sábado, 11 de julho de 2026

Ultradireita de Portugal escolhe povos ciganos como alvo preferencial de discursos xenófobos

 
No Dia Nacional da Pessoa Cigana, comunidade recorre à arte para frear discursos preconceituosos do partido Chega. Etnia relata explosão de ataques com a popularidade de André Ventura, mas avança no acesso a universidades

João Gabriel de Lima - Lisboa

Com sua fusão de música luso-flamenca, rumba e pop, o DJ Jorge Syllvah foi a estrela do Dia Nacional da Pessoa Cigana, comemorado em 24 de junho no bairro de Padre Cruz, em Lisboa.

Padre Cruz é conhecido pelas ruas com nomes de rios portugueses –Rio Ave, Rio Tâmega, Rio Cávado– e por abrigar uma das mais tradicionais comunidades ciganas da cidade, com cerca de 500 pessoas.

Syllvah é um ídolo em seu nicho musical, com 52 mil seguidores no YouTube –número próximo da totalidade da comunidade cigana no país lusitano, estimado em cerca de 60 mil pessoas.

"Em Portugal não é fácil ser cigano, há muito racismo e preconceito", diz Syllvah. "A música, uma linguagem universal, é um jeito de nos integrar à sociedade."

Antes de Syllvah, apresentou-se no mesmo palco Claudia Pargana, bailarina e professora de flamenco. Ela dá aulas de música e dança cigana em cinco escolas da rede pública lisboeta. "Com a arte mostramos a força da nossa criatividade, e os mais jovens tomam contato com nossa cultura desde pequenos", diz.

A comunidade cigana portuguesa vive um pesadelo desde que o partido político Chega, representante da ultradireita em Portugal, a escolheu como alvo preferencial de seu discurso xenófobo.

Seu líder, André Ventura, vocifera contra povos ciganos desde a fundação da legenda, em 2019, e aumentou o tom das críticas ao ver que geravam engajamento em redes sociais.

"O discurso da extrema direita tirou do armário os que tinham preconceito contra os ciganos. Hoje sentimos a discriminação em lugares públicos, como restaurantes, e também na internet", diz Bruno Oliveira, líder da Associação Intercultural Cigana, organizadora da celebração de 24 de junho.

Um dos mantras de Ventura é a expressão "subsidiodependência". O líder da ultradireita costuma acusar os povos ciganos de viver à custa do Estado português e de ter privilégios na aquisição de moradias populares.

"O que ocorreu, na verdade, é que fomos expulsos do centro para a periferia das cidades", diz a atriz e ativista Maria Gil, referência no movimento feminista português. "Meus avós viviam na região central da cidade do Porto e eram integrados e respeitados no bairro. Hoje muitos de nós vivem confinados em guetos".

A pressão da ultradireita, no entanto, estimulou a união e a organização dos povos ciganos portugueses. De acordo com a socióloga Maria Manuela Mendes, pesquisadora na Universidade de Lisboa, existem de duas a três dezenas de associações de povos ciganos em Portugal.

Essas organizações vêm conseguindo vitórias importantes. A mais noticiada, em tempos recentes, foi a decisão judicial que obrigou o Chega a retirar cartazes com mensagens xenófobas durante a última campanha presidencial. Na propaganda, uma foto do candidato André Ventura aparecia ao lado dos dizeres "os ciganos têm que cumprir a lei".

Em sua decisão exigindo a retirada dos cartazes, a juíza Ana Barão sustentou que "a frase foi pensada para causar um específico impacto relativamente a um grupo social".

Para o advogado Ricardo Sá Fernandes, que representou as associações ciganas no processo, a decisão teve um efeito pedagógico. "Espero que ninguém mais afixe cartazes discriminatórios e vexatórios para qualquer comunidade, como exige a defesa da dignidade de todos", disse ele em entrevista ao jornal Diário de Notícias.

