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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Entre fados e trovas: a cultura cigana calon e as conexões transatlânticas

 

História e cultura dos ciganos luso-brasileiros

O ciclo propõe apresentar aspectos culturais, históricos e artísticos dos ciganos de origem ibérica, chamados calon, que perfazem atualmente a maior parte dos ciganos brasileiros.

A presença dos ciganos em Portugal remonta ao século XVI, quando entraram pela fronteira da Estremadura espanhola, sendo inicialmente mal-recebidos devido à estereótipos negativos que circulavam sobre eles. Ao longo dos séculos, enfrentaram perseguições, interdições e massacres, o que incentivou seu nomadismo, embora atualmente o sedentarismo predomine. Os ciganos portugueses começaram a chegar ao Brasil no século 16, em fluxo intermitente, que se acentuou a partir dos anos 70 do século 20.

Os ciganos calon, a partir de sua vinda da Europa para o Brasil em meados do século XVI, instituíram uma nova etapa na constante diáspora ao redor do globo. A itinerância forçada pelo país trouxe consigo poucas opções de formação profissional e ascensão social.

Para espantar a tristeza, a música advinda das Trovas do Jaimpem, do dedilhar de um violão (pouco comum), ou das cantigas entoadas pelos pais para embalar o sono das crianças, faziam dos dias tristes mais alegres, e ajudavam a suportar a melancolia de suas lembranças. Essa “escola musical” calon, embora de caráter milenar, nunca foi instrumentalizada por meio de uma teoria musical sólida, sendo sua repercussão dada por meio de improvisos e adaptações de ritmos locais.

A falta de oportunidades não permitia a revelação dos talentos calon na música dita tradicional, entretanto, atualmente estão conseguindo algum destaque no meio artístico através de nomes populares de ascendência regionalizada, com alguns expoentes conhecidos nacionalmente. Seus estilos são atualizados pelas novas tendências da indústria musical e pela demanda por um ritmo e composição de letra que privilegie o cotidiano boêmio.

Atividade em rede com o Sesc São Caetano.


Com Jucelho Dantas da Cruz, cigano calon, doutor em Ciências Biológicas pela UNESP e professor titular da UEFS. Suplente na representação dos povos ciganos no Conselho Estadual para a Sustentabilidade dos Povos e Comunidades Tradicionais (Cespct), junto a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia (Cespct/Sepromi-BA).

Com Igor Shimura, professor, defensor de direitos humanos e presidente do Instituto PluriBrasil. Conselheiro titular no Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas (CERMA/PR). Doutor em Antropologia, filiado à Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e à Gypsy Lore Society (GLS).

Com Jeancarlo Fonseca, representante étnico da comunidade imigrante cigana Calon Portuguesa no sul do Brasil. Comerciante, ativista pelos direitos humanos, membro do Instituto PluriBrasil.

Com Luiz Zanata da Silva Dantas (Breno Cigano), cigano da etnia calon, compositor e intérprete.

Com Zanata Ribeiro Dantas, cigano da etnia calon, foi suplente da representação dos Povos Ciganos na Comissão Estadual para a Sustentabilidade dos Povos e Comunidades Tradicionais (CESPCT), ligado à SEPROMI no Estado da Bahia. Comerciante, cantor e compositor.

Com Givanildo Custodio, tecladista e cantor. Acompanha músicos ciganos do Nordeste.

Com Zico, sanfoneiro cigano calon autodidata, morador do Estado de São Paulo.

Com Lourdes Corrêa  (Lú Ynaiah), psicóloga, ativista de direitos humanos com ênfase nos direitos dos povos ciganos. Membro Titular Representante dos Povos Ciganos no Comite Gestor do Plano de Ação para Políticas Públicas biênio 2025-2027.

Disponível em: https://www.sescsp.org.br/programacao/entre-fados-e-trovas-a-cultura-cigana-calon-e-as-conexoes-transatlanticas/  


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Gambira encerra I ciclo com workshop de Gestão de processos de OSC

 

Curso beneficia 17 estudantes ciganos de mais de 6 estados brasileiros e é financiado pela Fundação André Lúcia Maggi

O Programa Gambira, que visa a formação de pessoas ciganas das etnias Calon, Rom e Sinti nas áreas de gestão e sustentabilidade financeira de organizações da sociedade civil (OSC), bem como nas áreas de produção cultural, de comunicação e de audiovisual, encerrou nesta terça-feira (19 de agosto) seu primeiro ciclo.

Realizado pela Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC/MT), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio do LabNós, o nono encontro do semestre ocorreu, como de costume, entre 19h30 e 21h30 (horário de Mato Grosso). Na ocasião, o gestor governamental da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT), Paulo Moura, realizou a “Oficina de Gestão de Processos de instituições culturais e sociais”.

Integrante do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2025/2026 da AEEC-MT, o Gambira, atualmente, atende 17 estudantes ciganos das etnias Rom e Calon de vários estados brasileiros, como MT, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Paraná. O PDI AEEC-MT é financiado pela Fundação André Lúcia Maggi (Falm), por meio da Chamada de Apoio ao Desenvolvimento Institucional 2024.

