domingo, 31 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Anésio Divino Rodrigues Cunha - O tempo que a gente É!

Anésio é morador de Tangará da Serra desde os 15 anos. Foto: Maria Clara Aquino.

Anésio Divino Rodrigues nasceu em Alto Garças no dia 20 de abril de 1959 e é pai de cinco filhos, Vitor, John Lennon, Hélida, Samuel e Isadora, e avô de um neto. 

Anésio tem muito respeito por suas origens. Para ele, todos os ciganos merecem sua consideração. Agradecido a Deus por ser cigano, afirma que nunca desfez de ninguém e que sempre buscou agir de forma honrada. Segundo ele, por onde passou conquistou o carinho das pessoas e se tornou alguém respeitado na comunidade em que vive.

Sua história em Tangará da Serra começou aos 15 anos de idade. Quando chegou à cidade, a realidade era bem diferente da atual: não havia energia elétrica como hoje, apenas motor de luz, as ruas não eram asfaltadas e as casas de alvenaria eram raras, predominando as construções de madeira ou “casa de tábua”, como diz ele. 

Anésio Rodrigues foi um dos oficneiros da Oficina de Chibe, 
que ocorreu em Tangará da Serra em maio de 2024. Foto: João Aquino.

Foi ali que permaneceu e construiu sua vida. Até hoje vive em Tangará da Serra, onde formou sua família e conquistou sua independência trabalhando como corretor.

Ao falar de sua atuação, faz questão de pontuar sua honestidade. Segundo ele, seus negócios são feitos de forma correta, sem “sacanagem” ou “negócio torto”, sempre de maneira alinhada e transparente. E mais: com sucesso! Anésio é bom de venda.

Nosso homenageado de hoje é um grande homem, trabalhador, querido por todos e muito orgulhoso em ser cigano. Viva, Anésio!

Ancestralidade Viva: Terezinha Alves - O Tempo que a gente É!

Foto: Karen Ferreira.

Terezinha Alves nasceu no dia 07 de outubro de 1961, em Guiratinga-MT. Passou a infância em fazendas da região, onde cresceu ao lado dos pais e das seis irmãs, em um ambiente de fartura, com muita água e plantações cultivadas por eles. Em família, viviam de forma muito unida, iam juntos à igreja, cantavam hinos e liam a Bíblia.

Ela e as irmãs não frequentavam a escola, mas um vizinho contratou uma professora que as alfabetizou. Durante a infância, a família se mudou diversas vezes entre áreas rurais e a cidade de Guiratinga, onde pôde estudar até a 3ª série. Mas seus estudos foram interrompidos pelas mudanças e, aos 12 anos, foi para Cuiabá para trabalhar como babá e empregada doméstica.

Aos 22 anos, retomou os estudos com incentivo do marido na época, hoje seu ex-marido e amigo. Concluiu o supletivo, se formou técnica em Contabilidade e ingressou no curso de Serviço Social, tornando-se a primeira mulher cigana de que se tem registro a concluir o ensino superior no Brasil.

Foto de Arquivo de Terezinha Alves.

Após a formação, participou de conselhos de direitos, chegando à presidência do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Cuiabá. Posteriormente fundou a Arca Assessoria e Consultoria Social, empresa com a qual trabalhou durante 23 anos desenvolvendo projetos de habitação e infraestrutura em municípios de Mato Grosso. Também realizou especializações e concluiu um mestrado em Educação Superior na Argentina. Depois de encerrar as atividades da empresa, passou a atuar como mediadora no Tribunal de Justiça, função que exerce atualmente.

Mãe de duas filhas, Fernanda e Taiza, e avó de três netos, Rafaela, Arthur e Valentina, Terezinha construiu sua vida acreditando na educação e incentivou todos ao seu redor a seguirem esse caminho. Viajou muito, foi pioneira em muitos de seus feitos e dá grande valor à liberdade, ao amor e à união, heranças de sua origem cigana.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

sábado, 30 de maio de 2026

Exposição Diquela encerra em Cuiabá com visita de alunos do curso de geografia da UFMT

 
Exposição Diquela começou no dia 05 de maio e encerrou neste sábado (31.05), em Cuiabá, no Ateliê Kaiardon. Foto: Tami Lage.

