Helena
Werneck - Especial para o GD - redacao@gazetadigital
O artista
cigano mato-grossense Aluízio de Azevedo, 46, tem seu trabalho reconhecido
internacionalmente com mostra em Genebra, na Suíça. Autodidata nas artes
plásticas, ele teve obras selecionadas para a exposição “Arts, Minorités &
Droits Humains” (Artes, Minorias e Direitos Humanos), na Organização das Nações
Unidas (ONU), que foi aberta ao público no dia 31 de julho e segue exposta até
o fim de agosto.
Nascido em
Tangará da Serra e radicado em Cuiabá, o pintor, cineasta, jornalista, escritor
e pesquisador transformou as raízes ciganas, a infância vivida na zona rural e
a paixão pela arte em uma trajetória reconhecida dentro e fora do Brasil.
A arte
entrou na vida de Aluízio antes mesmo da alfabetização. Ainda criança, aos três
ou quatro anos, ele insistia para que os pais lessem contos e histórias
ilustradas. Entre livros como Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho, nasceu um
encantamento pelas imagens que, décadas mais tarde, atravessaria pinturas,
filmes, poemas, contos, crônicas e pesquisas acadêmicas.
"Eu
chorava para os meus pais lerem histórias para mim. Meu pai tinha uma coleção
de livros dos clássicos da literatura. Eu ficava vendo aqueles desenhos, achava
aquilo incrível e isso me inspirou muito", recorda.
O
interesse pelo desenho ganhou força durante os primeiros anos escolares. Já a
dedicação efetiva à pintura começou por volta dos 23 ou 24 anos. Aos 26, ele
passou a encarar a produção artística de maneira mais profissional. A formação,
no entanto, aconteceu principalmente pela experimentação, pela leitura e pela
observação.
"Eu
sempre fui muito autodidata. Nunca fiz nenhum curso. Já li muito sobre arte,
adoro ler sobre história da arte e conheço os movimentos artísticos europeus.
Alguns me inspiram muito, assim como a arte regional", revela.
Uma das
pessoas decisivas nesse processo de aprofundamento e profissionalização foi a
artista plástica Eliana Mara. A convivência com a pintora mostrou que aquilo
que ainda ocupava o espaço de passatempo poderia se transformar em profissão.
"Ela
me incentivou muito e me inspirou demais a começar de uma forma mais
profissional, e não ser somente um hobby", conta.
Embora a
pintura ocupe lugar central em sua trajetória, Aluízio se define como um
multiartista. Além das artes visuais, atua na literatura, no cinema, na
pesquisa acadêmica e no jornalismo.
"Eu
pinto, desenho, faço poemas, contos e crônicas, escrevo, faço cinema, sou
especialista em cinema, trabalho com roteiros e já fiz algumas consultorias
para o teatro. Gosto muito de todas as artes", detalha
O
jornalismo acabou se tornando a profissão responsável por garantir estabilidade
financeira, mas ele admite que gostaria de viver exclusivamente da produção
artística. "Se eu pudesse, seria só artista. Porém, é muito difícil
se manter no mercado artístico e na indústria cultural, principalmente para os
artistas independentes".
Educação
abre portas
A história
de Aluízio começou em uma comunidade rural de Tangará da Serra, onde passou a
infância sem energia elétrica e água encanada. A rotina era sustentada pela
agricultura de subsistência e um rádio a pilha era praticamente o único contato
com o mundo exterior.
"A
gente vivia da subsistência daquela comunidade rural. Plantava, mas não tinha
nada de luxo. A única tecnologia era um radinho", relembra o artista.
O caminho
entre aquela realidade e a atuação profissional nas artes foi construído
principalmente por meio da educação. Seus pais voltaram a estudar já adultos e
se tornaram professores, mudança que transformou a realidade da família.
"Meus
pais conseguiram romper essa bolha econômica e social. Estudaram depois de
adultos. Minha mãe virou professora e meu pai também. Eu fiz graduação,
mestrado, especialização em cinema, doutorado e pós-doutorado. A educação e a
ciência foram abrindo portas e lugares que ajudaram a construir a minha
trajetória como artista."
Arte
como resistência
Sua
produção artística também dialoga diretamente com a identidade cigana e com a
luta contra o preconceito.
