segunda-feira, 10 de maio de 2021

NA MÍDIA: Comunidades ciganas de MT tentam manter tradições e geração jovem ainda enfrenta preconceito

Associação estima que são 130 famílias que moram em Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra. Os mais velhos tentam ajudar os mais jovens a vencerem o medo de se identificarem como ciganos.

Por Denise Soares, G1 MT

10/05/2021 13h36  Atualizado há 2 horas

Presentes em Mato Grosso desde a década de 60, as comunidades ciganas tentam manter as tradições nos dias atuais, mas a geração jovem ainda enfrenta preconceito no estado.

O último levantamento da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) apontou que em Mato Grosso existem 130 famílias ciganas (cerca de 300 pessoas), espalhadas por Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra.

A presidente da associação, Fernanda Alves Caiado, de 34 anos, recorda as histórias dos avós, que andavam em tropas a cavalo, dormiam em barracas e vendiam mercadorias de cidade em cidade, até viajarem de Minas Gerais a Mato Grosso.

"Meu avô era goiano e andava em tropas. Conheceu minha avó em Minas Gerais, que não era cigana. Eles faziam negociações de produtos e animais", contou.

Segundo ela, os ciganos possuem algumas características marcantes: gostam de se reunir em família, são unidos e têm o dom da negociação. Não é à toa que a maior parte dessa etnia trabalha como comerciante, inclusive a própria Fernanda.

O casamento entre primos também é algo comum na comunidade cigana. Com a pandemia, as grandes reuniões em família foram suspensas para evitar aglomerações. Grande parte dos ciganos em Mato Grosso tem residência fixa.

“A principal característica dos ciganos é a união. Temos a necessidade de estarmos perto um do outro e nessa pandemia temos sofrido muito. Outra coisa que mantemos na nossa cultura é a negociação. A gente vive de negociar, às vezes sem perceber, mas temos o dom de negociar”, disse a presidente.

A figura de maior destaque da cultura cigana em Mato Grosso é Maria Divina Cabral, ou Diva como é mais conhecida, que foi recentemente referenciada como mestre da cultura mato-grossense.

Diva nasceu na cidade de Mineiros (GO) e viveu boa parte de sua vida nos lombos dos cavalos, trafegando por várias cidades da região Centro-oeste.

No início da década de 70 fixou residência com sua família e parte da comunidade em Rondonópolis, a 218 km de Cuiabá, que se tornou a maior comunidade cigana de Mato Grosso.

A cigana rezadeira é respeitada e ouvida por todos devido à sua experiência e sabedoria na condução e guardiã de diversos costumes, narrativas e saberes da filosofia kalon, nome do grupo que ela pertence.

“Diva vive da garrafada, da raizada e xaropes. É uma cultura que ela passou para as filhas e elas tentam passar para as netas”, comentou a presidente.

Conhecedora de uma variedade de plantas medicinais do cerrado e da floresta amazônica, Diva usa os saberes da medicina tradicional Calon para atender também aos não-ciganos.

“A terceira geração sabe menos da cultura cigana porque existe, infelizmente, um certo preconceito da sociedade com os ciganos. As pessoas têm uma visão de que somos ladrões e mentirosos. Então, às vezes, temos pessoas mais jovens na família que nem citam que são ciganos por medo de serem tratado mal ou por vergonha”, lamentou Caiado.

A presidente lembrou que no ano passado um primo dela morreu com Covid-19. Em postagens nas redes sociais, a família do paciente recebeu uma enxurrada de críticas pelo fato do rapaz ser cigano.

“A nova geração tem que se orgulhar e não se envergonhar. Quando escuto as histórias dos meus avós e vejo o quanto eles sofreram e foram perseguidos, hoje vejo os ciganos que podem viver, estudar e eu posso falar que sou cigana”, disse.

A presidente diz que ainda existem ciganos nômades no país e em Mato Grosso, no entanto, a falta de documentação deles dificulta a associação a ter um levantamento específico desses povos.

O Dia Nacional dos Ciganos é comemorado no dia 24 de maio. A data foi escolhida em homenagem à Santa Sara Kali, padroeira de muitos grupos romani, especialmente do continente europeu. 

Disponível: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/05/10/comunidades-ciganas-de-mt-tentam-manter-tradicoes-e-geracao-jovem-ainda-enfrenta-preconceito.ghtml 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Ederlezi: Time of the Gypsies - Goran Bregović, Emir Kusturica

Música símbolo dos povos ciganos dos Balcãs, Ederlezi é também o nome do festival da primavera quando comemoram a festa para São Jorge

A dica cultural de hoje da AEEC-MT é a música-clipe Ederlezi, do filme “Tempo dos Ciganos” (1988), do premiado diretor de origem Romani, Emir Kusturica.

Executada pelo também cigano e multiartista Gojan Bregovick, Ederlezi é uma música popular dos grupos romani dos Balcãs e é a canção popular símbolo do festival “Ederlezi”, em comemoração à primavera.

Já o filme é uma preciosidade, que mostra a vida do jovem “Perhan”, que vive numa comunidade cigana periférica com sua avó, o tio e a irmã, por uma ótica completamente lírica, mas sem deixar de mostrar as exclusões.

