Uma homenagem ao cineasta que fez da sua arte o território simbólico dos povos ciganos
*Por Aluízio de Azevedo, Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT
Tony Gatlif tem sido a maior inspiração do meu fazer cinematográfico. Jamais vi outra pessoa conseguir capturar o universo cigano na sua inteireza, de forma tão comovente, sutil e de uma profundidade absoluta!
Ele criou uma estética cigana própria e marcou o mundo por mostrar o quão geniais e fortes são as raizes e rizomas dos ciganos.
A morte do cineasta franco-argelino Tony
Gatlif, aos 77 anos, em Arles (França), silencia uma das câmeras mais urgentes,
viscerais e rítmicas do cinema europeu contemporâneo. Longe do olhar
contemplativo de gabinete e da condescendência do exotismo ocidental, que nos padroniza ou estereotipa de inúmeras formas e jeitos, Gatlif
jamais filmou as diferentes manifestações das identidades e culturas ciganas, a
partir da margem.
Gatlif traz uma lente que movia-se de dentro. Seu olhar e mãos eram o pulso orgânico de quem transformou o próprio exílio e a ancestralidade em um manifesto poético e político contra o conceito de fronteira. Suas obras são um manifesto ao anticiganismo e sua trajetória o exemplo de que nós ciganos somos capazes de chegar a lugares de destaque e de permanente conservação da nossa cultura, sem medos e com muito orgulho em ser cigano/a.
Em Lacho Drom, por exemplo, ele mostra sem dizer uma única palavra, que em qualquer parte do mundo em que estamos, mantemos costumes e tradições próprias que nos fazem ciganos mesmo vivendo em diferentes países numa trajetória única de arte e força cultural ancestral, que permanece viva e latente, apesar das inúmeras perseguições e violências seculares de países europeus e outros lugares por onde vivemos.
Nascido Michel Dahmani em Argel, em 10 de
setembro de 1948, filho de pai berbere (cabila) e mãe cigana andaluza, o
cineasta carregava no corpo as cicatrizes do deslocamento. Sua infância na
Argélia colonial foi sucedida por uma chegada dramática à França no início dos
anos 1960, no ápice do conturbado processo de independência argelina.
Sem teto, enfrentando o preconceito sistêmico
e experimentando passagens por reformatórios juvenis, sua vida tomou um rumo
definitivo em 1966, quando um encontro fortuito com o lendário ator Michel
Simon, o impulsionou ao estudo do teatro e à escrita cinematográfica.
A estreia na direção com o longa La Tête en
ruine (1975), seguida por La Terre au ventre (1978) e pelo seminal Les Princes
(1983), definiu o contorno ético de toda a sua trajetória: a recusa peremptória
ao folclore estilizado e o compromisso inegociável com os corpos sufocados pela
marginalização e pela violência institucional.
No Youtube é possível assistir ao filme
"Liberte Korkoro": https://www.youtube.com/watch?v=22kl-TqgXco
Para Gatlif, o cinema não era um exercício de estilo acadêmico, mas uma ferramenta de restituição da dignidade. Para mim, a sua maior obra prima, sem dúvidas, é Lacho Drom, que pode ser traduzido em algo como “Boa viagem”.
Latcho Drom e a música como território cigano inviolável
Para assistir ao filme há uma opção no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=r3IqHvk3f28
Se o cinema moderno buscou repetidamente
cartografar a memória coletiva sem recorrer às muletas da narrativa
convencional, poucas obras alcançaram a densidade tátil e sensorial de Latcho
Drom (1993). Vencedor do prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes, o
filme permanece como a obra-prima inconteste do diretor e um dos marcos mais
expressivos do documentário poético internacional.
Em 103 minutos de vertigem plástica e
musical, Gatlif constrói uma odisseia rigorosamente desprovida de vozes
explicativas em off, entrevistas didáticas ou cartelas explicativas. A migração
milenar dos ciganos, desde o deserto árido do Rajastão, na Índia, passando pelo
Egito, Turquia, Romênia, Eslováquia e Hungria, até desaguar nas ruelas de
Sevilha e Jerez de la Frontera, na Espanha, é articulada exclusivamente através
do canto, da dança, do ritmo e do gesto.
Em Latcho Drom, a música deixa de ser
entretenimento ou mero adorno para se converter em documento histórico, escudo
psíquico e afirmação territorial simbólica inegociável das diferentes culturas
ciganas ao redor do mundo.
Ao enquadrar o lamento lancinante de uma
cantora romena sob a neve rigorosa ou a combustão física das palmas no flamenco
andaluz, a câmera de Gatlif recusa o distanciamento voyeurístico e se funde à
respiração dos músicos. A música surge como a única pátria imune às
deportações, aos muros e ao esquecimento.
Cinco Décadas de Mover Fronteiras e Reescrever a
História
Ao longo de cinco décadas de carreira
prolífica, Gatlif ergueu uma filmografia de mais de vinte títulos que
transitaram com extrema fluidez entre o lirismo cru e o engajamento social.
Após a delicadeza de Mondo (1995), o cineasta alcançou projeção internacional
com Gadjo Dilo (O Estranho Louco, 1997).
Há uma opção para ver o filme no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=bArC4p-nliI
Protagonizado por Romain Duris, o longa
conquistou o Leopardo de Prata no Festival de Locarno e o Prêmio César de
Melhor Trilha Sonora Original, premiação que Gatlif voltou a arrebatar com
Vengo (2000). Outra de suas obras primas, Vengo é uma imersão trágica e
dionisíaca no universo do flamenco ancestral.
Para ver Je Suis Né D'Une Cigogne (1999): https://vkvideo.ru/video547001063_456244677
A maturidade de sua linguagem cinematográfica consagrou-se com Exils (2004), pelo qual recebeu o prestigiado Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes. O filme acompanha a travessia inversa de dois jovens que deixam Paris em direção à Argélia, buscando refazer o caminho da memória e do pertencimento.
Anos mais tarde, em Korkoro (Liberdade,
2009), Gatlif prestou uma contribuição histórica inestimável ao abordar
abertamente o genocídio dos ciganos perpetrado pelo regime nazista —, feito que
lhe rendeu o Grand Prix do Festival do Mundo de Montreal.
Para ver o filme Djam, o link: https://vkvideo.ru/video639822436_456239908
Mesmo em suas produções finais, a exemploo de
títulos como Indignados (2012), inspirado no movimento dos indignados europeus,
Geronimo (2014), Djam (2017), Tom Medina (2021) e o derradeiro Ange (2025), o
cineasta preservou a mesma vivacidade libertária de sua juventude, recusando as
facilidades do cinema burguês para manter sua câmera voltada para a rua, para o
improviso e para a liberdade das paixões humanas, que se manifestam nas
roupagens ciganas.
Filmografia Completa e Prêmios de Destaque
A trajetória cinematográfica de Tony Gatlif
estende-se por cinquenta anos de produção contínua, reunindo longas-metragens
de ficção, documentários poéticos e projetos de preservação cultural. A seguir,
apresenta-se a relação cronológica completa de suas obras diretoriais, seguida
por suas principais honrarias internacionais.
Principais
Honrarias Razoáveis:
Ao longo de sua carreira, Gatlif recebeu o
Prêmio Un Certain Regard (1993) e o Prix de la Mise en Scène / Melhor Direção
(2004) no Festival de Cannes; dois Prêmios César de Melhor Trilha Sonora
Original (por Gadjo Dilo em 1999 e Vengo em 2001); o Leopardo de Prata no
Festival Internacional de Locarno (1997); o Grand Prix das Américas no Festival
do Mundo de Montreal (2009); e o Prix Henri-Langlois pelo Conjunto da Obra e
Humanismo (2011).
Filmografia
•
1975 – La
Tête en ruine
•
1978 – La
Terre au ventre
•
1981 – Corre,
gitano
•
1981 – Canta
gitano
•
1983 – Les
Princes
•
1985 – Rue du
départ
•
1989 – Pleure
pas my love
•
1990 – Gaspard
et Robinson
•
1993 – Latcho
Drom (Obra-Prima / Un Certain Regard em Cannes)
•
1995 – Mondo
•
1997 – Gadjo
Dilo / O Estranho Louco (Leopardo de Prata em Locarno & Prêmio César)
•
1999 – Je
suis né d'une cigogne
•
2000 – Vengo
(Prêmio César de Melhor Trilha Sonora)
•
2002 – Swing
•
2004 – Exils
(Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes)
•
2006 – Transylvania
•
2009 – Korkoro
/ Liberdade (Grand Prix do Festival de Montreal)
•
2012 – Indignados
•
2014 – Geronimo
•
2017 – Djam
•
2021 – Tom
Medina
•
2025 – Ange
*Aluízio de Azevedo é cigano de etnia Calon, produtor
cultural independente, multiartista, cineasta. Jornalista de formação, com
especialização em cinema, mestre em educação Ambiental e mitologias ciganas e
doutor e pós-doutor em informação e comunicação e saúde dos povos ciganos de
Brasil e Portugal pela Fiocruz/RJ.



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