A primeira etapa das formações do Gambira aconteceu no primeiro semestre de 2025, com uma série de oficinas e workshops. Online, o curso oferta formação técnica e profissional a pessoas ciganas do todo o país, visando o fomento à melhoria dos processos internos e externos da instituição, inclusive com associações e coletivos ciganos parceiros de outros Estados.

O Programa é certificado como curso de extensão pela Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio do LaBnós, sob coordenação da professora dra. Gabriela Marques.  Pela AEEC, a coordenação é realizada pelo gerente de projetos, Dr. Aluízio de Azevedo e o diretor de cultura, Rodrigo Zaiden. A secretaria do curso é realizada por Rosana Cristina Alves de Matos Cruz (presidente da AEEC), a mediação por Jéssika Lorrayne Alves Cabral Lima Leme (vice-presidente) e a produção executiva é assinada por Fernanda Caiado.

No primeiro ciclo do curso, que ainda está previsto para ocorrer até o fim de 2026, com mais três novos ciclos, foram realizados 9 encontros entre os meses de abril e agosto, sendo que a aula inaugural ocorreu no dia 08 de abril.

Neste período, os participantes receberam algumas formações como a Roda de Chibe “Formando lideranças ciganas: Ativismo, Mobilização, Participação Social, e Estratégias de Advocacy”, ministrada por uma das pioneiras do ativismo cigano no Brasil, a Rommi Lourdes Corrêa (Lú Ynaiah) e pela jornalista do site Observa MT e especialista em direitos humanos, questões ambientais e advocacy, Edilene Fernandes.

Os 17 integrantes do Gambira também participaram de três workshops: “Gestão de Instituições Sociais e Culturais”, com a produtora cultural e presidente do Instituto Cultural América (Inca), Cybele Bussiki; “Planejamento, monitoramento e avaliação de instituições sociais e culturais”, com a professora Mestra e servidora da UFG, Marília Almeida; e “Gestão Financeira de Organizações Sociais”, com a superintendente de Desenvolvimento Criativo da Secel/MT, Keiko Okamura.

Além disso, o programa ofereceu no primeiro ciclo outras duas oficinas: “Elaboração e Escrita de Projetos Culturais e Sociais”, com Aluízio de Azevedo e “Introdução à Produção Audiovisual”, com Gabriela Marques e Aluízio de Azevedo. Como o curso também prevê atividades práticas e momentos de monitoramento e avaliação, conhecidas como “Hora do Drabe”, no dia 10 de junho, ocorreu uma aula prática para comentar exercícios, com Gabriela Marques.

AEEC-MT e UFG abrem 10 novas vagas para Programa Gambira

Neste segundo semestre de 2025, as oficinas ofertadas pelo Programa Gambira focam no cinema e audiovisual, incluindo áreas como roteiro, direção, produção, direção de arte, montagem/edição e direção de fotografia. Também teremos um workshop de marketing digital e uma oficina abordando “Medidas de Acessibilidade e a contratação de Pessoas PCDs nos projetos culturais e sociais”.

A AEEC-MT está com inscrições abertas para a segunda chamada do curso, no período entre 18 e 25 de agosto de 2025. São 10 novas vagas, exclusivas para pessoas ciganas de qualquer parte do Brasil. Os/As novos/as selecionados/as serão integrados/as ao grupo, participando das oficinas e workshops programados para o segundo semestre de 2025 e para o ano de 2026.

Para fazer a inscrição, basta preencher o formulário abaixo e deixar seus contatos, que em breve retornaremos

Para o segundo semestre de 2025 estão previstas os seguintes cursos:

-  02/09 - Introdução à Produção Audiovisual– Parte 2;

- 16/09 – Oficina de Introdução à Construção de Roteiro;

- 30/09 - Oficina de Direção de Arte para o Cinema;

- 14/10 - Oficina de Direção de Fotografia para o Cinema;

- 28/10 – Oficina de Montagem;

- 11/11 – Oficina de Direção Geral para Cinema;

- 25/11 – Oficina de Marketing Digital;

- 02/12 – Oficina de Medidas de Acessibilidade e a contratação de Pessoas PCDs nos projetos culturais e sociais;

- 09/12 (terça) – Encontro de monitoramento e avaliação do Ciclo 2


CRITÉRIOS PARA PARTICIPAÇÃO

- Pertencer a uma das três etnias ciganas, Calon, Rom e Sinti

- Ter entre 15 e 70 anos

- Ter disponibilidade para frequentar todas as etapas do curso que ocorrerão durante dois anos, duas vezes por mês, de forma online, no período noturno, durante duas horas cada encontro.

- Dispor de pelo menos 10 horas mensais para as formações e atividades práticas do PDI

- Se comprometer na atuação prática e na melhoria da organização institucional da AEEC-MT

- No mínimo 50% das vagas serão garantidas para mulheres ciganas, garantindo a paridade de gênero

PATROCÍNIO

O PDI AEEC/MT/2025-2026 é executado a partir de uma mentoria da Fundação André Lúcia Maggi (Falm) e a consultoria da Ponte a Ponte, por meio do Edital de Seleção de Organizações, Movimentos Sociais e Coletivos para o Fortalecimento de Capacidades Institucionais 2023/2024.

Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC


sexta-feira, 20 de junho de 2025

AEEC participa de Encontro de Gestores da Cultura e Esporte de MT

Vice-presidente da AEEC, Jéssika Lorrayne Leme, Primeira-dama Virgínia Mendes e a presidente da AEEC, Rosana Matos Cruz na feira do evento

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) foi uma das organizações convidadas pela Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT) para integrar o pavilhão da Feira Cultural do I Encontro de Gestores da Cultura e do Esporte de Mato Grosso.

A AEEC contou com stand na Feira cultural do evento, onde apresentará seus trabalhos principais, como a manutenção e a conservação dos saberes femininos, especialmente, a medicina tradicional Calon, a produção de eventos culturais, como os Encontros de Cultura Cigana de MT e os Encontros de Mulheres Ciganas de MT.

Além disso, a instituição integrou a programação artística do evento e indicamos a participação do grupo As Babanins, que às 17h do dia 24 de junho, fizeram uma apresentação de dança cigana no palco principal do evento.

A presidente da AEEC-MT, Rosana Cristina Alves de Matos Cruz, a tesoureira, Fernanda Caiado e o Gerente de Projetos, Aluízio de Azevedo, participam do evento representando a organização, pelo município de Cuiabá.

Já  a vice-presidente da AEEC-MT, Jéssika Lorrayne Alves Cabral Lima Leme, veio de Rondonópolis, especialmente, para participarem do Encontro

Organizado pela Secel-MT, o encontro ocorreu no período entre 23 e 25 de junho, no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá e contou com a presença da Ministra da Cultura, Margareth Menezes.

Também estiveram presentes o governador Mauro Mendes, o Secretário da Secel, David Moura, deputados estaduais, vereadores, prefeitos, trabalhadores da cultura, artistas e mestres populares de diversos segmentos.

Músicos, cineastas, artistas plásticos, artistas visuais, profissionais das artes cênicas, do circo e produtores culturais em geral, além de patrocinadores e apoiadores vindos de quase todos os municípios mato-grossenses, estiveram em ebulição durante o Encontro, que teve programação diversificada, intensa e variada, incluindo, a participação da atriz global, Denise Fraga.

Com informações do Site da Secel: www.secel.mt.gov.br/-/encontro-de-gestores-de-cultura-e-esporte-de-mt

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Caminhos Ciganos será exibido no Sesc São Caetano em 08 de Maio

 
Exibição do curta ocorre às 19h30 do dia 08 de maio (quinta) e contará na sequência com debate com o diretor e roteirista Aluízio de Azevedo. Foto: Karen Ferreira - Divulgação do Filme

Alô amantes da sétima arte e das culturas ciganas de São Paulo (SP), o Filme curta-metragem Caminhos Ciganos (24’, 2023) voltará a ser exibido na cidade no próximo dia 08 de maio (quinta-feira).

Desta vez, a exibição ocorrerá às 19h30 no Sesc São Caetano e será seguida de debate com o público presente e o roteirista e diretor do filme, Aluízio de Azevedo.

Gratuita, a atividade tem previsão de duração de 75 minutos e os ingressos podem ser retirados no local meia hora antes de começar (19h).

A exibição do filme ocorre marcando o dia Nacional dos Povos Ciganos, que acontece a 24 de maio no Brasil desde 2006.

Confira aqui o teaser do filme.

Com financiamento do governo do Estado, por meio do Edital Cine Motion – Audiovisual 2021 da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), a produção tem como codiretores Rodrigo Zaiden, que assina produção e direção de arte; e Karen Ferreira, que dirigiu a fotografia e realizou a montagem. 

Além das comunidades ciganas brasileiras e portuguesas, o curta traz a peregrinação de Santa Sara Kali, que ocorre todo ano em 24 de maio na cidade de Saintes-Maries-De-La-Mer, em França, reunindo pessoas ciganas e não ciganas do mundo todo.

Outras informações: https://www.sescsp.org.br/programacao/curta-metragem-caminhos-ciganos-bate-papo/

Sinopse

Foto: Divulgação do Filme - Karen Ferreira

Os caminhos que levam ao universo romani em três países, Brasil, Portugal e França, são apresentados numa narrativa poética e intimista, inspirada na estética do premiado cineasta cigano Tony Gatlif, diretor de “Lacho Drom” (1992) e “Gadjo Dilo” (1997). Em destaque as culturas ciganas vistas de dentro, valorizando imaginários próprios.

Minibio do Diretor Aluízio de Azevedo


Cigano da etnia Calon. Multiartista, pesquisador, ativista e produtor cultural independente (direção e roteiro de cinema, artes plásticas, poesia, fotografia e artes visuais). Formação em Comunicação Social – Jornalismo e Ciências Sociais (UFMT). Especialização em Cinema (Universidade de Cuiabá), Mestre em Educação Ambiental e Mitologias Ciganas (UFMT) e doutor em Informação, Comunicação e Saúde pela Fiocruz-RJ.