Um trabalho que oscila entre a miséria e o sonho, o drama e a simplicidade e que merece ser visto pelas pessoas ciganas que ainda não tiveram oportunidade e pelos não ciganos, que podem conhecer um pouco mais de nós!


quinta-feira, 6 de maio de 2021

Maio: o mês dos povos ciganos no Brasil

Matriarcas da comunidade cigana mato-grossense da família Alves Pereira. Da direita para esquerda: Lídia, Elza, Alda, Jandica, Luzia e Tita ciganas Calin. Foto: Arquivo AEEC-MT

Data é avanço, mas muito ainda precisa ser feito para inclusão das comunidades ciganas brasileiras

No próximo dia 24 de maio completa 15 anos de comemoração do Dia Nacional dos Ciganos. A data foi estabelecida em 2006 por meio do Decreto Presidencial de 24 de maio de 2005, assinado pelo ex-presidente Lula.  Vinte e quatro de maio foi escolhido em homenagem à Santa Sara Kali, a padroeira de muitos grupos romani, especialmente do continente europeu.

Para comemorar a data e proporcionar visibilidade aos povos e culturas ciganas e sua imensa diversidade étnica; a Assessoria para Ciência e Comunicação da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) preparou uma série de reportagens, artigos e materiais próprios e de outras fontes.

Por que a data é importante?

O dia nacional dos ciganos é um marco no modo como o estado brasileiro passou a tratar as comunidades ciganas. Apesar de estarmos presentes no país desde os primórdios da colonização (século XVI), até essa data não contávamos com qualquer política pública específica de reconhecimento.

Pelo contrário, historicamente sempre fomos vítimas de políticas coloniais e persecutórias tanto em Portugal, quanto no Brasil.

Mesmo contribuindo fortemente para as identidades e as culturas nacionais dos dois países; sofremos processos de invisibilidade ou estereotipia nas artes, literatura, ciência e senso comum. Tal situação deixou reflexos altamente negativos no imaginário social português e brasileiro acerca das pessoas romani.

Uma realidade que este nome genérico “cigano” não dá conta de representar, pois somos muito diversos. Ao todo pertencemos a três grandes troncos étnicos: os Calon, os Rom e os Sinti, que por sua vez, se subdividem em subgrupos, com línguas, culturas e identidades diferentes.

Patriarcas da comunidade cigana mato-grossense, os irmãos Rodrigues Cunha: Da direita para esquerda, Ranulfo, Jove, Albano, Araxide, Alvone, Stoesse, Lourival e Anésio. Foto: Arquivo AEEC


Visibilidade para combater o racismo estrutural

O resultado destes séculos de exclusão social é um racismo estrutural latente, também denominado de anticiganismo ou ciganofobia, que atualmente colocou a imensa maioria das pessoas ciganas brasileiras em situação de exclusão e/ou desigualdade social.

Neste cenário, a criação do dia nacional dos ciganos, foi um reconhecimento importante por parte do Estado brasileiro, que no ano seguinte, por meio de outro decreto presidencial (6.040 de 2007), incluiu-nos como parte dos povos e comunidades tradicionais brasileiros, com os mesmos direitos e deveres.

Mas muita gente desconhece o universo cigano, a não ser pelo imaginário, que vacila entre dois polos estereotipados: uma visão romântica, que apela à sensualidade, à malandragem, à falsa liberdade do nomadismo; ou uma visão extremamente negativa, associada a todos os tipos de bandidagens.

Daí pensarmos essa série, de maneira a também quebrar com esses preconceitos estabelecidos, que acabam levando ao racismo institucional em diversas áreas.

Não perca as próximas postagens, que trarão elementos simbólicos, artísticos, culturais e científicos sobre as comunidades ciganas brasileiras.

Acesse aqui o artigo que produzimos para a mesma data no ano passado, em conjunto com o ativista Calon Português, Pimênio Ferreira: https://aeecmt.blogspot.com/2020/05/dia-nacional-dos-ciganos-resistimos-e.html 

Texto: Dr. Aluízio de Azevedo

Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT, cigano da etnia Calon, especialista em cinema, mestre em educação e mitologias ciganas e doutora em informação, comunicação e saúde das comunidades romani de Brasil e Portugal

 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

UFBA lança mestrado com vagas para Povos Ciganos, Indígenas e Quilombolas

As inscrições para o processo seletivo estão abertas até o dia 23 de maio e devem ser efetuadas no ambiente virtual Moodle UFBA (www.moodle.ufba.br)

O Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade (PPGEISU), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), lança nesta quarta-feira (05 de maio de 2021) o edital de seleção de novos ingressantes ao curso de Mestrado Acadêmico, com a oferta de 50% de vagas em ações afirmativas, destinadas a candidatos (as) autodeclarados (as) negros (as), pretos (as) e pardos (as), e sobrevagas para indígenas, quilombolas, ciganos, pessoas com deficiência e pessoas trans (transexuais, transgêneros e travestis). A novidade é que pela primeira vez os Ciganos (as) serão contemplados em vagas supranumerárias.