"Sair
desse lugar de exclusão social, ainda mais sendo cigano e trabalhando essas
questões, é muito desafiador. Existe um racismo estrutural muito forte,
preconceito e um imaginário social que a gente precisa quebrar", pontua o
jornalista.
Para
Aluízio, artista vai muito além de produzir belas imagens.
"Ser
artista, para mim, é ser alguém visionário, que consegue olhar à frente do seu
tempo, fazer leituras e críticas sociais, culturais, econômicas e políticas. O
artista consegue transcender a mera realidade."
Carreira
e trajetória
Um dos
marcos de sua carreira foi o lançamento do documentário Calon: Olhares Ciganos,
em 2012, obra que ampliou sua atuação no audiovisual. A carreira também o levou
a Brasília, onde trabalha como servidor concursado do Ministério da Saúde, e ao
Rio de Janeiro, onde realizou doutorado e pós-doutorado na Fundação Oswaldo
Cruz (Fiocruz), antes de retornar a Mato Grosso.
O
reconhecimento internacional veio em 2023, quando teve trabalhos selecionados
para uma mostra promovida pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU, em
Genebra, voltada a artistas pertencentes a grupos minorizados.
"Ter
o meu trabalho reconhecido internacionalmente é uma maravilha, é uma
consagração. É também uma forma de divulgar, estar em uma galeria
internacional, conhecer outros artistas e fazer trocas culturais."
Mato
Grosso é cultura
Ao falar
sobre a produção cultural mato-grossense, Aluízio afirma que o Estado possui
artistas capazes de ocupar qualquer circuito nacional ou internacional, mas
ainda enfrenta dificuldades relacionadas ao financiamento e à valorização da
cultura.
"Os
artistas regionais, cuiabanos e de Mato Grosso são artistas de primeira linha.
Não perdem em nada para produções nacionais e internacionais", garante.
Aluízio
Indica
Questionado
sobre quais artistas recomenda ao leitor conhecer, ele cita três nomes que
considera fundamentais para compreender a arte produzida em Mato Grosso.
João
Sebastião Costa (1949–2016)
foi pintor, desenhista, professor e um dos maiores representantes das artes
plásticas mato-grossenses. Conhecido pelas pinturas que retratam a fauna, a
cultura popular e, especialmente, a onça-pintada, tornou-se uma referência para
diferentes gerações de artistas. "O Sebastião Costa me toca muito.
Trabalhei com ele em uma exposição em homenagem à Maria Taquara. Ele me inspira
demais."
Gervane
de Paula (1961–)
é um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira produzida em Mato
Grosso. Pintor, escultor e curador, leva para suas obras temas ligados ao
Pantanal, ao Cerrado, às questões sociais e à identidade regional.
"Gervane de Paula é muito maravilhoso."
Adir Sodré
(1962–2020) foi um dos artistas mais importantes da chamada geração
contemporânea das artes plásticas mato-grossenses. Suas pinturas, marcadas por
cores vibrantes e forte crítica social, tornaram-se referência nacional e
ajudaram a consolidar Mato Grosso no circuito artístico brasileiro. "O
Adir Sodré me inspira muito. É um artista incrível."
"A
gente não perde nada para o circuito nacional. O que temos é menos dinheiro,
menos reconhecimento e menos incentivo financeiro", conclui.
Exposição
A
exposição internacional “Arts, Minorités & Droits Humains” (Artes, Minorias
e Direitos Humanos) é pública e apresenta o trabalho de 30 artistas
pertencentes a grupos minoritários e oriundos de diversos países.
Todos os
30 artistas convidados, incluindo Aluízio de Azevedo, que também é ativista e
Conselheiro Estadual de Promoção de Igualdade Racial de Mato Grosso (CNPIR/MT),
foram vencedores de uma das cinco edições do prêmio para artistas minoritários,
que também é organizado pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU. O artista
cigano brasileiro recebeu menção honrosa no prêmio em 2023.
A
exposição estará disponível aos visitantes do lago a partir do dia 31 de julho
e seguirá aberta até o dia 31 de agosto de 2026.
A
organização do evento programou visitas guiadas nos dias 02 (15h às 16h,
horário local/) e 04 de agosto (18h à 19h, horário local).
Disponível
em: https://www.gazetadigital.com.br/editorias/cidades/artista-transforma-heranca-cigana-em-arte-reconhecida-no-mundo/854686






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