"Nossa estratégia de luta é usar sempre as armas da democracia", afirma Bruno Gonçalves, presidente da associação cigana Letras Nômadas. Ele lembra que os povos ciganos estão em Portugal há mais de 500 anos. Sua presença está registrada até no teatro, na peça "Farsa das Ciganas", do dramaturgo Gil Vicente (1465-1536).

"Também lutamos contra os espanhóis pela independência de Portugal, em 1640, mas fatos como estes não aparecem nos livros de história", diz Gonçalves.

"Atualmente, os ciganos portugueses são um grupo diverso e difícil de quantificar", afirma a socióloga Maria Manuela Mendes.

Ela foi uma das coordenadoras do único estudo acadêmico aprofundado sobre comunidades ciganas em Portugal, em 2014, e agora está à frente de um projeto semelhante, cuja conclusão está prevista para 2027. Mendes estima que existam pelo menos 60 mil ciganos em Portugal –o censo do país lusitano, como ocorre em várias nações europeias, não inclui etnia em seus questionários.

O novo retrato produzido por ela deverá mostrar mudanças na organização social e melhorias na área da educação. Devido às leis da monarquia, povos ciganos não podiam se estabelecer em cidades portuguesas acima de um tempo determinado.

"Éramos obrigados a ser nômades, e isso teve um impacto na escolarização", diz Bruno Gonçalves. Recentemente, Portugal passou a seguir uma política europeia de integração das populações ciganas, o que trouxe acesso a bolsas de estudo. Começam a aparecer os primeiros integrantes dessas comunidades com mestrado e doutorado nas universidades portuguesas.

As lideranças ciganas temem que esses avanços sejam limitados pelo crescimento da ultradireita. "Um dos nossos problemas é a ausência de representação institucional", diz Maria Gil, que já concorreu à Câmara Municipal do Porto, mas não se elegeu.

"Temos atividade política nas organizações, mas pouca presença dentro dos partidos, à direita e à esquerda. Precisamos dessa participação porque, quando André Ventura começou a pregar o anticiganismo, ficou claro que tínhamos entrado numa guerra."

O nome "cigano" surgiu como uma designação genérica e pejorativa atribuída a grupos étnicos que se instalaram na Península Ibérica. Organizações europeias e movimentos de afirmação recomendem o uso dos termos "roma" e "romani" para designar esses povos, enquanto em Portugal fala-se em "pessoas de etnia cigana" ou "comunidade cigana", dando ênfase à cidadania e pluralidade desses grupos.

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/07/ultradireita-de-portugal-escolhe-povos-ciganos-como-alvo-preferencial-de-discursos-xenofobos.shtml

 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MPPE recomenda ampliar identificação e atendimento de povos ciganos em Caruaru

 

Orientação é direcionada às secretarias municipais de Saúde, Educação e Assistência Social. (Foto: Reprodução)

Por Mirelly Rodrigues, Redação - 4 de junho de 2026 às 10h33min

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) recomendou à Prefeitura de Caruaru a adoção de medidas para ampliar a identificação e o atendimento da população cigana nos serviços públicos de saúde, assistência social e educação. A recomendação foi expedida pela 6ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania de Caruaru e tem como objetivo garantir maior acesso a direitos e fortalecer a elaboração de políticas públicas voltadas a essas comunidades.

Segundo o MPPE, a falta de informações sobre os povos ciganos dificulta a formulação de ações específicas para atender suas necessidades sociais, educacionais e de saúde. Em Pernambuco, a população cigana é formada pelas etnias Calon, Rom e Sinti, que podem apresentar modos de vida nômades, seminômades ou sedentários.

Na área da assistência social, a recomendação orienta a Secretaria Municipal de Assistência Social e Combate à Fome a identificar corretamente as famílias ciganas no Cadastro Único, por meio da autodeclaração, sem exigir comprovante de residência para grupos em situação de itinerância. Também foi solicitada a realização de busca ativa em áreas tradicionalmente ocupadas por comunidades ciganas no município.

Para a Secretaria Municipal de Saúde, o MPPE recomenda que os profissionais realizem o registro da identificação étnica nos sistemas de cadastro da Atenção Primária, respeitando a autodeclaração dos usuários. A orientação também prevê a garantia de atendimento mesmo para pessoas sem residência fixa e o respeito às práticas tradicionais de cuidado utilizadas pelas comunidades ciganas, desde que não representem riscos à saúde.

Já na área da educação, a recomendação inclui a inserção da autodeclaração étnica no momento da matrícula escolar, além da garantia de continuidade dos estudos para crianças e adolescentes em situação de deslocamento. O documento também sugere a criação ou o encaminhamento para turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) que atendam às demandas das comunidades ciganas, respeitando suas características culturais.

As secretarias municipais têm prazo de 30 dias para informar ao MPPE se irão acatar a recomendação e apresentar as providências adotadas ou o cronograma de implementação das medidas.

A recomendação é assinada pelo promotor de Justiça Itapuan de Vasconcelos Sobral Filho e foi publicada no Diário Oficial do MPPE em 2 de junho de 2026.

Disponível em: https://cidade997.com.br/mppe-recomenda-medidas-para-ampliar-identificacao-e-atendimento-de-povos-ciganos-em-caruaru/

Ouvidoria do MIR debate direitos e desafios dos povos ciganos

 
Encontro reuniu lideranças ciganas e representantes do governo em torno da escuta, participação social e promoção da igualdade racial

O Ministério da Igualdade Racial (MIR) realizou, na última quarta-feira (27), mais uma edição do Café com Ouvidoria. Com o tema “Povos Ciganos: escuta, diálogos e avanços”, o encontro reuniu lideranças, representantes institucionais e integrantes de comunidades ciganas para debater direitos, desafios históricos e políticas públicas voltadas aos povos ciganos no Brasil.

A iniciativa integra o ciclo de debates promovido pela Ouvidoria do MIR e tem como objetivo fortalecer a escuta ativa, ampliar os canais de participação social e aproximar as demandas da sociedade civil da construção de políticas públicas voltadas à promoção da igualdade racial e dos direitos humanos.

Durante a abertura, o ouvidor do MIR, Fábio Bruni, destacou a importância da participação social para o fortalecimento da atuação da área. “As manifestações que chegam à Ouvidoria demonstram a importância de fortalecimento desse canal de diálogo. Quanto mais as pessoas conhecem os serviços disponíveis, maior é a participação social e a possibilidade de construirmos respostas mais efetivas às demandas apresentadas”, afirmou.

Representando a Diretoria de Políticas para Quilombolas e Ciganos do MIR, Fabiano Bechelany, apresentou reflexões sobre os avanços e os desafios das políticas públicas voltadas aos povos ciganos e destacou a importância do fortalecimento do debate em torno do Estatuto dos Povos Ciganos.

Em sua fala, liderança cigana da etnia Calon, Edvalda Bispo, que também é presidenta da Associação Nacional de Mulheres Ciganas e conselheira nacional de promoção da igualdade racial, ressaltou os desafios históricos relacionados ao acesso e à permanência na educação e defendeu a garantia dos direitos humanos como instrumento fundamental para o enfrentamento da discriminação e o fortalecimento da autonomia das comunidades ciganas.

Já a pesquisadora e representante cigana da etnia Rom, Hayanne Iovanovitchi, destacou a relevância do mapeamento nacional dos povos ciganos para dar visibilidade à presença dessas comunidades em todo o território brasileiro. Idealizadora do Museu Virtual de Memórias da Imigração Cigana, a pesquisadora também apontou a segurança pública como uma das principais preocupações das comunidades ciganas, destacando situações de preconceito e criminalização de práticas culturais tradicionais.

Foto: Maysa Lannah

Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/assuntos/noticias/cafe-com-ouvidoria-debate-direitos-desafios-e-avancos-para-os-povos-ciganos

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Ancestralidade Viva: Maria Lucia Rodrigues Cunha - O tempo que a gente É!

Maria Lucia com os filhos Simone e Uilton. Foto de arquivo.

Sétima e última filha de Alda Alves Cunha e Ranulfo Rodrigues Cunha, Maria Lucia Rodrigues Cunha Nasceu em 01 de setembro de 1966 em Poxoreu, no sul de Mato Grosso.

Sempre muito orgulhosa em ser cigana, Lúcia como era mais conhecida na família, viveu parte da infância na vida tradicional cigana, de barraca, até que os pais e o seu grupo se mudou e fixou residência no município de Tangará da Serra, então ainda Distrito de Barra do Bugres, no ano de 1972.

No local, conheceu seu marido, Clarito Pereira, com quem teve três filhos, Uilton, Simone e Zezinho (in memorian), além de sete netos:

Kaiky Batista Rodrigues, kayo Eduardo Batista Oliveira, Vitor Hugo Rodrigues Borges, Joaquim Henrique Rodrigues Borges, Kauan Eduardo Fagundes oliveira, Maria Eduarda Fagundes oliveira e Anna Maria Rodrigues Brito.

Lucia e as irmãs Irandi, Nilva, Zilma e Orceni. Foto de Arquivo.

Versada na chibe, a língua dos Calon, Maria Lúcia era muito prendada na cozinha, com um tempero único que herdou da mãe Alda. Carinhosa e amorosa, herdou dos tios o traço da negociação e era uma verdadeira gambireira, de carros, de móveis, imóveis e o que aparecesse em suas mãos.

Sempre estava presente nas reuniões de família, sendo uma das primeiras a chegar e uma das últimas a sair. Tinha uma voz mansa, suave e sempre num tom baixo, que encantava qualquer um que a ouvia e raramente saia do sério ou ficava brava. Foi uma irmã e uma filha muito presente na vida dos pais e dos seis irmãos, especialmente, do mais novo, Ranulfinho.

Um dos seus lazeres favoritos era jogar baralho (truco, pife, bisca e qualquer outro jogo), além de dominó e fazer a fé num bingo. Também adorava pescar e sempre que podia estava na beira de um rio e da natureza. Outra paixão era a música sertaneja, com cantores como Amado Batista, Gino e Geno e Roberta Miranda.

Maria Lúcia faleceu no dia 19 de fevereiro de 2023, em decorrência da complicação de um câncer de pulmão e não tivemos tempo de fazer uma homenagem a ela enquanto viva, então, a AEEC-MT encerra a campanha Ancestralidade Viva – O tempo que a Gente É! Deste ano com uma homenagem póstuma à Lucia, com algumas fotos da família, cedidas pelos filhos Simone e Uilton.

Também postamos um vídeo com ela pescando, uma das coisas que mais gostava de fazer.

Viva Maria Lucia Rodrigues Cunha – Ancestralidade Viva!

TEXTO: ALUÍZIO DE AZEVEDO

Nota de Pesar Paulo Alves Cabral

 

A diretoria da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC/MT) comunica com pesar a morte de seu filiado, Paulo Alves Cabral, hoje, por volta de 11h, no município de Rondonópolis.

Filho de Elza Alves Pereira e Otelemista Cabral de Melo, Paulo sofria de Alzheimer há alguns anos e estava sob os cuidados da irmã, Silvia Cabral e do filho adotivo e sobrinho, Denis Alves Cabral.

Viúvo de Ilda Alves Cabral, Paulo não deixa filhos, mas era muito querido na comunidade cigana de Rondonópolis, com vários irmãos e irmãs, cunhados e cunhados, sobrinhos/as e sobrinhos/netos, primos e primas.

Os sentimentos à toda família enlutada, especialmente, à Silvia e Dênis e a toda comunidade cigana de Rondonópolis.

Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso

Paulo e a esposa Ilda Alves Cabral. Foto de arquivo da família.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Ancestralidade Viva: Orceni Rodrigues Angola - O Tempo que a gente É!

Orceni Rodrigues Angola tem 65 anos e nasceu em 22/05/1961, em Guiratinga, Mato Grosso. De família cigana, passou a infância acompanhando os pais em mudanças e viagens a cavalo pelo interior. Em determinado período, a família viveu em Rio Verde, onde os pais trabalhavam na produção de arroz e milho. Enquanto os pais e a irmã mais velha trabalhavam na lavoura, Orceni ajudava nos afazeres domésticos ao lado da irmã caçula.

Mais tarde, o pai vendeu as terras que possuía e a família se mudou para Tangará da Serra. Após a mudança, ele comprou um ônibus e passou a trabalhar com transporte de passageiros. Foi nesse período que Orceni iniciou os estudos, mas não concluiu a formação escolar porque se casou jovem com Daniel.

Do casamento nasceram três filhos: Fernando, Aldinéia e Adriana. Ao longo dos anos, a família também cresceu com a chegada dos netos Maria Clara, Isabela, Vitória e Samuel. Para contribuir com a renda da casa, Orceni trabalhou em serviços domésticos e na venda de produtos como cosméticos e enxovais, enquanto o marido trabalhava em fazendas da região.



Ela afirma que sempre soube de sua origem cigana, pois os pais falavam sobre isso dentro de casa. No entanto, durante muitos anos evitou comentar sua identidade por receio do preconceito. Era comum que os ciganos fossem alvo de críticas e julgamentos. Com o passar do tempo, passou a falar mais abertamente sobre suas origens: “Hoje temos mais liberdade para falar sobre quem somos e mostrar nossa história”.

Com sua mãe, aprendeu a preparar doces, requeijão e diversos pratos tradicionais. Até hoje participa do preparo de alimentos em eventos da comunidade cigana, contribuindo com receitas transmitidas entre gerações, como o arroz com carne seca e pequi, mandioca, frango e diversos doces. Quem prova, derrama elogios a ela.

Ao recordar a infância, também menciona as viagens realizadas com os pais, avós e tios. Andavam a cavalo e ao se instalar, sua mãe preparava uma pequena fogueira para cozinhar nas barracas, enquanto seu pai fazia negócios. Ela e sua irmã Nilva carregavam os pertences, com tempo para também brincar e correr. São memórias que guarda com amor.

Foram tempos difíceis, mas também tempos de muitas boas lembranças para Orceni. Hoje ela olha para trás com gratidão por tudo o que viveu e por toda a história que sua família construiu.

No Ancestralidade Viva de hoje, conheça a história de Orceni Rodrigues!

TEXTO: LÍVIA FREIRE

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ancestralidade Viva: Olga Alves de Matos - O tempo que a gente É!

Olga é um baluarte da cultura cigana em Cuiabá. Foto: Jeomara Viegas.

Olga Alves Pereira de Matos é filha de um cigano e de uma não cigana e viveu os primeiros anos da infância acompanhando a rotina itinerante da família. Naquele período, seu pai trabalhava com a compra, venda e troca de animais, levando a família por diferentes regiões até se estabelecerem em Mato Grosso. Criada em Guiratinga, mais tarde mudou-se para Cuiabá aos 18 anos, cidade onde vive até hoje,.

Ao lado das irmãs, trabalhou como empregada doméstica e, posteriormente, encontrou no bordado uma nova profissão após realizar um curso na área. Passou a atuar em uma fábrica de uniformes, atividade que considera uma etapa importante de sua vida.

Foi também na igreja que encontrou outro dos grandes pilares de sua história. Membro da Assembleia de Deus desde a infância, conheceu seu esposo, Adonias José de Matos, no coral da congregação. Os dois se aproximaram por meio das atividades da igreja e construíram uma união duradoura, formando uma família com os filhos Rosana e Raul.