Serão oferecidas 15 (quinze) vagas, distribuídas da seguinte forma: 07 (sete) vagas para ampla concorrência, 07 (sete) vagas para candidatos autodeclarados negros (as), pretos (as) e pardos (as) e 1 (uma) vaga para estrangeiros, acrescidas de até́ 05 (cinco) vagas supranumerárias para estudantes, sendo uma vaga para cada uma das categorias de identificação: Indígena, Quilombola, Cigano (a), pessoa com deficiência e pessoa trans (transexuais, transgêneros e travestis), desde que tenham se autodeclarado e confirmada sua condição de optante no campo específico dessa modalidade de reserva de vagas, no formulário de inscrição. 

A iniciativa de contemplar os Ciganos (as) nas vagas supranumerárias, além de Indígenas, Quilombolas, estrangeiros, pessoas trans e com deficiência, é pioneira entre os Programas de Pós-Graduação da UFBA. De acordo com a professora Renata Veras, Coordenadora da Comissão de Seleção, e com a docente Maria Thereza Coelho, coordenadora do PPGEISU, a reivindicação partiu do aluno e representante estudantil no Colegiado do curso, Roy Rogeres Fernandes, que é Cigano da etnia Calon e de tradição circense. O PPGEISU tem a Universidade, em sua integralidade, como principal objeto de estudo, de modo que muito lhe interessa a diversidade de culturas e povos entre seus estudantes, além da contribuição ao processo de reparação pela via da educação, reconhecimento das cidadanias e justiça social para esses grupos, historicamente ausentes da Universidade.

As inscrições para o processo seletivo estão abertas até o dia 23 de maio e devem ser efetuadas no ambiente virtual Moodle UFBA (www.moodle.ufba.br). Os interessados deverão realizar cadastro nessa plataforma e seguir as instruções. Todo o processo será realizado em formato virtual e o resultado final está previsto para ser divulgado em 12 de julho. Demais informações sobre o PPGEISU, linhas de pesquisa e o processo seletivo estão disponíveis no site (http://www.ihac.ufba.br/eisu).

Texto: Da Assessoria PPGEISU

domingo, 2 de maio de 2021

Netas de Chaplin fazem documentário sobre suas origens ciganas

Filme é assinado por Carmen e Dolores Chaplin que vivem em Espanha e promete uma viagem pela herança cigana do seu avô. “Se as pessoas ficarem chocadas em saber que ele era cigano, melhor!”, diz Michael, um dos 11 filhos de Chaplin.


Dos milhões de cartas de fãs e admiradores que recebeu em vida, Charles Chaplin (1889-1977) guardou apenas uma. Curiosamente, não estava assinada por qualquer nome sonante, mas por um desconhecido: um tal Jack Hill. O que dizia de tão importante para o célebre ator a guardar como um tesouro?

A missiva foi descoberta em 2011, 34 anos após a morte de Chaplin, quando a sua filha Victoria abriu a gaveta de uma escrivaninha na mansão da família em Corsier-sur-Vevey, na Suíça. O envelope mostrava que fora remetida ao seu pai por Jack Hill, um octogenário inglês de Tamworth, no início dos anos 70. 

Hill chamava-lhe “mentirosozinho” (“little liar”) por, na sua Autobiografia, Chaplin dizer que tinha nascido em Londres. E especificava que na verdade o comediante nascera num acampamento em Black Patch Park – na altura, um grande acampamento cigano perto de Birmingham, Inglaterra.

A descobertas das origens Charles Chaplin acreditou, durante muitos anos, que havia nascido em Londres no ano de 1889, tal como escreveu na Autobiografia, publicada em 1964. Filho de artistas de music hall, uma forma de entretenimento teatral de origem britânica, muito popular entre 1850 e 1960, definido como uma mistura de música popular e comédia, Chaplin nunca conseguiu encontrar a sua certidão de nascimento, algo comum entre as famílias que muito viajavam em consequência da profissão.

E, apesar de saber que o seu pai era meio cigano, o cineasta só pouco antes da morte da mãe, em 1928, ficou a saber que também ela partilhava da mesma etnia. Hannah confessou ao filho que era 100% cigana e irmã de uma rainha desta etnia – portanto, Chaplin também era um cigano. “Ele estava muito ciente das suas origens ciganas, costumava dizer ao meu pai e aos seus outros filhos que eles tinham essa origem e que deveriam ter orgulho nesse facto”, garantiu Carmen Chaplin.

As revelações do documentário Agora, a família Chaplin quer sublinhar as origens do génio do século XX com o documentário Charles Chaplin – Um Homem do Mundo, dirigido e co-escrito, juntamente com Amaia Remírez e Isaki Lacuesta, por duas das suas netas, Carmen e Dolores Chaplin. 

O filme, que já se encontra em fase de pré- produção, levará os espectadores numa viagem por França, Suíça, Sérvia, Reino Unido, Romênia e Espanha, propondo uma nova leitura do seu cinema e música do ponto de vista da sua origem.

Ainda não se sabe quem serão os protagonistas, contudo, já foram revelados os nomes dos cineastas Emir Kusturica e Tony Gatlif. “Artistas e criadores com alma romana ou boémia vão participar neste documentário para nos ajudar a reinterpretar o trabalho do nosso avô com essa visão”, explicou Carmen. “Mas não podemos dizer mais nada, porque queremos que seja uma surpresa.

