em comunidade. Sei que os indígenas também já viveram assim, e o aldeamento que hoje é bastante defendido para manter as suas existências, também foi uma imposição institucional. Modos de vida diversos são sempre desrespeitados, e há que se lutar muito para não esquecer o que é nosso, e o que não é”. 

O movimento ativista cigano afirma que desconstruir os estereótipos é responsabilidade coletiva e que esse é um passo essencial para construir uma sociedade que respeite todas as formas de existir em diferentes territórios. Há muita luta pela frente. Esse enfrentamento pode gerar um mundo mais justo para as pessoas ciganas. 

“Precisamos de mais de nós dentro da universidade, dos espaços de tomada de decisão e dos espaços de pesquisa. Queremos falar de nós e para nós e queremos que entendam que somos capazes e não precisamos de tutela alguma, conseguimos caminhar com nossas próprias pernas. Precisamos de oportunidades, que nossa existência seja reconhecida e valorizada, pois a formação desse país tem muito de nosso sangue e suor”, finalizou a ativista Hayanne Iovanovitchi. 

Disponível em: https://escoladeativismo.org.br/ativismo-cigano-desafia-estigmas-e-busca-visibilidade-e-politicas-publicas/

Ciganos cobram inclusão no Censo e mais acesso a políticas públicas

Estimativa é que no Brasil haja de 800 mil a 1 milhão de ciganos

Letycia Bond - Repórter da Agência Brasil

Publicado em 24/05/2025 - 10:21 - São Paulo

Um povo que resiste, que carrega na memória séculos de diáspora e perseguição, mas também de cultura, tradição e luta pela autodeterminação. Assim é o povo romani — ou povos ciganos —, composto principalmente pelas etnias calon, rom e sinti, que integra a diversidade dos povos tradicionais do Brasil.

Mesmo com esse legado, o povo romani segue entre os grupos mais invisibilizados do país, apontando pouca presença no debate público e nas políticas públicas. Como outros povos tradicionais, reivindica direitos básicos, como moradia digna, acesso à educação e ao trabalho.

A série de reportagens Invisíveis do Brasil, da Agência Brasil, publicada por ocasião do Dia Nacional do Cigano (24 de maio), amplia a voz dessas lideranças e revela as principais demandas e desafios enfrentados pelo movimento romani no país. O dia foi instituído em 2006, por meio de decreto presidencial, em homenagem ao povo romani e à sua padroeira, Santa Sara Kali.

Estima-se que, no Brasil, a população cigana (também conhecida como romani) seja de 800 mil a 1 milhão de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O povo romani tem uma história de diáspora, higienização étnica, genocídio e perseguição, inclusive, pelos nazistas. Um dos 28 povos tradicionais relacionados no Decreto nº 8.750/2016, os ciganos habitam o Brasil pelo menos desde 1574, ano em que o primeiro calon, João Torres, chegou ao país com a esposa e os filhos, vindo de Portugal.

Em 1686, o país começou a deportar ciganos para o Brasil. Documentos portugueses datados daquele ano registram que eles deveriam ser degredados para o Maranhão. Antes, eram levados somente para as colônias africanas.

O multiartista, pesquisador, ativista, jornalista e produtor cultural Aluízio de Azevedo destaca que as pessoas de sua etnia, a calon, sempre tiveram uma ligação com a Península Ibérica, ainda que não fossem de lá. Ele tem a clareza de que as manifestações de repulsa que os colonizadores do Brasil direcionavam aos calon eram reproduzidas no trato com as outras etnias.

"Portugal e Espanha sempre rejeitaram muito os ciganos e os proibiam de falar a sua língua, de praticar ofícios tradicionais, como a leitura de mãos, de uma série de coisas. Por exemplo, de ficar mais de 48 horas em um mesmo lugar. Daí o nomadismo ser uma coisa um pouco forçada. E as penas eram degredo para seu país e suas colônias", explica.

