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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Ancestralidade Viva: Maria Lucia Rodrigues Cunha - O tempo que a gente É!

Maria Lucia com os filhos Simone e Uilton. Foto de arquivo.

Sétima e última filha de Alda Alves Cunha e Ranulfo Rodrigues Cunha, Maria Lucia Rodrigues Cunha Nasceu em 01 de setembro de 1966 em Poxoreu, no sul de Mato Grosso.

Sempre muito orgulhosa em ser cigana, Lúcia como era mais conhecida na família, viveu parte da infância na vida tradicional cigana, de barraca, até que os pais e o seu grupo se mudou e fixou residência no município de Tangará da Serra, então ainda Distrito de Barra do Bugres, no ano de 1972.

No local, conheceu seu marido, Clarito Pereira, com quem teve três filhos, Uilton, Simone e Zezinho (in memorian), além de sete netos:

Kaiky Batista Rodrigues, kayo Eduardo Batista Oliveira, Vitor Hugo Rodrigues Borges, Joaquim Henrique Rodrigues Borges, Kauan Eduardo Fagundes oliveira, Maria Eduarda Fagundes oliveira e Anna Maria Rodrigues Brito.

Lucia e as irmãs Irandi, Nilva, Zilma e Orceni. Foto de Arquivo.

Versada na chibe, a língua dos Calon, Maria Lúcia era muito prendada na cozinha, com um tempero único que herdou da mãe Alda. Carinhosa e amorosa, herdou dos tios o traço da negociação e era uma verdadeira gambireira, de carros, de móveis, imóveis e o que aparecesse em suas mãos.

Sempre estava presente nas reuniões de família, sendo uma das primeiras a chegar e uma das últimas a sair. Tinha uma voz mansa, suave e sempre num tom baixo, que encantava qualquer um que a ouvia e raramente saia do sério ou ficava brava. Foi uma irmã e uma filha muito presente na vida dos pais e dos seis irmãos, especialmente, do mais novo, Ranulfinho.

Um dos seus lazeres favoritos era jogar baralho (truco, pife, bisca e qualquer outro jogo), além de dominó e fazer a fé num bingo. Também adorava pescar e sempre que podia estava na beira de um rio e da natureza. Outra paixão era a música sertaneja, com cantores como Amado Batista, Gino e Geno e Roberta Miranda.

Maria Lúcia faleceu no dia 19 de fevereiro de 2023, em decorrência da complicação de um câncer de pulmão e não tivemos tempo de fazer uma homenagem a ela enquanto viva, então, a AEEC-MT encerra a campanha Ancestralidade Viva – O tempo que a Gente É! Deste ano com uma homenagem póstuma à Lucia, com algumas fotos da família, cedidas pelos filhos Simone e Uilton.

Também postamos um vídeo com ela pescando, uma das coisas que mais gostava de fazer.

Viva Maria Lucia Rodrigues Cunha – Ancestralidade Viva!

TEXTO: ALUÍZIO DE AZEVEDO

terça-feira, 2 de junho de 2026

Ancestralidade Viva: Orceni Rodrigues Angola - O Tempo que a gente É!

Orceni Rodrigues Angola tem 65 anos e nasceu em 22/05/1961, em Guiratinga, Mato Grosso. De família cigana, passou a infância acompanhando os pais em mudanças e viagens a cavalo pelo interior. Em determinado período, a família viveu em Rio Verde, onde os pais trabalhavam na produção de arroz e milho. Enquanto os pais e a irmã mais velha trabalhavam na lavoura, Orceni ajudava nos afazeres domésticos ao lado da irmã caçula.

Mais tarde, o pai vendeu as terras que possuía e a família se mudou para Tangará da Serra. Após a mudança, ele comprou um ônibus e passou a trabalhar com transporte de passageiros. Foi nesse período que Orceni iniciou os estudos, mas não concluiu a formação escolar porque se casou jovem com Daniel.

Do casamento nasceram três filhos: Fernando, Aldinéia e Adriana. Ao longo dos anos, a família também cresceu com a chegada dos netos Maria Clara, Isabela, Vitória e Samuel. Para contribuir com a renda da casa, Orceni trabalhou em serviços domésticos e na venda de produtos como cosméticos e enxovais, enquanto o marido trabalhava em fazendas da região.



Ela afirma que sempre soube de sua origem cigana, pois os pais falavam sobre isso dentro de casa. No entanto, durante muitos anos evitou comentar sua identidade por receio do preconceito. Era comum que os ciganos fossem alvo de críticas e julgamentos. Com o passar do tempo, passou a falar mais abertamente sobre suas origens: “Hoje temos mais liberdade para falar sobre quem somos e mostrar nossa história”.

Com sua mãe, aprendeu a preparar doces, requeijão e diversos pratos tradicionais. Até hoje participa do preparo de alimentos em eventos da comunidade cigana, contribuindo com receitas transmitidas entre gerações, como o arroz com carne seca e pequi, mandioca, frango e diversos doces. Quem prova, derrama elogios a ela.

Ao recordar a infância, também menciona as viagens realizadas com os pais, avós e tios. Andavam a cavalo e ao se instalar, sua mãe preparava uma pequena fogueira para cozinhar nas barracas, enquanto seu pai fazia negócios. Ela e sua irmã Nilva carregavam os pertences, com tempo para também brincar e correr. São memórias que guarda com amor.

Foram tempos difíceis, mas também tempos de muitas boas lembranças para Orceni. Hoje ela olha para trás com gratidão por tudo o que viveu e por toda a história que sua família construiu.

No Ancestralidade Viva de hoje, conheça a história de Orceni Rodrigues!

TEXTO: LÍVIA FREIRE

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ancestralidade Viva: Olga Alves de Matos - O tempo que a gente É!

Olga é um baluarte da cultura cigana em Cuiabá. Foto: Jeomara Viegas.

Olga Alves Pereira de Matos é filha de um cigano e de uma não cigana e viveu os primeiros anos da infância acompanhando a rotina itinerante da família. Naquele período, seu pai trabalhava com a compra, venda e troca de animais, levando a família por diferentes regiões até se estabelecerem em Mato Grosso. Criada em Guiratinga, mais tarde mudou-se para Cuiabá aos 18 anos, cidade onde vive até hoje,.

Ao lado das irmãs, trabalhou como empregada doméstica e, posteriormente, encontrou no bordado uma nova profissão após realizar um curso na área. Passou a atuar em uma fábrica de uniformes, atividade que considera uma etapa importante de sua vida.

Foi também na igreja que encontrou outro dos grandes pilares de sua história. Membro da Assembleia de Deus desde a infância, conheceu seu esposo, Adonias José de Matos, no coral da congregação. Os dois se aproximaram por meio das atividades da igreja e construíram uma união duradoura, formando uma família com os filhos Rosana e Raul.

Olga durante o VI Encontro de Cultura Cigana de MT, em Rondonópolis. Foto: Tami Lage

Olga descreve sua vida como abençoada. Recorda com carinho o esforço dos pais para garantir o sustento da família e destaca o cuidado do marido ao longo dos anos. Para ela, a convivência familiar sempre foi uma das suas maiores riquezas.

Entre as lembranças mais difíceis está a perda do neto Renato Vitor, falecido aos 18 anos em um acidente de moto. Mesmo diante da dor, encontrou na fé a força para seguir em frente. Segundo ela, foi Deus quem lhe deu paz nos momentos mais difíceis e a ajudou a transformar a angústia em esperança.

De sua herança cigana, guarda principalmente o valor da união familiar. Embora muitas tradições tenham se transformado ao longo das gerações, ela acredita que o amor entre os parentes e o gosto por reunir a família permanecem. Por isso, considera importantes os Encontros de Cultura Cigana, que ajudam a combater preconceitos ainda existentes.

Irandi, Olga, Coraci, Luzia e Cida: matriarcas da comunidade Calon de MT. Foto: Tami Lage

Quem convive com Olga logo percebe uma de suas características mais marcantes: a tranquilidade. Ela se define como uma pessoa de fácil convivência, que evita conflitos e prefere refletir antes de responder. Essa postura, segundo ela, acompanha sua vida desde a infância e é algo de que se orgulha.

Hoje, mesmo convivendo com o Parkinson, que afetou sua voz e parte de sua rotina, Olga segue participando da vida da igreja, acompanhando os encontros da comunidade e valorizando os momentos ao lado da família. Com gratidão, resume sua caminhada de forma simples: uma vida guiada pela fé, pelo amor e pela certeza de que foi cuidada por Deus em todos os momentos.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

domingo, 31 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Francisca e Francisco Pereira - O Tempo que a gente É!

Francisco de Assis Santos nasceu em Bambuí, Minas Gerais, no dia 18 de outubro de 1953. Ainda jovem, aos 17 anos, deixou sua terra natal e veio para Mato Grosso, estado onde construiu sua vida e permanece até hoje. Trabalhador dedicado, iniciou sua carreira na zona rural. Mais tarde, mudou-se para a cidade, onde trabalhou por 23 anos na empresa Comercial Rio Negro.

Foi em Mato Grosso, na região de Guiratinga e Beira Rio, que Francisco conheceu Francisca Pereira dos Santos, nascida em 16 de outubro de 1956, em Guiratinga, Mato Grosso.

Filha de José Alves Pereira e Isaura Cabral, Francisca cresceu vivendo a tradição cigana ao lado de sua família. Até os 15 anos, viveu viajando com os pais, acompanhando a rotina cigana, até que seu pai comprou um sítio e a família passou a viver no interior.

Ela relembra que, por conta das dificuldades da época e da vida itinerante, não teve oportunidade de estudar, mas aprendeu desde cedo o valor do trabalho e da união familiar.

Foi nesse contexto que Francisco encontrou Francisca. Depois do casamento, passaram a viver em Rondonópolis, onde construíram a família. Casados há mais de 42 anos, Francisco e Francisca tiveram dois filhos, Antony e João Miguel. Ambos se formaram e deram ao casal seis netos, entre eles José Arthur, que também segue com os estudos.

Francisco afirma que, depois de mais de 43 anos convivendo junto da família cigana, também se considera cigano: “Eu já me considero cigano também e queria aproveitar para dizer que amo todos eles. É uma família muito boa, que me ajudou muito quando adoeci”.

Francisca também demonstra com convicção o amor por suas origens: “Eu amo ser cigana, eu tenho orgulho de ser cigana e eu amo a minha tradição cigana!”. Em seu relato, ela relembra com carinho a experiência de participar da peça de teatro “Dai Purim”, atuando pela primeira vez como atriz no grupo Rarripe, durante o VI Encontro de Cultura Cigana.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Estroécio Rodrigues Cunha - O Tempo que a gente É!

Mais conhecido na família como tio Toesse, viveu a vida itinerante na juventude e depois como negociante fazendo gambira. Foto: Tami Lage

Estroécio Rodrigues Cunha nasceu em Jataí, no dia 28 de agosto de 1955. Cigano, relembra seus tempos com a família nas andanças entre Goiás e Mato Grosso, considera que teve uma infância muito boa. 

Em 1975, mudou-se para Tangará da Serra. Depois viveu em Juscimeira, em 1979, e, no ano seguinte, se casou com sua esposa, com quem construiu uma união de 46 anos. Juntos, moraram em Rondonópolis por 35 anos e formaram uma grande família.

Estroécio é pai de quatro filhos, André, Jonathan, Adriana e Italo, além de avô de quatro netos e bisavô de três bisnetos. Hoje, vive em Tangará da Serra novamente, há 11 anos.

Grande parte de sua história profissional foi construída através dos negócios. Trabalhou fazendo gambira: comprando, vendendo e trocando mercadorias. Também trabalhou na roça em alguns períodos da vida. “Eu criei minha família só no negócio”, relembra.

Além disso, Tio Toesse, como Estroécio é mais conhecido na família, é o principal falante hoje da língua Chibe, do tronco étnico Calon, nas comunidades ciganas de Mato Grosso, sendo um dos principais oficineiros em projetos de oficina de chibe realizados pela AEEC-MT.

Estroécio demonstra gratidão pelo projeto Encontro de Cultura Cigana realizado pela AEEC-MT:

“Esse evento é uma bênção de Deus. Meu sobrinho é caprichoso com nós. Ele acha que nós, ciganos, merecemos. Ele é abençoado por Deus. E a família dele também: a mãe, o pai, a irmã. A sobrinhada que eu tenho é muito inteligente, graças a Deus.”

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Cida Alves - O tempo que a gente É!

Aparecida Alves, durante a Assembleia Geral Ordinária da AEEC-MT que ocorreu em 01 de maio. Foto: Tami Lage.

Aparecida Alves nasceu no ano de 1956, em Jatai-GO. Filha de pai cigano e mãe não cigana, passou a infância em barracas, viajando em tropas até cerca dos 10 anos de idade, quando seu pai decidiu deixar a vida itinerante e se estabelecer como morador.

Começou a trabalhar muito cedo como empregada doméstica, profissão que exerceu durante grande parte da vida, assim como algumas de suas irmãs. Teve três filhos, um deles, infelizmente, partiu cedo, aos seis anos de idade.

Mais tarde, encontrou um companheiro com quem viveu por dezoito anos. Durante esse relacionamento, criou também uma filha do coração, Delícia, por quem guarda enorme carinho e consideração. Ao longo da vida, trabalhou em diferentes áreas: além do trabalho doméstico, teve uma mercearia, vendeu roupas e roupas de cama e também trabalhou em escritório de empresa. 

Mãe, avó e bisavó, considera a família uma das maiores bênçãos de sua vida. Há mais de uma década dedica grande parte do seu tempo ao cuidado de seu neto.

Aparecida afirma que sempre carregou consigo os ensinamentos do pai: ser honesta, trabalhadora e manter a união familiar. Também guarda lembranças afetivas da infância nas barracas, das noites ao redor da fogueira e da mãe lendo romances para a família ouvir antes de dormir.

Acredita que, apesar do preconceito histórico enfrentado pelos ciganos, atualmente existe um reconhecimento maior da cultura e das lutas de seu povo. Os encontros culturais da AEEC-MT, segundo ela, são um dos fatores que têm fortalecido o sentimento de união e pertencimento.

Viva Cida! Viva os povos ciganos!

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Anésio Divino Rodrigues Cunha - O tempo que a gente É!

Anésio é morador de Tangará da Serra desde os 15 anos. Foto: Maria Clara Aquino.

Anésio Divino Rodrigues nasceu em Alto Garças no dia 20 de abril de 1959 e é pai de cinco filhos, Vitor, John Lennon, Hélida, Samuel e Isadora, e avô de um neto. 

Anésio tem muito respeito por suas origens. Para ele, todos os ciganos merecem sua consideração. Agradecido a Deus por ser cigano, afirma que nunca desfez de ninguém e que sempre buscou agir de forma honrada. Segundo ele, por onde passou conquistou o carinho das pessoas e se tornou alguém respeitado na comunidade em que vive.

Sua história em Tangará da Serra começou aos 15 anos de idade. Quando chegou à cidade, a realidade era bem diferente da atual: não havia energia elétrica como hoje, apenas motor de luz, as ruas não eram asfaltadas e as casas de alvenaria eram raras, predominando as construções de madeira ou “casa de tábua”, como diz ele. 

Anésio Rodrigues foi um dos oficneiros da Oficina de Chibe, 
que ocorreu em Tangará da Serra em maio de 2024. Foto: João Aquino.

Foi ali que permaneceu e construiu sua vida. Até hoje vive em Tangará da Serra, onde formou sua família e conquistou sua independência trabalhando como corretor.

Ao falar de sua atuação, faz questão de pontuar sua honestidade. Segundo ele, seus negócios são feitos de forma correta, sem “sacanagem” ou “negócio torto”, sempre de maneira alinhada e transparente. E mais: com sucesso! Anésio é bom de venda.

Nosso homenageado de hoje é um grande homem, trabalhador, querido por todos e muito orgulhoso em ser cigano. Viva, Anésio!

Ancestralidade Viva: Terezinha Alves - O Tempo que a gente É!

Foto: Karen Ferreira.

Terezinha Alves nasceu no dia 07 de outubro de 1961, em Guiratinga-MT. Passou a infância em fazendas da região, onde cresceu ao lado dos pais e das seis irmãs, em um ambiente de fartura, com muita água e plantações cultivadas por eles. Em família, viviam de forma muito unida, iam juntos à igreja, cantavam hinos e liam a Bíblia.

Ela e as irmãs não frequentavam a escola, mas um vizinho contratou uma professora que as alfabetizou. Durante a infância, a família se mudou diversas vezes entre áreas rurais e a cidade de Guiratinga, onde pôde estudar até a 3ª série. Mas seus estudos foram interrompidos pelas mudanças e, aos 12 anos, foi para Cuiabá para trabalhar como babá e empregada doméstica.

Aos 22 anos, retomou os estudos com incentivo do marido na época, hoje seu ex-marido e amigo. Concluiu o supletivo, se formou técnica em Contabilidade e ingressou no curso de Serviço Social, tornando-se a primeira mulher cigana de que se tem registro a concluir o ensino superior no Brasil.

Foto de Arquivo de Terezinha Alves.

Após a formação, participou de conselhos de direitos, chegando à presidência do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Cuiabá. Posteriormente fundou a Arca Assessoria e Consultoria Social, empresa com a qual trabalhou durante 23 anos desenvolvendo projetos de habitação e infraestrutura em municípios de Mato Grosso. Também realizou especializações e concluiu um mestrado em Educação Superior na Argentina. Depois de encerrar as atividades da empresa, passou a atuar como mediadora no Tribunal de Justiça, função que exerce atualmente.

Mãe de duas filhas, Fernanda e Taiza, e avó de três netos, Rafaela, Arthur e Valentina, Terezinha construiu sua vida acreditando na educação e incentivou todos ao seu redor a seguirem esse caminho. Viajou muito, foi pioneira em muitos de seus feitos e dá grande valor à liberdade, ao amor e à união, heranças de sua origem cigana.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

sábado, 30 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Leila Cabral Nunes - O Tempo que a gente É!

Leila Cabral Nunes, conhecida como Tia Leila, nasceu em 31 de agosto de 1961, em Alto Garças (MT), onde seu pai, José Alves Pereira, era fazendeiro. Filha de José e Isaura Cabral Pereira, passou os primeiros anos de vida acompanhando a família pelas mudanças.

Após a venda da fazenda em Alto Garças, a família mudou-se para Guiratinga, onde Leila foi criada até os quatro anos de idade. Mais tarde, seguiram para Rondonópolis, acompanhando o pai, que continuou trabalhando com fazendas na região. 

Foi nesse período, já na região de Juscimeira, que conheceu seu namorado, com quem mais tarde se casou. Dessa união nasceram seus dois filhos, Albericle e Dayane, que ela considera os presentes mais preciosos que Deus lhe deu.

Com o passar dos anos, a família cresceu com a chegada dos netos Adryan, Ryan, Myrian e Davi. Infelizmente, seu filho Albericle se foi cedo, faleceu aos 39 anos, vítima da COVID-19. Hoje está guardado com amor na memória de Leila e de seus familiares.

Leila vive em Rondonópolis há tantos anos que nem consegue calcular. Ao longo da vida trabalhou muito, construiu sua família e acompanhou a vida dos filhos, entre eles Dayane, que se tornou enfermeira. Hoje, é casada com um professor de Educação Física, onde vivem juntos na cidade.

Aos 64 anos, Tia Leila é feliz com a vida que leva: “Tô aqui, velhinha já, com a graça de Deus, vivendo minha vidinha de cigana. Adoro ser cigana! É minha vida ser cigana!". Uma mulher orgulhosa de suas origens e de tudo o que construiu.

TEXTO: LIVIA FREIRE

FOTOS: TAMI LAGE

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Alaor e Hélia - O Tempo que a gente É!

Tio Rei e tia Hélia são casados há mais de 56 anos e vivem em Rondonópolis.

Alaor, carinhosamente conhecido como “Tio Rei”, e Hélia formam um dos casais mais antigos e queridos de Rondonópolis. Lideranças anciãs da comunidade cigana Calon e queridos por todos, tiveram a construção de uma vida inteira dedicada à família e ao trabalho. 

Nascido em 13 de janeiro de 1947, Alaor veio ao mundo em Patos de Minas, Minas Gerais. Filho de José Alves Pereira e Isaura Cabral, cresceu entre as mudanças da família até chegar em Mato Grosso ainda pequeno. Seu pai trabalhava em empreitas e fazia todo tipo de serviço para sustentar a família, carregando consigo a força do trabalho que também marcou a vida de Alaor.

A família passou por Alto Garças e Guiratinga, até se estabelecer em Rondonópolis, cidade onde grande parte dos parentes ciganos vindos de Minas Gerais também construíram suas vidas. 

Foi em Guiratinga que Alaor conheceu Hélia Marcel Pereira, nascida em 28 de março de 1948, em Minas Gerais, na região de Dianópolis. Os dois são primos, se casaram ainda jovens e seguem juntos há 56 anos, construindo uma história de muita parceria.

Depois do casamento, vieram para Rondonópolis, onde vivem há décadas. Somente na casa onde residem atualmente já são 28 anos de memórias construídas. Juntos, tiveram dois filhos, Fábio e Neide, e também os netos Joyce e Gean.

Ao lembrar da própria história, Alaor resume com orgulho aquilo que é característica marcante do casal: “Somos ciganos, somos trabalhador e lutador”. Alaor e Hélia seguem sendo símbolos da memória, da resistência e da presença da cultura cigana Calon em Mato Grosso. Viva Alaor e Hélia!

#MaioCigano #AncestralidadeViva

TEXTO: LÍVIA FREIRE

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Nerana Cunha Pereira - O Tempo que a Gente É!

Nerana Cunha Pereira é a segunda homenageada do Ancestralidade Viva #MaioCigano. Nasceu em 2 de novembro de 1952, em Patos de Minas-MG. Apesar de ter vindo embora ainda muito pequena, nos braços da mãe, carrega consigo o orgulho de suas origens ciganas e a memória afetiva da família.

Casada com Euripes Alves Pereira, construiu sua vida entre Cuiabá e Tangará da Serra. Diferente de muitas narrativas associadas ao povo cigano, conta que viajou pouco. Seu pai possuía terras e, depois do casamento, ela e o marido passaram a viver próximos da família, criando raízes sem abandonar a identidade Calon.

Ao longo da vida, trabalhou como vendedora, comercializando enxovais e outros produtos. Sempre reforça, porém, que acima de qualquer ocupação, o que nunca abandonou foi o orgulho de ser cigana. “Nunca neguei”, afirma, dizendo que gosta de sua origem. 

A família aparece como o maior valor em sua vida. Nerana teve três filhos, já falecidos, e fala deles com amor. Hoje, encontra continuidade nos cinco netos e nos dois bisnetos, Laura e Benjamin. 

Nerana é também uma guardiã da língua chibe. Ela conta que ensinou os filhos a falarem e que continua ensinando os netos e bisnetos, porque acredita que a tradição não pode desaparecer. Para ela, preservar a língua chibe é também preservar a identidade cigana.

Sua história é marcada pela saudade das pessoas queridas que perdeu ao longo da vida, mas também pela firmeza com que sustenta sua memória e pertencimento. Ao falar de si, Nerana ressalta: é cigana, sente orgulho disso e deseja que as próximas gerações continuem carregando essa herança.

TEXTO: LIVIA FREIRE
FOTOS: MARIA CLARA AQUINO E KAREN FERREIRA



quinta-feira, 21 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Maria Auxiliadora Alves de Anicézio - O Tempo que a Gente é!

 

Moradora de Cuiabá, Dora é um dos esteios da comunidade Calon no município. Foto: Jeomara Viegas

A primeira homenageada da campanha Ancestralidade Viva: o tempo que a gente é, neste #MaioCigano, é dona Auxiliadora Alves de Anicézio, ou simplesmente Dora, como é chamada carinhosamente por toda família.

Filha de mãe gadjin (mulher não-cigana em Chibe, a língua dos Calon) e pai cigano Calon, Dora nasceu em Roraima e viveu uma infância itinerante, viajando a cavalo por diferentes cidades até chegar em Mato Grosso.

Em Guiratinga, construiu sua vida ao lado do marido, Arcelino Avelino, com quem está há mais de cinquenta anos. Juntos tiveram quatro filhos: Eliezer, guardado com amor em sua memória, além de Eliane, Edézio e Edilson, dos quais fala com muito orgulho. A família cresceu com netos e bisnetos, sendo unida e presente em sua vida.

Mesmo tendo sido semianalfabeta durante grande parte da vida, Dora concluiu os estudos e com 35 anos, formou-se em Biblioteconomia e se dedicou ao trabalho até se aposentar!

Hoje, em Cuiabá, mantém uma rotina dedicada à família, à igreja e à convivência com a comunidade. Para ela, o povo cigano é alegre, acolhedor e unido, acostumado a repartir o que possui. Ela também valoriza  e ressalta a força das mulheres ciganas.

A campanha Ancestralidade Viva integra o projeto guarda-chuva "Maio Cigano - VI Encontro de Cultura Cigana de MT", realizado pela AEEC-MT, por meio de patrocínio da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT) e o Ministério da Igualdade Racial (MIR) / PNUD.

Conheça mais sobre a história da Dora assistindo ao vídeo da campanha no Insta da AEEC-MT: https://www.instagram.com/p/DYedVzWyWT2/

Viva, Dora! Viva a Ancestralidade Viva: o tempo que a gente é!


domingo, 17 de maio de 2026

Campanha Ancestralidade Viva promove visibilidade e celebra cultura e história dos povos ciganos

Iniciativa da AEEC-MT utiliza as redes sociais para homenagear pessoas ciganas, buscando combater o anticiganismo por meio de informações fidedignas. Tia Dora, na foto é a primeira homenageada da campanha. Foto: Jeomara Viegas.

Nesta segunda-feira (18 de maio), a Associação de Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) inicia mais uma edição do projeto Ancestralidade Viva, este ano com o tema “O tempo que a gente é!” A ação, que faz parte da programação do projeto VI Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso, já é tradicional no evento pela valorização da história e da cultura cigana e ocupará as redes sociais da associação (@aeecmt) até o fim do mês de maio, em celebração ao Festival Maio Cigano, que marca o Dia Nacional dos Povos Ciganos (24).

Em 2026, a campanha homenageia 13 lideranças vivas e duas lideranças in memorian, todas de Mato Grosso, das cidades de Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra. A primeira delas é Maria Auxiliadora Alves de Anicézio, moradora de Cuiabá (foto acima).

Em 2025, as publicações focaram na valorização e reconhecimento da ancestralidade dos povos ciganos da etnia Calon e Rom, com homenagens a 12 lideranças vivas e 4 lideranças “in memorian”, que fizeram e fazem história na cultura cigana mato-grossense.

No ano passado, a campanha ultrapassou a marca de 50 mil visualizações no Insta da AEEC-MT (@aeecmt). A importância do engajamento, neste caso, está principalmente na ampliação da visibilidade junto a pessoas não-ciganas, que é o principal objetivo da ação.

A campanha “Ancestralidade Viva” procura cumprir um papel social: o combate ao anticiganismo (ou ciganofobia). Através de conteúdos que recordam e homenageiam lideranças e mestres da cultura cigana, as publicações levam o público a conhecer suas histórias e, consequentemente, as tradições ciganas, que por muito tempo, sofreram discriminações e preconceitos. Ao promover visibilidade às vozes e rostos de pessoas ciganas, a campanha ressalta todo o legado dos homenageados.

A campanha existe desde 2022 e em sua primeira edição teve o nome “Quem conhece não tem preconceito”, que ao longo do mês exibiu fotos de mais de 40 mulheres ciganas da exposição multimídia Calin (hiperlink). A cada edição, o projeto adota uma temática e uma estratégia de mobilização virtual. Exemplo disso é o documentário divulgado em 2023 Caminhos Ciganos, dirigido e roteirizado por Aluízio de Azevedo, um dos criadores da iniciativa.

“A ideia do Ancestralidade Viva é valorizar  as pessoas ciganas que são ciganas e que passaram por muitas experiências, que viveram muito tempo no nomadismo, que sofreram várias questões e que resistiram. Os mais velhos são lideranças nas suas comunidades, são o nosso poço de sabedoria, são os que detêm as práticas, histórias, memórias, enfim, a riqueza de vida, dos nossos modos de viver, dos nossos sistemas de ação, de organização social, da língua cigana. É muito rico esse movimento que a gente faz de reconhecimento dos nossos ancestrais que estão vivos”, ressalta Aluízio.

O VI Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso é realizado pela AEEC-MT, em parceria com a Secel-MT e com o Ministério da Igualdade Racial (MIR), em prol da preservação das tradições e bens imateriais ciganos. Com atividades presenciais em Cuiabá, Rondonópolis e Tangará da Serra, a iniciativa promove intercâmbio entre comunidades, estimula a troca de saberes entre diferentes gerações e fomenta a voz dos povos ciganos na luta por seus direitos.

Texto: Lívia Freire

Fotos e vídeos: Jeomara Viegas e Maria Clara Aquino

Artes: Tami Lage

 

domingo, 25 de maio de 2025

SES-MT apoia o V Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso

Secretaria viabilizou a vinda de duas convidadas ciganas nacionais para serem palestrantes durante o evento e vai participar com a presença de quatro técnicos

 Luiza Goulart | SES-MT,  22/05/2025

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT), por meio do Grupo Técnico de Promoção da Equidade no Cuidado em Saúde e da Escola de Saúde Pública (ESP-MT), vai participar do V Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso e do III Encontro de Mulheres Ciganas de Mato Grosso nesta sexta-feira e sábado (23 e 24.5), na Chácara WR, em Tangará da Serra. Instituído via decreto presidencial em 2006, o dia 24 de maio é comemorado no Brasil como o Dia Nacional dos Povos Ciganos.

O evento, realizado pela Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), terá uma programação especial pelo reconhecimento da contribuição dos três troncos étnicos ciganos --os Calon, os Rom e os Sinti-- às culturas e às sociedades mato-grossense e brasileira.

Milton Gustavo Fleury, referência técnica estadual para a Saúde dos Povos Ciganos/Romani, Ademar Sales Macaúbas, representante da SES no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir-MT), Devanil Roza Fernandes, referência técnica estadual em fitoterapia, e Rita Meurer Victor, da ESP-MT, são os técnicos da SES que irão ao encontro para identificar necessidades específicas e estabelecer parcerias que melhorem o acesso equitativo aos serviços do SUS, além de receber contribuições para a elaboração do Plano Estadual de Promoção da Equidade no Cuidado em Saúde.

Segundo Milton Fleury, da Coordenadoria de Promoção e Humanização da Saúde, o grupo técnico foi criado em abril deste ano com a finalidade de coordenar as Políticas de Equidade no Cuidado em Saúde no Estado. “Por isso, o apoio da SES ao V Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso e ao III Encontro de Mulheres Ciganas de Mato Grosso é tão importante, porque precisamos desse contato mais próximo dos movimentos sociais para acolher necessidades e implementar políticas públicas voltadas ao acesso qualificado à saúde dessa população”, explicou.

Como apoiadora oficial do evento, a SES viabilizou ainda a presença de duas convidadas ciganas nacionais como palestrantes: a coordenadora do coletivo Roda Cigana – Rede Humanitária, Lourdes Corrêa (Luh Ynaiah), de São Paulo, e a advogada popular e integrante do coletivo Ciganagens Sara Macedo, de Goiás.

As palestrantes Lourdes Corrêa (Luh Ynaiah) e Sara Macedo - Crédito: Arquivo pessoal

De acordo com o assessor de comunicação da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo, o apoio da SES proporciona que o evento tenha mais intercâmbio cultural. “Não se resuma apenas a mulheres ciganas de Mato Grosso ou comunidades ciganas de Mato Grosso, mas promovendo a participação de outras mulheres, de outros estados. Isso é muito interessante porque proporciona uma troca de experiências e elas são representantes nacionais também, então incentiva as nossas mulheres mato-grossenses”, destacou.

Azevedo elogiou a iniciativa da SES-MT de criar esse ponto focal para atuar com a saúde cigana. “Para a gente, trabalhar a saúde da comunidade cigana, estar mais próximo da Secretaria Estadual de Saúde é também a certeza de que nossas demandas serão ouvidas. Vai ter esse espaço para a SES.”

A associação está produzindo para as redes sociais uma campanha de valorização das culturas ciganas, de combate aos preconceitos, ao racismo e aos estereótipos. “Nesse ano o tema é ancestralidade viva. E a gente está homenageando 16 pessoas ciganas que contribuíram com o movimento cigano brasileiro, homens e mulheres pessoas ciganas respeitadas vivas. São 12 pessoas vivas que estão aí são pessoas mais velhas que são lideranças reconhecidas em suas comunidades ou pessoas que são reconhecidas nacionalmente”, informou.

O evento terá apresentações culturais com artistas ciganos, oficinas de medicina tradicional cigana, oficinas de danças ciganas, oficina de circo para crianças, além da exibição de produções audiovisuais que abordam a temática dos povos ciganos. Das programações, apenas as da Mostra Calon Lachon são abertas ao público. As demais são exclusivas para pessoas ciganas e convidados.

Disponível em: https://www.saude.mt.gov.br/noticia/1536/ses-mt-apoia-o-v-encontro-de-cultura-cigana-de-mato-grosso