O filme, destinado aos cinemas, será finalizado no verão de 2022, possui 70% de produção espanhola (o restante vem de vários países europeus) e já tem garantida a sua distribuição nos cinemas espanhóis.

As memórias do avô “O avô revelou com grande felicidade ao nosso pai, quando este ainda era criança, toda a história dos seus antepassados ciganos e ele, por sua vez, contou-nos a mesma história quando ainda éramos pequenas”, revelaram as netas, em declarações ao El País. 

Carmen Chaplin

As duas relembram o avô: “Éramos muito jovens, mas lembramo-nos que, no Natal, reuníamos o maior número possível de filhos e netos na Suíça, e Charlie, na sua cadeira de rodas, contava-nos histórias. Infelizmente, não nos lembramos delas, mas lembramo-nos de como nos esforçávamos para estar o mais perto possível da cadeira”, confessa Dolores. 

Carmen complementa esta memória: “Também assistíamos a muitos filmes caseiros. O nosso avô filmou muitos vídeos para documentar as suas viagens e os seus momentos de felicidade familiar”.

Com uma banda sonora e composições reinterpretadas de Chaplin, no documentário, também trechos desse material, que contém entrevistas com artistas e filhos de Chaplin, serão combinados com sequências sobre a vida dos ciganos atualmente. “Esta herança cigana ressalta um sentimento de desagregação que o nosso pai sempre carregou com orgulho”, enunciaram ainda as netas ao jornal espanhol.

Chaplin faleceu no dia de Natal de 1977. O seu filho Michael declara: “Ele não entendia os nacionalismos e odiava o conceito de patriota. Gostava de enfatizar, como no discurso do filme O Grande Ditador, que era um cidadão do mundo. Enquanto se disse, por anos a fio, que ele era judeu [o próprio Chaplin encarnou esse papel inúmeras vezes], o nosso pai nunca o negou. O que importa isso? Se as pessoas ficam chocadas em saber que ele era cigano, melhor! Isso vai significar uma abertura em algumas cabeças”.

No trailer do documentário, Michael fala sobre o filme de 1923, O Peregrino, onde um polícia americano empurra Chaplin para o México. No filme, o protagonista cruza a fronteira e depara-se com um tiroteio. Do outro lado, estão as forças de segurança e, por isso, Chaplin deambula pelo deserto com um pé de cada lado. “É um bom exemplo de como os ciganos vivem em dois mundos, o deles e o marcado pelos papéis oficiais”, explica Michael. 

Certamente essa condição ajudou a moldar este artista completo. “Charles Chaplin era um músico autodidata e isso é algo muito cigano. Quando se conta aos ciganos que este partilhava dessa etnia, eles respondem que isso é óbvio, tendo em conta o seu sentido de humor, a sua maneira de contar histórias, a comédia trágica nos seus filmes e as brilhantes bandas sonoras”, conclui Carmen.

Disponível em: https://ionline.sapo.pt/artigo/732176/chaplin-o-documentario-que-nos-contara-a-historia-das-suas-origens-ciganas?seccao=Mais_i

sábado, 1 de maio de 2021

AEEC-MT participará de eleição para composição do Conselho Nacional de Igualdade Racial

A Assistente Social Terezinha Alves será a representante da AEEC-MT na eleição do Conselho e  a indicada da associação a participar do órgão. Crédito: Karen Ferreira

Ao lado de outras seis entidades brasileiras da sociedade civil organizada que representa povos e comunidades racializadas; a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) foi habilitada para participar das eleições onde serão escolhidos os novos integrantes do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), para o biênio 2021/2022.

O resultado da habilitação foi publicado no edital número 08 de 2021 pela Ministra da Mulher, da Família e Direitos Humanos, Damares Alves, no Diário Oficial da União de 19 de abril de 2021. Criada em setembro de 2017, a AEEC-MT tem atuado ativamente para valorização e conservação das culturas ciganas. 

O Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial também reúne povos indígenas e de matriz africana, como povos de terreiro e quilombolas.

A presidente da AEEC-MT, Fernanda Alves Caiado, recebeu no último dia 29 de abril um e-mail com a convocação do Presidente do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, para indicação do membro que vai representar a associação na reunião de seleção das entidades da sociedade civil que irão ocupar 12 vagas no Conselho.

A reunião para eleição ocorrerá no dia 10 de maio, entre 14h e 16h, por meio de videoconferência. A representante da AEEC-MT no encontro será a diretora de mobilização da instituição e atual representante titular dos povos ciganos no Comitê Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais de Mato Grosso (CEPCT-MT), Terezinha Alves. 

“Estamos muito felizes por termos conseguido alcançar esta habilitação. Isso significa, que apesar de sermos uma instituição bastante recente, com menos de quatro anos de fundação, já temos um trabalho que é reconhecido não só em nível estadual, como também nacionalmente”, comemora Fernanda.

Terezinha Alves - é cigana da etnia Calon, nasceu em Guiratinga-MT, tem formação em Serviço Social pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sendo a primeira pessoa de seu grupo a conquistar o ensino superior. Ela possui especialização em mediação e trabalha há mais de 20 anos com projetos sociais, principalmente, com foco na habitação.