A programação da Exposição Diquela e da Mostra Calon Lachon em Cuiabá, que ocorre no Ateliê Kaiardon desde o dia 05 de maio, encerrou neste sábado (30.05), com a visita especial da professora Marcia Alves e os alunos da disciplina de geografia urbana do curso de licenciatura em geografia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Durante a visita, cerca de 20 estudantes e a professora Marcia Alves conferiram fotografias de pessoas e comunidades ciganas de três municípios de Mato Grosso: Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra.

São fotos de arquivo da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), que organiza a Exposição e a Mostra de Audiovisual, além de trabalhos fotográfricos de outras três fotógrafas: Maria Clara Aquino, Karen Ferreira e Ju Queiroz.

A exposição conta com uma sala que exibiu 12 telas (foto abaixo mostra duas delas) do artista plástico de etnia Calon e um dos curadores da Diquela, Aluízio de Azevedo.

Também durante a visita da turma de geografia da UFMT realizou uma roda de conversa com Aluízio e com Rodrigo Zaiden, diretor de arte e expografista da exposição Diquela. Logo depois, os estudantes assistiram, como parte da Mostra Calon Lachon, o terceiro episódio da série Calon Lachon, que tem o título Fé em Duvele, que tem direção de Aluízio, Zaiden e Karen Ferreira. 

O designer gráfico e produtor da exposição, Tami Lage, também esteve no encerramento da exposição.  Aliás, Tami será o próximo artista a ocupar o espaço do ateliê Kaiardon, com exposição que inaugura neste domingo (31.05).

Além da atividade deste sábado com estudantes da geografia da UFMT, a programação da Exposição Diquela e da Mostra Calon Lachon no Ateliê Kaiardon ocorreu nos dias 15, 22 e 29 de maio. A Exposição Diquela e a Mostra Calon Lachon integram o VI Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso, que ocorre durante todo o mês de maio, marcando o dia nacional dos Povos Ciganos (24 de maio).

O projeto guarda-chuva acontece nos três maiores municípios de MT com comunidades ciganas, Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra, durante todo o mês do maio, com eventos e programações presenciais e online.

Entre elas, o IV Encontro de Mulheres Ciganas, a Exposição Diquela, a Mostra Calon Lachon, a campanha para redes sociais de valorização da cultura e da história dos povos ciganos, Ancestralidade Viva, que também vista o combate ao racismo e preconceitos contra as pessoas ciganas.

O projeto neste ano contou também com um grande encontro presencial, que ocorreu nos dias 01, 02 e 03 de maio, em Rondonópolis, na Chácara da Amizade, que reuniu mais de 300 convidados de nove cidades de MT (Cuiabá, Tangará, Chapada, Várzea Grande, Sinop, Guiratinga, Nova Xavantina, Alto Garças e Pedra Preta) e cinco estados (Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso do Sul), sendo 20 pessoas só de Goiás, das cidades de Mineiros, Itaberaí e Goiânia.

Estreando no evento, neste ano, ocorreu o I Seminário Estadual de Direitos Humanos dos Povos Ciganos, em parceria com o Conselho Estadual de Direitos Humanos de Mato Grosso (CEDH/MT).

A realização do evento é da AEEC-MT, com patrocínio da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT), por meio do Edital Rede de Pontos de Cultura e do Ministério da Igualdade Racial / PNUD, por meio de aprovação no Processo Seletivo do Edital nº 01/2025, no âmbito Secretaria de Políticas Para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos BRA/24/009 – Apoio à implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola, e fortalecimento dos povos ciganos, de matriz africana e de terreiros.