Jornalista concursado do Ministério da Saúde desde 2012. Estágio pós-doutoral no Laboratório de Comunicação e Saúde (LACES) da Fiocruz-RJ. Conselheiro Estadual de Igualdade Racial de MT representando os povos ciganos, quadriênio 2024/2028. Assessor para Ciência e Comunicação e Gestor de Projetos da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso. Integrante do Coletivo Ciganagens e do Coletivo Ciganos, Juntos Somos Mais Fortes.


Ficha Técnica:

Este filme é dedicado ao tio Eurípedes Alves Pereira (in memorian)

Ficha Técnica

Realização: Edital Cine Motion – SECEL-MT

Pesquisa, Roteiro e Direção Geral: Aluízio de Azevedo

Codireção: Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira

Produção Executiva e Consultoria de Roteiro: Irandi Rodrigues Silva

Coordenador de Produção: Rodrigo Zaiden

Direção de Produção: Kaiardon Produções

Produção Local Portugal: Pimênio Ferreira

Produção Local Brasil: Fernanda Alves Caiado

Direção de Fotografia: Karen Ferreira

Fotografia complementar: Rodrigo Zaiden e Aluízio de Azevedo

Montagem: Karen Ferreira, Aluízio de Azevedo e Juliana Corsino

Assistente de Montagem: Rodrigo Zaiden

Edição: Juliana Corsino

Finalização/Colorização: Isabela Padilha

Montagem de som e trilha original: Caju

Designer Gráfico e Webdesigner: André Victor

Assessoria de Comunicação e Imprensa: Aluízio de Azevedo

Produtora do Circuito de Lançamento: Francieska Dinarte

Secretária: Irandi Rodrigues Silva

Administrativo: Afra Catarse

Apoio:

Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT)

Imune

Prefeitura Municipal de Tangará da Serra

Vereador de Tangará da Serra Professor Sebastian

Vereador de Rondonópolis Dico

Agradecimentos:

Associação Nacional das Etnias Ciganas (ANEC-DF)

Associação Letras Nómadas (Portugal)

Prefeitura Municipal de Tangará da Serra

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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Curitiba ganha museu virtual que resgata a memória dos povos ciganos

Acervo Museu: 

Redação Bem Paraná com assessoria 01/04/2025 às 09:51

Curitiba ganha um novo museu no dia 8 de abril, o Dia Internacional dos Povos Ciganos. Nesta data será inaugurado o primeiro Museu Virtual de Memórias da Imigração Cigana na capital, o Museu Romanô Curitiba. O projeto, pioneiro no Brasil quando o assunto é registro dessa cultura, foi idealizado pela cigana Hayanne Iovanovitchi, neta de Cláudio Iovanovitchi, que faleceu na última semana, no dia 28 de março. Cláudio era um grande nome na luta pela preservação dos povos ciganos, representante da Associação de Preservação da Cultura Cigana (APRECI) e o Museu era um grande sonho. 

“Esse museu foi construído pelas mãos do meu avô, em cada detalhe, cada história e cada lembrança. Dois dias antes de ele falecer inesperadamente, ele fez a aprovação final do projeto, e ele estava animado com o lançamento. Agora, estamos lutando para que ainda mais a cultura cigana e, sobretudo a trajetória dele, seja valorizada”, lamenta a neta e executora do Museu, Hayanne.

O projeto, que vinha sendo pensado há mais de um ano, foi viabilizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e tem curadoria de Neiva Camargo Iovanovitchi e conta com o patrocínio da PESA-Cat – Paraná Equipamentos S.A.

O Museu Virtual de Memórias da Imigração Cigana em Curitiba, que teve um investimento de cerca de R$ 80 mil, surge como uma iniciativa inovadora para registrar e preservar a história da comunidade cigana no estado, que tradicionalmente se baseia na oralidade e que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil chega a quase 1 milhão de pessoas.

“A nossa história, quando registrada, foi muitas vezes contada por não ciganos, carregada de estereótipos e fantasias. Com o Museu, finalmente temos a chance de narrar nossa trajetória com nossa própria voz, sem distorções. Era esse o desejo do meu avô, trazer protagonismo para os povos ciganos e, sobretudo, entender que o povo de Curitiba também é formado por essas culturas”, afirma Hayanne.

O acervo, disponibilizado de forma 100% online, é estimado em cerca de 180 peças e reúne documentos históricos, fotografias, vídeos e relatos exclusivos, incluindo materiais inéditos sobre a chegada dos ciganos da etnia Rom ao Paraná. A curadoria foi conduzida com base na pesquisa de Cláudio, neto de Duchan Iovanovitch – cigano que chegou da Iugoslávia em terras paranaenses em 1926.

Por muitos anos, Cláudio conservou e resgatou a história da família a partir de documentos herdados de seus avós. “A vida do meu avô foi dedicada em valorizar o nosso povo, e apesar da tristeza, temos certeza que será um momento inclusive, de celebrar a sua vida”, diz Hayanne. O Museu Virtual contará com recursos de acessibilidade e registros audiovisuais para proporcionar uma experiência inclusiva e interativa.