Desde 2017, Terezinha voltou sua atuação para o movimento social cigano brasileiro, especialmente, no trabalho junto a AEEC-MT. Ela integra o grupo de trabalho de whats up criado pelo Senado Federal e o Ministério Público Federal para debater o projeto de Lei 248/2015, que cria o Estatuto Nacional dos Povos Ciganos.

Caso a AEEC-MT venha a ocupar o cargo no CNPIR ,Terezinha será a indicada da associação para ser conselheira nacional.

Texto: Aluízio de Azevedo


terça-feira, 27 de abril de 2021

Mestra Diva ensina mulheres ciganas a arte das garrafadas e o banho de mal de simioto

Evento reuniu 15 mulheres que puderam vivenciar experiências acerca da medicina tradicional cigana e servirá também como disparador para uma exposição fotográfica e uma web série

A mestra da cultura mato-grossense e cigana da etnia Calon, Maria Divina Cabral, mais conhecida como Diva, foi a principal protagonista do I Encontro de Mulheres Ciganas de Mato Grosso, que ocorreu nos últimos dias 23, 24 e 25 de abril no município de Rondonópolis. Diva foi premiada no Edital Conexão Mestres da Cultura da Lei Aldir Blanc da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (SECEL-MT) e o evento integra o projeto “Diva e as Calins de MT: Ontem, Hoje e Amanhã”.

Na ocasião, Maria Divina ensinou as 15 mulheres participantes do encontro alguns dos principais remédios e tratamentos da medicina tradicional Calon. São medicamentos como xaropes, garrafadas, chás e banhos a base de plantas do cerrado e produtos naturais, indicados para os mais variados tipos de enfermidades, como doenças da pele, infecções do aparelho urinário, digestivo e gastrointestinal, reumatismo, saúde da mulher, gripes e resfriados, bronquites, asma, infertilidade, picadas de cobra, pedras nos rins, perda de cabelo, anemia e até mesmo alguns tipos de câncer.

As 15 mulheres participantes, todas parentas diretas de Diva, como suas duas filhas e três netas, mãe, tia, sobrinhas e primas, aprenderam com Diva o processo de identificação e arranque das raízes e plantas, a secagem, o estoque e armazenamento, bem como a infusão para a composição das garrafadas para alguns tipos de enfermidades, como saúde da mulher, para anemia e limpeza de pele. Esta programação fez parte da roda de diálogo “Princípios Introdutórios à Medicina Tradicional Cigana”.

Mestra Diva ensinando a fazer a garrafada, 
um dos principais medicamentos da medicina tradicional Calon

“Eu sou muito feliz pela minha cultura, pela minha nação e por quem eu sou hoje. Sou alegre por ser cigana e ter esta descendência. Não tenho vergonha de ser cigana, de jeito nenhum. Tem gente que tem preconceito. Alguns acham bom, outros acham foram da linha, mas Deus sabe que nós somos honestos. A cultura cigana tem muita sabedoria. Não tenho estudo, a minha medicina vem de Deus e tudo descendência da minha origem cigana, aprendido com a minha avó e agora tenho a oportunidade de passar para minhas filhas e outras parentas”, emocionou-se Diva, ao complementar:

“Conheço todas as plantas do cerrado e sei manipular, usar para curar várias doenças. Curei tantas pessoas com essas garrafadas e outros chás, como ferida que não sara, útero de mulher com infecção e feridas. Mulheres que usam essas garrafadas não tiram útero, ovário, nada disso. Curei minha mãe, com uma garrafada, de insônia e falta de circulação. Tem um senhor que já estava há mais de 10 anos com problema de garganta. Fiz um chá de açafrão, romã, boldo e alho, ele tomou e sarou de um problema já de 10 anos. E sabe por que nós ainda não pegamos corona? Primeiro Jesus e depois nossos remédios”, pondera.

Durante a abertura do encontro, foi exibido um vídeo com uma mensagem do Secretário de Estado de Cultura, Esportes e Lazer, Alberto Machado, a Diva e as participantes do evento. “Fico muito feliz e muito orgulhoso de ver um projeto que homenageia o povo cigano ser aprovado na SECEL e acho que a nossa função aqui é esta de mostrar todos os lados da nossa cultura, todas as vertentes da nossa cultura e fico feliz em ver a cultura do povo cigano sendo prestigiada aqui. Coloco a secretaria de portas abertas a todos vocês e desejo um bom encontro”, disse o secretário em seu recado.

Assista abaixo o vídeo do Secretário da SECEL na integra: 

Mal de Simioto - A medicina cigana também cura algumas doenças que não são reconhecidas pela biomedicina científica, a exemplo do Mal de Simioto, também conhecida como a doença do macaco ou doença do verme na carne. “Essa doença os médicos não curam, porque eles não conhecem. Costuma dar em criança e jovens, mas também pode atingir adultos e idosos. Ela deixa a pessoa fraca, anêmica e vai ficando só o couro e o osso de tão magra, só tem olho e barriga, parecendo um macaco. Vai indo morre de tanta fraqueza”, explica Diva.