Olga durante o VI Encontro de Cultura Cigana de MT, em Rondonópolis. Foto: Tami Lage

Olga descreve sua vida como abençoada. Recorda com carinho o esforço dos pais para garantir o sustento da família e destaca o cuidado do marido ao longo dos anos. Para ela, a convivência familiar sempre foi uma das suas maiores riquezas.

Entre as lembranças mais difíceis está a perda do neto Renato Vitor, falecido aos 18 anos em um acidente de moto. Mesmo diante da dor, encontrou na fé a força para seguir em frente. Segundo ela, foi Deus quem lhe deu paz nos momentos mais difíceis e a ajudou a transformar a angústia em esperança.

De sua herança cigana, guarda principalmente o valor da união familiar. Embora muitas tradições tenham se transformado ao longo das gerações, ela acredita que o amor entre os parentes e o gosto por reunir a família permanecem. Por isso, considera importantes os Encontros de Cultura Cigana, que ajudam a combater preconceitos ainda existentes.

Irandi, Olga, Coraci, Luzia e Cida: matriarcas da comunidade Calon de MT. Foto: Tami Lage

Quem convive com Olga logo percebe uma de suas características mais marcantes: a tranquilidade. Ela se define como uma pessoa de fácil convivência, que evita conflitos e prefere refletir antes de responder. Essa postura, segundo ela, acompanha sua vida desde a infância e é algo de que se orgulha.

Hoje, mesmo convivendo com o Parkinson, que afetou sua voz e parte de sua rotina, Olga segue participando da vida da igreja, acompanhando os encontros da comunidade e valorizando os momentos ao lado da família. Com gratidão, resume sua caminhada de forma simples: uma vida guiada pela fé, pelo amor e pela certeza de que foi cuidada por Deus em todos os momentos.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

domingo, 31 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Francisca e Francisco Pereira - O Tempo que a gente É!

Francisco de Assis Santos nasceu em Bambuí, Minas Gerais, no dia 18 de outubro de 1953. Ainda jovem, aos 17 anos, deixou sua terra natal e veio para Mato Grosso, estado onde construiu sua vida e permanece até hoje. Trabalhador dedicado, iniciou sua carreira na zona rural. Mais tarde, mudou-se para a cidade, onde trabalhou por 23 anos na empresa Comercial Rio Negro.

Foi em Mato Grosso, na região de Guiratinga e Beira Rio, que Francisco conheceu Francisca Pereira dos Santos, nascida em 16 de outubro de 1956, em Guiratinga, Mato Grosso.

Filha de José Alves Pereira e Isaura Cabral, Francisca cresceu vivendo a tradição cigana ao lado de sua família. Até os 15 anos, viveu viajando com os pais, acompanhando a rotina cigana, até que seu pai comprou um sítio e a família passou a viver no interior.

Ela relembra que, por conta das dificuldades da época e da vida itinerante, não teve oportunidade de estudar, mas aprendeu desde cedo o valor do trabalho e da união familiar.

Foi nesse contexto que Francisco encontrou Francisca. Depois do casamento, passaram a viver em Rondonópolis, onde construíram a família. Casados há mais de 42 anos, Francisco e Francisca tiveram dois filhos, Antony e João Miguel. Ambos se formaram e deram ao casal seis netos, entre eles José Arthur, que também segue com os estudos.

Francisco afirma que, depois de mais de 43 anos convivendo junto da família cigana, também se considera cigano: “Eu já me considero cigano também e queria aproveitar para dizer que amo todos eles. É uma família muito boa, que me ajudou muito quando adoeci”.

Francisca também demonstra com convicção o amor por suas origens: “Eu amo ser cigana, eu tenho orgulho de ser cigana e eu amo a minha tradição cigana!”. Em seu relato, ela relembra com carinho a experiência de participar da peça de teatro “Dai Purim”, atuando pela primeira vez como atriz no grupo Rarripe, durante o VI Encontro de Cultura Cigana.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Estroécio Rodrigues Cunha - O Tempo que a gente É!

Mais conhecido na família como tio Toesse, viveu a vida itinerante na juventude e depois como negociante fazendo gambira. Foto: Tami Lage

Estroécio Rodrigues Cunha nasceu em Jataí, no dia 28 de agosto de 1955. Cigano, relembra seus tempos com a família nas andanças entre Goiás e Mato Grosso, considera que teve uma infância muito boa. 

Em 1975, mudou-se para Tangará da Serra. Depois viveu em Juscimeira, em 1979, e, no ano seguinte, se casou com sua esposa, com quem construiu uma união de 46 anos. Juntos, moraram em Rondonópolis por 35 anos e formaram uma grande família.

Estroécio é pai de quatro filhos, André, Jonathan, Adriana e Italo, além de avô de quatro netos e bisavô de três bisnetos. Hoje, vive em Tangará da Serra novamente, há 11 anos.

Grande parte de sua história profissional foi construída através dos negócios. Trabalhou fazendo gambira: comprando, vendendo e trocando mercadorias. Também trabalhou na roça em alguns períodos da vida. “Eu criei minha família só no negócio”, relembra.

Além disso, Tio Toesse, como Estroécio é mais conhecido na família, é o principal falante hoje da língua Chibe, do tronco étnico Calon, nas comunidades ciganas de Mato Grosso, sendo um dos principais oficineiros em projetos de oficina de chibe realizados pela AEEC-MT.

Estroécio demonstra gratidão pelo projeto Encontro de Cultura Cigana realizado pela AEEC-MT:

“Esse evento é uma bênção de Deus. Meu sobrinho é caprichoso com nós. Ele acha que nós, ciganos, merecemos. Ele é abençoado por Deus. E a família dele também: a mãe, o pai, a irmã. A sobrinhada que eu tenho é muito inteligente, graças a Deus.”

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Cida Alves - O tempo que a gente É!

Aparecida Alves, durante a Assembleia Geral Ordinária da AEEC-MT que ocorreu em 01 de maio. Foto: Tami Lage.

Aparecida Alves nasceu no ano de 1956, em Jatai-GO. Filha de pai cigano e mãe não cigana, passou a infância em barracas, viajando em tropas até cerca dos 10 anos de idade, quando seu pai decidiu deixar a vida itinerante e se estabelecer como morador.

Começou a trabalhar muito cedo como empregada doméstica, profissão que exerceu durante grande parte da vida, assim como algumas de suas irmãs. Teve três filhos, um deles, infelizmente, partiu cedo, aos seis anos de idade.

Mais tarde, encontrou um companheiro com quem viveu por dezoito anos. Durante esse relacionamento, criou também uma filha do coração, Delícia, por quem guarda enorme carinho e consideração. Ao longo da vida, trabalhou em diferentes áreas: além do trabalho doméstico, teve uma mercearia, vendeu roupas e roupas de cama e também trabalhou em escritório de empresa. 

Mãe, avó e bisavó, considera a família uma das maiores bênçãos de sua vida. Há mais de uma década dedica grande parte do seu tempo ao cuidado de seu neto.

Aparecida afirma que sempre carregou consigo os ensinamentos do pai: ser honesta, trabalhadora e manter a união familiar. Também guarda lembranças afetivas da infância nas barracas, das noites ao redor da fogueira e da mãe lendo romances para a família ouvir antes de dormir.

Acredita que, apesar do preconceito histórico enfrentado pelos ciganos, atualmente existe um reconhecimento maior da cultura e das lutas de seu povo. Os encontros culturais da AEEC-MT, segundo ela, são um dos fatores que têm fortalecido o sentimento de união e pertencimento.

Viva Cida! Viva os povos ciganos!

TEXTO: LÍVIA FREIRE