Inscrições do Prêmio Puron Jandon e Purô Harano estão abertas até dia 12 de junho

Estão abertas as inscrições para o Prêmio Puron Jandon e Purô Harano.  O prêmio é uma iniciativa do Ministério da Igualdade Racial (MIR) em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (URFB), por meio do Projeto Encruza 2.

Interessados ciganos das três etnias, Calon, Rom e Sinti, têm até o próximo dia 12 de junho para fazer a inscrição, que é toda online, pelo site Prosas. A iniciativa busca reconhecer e premiar mestras e mestres ciganos que atuam na preservação das tradições em suas comunidades.

Para mais informações e fazer inscrições, basta acessar o site do Prosas, no seguinte link: https://prosas.com.br/editais/17678-premio-puron-jandon-e-puro-harano?subdominio=prosas  

Serão premiados 10 (dez) Mestras e Mestres ciganos, conforme critérios previstos neste edital e seus anexos, no valor de R$ 30.000,00 (Trinta Mil Reais) cada prêmio. A ação integra o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos.

Para os fins do Edital, serão reconhecidas como lideranças comunitárias as pessoas pertencentes a um dos três agrupamentos ciganos do país anteriormente indicados, sendo o pertencimento étnico um critério exclusivo para esse reconhecimento. 



Para participar e ser reconhecido no âmbito deste Edital, o candidato deverá:

I. Obter pontuação dentro dos Critérios de Avaliação (ainda será disponibilizada a Barema nos próximos dias), relacionado ao histórico de atuação da Mestre ou Mestra Cigana.

II. Avaliação a ser realizada pela Comissão de Seleção a partir do portfólio de no máximo 10 MB (relatório com material de comprovação das atividades) OU de vídeo de apresentação (máximo de 15 minutos de apresentação).

Obs1.: A inscrição por vídeo ou portfólio, poderá ser feita por terceiro, em favor do concorrente a premiação, caso haja dificuldade no manuseio das tecnologias.

Obs2.: No caso de inscrição feita com ajuda de terceiro, a inscrição realizada deverá ocorrer mediante autorização expressa do candidato, preferencialmente por meio de declaração simples ou instrumento equivalente, subscrita pelo próprio concorrente, de modo a resguardar a autenticidade da manifestação de vontade do participante e evitar questionamentos quanto à legitimidade da inscrição ou à veracidade das informações apresentadas.

III. Preenchimento da ficha eletrônica de inscrição (Anexo I) e demais conteúdos e documentos enviados pela pessoa física.

IV. Autodeclaração de pessoa pertencente aos povos ciganos do Brasil (seus grupos e subgrupos), assinada e firmada por 2 (duas) outras lideranças de povos ciganos do Brasil indicada pelo participante (Conforme anexo que será disponibilizado nos próximos dias).

Obs1.: Os nomes das 2 (duas) lideranças da etnia devem vir conjuntamente com número de telefone, informações referente a CPF (Cadastro de Pessoa Física) à título de confirmação das informações repassadas.

Obs2.: Entre essas 2 (duas) lideranças que irão firmar o documento, no mínimo 1 (uma) delas, necessitará constar fora da família do candidato.

Obs3.: Entende-se por liderança de pertencimento étnico cigano, pessoas já reconhecidas coletivamente pelas comunidades, de notório saber tradicional e trajetória no meio a que pertence. 

QUEM PODE PARTICIPAR DO EDITAL?

I. Mestras e Mestres ciganos representantes de povos ciganos acima de 40 (quarenta) anos, do Brasil (com seus grupos e subgrupos), com propostas que evidenciem suas contribuições coletivas e comunitárias, o estímulo à preservação da memória coletiva, demonstrando as práticas e conhecimentos transmitidos por essas lideranças, assim como de seu pertencimento étnico ancestral.

Para dúvidas relacionadas ao regulamento do Edital e conteúdo para preenchimento no formulário, deverá entrar em contato com o e-mail premiopuronjandonepuroharano@cahl.ufrb.edu.br 

Para se candidatar, o proponente ou quem vai inscrever o mestre no edital necessita fazer um cadastro na plataforma Prosas.

Disponível em: https://prosas.com.br/editais/17678-premio-puron-jandon-e-puro-harano?subdominio=prosas#!#tab_vermais_descricao 


Ancestralidade Viva: Leila Cabral Nunes - O Tempo que a gente É!

Leila Cabral Nunes, conhecida como Tia Leila, nasceu em 31 de agosto de 1961, em Alto Garças (MT), onde seu pai, José Alves Pereira, era fazendeiro. Filha de José e Isaura Cabral Pereira, passou os primeiros anos de vida acompanhando a família pelas mudanças.

Após a venda da fazenda em Alto Garças, a família mudou-se para Guiratinga, onde Leila foi criada até os quatro anos de idade. Mais tarde, seguiram para Rondonópolis, acompanhando o pai, que continuou trabalhando com fazendas na região. 

Foi nesse período, já na região de Juscimeira, que conheceu seu namorado, com quem mais tarde se casou. Dessa união nasceram seus dois filhos, Albericle e Dayane, que ela considera os presentes mais preciosos que Deus lhe deu.

Com o passar dos anos, a família cresceu com a chegada dos netos Adryan, Ryan, Myrian e Davi. Infelizmente, seu filho Albericle se foi cedo, faleceu aos 39 anos, vítima da COVID-19. Hoje está guardado com amor na memória de Leila e de seus familiares.

Leila vive em Rondonópolis há tantos anos que nem consegue calcular. Ao longo da vida trabalhou muito, construiu sua família e acompanhou a vida dos filhos, entre eles Dayane, que se tornou enfermeira. Hoje, é casada com um professor de Educação Física, onde vivem juntos na cidade.

Aos 64 anos, Tia Leila é feliz com a vida que leva: “Tô aqui, velhinha já, com a graça de Deus, vivendo minha vidinha de cigana. Adoro ser cigana! É minha vida ser cigana!". Uma mulher orgulhosa de suas origens e de tudo o que construiu.

TEXTO: LIVIA FREIRE

FOTOS: TAMI LAGE

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Projeto da Escola Maria Fragelli com povos ciganos é selecionado pela DRE de Rondonópolis

O projeto “Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos”, realizado pelo grêmio estudantil da Escola Estadual de Tempo Integral Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, de Guiratinga, para comemorar o mês comemorativo à História e Cultura dos Povos Ciganos, foi um dos três selecionados na etapa regional do processo lançado pela Diretoria Regional de Educação (DRE) de Rondonópolis e que visa a certificação do selo “Tereza de Benguela”. A DRE é um órgão da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC/MT).

O resultado foi anunciado nesta sexta-feira (30/05) pela DRE e, seguindo estritamente as diretrizes do documento Orientativo da instituição, o vídeo da Escola Maria Fragelli (e de outras duas escolas selecionadas: Escola Estadual Major Otávio Pitaluga e Escola Sagrado Coração de Jesus) foi publicado na página oficial da DRE e pode ser acessado no seguinte link: https://www.instagram.com/reels/DY7VENOx_IO/

De acordo com o comunicado da DRE, os avaliadores ficaram “profundamente impressionados com o engajamento, a criatividade e a sensibilidade demonstrada pelos nossos adolescentes/jovens na construção de cada material.  Parabenizamos cada estudante envolvido!”

O vídeo mostra como foi a programação da escola no último dia 19 de maio (terça-feira) em comemoração ao Dia Nacional dos Povos Ciganos (24 de Maio) e que contou com a parceria da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT).

Realizada pelo grêmio estudantil União Jovem, o projeto Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos, ocorreu no período da manhã e contou com a participação especial do grupo de Danças Tradição Cigana, de Rondonópolis. Integrando a rede estadual de ensino, o projeto foi coordenado pelos professores Joaquim Vilela Neto e Selma Ribeiro, esta última também cigana de etnia Calon e integrante da AEEC-MT.

A programação contou com apresentações de dança do Tradição Cigana e a presença do diretor da escola, das coordenadoras Clarice Terezinha Dallabrida e Neuracy trindade Santana, além do ator Ataíde Arcoverde, que é natural e morador de Guiratinga.

Além da participação do grupo de danças Tradição Cigana, o evento contou com um cine-debate que exibiu o filme “Caminhos Ciganos” e dois episódios da websérie “Diva e As Calins de Mato Grosso”: episódio 1 Mestra Diva e episódio água Terezinha Alves. Falando em nome da AEEC-MT, Nilva Rodrigues, que é coordenadora de mulheres da instituição reforçou algumas questões centrais acerca da cultura, das tradições, da identidade do tronco étnico Calon, bem como destacou o combate ao preconceito e ao racismo.

De acordo com Selma Ribeiro, o público do projeto são os alunos do ensino fundamental II e ensino médio. Segundo ela, o objetivo geral do projeto é proporcionar aos alunos o contato com a história, tradições e lutas dos povos ciganos, destacando sua presença em Mato Grosso.

Além disso, o projeto teve como objetivos compreender a trajetória nômade e a fixação das comunidades em MT; valorizar o papel da mulher cigana (Calin) na preservação da cultura e na conquista de espaços acadêmicos e políticosç; e estimular o pensamento crítico sobre os direitos das comunidades tradicionais.

“O Dia Nacional do Povo Cigano (24 de maio) é uma oportunidade para desconstruir estereótipos e combater o preconceito histórico contra as etnias ciganas. Ao focar em figuras locais, como Mestra Diva e Terezinha Alves, o projeto humaniza a história, conectando o conteúdo acadêmico à realidade do estado de Mato Grosso e promovendo a educação para a diversidade e igualdade racial”, explica Selma.

Ancestralidade Viva: Alaor e Hélia - O Tempo que a gente É!

Tio Rei e tia Hélia são casados há mais de 56 anos e vivem em Rondonópolis.

Alaor, carinhosamente conhecido como “Tio Rei”, e Hélia formam um dos casais mais antigos e queridos de Rondonópolis. Lideranças anciãs da comunidade cigana Calon e queridos por todos, tiveram a construção de uma vida inteira dedicada à família e ao trabalho. 

Nascido em 13 de janeiro de 1947, Alaor veio ao mundo em Patos de Minas, Minas Gerais. Filho de José Alves Pereira e Isaura Cabral, cresceu entre as mudanças da família até chegar em Mato Grosso ainda pequeno. Seu pai trabalhava em empreitas e fazia todo tipo de serviço para sustentar a família, carregando consigo a força do trabalho que também marcou a vida de Alaor.

A família passou por Alto Garças e Guiratinga, até se estabelecer em Rondonópolis, cidade onde grande parte dos parentes ciganos vindos de Minas Gerais também construíram suas vidas. 

Foi em Guiratinga que Alaor conheceu Hélia Marcel Pereira, nascida em 28 de março de 1948, em Minas Gerais, na região de Dianópolis. Os dois são primos, se casaram ainda jovens e seguem juntos há 56 anos, construindo uma história de muita parceria.

Depois do casamento, vieram para Rondonópolis, onde vivem há décadas. Somente na casa onde residem atualmente já são 28 anos de memórias construídas. Juntos, tiveram dois filhos, Fábio e Neide, e também os netos Joyce e Gean.

Ao lembrar da própria história, Alaor resume com orgulho aquilo que é característica marcante do casal: “Somos ciganos, somos trabalhador e lutador”. Alaor e Hélia seguem sendo símbolos da memória, da resistência e da presença da cultura cigana Calon em Mato Grosso. Viva Alaor e Hélia!

#MaioCigano #AncestralidadeViva

TEXTO: LÍVIA FREIRE

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Nerana Cunha Pereira - O Tempo que a Gente É!

Nerana Cunha Pereira é a segunda homenageada do Ancestralidade Viva #MaioCigano. Nasceu em 2 de novembro de 1952, em Patos de Minas-MG. Apesar de ter vindo embora ainda muito pequena, nos braços da mãe, carrega consigo o orgulho de suas origens ciganas e a memória afetiva da família.

Casada com Euripes Alves Pereira, construiu sua vida entre Cuiabá e Tangará da Serra. Diferente de muitas narrativas associadas ao povo cigano, conta que viajou pouco. Seu pai possuía terras e, depois do casamento, ela e o marido passaram a viver próximos da família, criando raízes sem abandonar a identidade Calon.

Ao longo da vida, trabalhou como vendedora, comercializando enxovais e outros produtos. Sempre reforça, porém, que acima de qualquer ocupação, o que nunca abandonou foi o orgulho de ser cigana. “Nunca neguei”, afirma, dizendo que gosta de sua origem. 

A família aparece como o maior valor em sua vida. Nerana teve três filhos, já falecidos, e fala deles com amor. Hoje, encontra continuidade nos cinco netos e nos dois bisnetos, Laura e Benjamin. 

Nerana é também uma guardiã da língua chibe. Ela conta que ensinou os filhos a falarem e que continua ensinando os netos e bisnetos, porque acredita que a tradição não pode desaparecer. Para ela, preservar a língua chibe é também preservar a identidade cigana.

Sua história é marcada pela saudade das pessoas queridas que perdeu ao longo da vida, mas também pela firmeza com que sustenta sua memória e pertencimento. Ao falar de si, Nerana ressalta: é cigana, sente orgulho disso e deseja que as próximas gerações continuem carregando essa herança.

TEXTO: LIVIA FREIRE
FOTOS: MARIA CLARA AQUINO E KAREN FERREIRA



terça-feira, 26 de maio de 2026

UFMT recebe Mostra Calon Lachon e VI Encontro de Cultura Cigana de MT nesta quarta

Cena do Episódio 1 - Jalemos Situque - comunidade de Tangará da Serra. 

O Festival Maio Cigano – VI Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso, chega nesta quarta-feira (27/05) à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

No período entre 14h e 17h ocorrerá no Instituto de Educação (IE), sala 123, programação da Mostra Calon Lachon de Audiovisual, com o pré-lançamento da série em três episódios, Calon Lachon, que tem o mesmo nome da mostra.

A ída da Mostra Calon Lachon para a UFMT ocorreu por meio de parceria entre a AEEC-MT e o Coletivo Kilombo Cassangue, do curso de Psicologia da UFMT.

Portugal, Brasil e França estão na série. Fotos: Karen Ferreira.

A série Calon Lachon é dirigida por Aluízio de Azevedo, com com co-direção de Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira.

Aluízio e Zaiden estarão presentes no evento, que contará com debate após a exibição dos três episódios.

São três episódios: Jalemos Situque (vamos embora), Chiba Calin (Fala Cigana) e Fé em Duvele (Deus).

Peregrinação de Santa Sara Kali, em França. Frame do Episódio 3.

Jalemos Situque mostra a conexão audiovisual entre dois grupos ciganos de etnia Calon, a comunidade de Tangará da Serra (MT) e a comunidade Nova Canaã (Brasília – DF).

Chiba Calin foca nos registros audiovisuais de ciganos portugueses de cidades como Beja, Lisboa, Águeda e Porto.



Fé em Duvele traz a fé e a espiritualidade cigana, começando pela festa de Santa Sara Kali, que ocorre todo ano em Saintes-Maries-De-La-Mer, França, passando pela larga influência da Igrela Filaldéfia em Portugal e o movimento pentecostal da Assembleia de Deus em Brasil.

A serie Calon Lachon é patrocinada por meio do edital Cine Motion – Desenvolvimento de Roteiro da Secel/MT.  Já a Mostra Calon Lachon e o VI Encontro de Cultura Cigana de MT, além do patrocínio da Secel/MT, também tem o patrocínio do Ministério da Igualdade Racial (MIR) / PNUD.

#povosciganos #calonlachon #ufmt #cuiaba #psicologia

Frame Episódio 1, Nova Canaã - Brasília (DF).

sábado, 23 de maio de 2026

Tradição Cigana participa de comemoração do dia nacional dos ciganos em escola de Guiratinga

Programação em comemoração ao dia nacional dos povos ciganos contou ainda com cine debate 

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) participou, no último dia 19 de maio (terça-feira) de programação em comemoração ao Dia Nacional dos Povos Ciganos (24 de Maio) da Escola em Tempo Integral Dona Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, no município de Guiratinga.

Realizada pelo grêmio estudantil União Jovem, o projeto Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos, ocorreu no período da manhã e contou com a participação especial do grupo de Danças Tradição Cigana, de Rondonópolis. Integrando a rede estadual de ensino, o projeto foi coordenado pelos professores Joaquim Vilela Neto e Selma Ribeiro, esta última também cigana de etnia Calon e integrante da AEEC-MT.

A programação contou com apresentações de dança do Tradição Cigana e a presença do diretor da escola, das coordenadoras Clarice Terezinha Dallabrida e Neuracy trindade Santana, além do ator Ataíde Arcoverde, que é natural e morador de Guiratinga.

Assista ao vídeo da participação do grupo de Danças Tradição cigana na Escola Maria Fragelli:


Além da participação do grupo de danças Tradição Cigana, o evento contou com um cine-debate que exibiu o filme “Caminhos Ciganos” e dois episódios da websérie “Diva e As Calins de Mato Grosso”: episódio 1 Mestra Diva e episódio água Terezinha Alves.

Falando em nome da AEEC-MT, Nilva Rodrigues, que é coordenadora de mulheres da instituição reforçou algumas questões centrais acerca da cultura, das tradições, da identidade do tronco étnico Calon, bem como destacou o combate ao preconceito e ao racismo.

"Eu estou muito feliz com a escola que promove esse projeto, inspirado pela minha prima Selma. Parabéns para todos os alunos e alunas que estão aqui aprendendo mais sobre respeito, cidadania e uma cultura tradicional. Graças a Deus, nós ciganos, em Mato Grosso, deixamos de ser nômades e na segunda geração temos professores, jornalista, advogados, enfermeiros e muitas pessoas ciganas formadas, que alcançaram a educação superior".

Veja no vídeo o discurso de Nilva na íntegra:

 

De acordo com Selma Ribeiro, o público do projeto são os alunos do ensino fundamental II e ensino médio. Segundo ela, o objetivo geral do projeto é proporcionar aos alunos o contato com a história, tradições e lutas dos povos ciganos, destacando sua presença em Mato Grosso.

Além disso, o projeto teve como objetivos compreender a trajetória nômade e a fixação das comunidades em MT; valorizar o papel da mulher cigana (Calin) na preservação da cultura e na conquista de espaços acadêmicos e políticosç; e estimular o pensamento crítico sobre os direitos das comunidades tradicionais.

“O Dia Nacional do Povo Cigano (24 de maio) é uma oportunidade para desconstruir estereótipos e combater o preconceito histórico contra as etnias ciganas. Ao focar em figuras locais, como Mestra Diva e Terezinha Alves, o projeto humaniza a história, conectando o conteúdo acadêmico à realidade do estado de Mato Grosso e promovendo a educação para a diversidade e igualdade racial”, explica Selma, ao acrescentar que:

“Em Guiratinga, não poderia ser diferente, poderemos contar com a participação e mostrar da diversidade cultural destes povos através do grupo Tradição Cigana de Rondonópolis com danças típicas, o dialeto, as vestimentas, na etnobotânica, nos fitoterápicos, na transformação de metais como tachos de cobre, contribuição essencial ao comercio entre tantas outras contribuições”, finaliza Selma.