De acordo com a mestra da cultura mato-grossense, que também é benzedeira, o tratamento para o mal de simioto, denominado de “banho de verme na carne”, envolve toda uma ritualística. A começar pela utilização do leite materno para a confirmação do diagnóstico, que se faz também pelos sintomas de emagrecimento excessivo e aparência física de um macaco; passando por uma esfoliação na pele, por meio da aplicação de uma pasta composta por produtos como azeite, mel, trigo e fermento de pão; até chegar ao banho e à ingestão de uma infusão que se utiliza de um número variado de plantas medicinais caseiras, do cerrado e frutíferas.

“Já curei foi muita gente com esses banhos. Teve até um menino que já estava desenganado pelos médicos. O menino chegou carregado, na escadeira da mãe e no terceiro dia do banho já estava correndo na rua e jogando bola. As minhas duas filhas, as quatro netas e as três bisnetas todas passaram pelo banho de mal de simioto e hoje são mulheres fortes e sadias. Eu também já fiz esse tratamento quando era criança pelas mãos da minha mãe Lourdes e minha avó Maria”, relembra Diva.

Saiba mais sobre o projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã” aqui: https://aeecmt.blogspot.com/2020/12/maria-divina-cabral-mestra-da-cultura.html

Texto: Aluízio de Azevedo

Fotos: Karen Ferreira

segunda-feira, 19 de abril de 2021

I Encontro de Mulheres Ciganas de MT

Evento integra o projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã”, aprovado no edital Mestres da Cultura de MT, da Lei Aldir Blanc

Ocorrerá nos próximos dias 23 e 24 de abril (sábado e domingo) o I Encontro de Mulheres Ciganas de Mato Grosso. Organizado pela Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), o evento acontecerá na cidade de Rondonópolis (a 220 km de Cuiabá), cidade com a maior comunidade cigana de MT, em torno de 150 pessoas.

O Encontro integra as atividades do projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã”, que homenageia a cigana da etnia Calon, Maria Divina Cabral, como mestra da cultura mato-grossense.

O projeto foi aprovado no Edital Mestres da Cultura Mato-grossense da Lei Aldir Blanc, organizada pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (SECEL-MT) e governo federal. Contando com a participação de Diva, que vive em Rondonópolis há mais de 40 anos e de outras 14 mulheres do seu ciclo de convívio mais próximo; o encontro contará com duas programações principais.

A primeira delas será a roda de diálogo “Princípios Introdutórios da Medicina Tradicional Calon” em que Diva transmitirá o conhecimento de como fazer uma garrafada para suas filhas, netas e outras mulheres da comunidade cigana rondonopolitana. As garrafadas são o principal produto da medicina tradicional cigana e são compostas por plantas do cerrado, principalmente raízes e são recomendadas para curar vários tipos de doenças, como infertilidade, anemia, problemas no aparelho digestivo, entre outros.

Já a segunda programação principal do encontro será a roda de diálogo “Rememorando a Chibe”. Chibe é o modo como os ciganos brasileiros do tronco calon denominam sua língua, que também pode ser chamada de romanon ou romanó-kaló. Além de ser o principal demarcador entre as pessoas ciganas e diferenciador dos não-ciganos, a chibe, atua como uma tática de defesa, frente a população majoritária, guardando resquícios das origens e da identidade Calon.

De acordo com a coordenadora geral do projeto, a também cigana da etnia Calon Fernanda Caiado, as comunidades ciganas possuem culturas ricas e milenares e um longo histórico de migrações e conhecimentos acumulados; mas também de expulsões e perseguições, se constituindo como identidades de resistência.

Esses saberes são aprendidos na vivência, no cotidiano, nos rituais, transmitidos de geração em geração oralmente, numa configuração em que as mulheres são as principais mantenedoras e educadoras. Daí a importância de implementarmos atividades que reconheçam o importante papel das mulheres na organização sociocultural Calon”, pondera Fernanda, que também preside a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), proponente do projeto Diva e as Calins.

“Importante pontuar que estamos atentas às questões relativas a pandemia. O encontro será realizado em espaço aberto e respeitará todas as medidas de segurança e higiene relativas ao Covid-19. Todas as pessoas da equipe e as participantes do projeto serão testadas para o coronavírus”, informa a produtora do projeto, Nilva Rodrigues.

Registro  - O I Encontro de Mulheres Ciganas será todo gravado e será utilizado como disparador para a realização de dois outros produtos: a exposição virtual multimídia “Calin” e a websérie etnodocumental “Diva e as Calins”, composta por cinco episódios. Todos os produtos têm como pano de fundo o universo da cultura cigana Calon, que integra um dos três grandes troncos étnicos ciganos – os outros são os Rom e os Sinti –; com foco nos saberes das mulheres e na medicina tradicional.

“Calin é o modo como as mulheres da etnia Calon se autodenominam. Assim, “Diva e as Calins de Mato Grosso” mira na r-existência das calins de Mato Grosso, que mantém tradições, sem perder o “time” da história, lutando para ocupar espaços em todos os âmbitos da sociedade.