Segundo Azevedo, por três séculos, Portugal conservou a postura de repelir esses povos. "Além dessas políticas persecutórias e colonialistas que Portugal fez, chegando ao Brasil, o Brasil seguia as mesmas regras, porque era uma colônia portuguesa. Era Portugal quem mandava. E, depois, isso permaneceu no Estado brasileiro, quando ele se liberta administrativa e politicamente de Portugal. Continua com o modus operandi", observa.

"Durante séculos, o Estado brasileiro foi muito mau com os ciganos, foi muito ruim. Inclusive, ocorreram episódios que ficaram conhecidos como as correrias ciganas, que era a polícia invadir acampamento, matar todo mundo e provocar a correria de todo mundo em fuga", emenda.

"Isso aconteceu até muito recentemente, com mais força até a década de 1970, mas ainda acontece", completa Aluízio de Azevedo.

No Brasil, entre os problemas ainda enfrentados por essa parcela da população estão o racismo, o preconceito e a falta de acesso a políticas públicas específicas, como apontam lideranças ciganas entrevistadas pela Agência Brasil.

"Sempre o racismo, o preconceito e a discriminação têm nos distanciado de acessarmos as oportunidades e feito uma diferença entre nós e a sociedade em geral. Nosso sangue é vermelho, igual ao dos outros, também sentimos fome, sede, dor, alegria, paixão. Somos seres humanos comuns, iguais a todos", diz o presidente administrativo da Associação Nacional das Etnias Ciganas (Anec), o calon Wanderley da Rocha.

O fundador da Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci), Claudio Iovanovitchi, rom do Paraná, argumenta que o povo romani não está pedindo nada excepcional. "Não queremos inventar a roda, o fogo, novos caminhos para as Índias, coisas diferentes. Não é isso. Queremos o que já existe: o acesso à educação, à escola, à saúde, à habitação. Tudo que queremos já existe. Respeitando as especificidades dos ciganos", pontua.

"Eu não quero gueto. Não quero gueto na escola. Quero que meu ciganinho seja bem-vindo na escola, com professores preparados", declara.

Em um de seus artigos científicos, intitulado A incriminação pela Diferença, o pesquisador Felipe Berocan Veiga pontua que "os ciganos ora são vistos como uma sobrevivência ou um arcaísmo, ora como uma recorrente ameaça".

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), ele explica que a aversão ao povo romani tem "raízes profundas no imaginário, na iconografia, na literatura e nos contos populares", que acabam ativando "medos infantis e evitações inconscientes". E que estes, por sua vez, são capazes de aguçar os mais intolerantes a cometer atos de "violência mais explícita" contra membros de suas comunidades.

Desde o século 16, os povos ciganos ainda pleiteiam a contagem atualizada da população e a vigência do Estatuto dos Povos Ciganos, a ser criado por meio de projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional. Atualmente, a matéria (Projeto de Lei nº 1.387/22) está parada na Câmara dos Deputados.

Apresentado pelo senador Paulo Paim (PT-RS), o projeto já foi aprovado na Casa e é considerado imprescindível pelas lideranças porque obrigaria o Estado a cumprir seus deveres para com os ciganos.

Plano Nacional

Em agosto de 2024, o governo federal instituiu o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos, que engloba ações previstas para serem implementadas no período de 2024 a 2027 e oficializa a criação de seu comitê gestor. Com o Decreto 12.128/24, o Brasil se tornou o segundo país do mundo a lançar uma política nacional voltada estritamente para o povo romani.

Ao todo, o plano foi estruturado em dez objetivos, que envolvem combate ao anticiganismo, reconhecimento da territorialidade própria dos povos ciganos, direito à cidade, educação, saúde, documentação civil básica, segurança e soberania alimentar, trabalho, emprego e renda e valorização da cultura.

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-05/ciganos-cobram-inclusao-no-censo-e-acesso-politicas-publicas