A inauguração oficial acontecerá no dia 08 de abril no Museu Paranaense, a partir das 19h, em um evento aberto ao público e que contará com uma roda de conversa sobre o processo de criação do museu e exposição de algumas peças físicas do acervo. A cerimônia, que seria conduzida por Cláudio, terá a participação da antropóloga do Museu Paranaense Josi Spenassatto, da proponente do projeto Hay Iovanovitchi, além de autoridades convidadas do governo estadual e federal. “Para nós, povos ciganos, vai ser um momento de homenagear meu avô e o legado que ele deixou. Ainda, vai ser um momento de fortalecer ainda mais a necessidade de valorizar a cultura cigana”, celebra Hayanne. 

O projeto busca ampliar o conhecimento sobre a cultura cigana e combater preconceitos por meio da preservação da memória e do acesso à informação verídica. Além do público em geral, o museu pretende engajar pesquisadores, estudantes, professores e agentes públicos que trabalham com os direitos dos povos ciganos. “Nossa ideia é mostrar ao público uma nova perspectiva dos povos ciganos e das nossas histórias. Tenho certeza que o Museu Romanô trará uma contribuição significativa para a cultura do estado”, finaliza a idealizadora do projeto.

Sobre Hayanne Iovanovitchi
Cigana de etnia Rom, Hayanne Iovanovitchi é trineta de Duchan Iovanovitch e pertence à quinta geração da Família Iovanovitchi em Curitiba. Bacharel em Direito, atriz e produtora cultural, é idealizadora do Coletivo de Mulheres Ciganas do Brasil e membro do Coletivo Ciganagens.

Sobre Cláudio Iovanovitchi (in memoriam)

Cláudio Iovanovitchi era importante liderança cigana Rom, fundador da Associação de Preservação da Cultura Cigana no Paraná (APRECI/PR) e defensor incansável da valorização das tradições ciganas. Cláudio também integrava o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) e atuava como vice-presidente do Sindicato dos Produtores Culturais do Estado do Paraná. Natural de Ponta Grossa e residente em Curitiba desde a década de 1970, Cláudio desenvolveu uma forte relação com o teatro e a pesquisa histórica. Deixa um legado importante para a preservação e difusão da cultura cigana no Brasil.

Serviço:
Evento de lançamento do Museu Romanô de Curitiba
Data: 08/04/2025
Horário: 19h
Local: Museu Paranaense – R. Kellers, 289 – São Francisco, Curitiba – PR

https://www.museuromanocuritiba.com/

Disponível em: https://www.bemparana.com.br/noticias/parana/curitiba-ganha-museu-virtual-que-resgata-a-memoria-do-povo-cigano/ 

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Filme Ciganenses aborda culturas cigana e circense

Patrocinada pela Funarte, obra mostra a tradição artística da família Fernandes, com foco na palhaçaria

Reportagem / Entrevista Especial, por Aluízio de Azevedo

Fotos: Barbara Jardim

Quem já foi criança um dia, sabe que um dos maiores desejos das pequenas é ir embora com o circo. Artes, artistas, palhaços, mágicos, picadeiros, lonas e muita luz e brilho do circo, uma das mais antigas formas de organização artística do mundo, fascinam e fazem a felicidade também de adultos e idosos, tornando os nossos dias mais alegres e menos enfadonhos.

Leia aqui entrevista completa com o diretor do filme, Roy Rogeres

Pois foi essa rica experiência de conviver com um circo que vivenciei durante cinco dias do mês de agosto (22 a 26), quando acompanhei as gravações do projeto “Ciganenses”. A produção é dirigida e roteirizada pelo multiartista de etnia cigana Calon, Roy Rogeres Fernandes Filho. Roy foi essa criança que nasceu e cresceu no circo da sua própria família, iniciando na arte da palhaçaria muito cedo.

Acesse a página de Cinagenses no Insta e acompanhe as novidades da produção

A família Fernandes é uma das precursoras do circo no país e hoje uma das maiores dinastias circenses, contando com mais de 10 circos, entre eles o Circo do Palhaço Futuca, o qual participei das gravações e pude conhecer o seu líder, Daniel Fernandes e toda a comunidade itinerante que o acompanha, durante sua estadia na cidade de Gravatá, em Pernambuco (PE).

Produção enfatiza a relação histórica e o entrelaçamento entre os ciganos de etnia Calon e as artes circenses desde os tempos coloniais

A gravação no circo do Palhaço Futuca, também uma das personagens principais da obra, foi a segunda etapa das captações. A primeira etapa ocorreu entre os dias 08 e 12 de agosto junto ao Circo Holiday, na cidade Valença do Piauí, no Piauí (PI), sendo este um dos primeiros circos da família Fernandes. Antes tiveram o Circo Chibiu, Circo Uberlândia, o Arte Palácio e depois foram formando-se e resultando nos demais.

As despesas para minha participação no evento e de outras duas pessoas ciganas da equipe, o design gráfico, Danillo Kalon e a social media, Sara Macedo, foram efetuadas pela Coordenação de Acesso e Equidade (Caeq) da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) do Ministério da Saúde (MS), que atua na pauta da saúde circense e cigana no órgão.

Equipe do Filme Ciganenses entrevista o palhaço de etnia Calon, Chapolin Colorado, do circo do Palhaço Futuca, que também é do mesmo grupo étnico

Re-existência e pioneirismo dos ciganos circenses

Não é por acaso, que tanto os povos ciganos, quanto os trabalhadores circenses, convergem na Coordenação das políticas de equidade do MS e do SUS. Além desse imaginário fantástico e romantizado do circo, há outros bem reais e negativos, que caminham lado a lado. Em tempos de globalização, streamings e redes sociais, essas comunidades - empresas enfrentam diversos problemas para manterem a cultura circense, levando alegria aos rincões mais distantes, onde as produções culturais não chegam.

Como bem destacou Roy Rogeres, que também é pesquisador do tema e um dos principais defensores da pauta circense e cigana no país, são resiliência e re-existência. “Importante destacar que os governos, as cidades, tenham olhares mais sensíveis e acolhedores para os povos circenses e ciganos, que enfrentam essa dupla perseguição e preconceito, mesmo querendo levar aquilo que há de melhor para as pessoas, que é a cultura, a alegria, as artes, a ludicidade. Esperamos conseguir contribuir, ainda que minimamente, para mostrar o quanto o circo é grandioso e rico, mas, ao mesmo tempo, atravessa e passa por desafios inúmeros para se manter em pé”.

Neste sentido, cultura, cinema, artes e culturas circenses e ciganas e saúde, se conjugam no filme Ciganenses para “projetar luz para a cultura do circo promovida por ciganos”. Na avaliação do diretor, “infelizmente a literatura não tem dado conta e não deu conta até aqui de explicitar essa relação diretamente entrelaçada entre os ciganos e o circo”.

Trabalhadores levantando a lona do Circo: Trabalho braçal para levar a leveda das artes circenses.

“Defendo que nós fomos os precursores do circo no Brasil desde a colonização, uma vez que a gente já fazia circo e arte durante o período colonial, nas praças coloniais. Não tem como a gente falar de circo com justiça social, sem falar da contribuição dos ciganos para as artes circenses no país”, enfatiza.

Outro objetivo principal da obra é registrar e documentar a história e a memória da família Fernandes, de origem cigana Calon, que lidera em torno de 10 circos no Brasil, que vêm resistindo ao longo de décadas.

“Apresentaremos no filme a cultura do circo no Brasil promovida pela resiliência e resistência da família Fernandes que conta hoje com todos esses circos e especialmente a tradição da palhaçaria, que na nossa família é o grande forte. No meio circense, nossos palhaços são respeitados. São inspirações para palhaços no Brasil inteiro, então, queremos mostrar a dupla cultura cigana e circense, especialmente a tradição da palhaçaria”, revela Roy.

A relação entre o circo e os povos ciganos não ocorre apenas no Brasil. Mas o ineditismo na obra produzida por Roy, é justamente mostrar que entre a etnia Calon as artes circenses também estão profundamente entrelaçadas. “Na América do Sul e em outros países têm muitos circos feitos por pessoas ciganas, a grande parte feita por etnias Rom e outras, mas os Calon também estão nesta vanguarda e é isso que a gente quer demarcar o espaço dos ciganos da etnia Calon nos circos do Brasil, enquanto fundadores e mantenedores desta tradição”.

A dinastia de Maria Cigana e João Cartomante

Artistas do Circo do Palhaço Futuca, durante sua temporada na cidade de Gravatá

Segundo Roy, os Fernandes começaram a fazer circo de 1940, 1950 pra cá. Primeiro com a apresentação de cinema em praças públicas, com projeções fílmicas, e a labuta com animais e nessas praças, passando o chapéu antigamente, até ter o circo como conhecemos hoje em formato de lona.

“Em nossa família, o circo começou com a dona Maria Cigana, minha bisavó, junto como meu bisavô, o João Cartomante, que era caixeiro viajante e trabalhava com artes. A partir da perseguição e injusta morte dele, que é hoje um beato na cidade de Cocal (PI), D. Maria Cigana se envereda pelo lado do circo, com suas filhas e filhos, especialmente a mais velha, Josefa Fernandes, conhecendo um pouco mais das artes, pois já eram bons cantores, completos artistas, dançarinos. É muito talento e resistência, é muita resiliência”, relata o multiartista Calon.

A película, que tem previsão para estrear no segundo semestre do ano que vem, mostra também as dificuldades para manutenção da tradição circense nos dias de hoje

Entre as personagens principais do filme estão vários palhaços que pertencem à Família Fernandes. Entre eles, “o Palhaço Sapatão, que primeiramente era o Tio Rogério que fazia, depois passou para o irmão dele, o tio Cícero e agora é o Kenny Hollyman quem faz, o filho do Cícero; o palhaço Futuca, que é o Daniel, o palhaço Pipoquinha/Chapolin, o Wanderson; e o Beto Chameguinho, que hoje trabalha no Parque Beto Carreiro World. O Palhaço Chameguinho é um dos grandes nomes do circo nacional, uma das principais referências, tendo sido eleito em diversos concursos e páginas especializadas, o melhor palhaço do Brasil, por diversas vezes”, explica Roy, acrescentando que:

“Nós temos também a intenção de gravar com o palhaço Safadinho, que tá hoje em São Paulo e pertence à família e alguns outros, para além, claro, daquelas que conviveram e que desde então estão juntos fazendo o circo acontecer, suas esposas, as mães, como a tia Edna e a tia Lina, que são mulheres que dedicaram mais de 40 anos as artes do circo, além da nossa matriarca, a tia Iracilda, que mora em Barreiras, uma grande artista, com muita memória”.

A arte da palhaçaria é a especialidade da família Fernandes

Financiamentos e Apoios - O projeto Ciganenses foi aprovado no Edital Retomadas na categoria Circo da Funarte, com previsão de finalização até dezembro de 2025. “Para além disso, nós resolvemos que é muito importante buscar financiamento para finalização do filme, o que demanda um custo maior. Agora terminadas as gravações primeiras, a gente vai em busca de apoio para novas gravações e a finalização fílmica. Tivemos o apoio do Ministério da Saúde e do Ministério da Igualdade Racial para participação de pessoas que moram em Estados distantes, como o palhaço Beto Chameguinho e dos membros do Coletivo Ciganagens, o Aluízio, a Sara e o Danilo pudessem participar presencialmente, o que foi de suma importância”, conclui o diretor.

Saúde Cigana e Saúde Circense – As comunidades e trabalhadores circenses, assim como os povos ciganos, são acolhidos no Sistema Único de Saúde (SUS), a partir das políticas de equidade. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Povo Cigano/Romani (Portaria do Ministério da Saúde 4348 de 28/12/2018) ampara os povos ciganos e determina o atendimento diferenciado as pessoas das etnias ciganas presentes atualmente no Brasil. São elas os troncos étnicos Calon, Rom e Sinti e seus subgrupos.

Também no âmbito do SUS, a Portaria do MS 940 de 2011, que dispensa circenses, trabalhadores de parques e itinerantes e povos ciganos de apresentar comprovação de endereço para serem atendidos nos serviços do SUS. Atualmente tanto a pauta da saúde cigana, quanto da saúde circense, está sob os cuidados da Caeq/Saps/MS. Saiba mais no link: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude .

Ficha técnica

- Patrocínio: Funarte / Edital Retomadas – Categoria Circo

- Direção Geral: Roy Rogeres Fernandes Filho

- Fotografia e Montagem: Letícia Ribeiro

- Som Direto: Ronne Portela

- Stil e fotografia: Bárbara Jardim

- Supervisão de montagem e pesquisa e colaboração imagens: Aluízio de Azevedo

- Coordenação de Produção: Luanna Marylack

- Produção: Mariana Passos

- Assistente de Produção: Carla Lumena

- Redes sociais: Sara Macêdo

- Artes/designer: Danillo Kalon

- Condução e Assistência: Valney Transportes e Turismo

- Assistência de produção e direção: Irisma Fernandes

- Chefe de cozinha: Kleber Luis Souza Júnior

- Apoios: Ministério da Saúde e Ministério da Igualdade Racial



Entrevista com o diretor cigano e circense Roy Rogeres

O multiartista cigano e circense, Roy Rogeres, produz longa-metragem abordando as culturas cigana e circense. Obra é patrocinada pela Funarte.

Leia Reportagem especial sobre a produção

Aluízio: Pode falar um pouco mais sobre este entrelaçamento entre a cultura cigana e o circo?

Roy: Há muitos elementos culturais semelhantes entre a cultura do circo e da cultura cigana. Notadamente, a gente percebe primeiro pela vida na itinerância, a paixão e a valorização das lonas, quer seja como barraca, como circo, como moradia ou para um breve pouso. Em ambas, as artes, a dança, a música e o teatro estão presentes, porque a gente sabe que os ciganos são exímios artistas, artistas completos, com charme e presenças especiais que os diferem claramente.

Fomos também os primeiros domadores de animais, a lidar por exemplo com leões, onças, com cavalos, com macacos, animais de grande porte, a domar esses animais e a mostrar em espetáculos. Eram meus tios e meus familiares que aprendiam pela via da tradição, com meus avós, e ensinavam outras pessoas a serem domadores, a manter essa função artística. Então, primeiro uma facilidade muito grande na lida com os animais e isso demonstra a nossa natureza totalmente entrelaçada ao mundo animal, que somos, o respeito à natureza, o entendimento dos outros animais, a coragem, o respeito, e acima de tudo, o talento inato.

Além disso, o fascínio pela itinerância, pela natureza, por estar em vários lugares distintos, viajar, caminhar pelas estradas a onde poucos se aventuram, e conhecer outros mundos e culturas, não ter medo de chegar até onde não tinham passado ou conhecido anres. Outra característica que podemos dizer é a alegria, comum, entre povos ciganos e circenses. Em nossos meios ciganos e circenses, a alegria ela é muito maior. A criatividade é muito grande também, tudo se transforma para o povo cigano circense em algo, em algum elemento da necessidade do circo, algo novo e necessário na engrenagem. Além disso, fazem de um tudo quanto aos equipamentos circenses, desde os figurinos e adereços, aos bailados, números, funções de empresários e negociantes.

Precisamos ver o circo como uma empresa, como uma engrenagem que requer uma série de funções e que os ciganos desempenham com muita competência todas elas. Desde ser o dono do circo, a ser palhaço, ser secretário, articular as burocracias para que possam acessar os espaços e as cidades. São uma série de funções que os ciganos desempenham de maneira magistral e que serve de referência e exemplo para os circenses não-ciganos. Isso é lindo e motivante de perceber ao acessar os dois universos circenses, ciganos e não ciganos. São nítidas as diferenças, e não é que os não ciganos não sejam também divinos no que fazem, é que do lado de cá tem um quê mágicos e especial, possível de se notar e admirar.

Aluízio: Por que registrar o circo?

Roy: É importante fazer filme sobre o circo, primeiro porque dizem que o circo é o ‘primo pobre da cultura’, apesar de ser talvez a linguagem mais rica, porque ela abrange teatro, cinema, as artes, a música, ou seja, não faz sentido permanecer sendo assim, já que a cultura circense congrega diversas linguagens, ou seja, é muito rica, mas é pouco valorizada, pouco incentivada, pouco financiada e o nosso foco é então trabalhar com circos promovidos e feitos por ciganos tanto para demarcar esse espaço e documentar, quanto pela luta por reconhecimento cultural, visibilidade do circo-cigano e pela cidadania plena para seus fazedores.

Esta é a nossa grande responsabilidade mostrar que no Brasil, assim como no mundo, os ciganos foram também são responsáveis, sendo os precursores dessas artes, apesar de até então não terem levados muitos créditos. Aludem muito a cultura circense a personagens estrangeiros, a outros grupos, de nações, mas no Brasil nós temos o circo sendo feito por ciganos, ainda que não com lona, desde a colonização o circo está presente, fomos dos primeiros a chegar, então, não é difícil reconhecer esse pioneirismo. A cultura brasileira necessita reconhecer e valorizar o circo feito por ciganos, agindo contra o apagamento cultural e em favor do reconhecimento desta tradição entre nós.

De etnia Calon, os irmãos Fernandes: Irisma (Tati), Roy e Luana nasceram no circo

Aluízio: Abordar o circo a partir da etnia Calon é algo inédito?

Roy: Estamos produzindo uma obra inédita no Brasil, que é um filme inteiramente focado na cultura circense, a partir da cultura cigana, trazendo esse entrelaçamento entre essa dupla cultura. Por si só, a cultura cigana já é alvo de perseguição e de preconceito, assim como a cultura circense também é. Ou seja, esses preconceitos e perseguições acontecem duplamente nesse caso. O filme explicita isso na narrativa de todos os personagens, então, muitas vezes, primeiro apresentam-se circenses, e só depois afirmam ou reafirmam ciganidade. É uma estratégia para poderem almenos chegar e armar o circo.

O filme vai trazer justamente esses bastidores, como as dificuldades e os desafios que os circos enfrentam para estarem onde nenhum outro equipamento cultural acesso, que são os interiores, daí a importância do circo no Brasil e no mundo, porque fora das capitais e dos grandes centros, infelizmente, o acesso à cultura, ao teatro, ao cinema, a cultura em si é muito difícil e o circo ele leva enquanto equipamento cultural todas essas artes integradas, para onde nenhum outro chega.

Apesar das dificuldades, de cada vez mais as burocracias, de negativas de terrenos, como eles têm relatado, da dificuldade para conseguir chegar, quando chegam acabam conquistando aquele espaço e sempre que voltam e podem retornar, porque há um compromisso muito grande com aquela praça, como se chama os lugares onde o circo está.

O compromisso de deixar o terreno sempre muito bem limpinho, ainda que sejam alocados em terrenos distantes, mas com muito trabalho e muita luta, vêm demonstrando ser diferente daquilo que esperam, o circo vem resistindo. E vem resistindo porque enquanto arte leva para as pessoas dos lugares mais afastados, povoados e distritos, entretenimento, a cultura a oportunidade de vivenciar este mundo mágico, especialmente para as crianças e assim elas podem ser um pouco mais felizes, um pouco mais crianças em suas infâncias no campo. São inúmeros os benefícios do circo em uma praça. O circo é também cura e felicidade, onde as vezes imperam as tristezas, misérias, desalentos...

Aluízio: Já tem data para lançamento?

Roy: A ideia inicial era que o filme fosse lançado em abril/maio de 2025, mas infelizmente, com o falecimento de dois baluartes da família Fernandes, que são os tios Cícero Roberto e José Milton, as gravações que estavam previstas para o início do ano, acabaram acontecendo apenas em agosto, então precisamos adiar esse cronograma.

É possível, que em 27 de março, dia do teatro e dia do circo, a gente faça um pré-lançamento, a depender dos próximos passos. Mas a previsão de estreia não temos como estipular, uma vez que vamos buscar novos recursos para fazer um filme a altura do que foi captado de imagem, de som, de histórias, que são grandiosas, riquíssimas. Precisamos de mais tempo e apoio tanto para novas gravações, quanto para edição e finalização, para fazer um filme a altura da ambição do projeto, do que captamos em campo e mais do que isso: daquilo que merecem, merecemos.
A Família do Circo do Palhaço Futuca pousa para foto durante gravação do filme ocorrida em Gravatá, no interior de Pernambuco, no último mês de agosto

Fotos: Barbara Jardim