“Rompendo com paradigmas racistas e machistas, estamos fazendo história em Mato Grosso, que pela primeira vez tem um material tranmidiático e baseado em múltiplas linguagens com foco nas mulheres ciganas, suas narrativas e saberes. Partimos da memória e da tradição, mas também da vida atual e das possibilidades de futuro das mulheres ciganas e suas comunidades”, destaca a diretora de programação do projeto, e também Calin Terezinha Alves.

Conheça mais sobre a Mestra Diva

Diva é mestre na medicina tradicional cigana

O projeto Diva e as calins de Mato Grosso visa registrar e fortalecer a cultura cigana, por meio da realização de ações que reconhecem os saberes das mulheres da etnia Calon, especialmente representadas por Maria Divina Cabral, que pelos seus serviços prestados à conservação dos saberes ciganos e ao enriquecimento da diversidade cultural mato-grossense, recebeu a premiação de R$ 20.000,00.

Maria Divina Cabral, ou Diva, como é mais conhecida, nasceu a 25 de setembro de 1954, em uma barraca num acampamento na cidade de Mineiros (Goiás). Filha de Lázaro Alves Pereira e Lourdes Rodrigues Pereira, casou-se dentro da tradição cigana, com o seu primo (filho da irmã do pai), Jair Alves Cabral, construindo e mantendo um profundo conhecimento da filosofia Calon e seu sistema de ação e organização sociocultural.

A Calin viveu boa parte de sua vida nos lombos dos cavalos, trafegando pelas cidades dos Estados da região Centro-oeste, até que no início da década de 70 fixou residência com sua mãe, pai, irmãos e parte de sua comunidade no município de Rondonópolis (a 210 km de Cuiabá, no sul do Estado).

Mãe de duas filhas, Selma e Cleide, avó de quatro netas (Lorraine, Suiani, Leidiane e Cristiane) e três bisnetas (Cristina, Paula e Isabela); atualmente é a principal raizeira e benzedeira cigana no Estado, mantendo viva a medicina tradicional Calon. Integrante do conselho de anciãos e membra fundadora da AEEC-MT, Diva é respeitada e ouvida por todos da comunidade, por sua experiência e sabedoria na condução e salvaguarda de diversos costumes, narrativas e saberes da filosofia cigana.  

Texto: Aluízio de Azevedo

Fotos: karen Ferreira

quarta-feira, 14 de abril de 2021

AEEC-MT é habilitada para eleição do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais

Órgão nacional é responsável por articular políticas públicas específicas e afirmativas para estas populações

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) foi habilitada para participar da eleição que escolherá as entidades da sociedade civil brasileira que irão compor o Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT) no biênio 2022-2023.

O CNPCT é vinculado ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), da ministra Damares Alves e responsável por articular políticas públicas específicas para os povos e comunidades tradicionais brasileiros, entre eles, os povos ciganos/romani, indígenas, os quilombolas, comunidades de terreiro, pescadores, ribeirinhos, retireiros, entre outros.

O resultado da habilitação foi publicado no Diário Oficial da União de 09 de abril, por meio do edital Nº 5/2021 do órgão, assinado pelo Secretário Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do MMFDH e presidente do CNPCT, Paulo Roberto

Também foram habilitadas outras três associações ciganas: a Associação Comunitária dos Povos Ciganos de Condado Paraíba (ASCOCIC), a Associação de Preservação da Cultura Cigana do Estado do Ceará (ASPRECEC) e a Associação Maytê Sara Kali (AMSK).

Além das associações ciganas, para a eleição do CNPCT também foram habilitadas outras 16 instituições da sociedade civil de vários outros segmentos, como do movimento negro, do movimento indígena, dos povos pantaneiros, comunidades extrativistas, costeiros e marinho, entre outros.

De acordo com o Edital Nº 6/2021 do CNPCT/MMFDH, as organizações da sociedade civil habilitadas concorrerão à vaga durante a eleição, que será realizada nos dias 07 a 21 de maio de 2021, em ambiente virtual. O resultado parcial da eleição será divulgado no sítio eletrônico do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em 26/05/2021.

O resultado final será tornado público pela Comissão Eleitoral tornará público o resultado final da eleição no sítio eletrônico do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em 25/06/2021, convocando as entidades, as organizações ou os movimentos eleitos a fazerem a indicação de seus respectivos representantes, em 11 (onze) dias.

Papel - O Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais - CNPCT, órgão colegiado de caráter consultivo, integrante da estrutura básica do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, no âmbito da Secretaria Nacional de Políticas da Promoção da Igualdade Racial, instituído pelo Decreto nº. 8.750, de 9 de maio de 2016, tem por finalidade o acompanhamento e aprimoramento das políticas públicas para os Povos e Comunidades Tradicionais que se identifiquem como grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, garantindo que suas tradições culturais, religiosas, econômicas e territoriais sejam preservadas.

Saiba mais sobre o CNPCT em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/orgaos-colegiados/conselho-nacional-de-povos-e-comunidades-tradicionais/conselho

Recentemente a AEEC-MT passou também a compor o Comitê Estadual dos Povos e comunidades Tradicionais de Mato Grosso (CNPCT-MT): https://aeecmt.blogspot.com/2021/02/representatividade-aeec-mt-passara.html

 Texto: Aluízio de Azevedo

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Oito de Abril: Dia internacional dos Ciganos! Saiba o que pensam quatro pessoas ciganas brasileiras

Bandeira Cigana: Saiba o que pensam quatro ativistas ciganos sobre o que temos a comemorar no dia Internacional dos povos Romanis 

Hoje, dia 08 de abril, se comemora o dia Internacional dos povos ciganos. A data foi oficializada como o dia internacional dos povos ciganos em 1990, durante o IV Congresso Internacional Romani, realizado na cidade de Serock, Polônia. E referendada pela Organização das Nações Unidas (ONU), sendo desde então, comemorada pelos movimentos ciganos de vários países, incluindo o Brasil.

A data foi escolhida em homenagem ao início da realização do I Congresso Internacional Romani, que ocorreu entre 08 e 12 de abril de 1971, nos arredores de Londres, completando agora em 2021, 50 anos de sua realização.

O I Congresso Mundial Romani foi organizado pela União Romani Internacional (URI) e contou com a participação de ativistas do movimento cigano de 14 países europeus. Neste evento, foi adotada a bandeira e o hino cigano, Gelem-Gelem, como símbolos da unificação da nação internacional romani.

Pensando na realidade atual pandêmica e pensando nos últimos 50 anos, desde a realização do primeiro congresso internacional romani, será que temos de fato o que comemorar?

Diante desta questão, fomos ouvir algumas pessoas ciganas para tentar compreender o que esta data significa para nós que pertencemos a um dos três troncos étnicos romani (Calon, Rom e Sinti).

“A gente tem muito para comemorar. O nosso povo tem uma história linda”, pondera Fernanda Caiado

Para a presidente da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Fernanda Alves Caiado, a data é muito importante, por se tratar de um reconhecimento internacional ao povo cigano. 

“Essa data significa pra gente que os ciganos não são reconhecidos só na nossa região, né, são reconhecidos internacionalmente. É muito bom ser lembrado, ter essa data que lembra a luta de um povo e não só de um grupo pequeno, mas de toda uma história de um grupo de pessoas que resolveu sair, que lutou, que luta e que acredita. É muito bom saber que nós somos mundialmente reconhecidos. Isso é muito importante!” pondera Fernanda. Leia mais: https://aeecmt.blogspot.com/2021/04/a-gente-tem-muito-para-comemorar-o.html 

“O que mais temos a comemorar é a capacidade que a gente sempre teve de transformação, de adaptação e de renascer das cinzas”, diz Aline Miklos

A cantora, compositora, ativista e pesquisa Rommi brasileira, Aline Miklos, por exemplo, ressalta que acha importante a data, “porque é o dia da institucionalização da nossa luta”. 

“Além da luta do dia a dia, do cotidiano, a gente precisa de uma institucionalização para que essa luta seja reconhecida pelo Estado e pela sociedade. A gente tem que utilizar essa data para reivindicar os nossos direitos para o Estado, para mim isso é fundamental e importante”, pondera Aline. 

Leia Mais: https://aeecmt.blogspot.com/2021/04/o-que-mais-temos-comemorar-e-capacidade.html 

O meu sonho é que esta data vá para os calendários das escolas e das pessoas em suas casas, almeja Daiane da Rocha

Por sua vez, a Secretária Geral da Associação Nacional das Etnias Ciganas (ANEC), de Brasília (DF), Daiane da Rocha Bian, considera que as datas comemorativas, como o dia Internacional dos Ciganos, ou o Dia Nacional dos Ciganos, que no Brasil ocorre em 24 de maio, “é importante para reafirmar as lutas constantes de um povo existente, que faz parte da história humana”. 

“O meu sonho é que esta data vá parar os calendários, que as pessoas tenham acesso ao calendário oficial, marcando o dia do cigano. Isso é muito importante para que a sociedade e o governo parem para pensar, que as pessoas ciganas sejam lembradas, respeitadas. Significa o reconhecimento de uma cultura, de uma luta, do povo cigano no mundo, de sua trajetória e de toda a sua participação na humanidade, no dia a dia, na construção mesmo da história do mundo”, emociona-se Daiane. Leia Mais: https://aeecmt.blogspot.com/2021/04/o-meu-sonho-e-que-essa-data-va-para-os.html 

“Foi o movimento que lançou algumas bases comuns a todos os ciganos”, reflete Toyansk

O também cigano da etnia Calon e pesquisador do movimento internacional cigano, o doutor Marcos Toyansk, destaca que o I Congresso Internacional Romani foi um marco para a criação de um movimento internacional cigano. 

“Um momento que foi possível reunir ciganos de várias partes da Europa, embora a Europa do leste não tenha participado, com exceção da Iugoslávia, o evento foi acolhido pela Inglaterra depois que uma organização cigana foi proibida de ter atividades na França. Naquele momento, os franceses não queriam melindrar os alemães, pois estavam estreitando relações e o movimento tinha a intenção de reivindicar reparações e compensações pelo extermínio na segunda guerra e confisco de bens”, pondera Toyansk. Leia Mais: https://aeecmt.blogspot.com/2021/04/foi-o-movimento-que-lancou-algumas.html 

Texto: Aluízio de Azevedo

Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT