domingo, 31 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Francisca e Francisco Pereira - O Tempo que a gente É!

Francisco de Assis Santos nasceu em Bambuí, Minas Gerais, no dia 18 de outubro de 1953. Ainda jovem, aos 17 anos, deixou sua terra natal e veio para Mato Grosso, estado onde construiu sua vida e permanece até hoje. Trabalhador dedicado, iniciou sua carreira na zona rural. Mais tarde, mudou-se para a cidade, onde trabalhou por 23 anos na empresa Comercial Rio Negro.

Foi em Mato Grosso, na região de Guiratinga e Beira Rio, que Francisco conheceu Francisca Pereira dos Santos, nascida em 16 de outubro de 1956, em Guiratinga, Mato Grosso.

Filha de José Alves Pereira e Isaura Cabral, Francisca cresceu vivendo a tradição cigana ao lado de sua família. Até os 15 anos, viveu viajando com os pais, acompanhando a rotina cigana, até que seu pai comprou um sítio e a família passou a viver no interior.

Ela relembra que, por conta das dificuldades da época e da vida itinerante, não teve oportunidade de estudar, mas aprendeu desde cedo o valor do trabalho e da união familiar.

Foi nesse contexto que Francisco encontrou Francisca. Depois do casamento, passaram a viver em Rondonópolis, onde construíram a família. Casados há mais de 42 anos, Francisco e Francisca tiveram dois filhos, Antony e João Miguel. Ambos se formaram e deram ao casal seis netos, entre eles José Arthur, que também segue com os estudos.

Francisco afirma que, depois de mais de 43 anos convivendo junto da família cigana, também se considera cigano: “Eu já me considero cigano também e queria aproveitar para dizer que amo todos eles. É uma família muito boa, que me ajudou muito quando adoeci”.

Francisca também demonstra com convicção o amor por suas origens: “Eu amo ser cigana, eu tenho orgulho de ser cigana e eu amo a minha tradição cigana!”. Em seu relato, ela relembra com carinho a experiência de participar da peça de teatro “Dai Purim”, atuando pela primeira vez como atriz no grupo Rarripe, durante o VI Encontro de Cultura Cigana.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Estroécio Rodrigues Cunha - O Tempo que a gente É!

Mais conhecido na família como tio Toesse, viveu a vida itinerante na juventude e depois como negociante fazendo gambira. Foto: Tami Lage

Estroécio Rodrigues Cunha nasceu em Jataí, no dia 28 de agosto de 1955. Cigano, relembra seus tempos com a família nas andanças entre Goiás e Mato Grosso, considera que teve uma infância muito boa. 

Em 1975, mudou-se para Tangará da Serra. Depois viveu em Juscimeira, em 1979, e, no ano seguinte, se casou com sua esposa, com quem construiu uma união de 46 anos. Juntos, moraram em Rondonópolis por 35 anos e formaram uma grande família.

Estroécio é pai de quatro filhos, André, Jonathan, Adriana e Italo, além de avô de quatro netos e bisavô de três bisnetos. Hoje, vive em Tangará da Serra novamente, há 11 anos.

Grande parte de sua história profissional foi construída através dos negócios. Trabalhou fazendo gambira: comprando, vendendo e trocando mercadorias. Também trabalhou na roça em alguns períodos da vida. “Eu criei minha família só no negócio”, relembra.

Além disso, Tio Toesse, como Estroécio é mais conhecido na família, é o principal falante hoje da língua Chibe, do tronco étnico Calon, nas comunidades ciganas de Mato Grosso, sendo um dos principais oficineiros em projetos de oficina de chibe realizados pela AEEC-MT.

Estroécio demonstra gratidão pelo projeto Encontro de Cultura Cigana realizado pela AEEC-MT:

“Esse evento é uma bênção de Deus. Meu sobrinho é caprichoso com nós. Ele acha que nós, ciganos, merecemos. Ele é abençoado por Deus. E a família dele também: a mãe, o pai, a irmã. A sobrinhada que eu tenho é muito inteligente, graças a Deus.”

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Cida Alves - O tempo que a gente É!

Aparecida Alves, durante a Assembleia Geral Ordinária da AEEC-MT que ocorreu em 01 de maio. Foto: Tami Lage.

Aparecida Alves nasceu no ano de 1956, em Jatai-GO. Filha de pai cigano e mãe não cigana, passou a infância em barracas, viajando em tropas até cerca dos 10 anos de idade, quando seu pai decidiu deixar a vida itinerante e se estabelecer como morador.

Começou a trabalhar muito cedo como empregada doméstica, profissão que exerceu durante grande parte da vida, assim como algumas de suas irmãs. Teve três filhos, um deles, infelizmente, partiu cedo, aos seis anos de idade.

Mais tarde, encontrou um companheiro com quem viveu por dezoito anos. Durante esse relacionamento, criou também uma filha do coração, Delícia, por quem guarda enorme carinho e consideração. Ao longo da vida, trabalhou em diferentes áreas: além do trabalho doméstico, teve uma mercearia, vendeu roupas e roupas de cama e também trabalhou em escritório de empresa. 

Mãe, avó e bisavó, considera a família uma das maiores bênçãos de sua vida. Há mais de uma década dedica grande parte do seu tempo ao cuidado de seu neto.

Aparecida afirma que sempre carregou consigo os ensinamentos do pai: ser honesta, trabalhadora e manter a união familiar. Também guarda lembranças afetivas da infância nas barracas, das noites ao redor da fogueira e da mãe lendo romances para a família ouvir antes de dormir.

Acredita que, apesar do preconceito histórico enfrentado pelos ciganos, atualmente existe um reconhecimento maior da cultura e das lutas de seu povo. Os encontros culturais da AEEC-MT, segundo ela, são um dos fatores que têm fortalecido o sentimento de união e pertencimento.

Viva Cida! Viva os povos ciganos!

TEXTO: LÍVIA FREIRE

Ancestralidade Viva: Anésio Divino Rodrigues Cunha - O tempo que a gente É!

Anésio é morador de Tangará da Serra desde os 15 anos. Foto: Maria Clara Aquino.

Anésio Divino Rodrigues nasceu em Alto Garças no dia 20 de abril de 1959 e é pai de cinco filhos, Vitor, John Lennon, Hélida, Samuel e Isadora, e avô de um neto. 

Anésio tem muito respeito por suas origens. Para ele, todos os ciganos merecem sua consideração. Agradecido a Deus por ser cigano, afirma que nunca desfez de ninguém e que sempre buscou agir de forma honrada. Segundo ele, por onde passou conquistou o carinho das pessoas e se tornou alguém respeitado na comunidade em que vive.

Sua história em Tangará da Serra começou aos 15 anos de idade. Quando chegou à cidade, a realidade era bem diferente da atual: não havia energia elétrica como hoje, apenas motor de luz, as ruas não eram asfaltadas e as casas de alvenaria eram raras, predominando as construções de madeira ou “casa de tábua”, como diz ele. 

Anésio Rodrigues foi um dos oficneiros da Oficina de Chibe, 
que ocorreu em Tangará da Serra em maio de 2024. Foto: João Aquino.

Foi ali que permaneceu e construiu sua vida. Até hoje vive em Tangará da Serra, onde formou sua família e conquistou sua independência trabalhando como corretor.

Ao falar de sua atuação, faz questão de pontuar sua honestidade. Segundo ele, seus negócios são feitos de forma correta, sem “sacanagem” ou “negócio torto”, sempre de maneira alinhada e transparente. E mais: com sucesso! Anésio é bom de venda.

Nosso homenageado de hoje é um grande homem, trabalhador, querido por todos e muito orgulhoso em ser cigano. Viva, Anésio!

Ancestralidade Viva: Terezinha Alves - O Tempo que a gente É!

Foto: Karen Ferreira.

Terezinha Alves nasceu no dia 07 de outubro de 1961, em Guiratinga-MT. Passou a infância em fazendas da região, onde cresceu ao lado dos pais e das seis irmãs, em um ambiente de fartura, com muita água e plantações cultivadas por eles. Em família, viviam de forma muito unida, iam juntos à igreja, cantavam hinos e liam a Bíblia.

Ela e as irmãs não frequentavam a escola, mas um vizinho contratou uma professora que as alfabetizou. Durante a infância, a família se mudou diversas vezes entre áreas rurais e a cidade de Guiratinga, onde pôde estudar até a 3ª série. Mas seus estudos foram interrompidos pelas mudanças e, aos 12 anos, foi para Cuiabá para trabalhar como babá e empregada doméstica.

Aos 22 anos, retomou os estudos com incentivo do marido na época, hoje seu ex-marido e amigo. Concluiu o supletivo, se formou técnica em Contabilidade e ingressou no curso de Serviço Social, tornando-se a primeira mulher cigana de que se tem registro a concluir o ensino superior no Brasil.

Foto de Arquivo de Terezinha Alves.

Após a formação, participou de conselhos de direitos, chegando à presidência do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Cuiabá. Posteriormente fundou a Arca Assessoria e Consultoria Social, empresa com a qual trabalhou durante 23 anos desenvolvendo projetos de habitação e infraestrutura em municípios de Mato Grosso. Também realizou especializações e concluiu um mestrado em Educação Superior na Argentina. Depois de encerrar as atividades da empresa, passou a atuar como mediadora no Tribunal de Justiça, função que exerce atualmente.

Mãe de duas filhas, Fernanda e Taiza, e avó de três netos, Rafaela, Arthur e Valentina, Terezinha construiu sua vida acreditando na educação e incentivou todos ao seu redor a seguirem esse caminho. Viajou muito, foi pioneira em muitos de seus feitos e dá grande valor à liberdade, ao amor e à união, heranças de sua origem cigana.

TEXTO: LÍVIA FREIRE

sábado, 30 de maio de 2026

Exposição Diquela encerra em Cuiabá com visita de alunos do curso de geografia da UFMT

 
Exposição Diquela começou no dia 05 de maio e encerrou neste sábado (31.05), em Cuiabá, no Ateliê Kaiardon. Foto: Tami Lage.

A programação da Exposição Diquela e da Mostra Calon Lachon em Cuiabá, que ocorre no Ateliê Kaiardon desde o dia 05 de maio, encerrou neste sábado (30.05), com a visita especial da professora Marcia Alves e os alunos da disciplina de geografia urbana do curso de licenciatura em geografia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Durante a visita, cerca de 20 estudantes e a professora Marcia Alves conferiram fotografias de pessoas e comunidades ciganas de três municípios de Mato Grosso: Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra.

São fotos de arquivo da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), que organiza a Exposição e a Mostra de Audiovisual, além de trabalhos fotográfricos de outras três fotógrafas: Maria Clara Aquino, Karen Ferreira e Ju Queiroz.

A exposição conta com uma sala que exibiu 12 telas (foto abaixo mostra duas delas) do artista plástico de etnia Calon e um dos curadores da Diquela, Aluízio de Azevedo.

Também durante a visita da turma de geografia da UFMT realizou uma roda de conversa com Aluízio e com Rodrigo Zaiden, diretor de arte e expografista da exposição Diquela. Logo depois, os estudantes assistiram, como parte da Mostra Calon Lachon, o terceiro episódio da série Calon Lachon, que tem o título Fé em Duvele, que tem direção de Aluízio, Zaiden e Karen Ferreira. 

O designer gráfico e produtor da exposição, Tami Lage, também esteve no encerramento da exposição.  Aliás, Tami será o próximo artista a ocupar o espaço do ateliê Kaiardon, com exposição que inaugura neste domingo (31.05).

Além da atividade deste sábado com estudantes da geografia da UFMT, a programação da Exposição Diquela e da Mostra Calon Lachon no Ateliê Kaiardon ocorreu nos dias 15, 22 e 29 de maio. A Exposição Diquela e a Mostra Calon Lachon integram o VI Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso, que ocorre durante todo o mês de maio, marcando o dia nacional dos Povos Ciganos (24 de maio).

O projeto guarda-chuva acontece nos três maiores municípios de MT com comunidades ciganas, Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra, durante todo o mês do maio, com eventos e programações presenciais e online.

Entre elas, o IV Encontro de Mulheres Ciganas, a Exposição Diquela, a Mostra Calon Lachon, a campanha para redes sociais de valorização da cultura e da história dos povos ciganos, Ancestralidade Viva, que também vista o combate ao racismo e preconceitos contra as pessoas ciganas.

O projeto neste ano contou também com um grande encontro presencial, que ocorreu nos dias 01, 02 e 03 de maio, em Rondonópolis, na Chácara da Amizade, que reuniu mais de 300 convidados de nove cidades de MT (Cuiabá, Tangará, Chapada, Várzea Grande, Sinop, Guiratinga, Nova Xavantina, Alto Garças e Pedra Preta) e cinco estados (Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso do Sul), sendo 20 pessoas só de Goiás, das cidades de Mineiros, Itaberaí e Goiânia.

Estreando no evento, neste ano, ocorreu o I Seminário Estadual de Direitos Humanos dos Povos Ciganos, em parceria com o Conselho Estadual de Direitos Humanos de Mato Grosso (CEDH/MT).

A realização do evento é da AEEC-MT, com patrocínio da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT), por meio do Edital Rede de Pontos de Cultura e do Ministério da Igualdade Racial / PNUD, por meio de aprovação no Processo Seletivo do Edital nº 01/2025, no âmbito Secretaria de Políticas Para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos BRA/24/009 – Apoio à implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola, e fortalecimento dos povos ciganos, de matriz africana e de terreiros.

Inscrições do Prêmio Puron Jandon e Purô Harano estão abertas até dia 12 de junho

Estão abertas as inscrições para o Prêmio Puron Jandon e Purô Harano.  O prêmio é uma iniciativa do Ministério da Igualdade Racial (MIR) em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (URFB), por meio do Projeto Encruza 2.

Interessados ciganos das três etnias, Calon, Rom e Sinti, têm até o próximo dia 12 de junho para fazer a inscrição, que é toda online, pelo site Prosas. A iniciativa busca reconhecer e premiar mestras e mestres ciganos que atuam na preservação das tradições em suas comunidades.

Para mais informações e fazer inscrições, basta acessar o site do Prosas, no seguinte link: https://prosas.com.br/editais/17678-premio-puron-jandon-e-puro-harano?subdominio=prosas  

Serão premiados 10 (dez) Mestras e Mestres ciganos, conforme critérios previstos neste edital e seus anexos, no valor de R$ 30.000,00 (Trinta Mil Reais) cada prêmio. A ação integra o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos.

Para os fins do Edital, serão reconhecidas como lideranças comunitárias as pessoas pertencentes a um dos três agrupamentos ciganos do país anteriormente indicados, sendo o pertencimento étnico um critério exclusivo para esse reconhecimento. 



Para participar e ser reconhecido no âmbito deste Edital, o candidato deverá:

I. Obter pontuação dentro dos Critérios de Avaliação (ainda será disponibilizada a Barema nos próximos dias), relacionado ao histórico de atuação da Mestre ou Mestra Cigana.

II. Avaliação a ser realizada pela Comissão de Seleção a partir do portfólio de no máximo 10 MB (relatório com material de comprovação das atividades) OU de vídeo de apresentação (máximo de 15 minutos de apresentação).

Obs1.: A inscrição por vídeo ou portfólio, poderá ser feita por terceiro, em favor do concorrente a premiação, caso haja dificuldade no manuseio das tecnologias.

Obs2.: No caso de inscrição feita com ajuda de terceiro, a inscrição realizada deverá ocorrer mediante autorização expressa do candidato, preferencialmente por meio de declaração simples ou instrumento equivalente, subscrita pelo próprio concorrente, de modo a resguardar a autenticidade da manifestação de vontade do participante e evitar questionamentos quanto à legitimidade da inscrição ou à veracidade das informações apresentadas.

III. Preenchimento da ficha eletrônica de inscrição (Anexo I) e demais conteúdos e documentos enviados pela pessoa física.

IV. Autodeclaração de pessoa pertencente aos povos ciganos do Brasil (seus grupos e subgrupos), assinada e firmada por 2 (duas) outras lideranças de povos ciganos do Brasil indicada pelo participante (Conforme anexo que será disponibilizado nos próximos dias).

Obs1.: Os nomes das 2 (duas) lideranças da etnia devem vir conjuntamente com número de telefone, informações referente a CPF (Cadastro de Pessoa Física) à título de confirmação das informações repassadas.

Obs2.: Entre essas 2 (duas) lideranças que irão firmar o documento, no mínimo 1 (uma) delas, necessitará constar fora da família do candidato.

Obs3.: Entende-se por liderança de pertencimento étnico cigano, pessoas já reconhecidas coletivamente pelas comunidades, de notório saber tradicional e trajetória no meio a que pertence. 

QUEM PODE PARTICIPAR DO EDITAL?

I. Mestras e Mestres ciganos representantes de povos ciganos acima de 40 (quarenta) anos, do Brasil (com seus grupos e subgrupos), com propostas que evidenciem suas contribuições coletivas e comunitárias, o estímulo à preservação da memória coletiva, demonstrando as práticas e conhecimentos transmitidos por essas lideranças, assim como de seu pertencimento étnico ancestral.

Para dúvidas relacionadas ao regulamento do Edital e conteúdo para preenchimento no formulário, deverá entrar em contato com o e-mail premiopuronjandonepuroharano@cahl.ufrb.edu.br 

Para se candidatar, o proponente ou quem vai inscrever o mestre no edital necessita fazer um cadastro na plataforma Prosas.

Disponível em: https://prosas.com.br/editais/17678-premio-puron-jandon-e-puro-harano?subdominio=prosas#!#tab_vermais_descricao 


Ancestralidade Viva: Leila Cabral Nunes - O Tempo que a gente É!

Leila Cabral Nunes, conhecida como Tia Leila, nasceu em 31 de agosto de 1961, em Alto Garças (MT), onde seu pai, José Alves Pereira, era fazendeiro. Filha de José e Isaura Cabral Pereira, passou os primeiros anos de vida acompanhando a família pelas mudanças.

Após a venda da fazenda em Alto Garças, a família mudou-se para Guiratinga, onde Leila foi criada até os quatro anos de idade. Mais tarde, seguiram para Rondonópolis, acompanhando o pai, que continuou trabalhando com fazendas na região. 

Foi nesse período, já na região de Juscimeira, que conheceu seu namorado, com quem mais tarde se casou. Dessa união nasceram seus dois filhos, Albericle e Dayane, que ela considera os presentes mais preciosos que Deus lhe deu.

Com o passar dos anos, a família cresceu com a chegada dos netos Adryan, Ryan, Myrian e Davi. Infelizmente, seu filho Albericle se foi cedo, faleceu aos 39 anos, vítima da COVID-19. Hoje está guardado com amor na memória de Leila e de seus familiares.

Leila vive em Rondonópolis há tantos anos que nem consegue calcular. Ao longo da vida trabalhou muito, construiu sua família e acompanhou a vida dos filhos, entre eles Dayane, que se tornou enfermeira. Hoje, é casada com um professor de Educação Física, onde vivem juntos na cidade.

Aos 64 anos, Tia Leila é feliz com a vida que leva: “Tô aqui, velhinha já, com a graça de Deus, vivendo minha vidinha de cigana. Adoro ser cigana! É minha vida ser cigana!". Uma mulher orgulhosa de suas origens e de tudo o que construiu.

TEXTO: LIVIA FREIRE

FOTOS: TAMI LAGE

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Projeto da Escola Maria Fragelli com povos ciganos é selecionado pela DRE de Rondonópolis

O projeto “Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos”, realizado pelo grêmio estudantil da Escola Estadual de Tempo Integral Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, de Guiratinga, para comemorar o mês comemorativo à História e Cultura dos Povos Ciganos, foi um dos três selecionados na etapa regional do processo lançado pela Diretoria Regional de Educação (DRE) de Rondonópolis e que visa a certificação do selo “Tereza de Benguela”. A DRE é um órgão da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC/MT).

O resultado foi anunciado nesta sexta-feira (30/05) pela DRE e, seguindo estritamente as diretrizes do documento Orientativo da instituição, o vídeo da Escola Maria Fragelli (e de outras duas escolas selecionadas: Escola Estadual Major Otávio Pitaluga e Escola Sagrado Coração de Jesus) foi publicado na página oficial da DRE e pode ser acessado no seguinte link: https://www.instagram.com/reels/DY7VENOx_IO/

De acordo com o comunicado da DRE, os avaliadores ficaram “profundamente impressionados com o engajamento, a criatividade e a sensibilidade demonstrada pelos nossos adolescentes/jovens na construção de cada material.  Parabenizamos cada estudante envolvido!”

O vídeo mostra como foi a programação da escola no último dia 19 de maio (terça-feira) em comemoração ao Dia Nacional dos Povos Ciganos (24 de Maio) e que contou com a parceria da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT).

Realizada pelo grêmio estudantil União Jovem, o projeto Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos, ocorreu no período da manhã e contou com a participação especial do grupo de Danças Tradição Cigana, de Rondonópolis. Integrando a rede estadual de ensino, o projeto foi coordenado pelos professores Joaquim Vilela Neto e Selma Ribeiro, esta última também cigana de etnia Calon e integrante da AEEC-MT.

A programação contou com apresentações de dança do Tradição Cigana e a presença do diretor da escola, das coordenadoras Clarice Terezinha Dallabrida e Neuracy trindade Santana, além do ator Ataíde Arcoverde, que é natural e morador de Guiratinga.

Além da participação do grupo de danças Tradição Cigana, o evento contou com um cine-debate que exibiu o filme “Caminhos Ciganos” e dois episódios da websérie “Diva e As Calins de Mato Grosso”: episódio 1 Mestra Diva e episódio água Terezinha Alves. Falando em nome da AEEC-MT, Nilva Rodrigues, que é coordenadora de mulheres da instituição reforçou algumas questões centrais acerca da cultura, das tradições, da identidade do tronco étnico Calon, bem como destacou o combate ao preconceito e ao racismo.

De acordo com Selma Ribeiro, o público do projeto são os alunos do ensino fundamental II e ensino médio. Segundo ela, o objetivo geral do projeto é proporcionar aos alunos o contato com a história, tradições e lutas dos povos ciganos, destacando sua presença em Mato Grosso.

Além disso, o projeto teve como objetivos compreender a trajetória nômade e a fixação das comunidades em MT; valorizar o papel da mulher cigana (Calin) na preservação da cultura e na conquista de espaços acadêmicos e políticosç; e estimular o pensamento crítico sobre os direitos das comunidades tradicionais.

“O Dia Nacional do Povo Cigano (24 de maio) é uma oportunidade para desconstruir estereótipos e combater o preconceito histórico contra as etnias ciganas. Ao focar em figuras locais, como Mestra Diva e Terezinha Alves, o projeto humaniza a história, conectando o conteúdo acadêmico à realidade do estado de Mato Grosso e promovendo a educação para a diversidade e igualdade racial”, explica Selma.

Ancestralidade Viva: Alaor e Hélia - O Tempo que a gente É!

Tio Rei e tia Hélia são casados há mais de 56 anos e vivem em Rondonópolis.

Alaor, carinhosamente conhecido como “Tio Rei”, e Hélia formam um dos casais mais antigos e queridos de Rondonópolis. Lideranças anciãs da comunidade cigana Calon e queridos por todos, tiveram a construção de uma vida inteira dedicada à família e ao trabalho. 

Nascido em 13 de janeiro de 1947, Alaor veio ao mundo em Patos de Minas, Minas Gerais. Filho de José Alves Pereira e Isaura Cabral, cresceu entre as mudanças da família até chegar em Mato Grosso ainda pequeno. Seu pai trabalhava em empreitas e fazia todo tipo de serviço para sustentar a família, carregando consigo a força do trabalho que também marcou a vida de Alaor.

A família passou por Alto Garças e Guiratinga, até se estabelecer em Rondonópolis, cidade onde grande parte dos parentes ciganos vindos de Minas Gerais também construíram suas vidas. 

Foi em Guiratinga que Alaor conheceu Hélia Marcel Pereira, nascida em 28 de março de 1948, em Minas Gerais, na região de Dianópolis. Os dois são primos, se casaram ainda jovens e seguem juntos há 56 anos, construindo uma história de muita parceria.

Depois do casamento, vieram para Rondonópolis, onde vivem há décadas. Somente na casa onde residem atualmente já são 28 anos de memórias construídas. Juntos, tiveram dois filhos, Fábio e Neide, e também os netos Joyce e Gean.

Ao lembrar da própria história, Alaor resume com orgulho aquilo que é característica marcante do casal: “Somos ciganos, somos trabalhador e lutador”. Alaor e Hélia seguem sendo símbolos da memória, da resistência e da presença da cultura cigana Calon em Mato Grosso. Viva Alaor e Hélia!

#MaioCigano #AncestralidadeViva

TEXTO: LÍVIA FREIRE

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Ancestralidade Viva: Nerana Cunha Pereira - O Tempo que a Gente É!

Nerana Cunha Pereira é a segunda homenageada do Ancestralidade Viva #MaioCigano. Nasceu em 2 de novembro de 1952, em Patos de Minas-MG. Apesar de ter vindo embora ainda muito pequena, nos braços da mãe, carrega consigo o orgulho de suas origens ciganas e a memória afetiva da família.

Casada com Euripes Alves Pereira, construiu sua vida entre Cuiabá e Tangará da Serra. Diferente de muitas narrativas associadas ao povo cigano, conta que viajou pouco. Seu pai possuía terras e, depois do casamento, ela e o marido passaram a viver próximos da família, criando raízes sem abandonar a identidade Calon.

Ao longo da vida, trabalhou como vendedora, comercializando enxovais e outros produtos. Sempre reforça, porém, que acima de qualquer ocupação, o que nunca abandonou foi o orgulho de ser cigana. “Nunca neguei”, afirma, dizendo que gosta de sua origem. 

A família aparece como o maior valor em sua vida. Nerana teve três filhos, já falecidos, e fala deles com amor. Hoje, encontra continuidade nos cinco netos e nos dois bisnetos, Laura e Benjamin. 

Nerana é também uma guardiã da língua chibe. Ela conta que ensinou os filhos a falarem e que continua ensinando os netos e bisnetos, porque acredita que a tradição não pode desaparecer. Para ela, preservar a língua chibe é também preservar a identidade cigana.

Sua história é marcada pela saudade das pessoas queridas que perdeu ao longo da vida, mas também pela firmeza com que sustenta sua memória e pertencimento. Ao falar de si, Nerana ressalta: é cigana, sente orgulho disso e deseja que as próximas gerações continuem carregando essa herança.

TEXTO: LIVIA FREIRE
FOTOS: MARIA CLARA AQUINO E KAREN FERREIRA



terça-feira, 26 de maio de 2026

UFMT recebe Mostra Calon Lachon e VI Encontro de Cultura Cigana de MT nesta quarta

Cena do Episódio 1 - Jalemos Situque - comunidade de Tangará da Serra. 

O Festival Maio Cigano – VI Encontro de Cultura Cigana de Mato Grosso, chega nesta quarta-feira (27/05) à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

No período entre 14h e 17h ocorrerá no Instituto de Educação (IE), sala 123, programação da Mostra Calon Lachon de Audiovisual, com o pré-lançamento da série em três episódios, Calon Lachon, que tem o mesmo nome da mostra.

A ída da Mostra Calon Lachon para a UFMT ocorreu por meio de parceria entre a AEEC-MT e o Coletivo Kilombo Cassangue, do curso de Psicologia da UFMT.

Portugal, Brasil e França estão na série. Fotos: Karen Ferreira.

A série Calon Lachon é dirigida por Aluízio de Azevedo, com com co-direção de Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira.

Aluízio e Zaiden estarão presentes no evento, que contará com debate após a exibição dos três episódios.

São três episódios: Jalemos Situque (vamos embora), Chiba Calin (Fala Cigana) e Fé em Duvele (Deus).

Peregrinação de Santa Sara Kali, em França. Frame do Episódio 3.

Jalemos Situque mostra a conexão audiovisual entre dois grupos ciganos de etnia Calon, a comunidade de Tangará da Serra (MT) e a comunidade Nova Canaã (Brasília – DF).

Chiba Calin foca nos registros audiovisuais de ciganos portugueses de cidades como Beja, Lisboa, Águeda e Porto.



Fé em Duvele traz a fé e a espiritualidade cigana, começando pela festa de Santa Sara Kali, que ocorre todo ano em Saintes-Maries-De-La-Mer, França, passando pela larga influência da Igrela Filaldéfia em Portugal e o movimento pentecostal da Assembleia de Deus em Brasil.

A serie Calon Lachon é patrocinada por meio do edital Cine Motion – Desenvolvimento de Roteiro da Secel/MT.  Já a Mostra Calon Lachon e o VI Encontro de Cultura Cigana de MT, além do patrocínio da Secel/MT, também tem o patrocínio do Ministério da Igualdade Racial (MIR) / PNUD.

#povosciganos #calonlachon #ufmt #cuiaba #psicologia

Frame Episódio 1, Nova Canaã - Brasília (DF).

sábado, 23 de maio de 2026

Tradição Cigana participa de comemoração do dia nacional dos ciganos em escola de Guiratinga

Programação em comemoração ao dia nacional dos povos ciganos contou ainda com cine debate 

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) participou, no último dia 19 de maio (terça-feira) de programação em comemoração ao Dia Nacional dos Povos Ciganos (24 de Maio) da Escola em Tempo Integral Dona Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, no município de Guiratinga.

Realizada pelo grêmio estudantil União Jovem, o projeto Caminhos e Vozes dos Povos Ciganos, ocorreu no período da manhã e contou com a participação especial do grupo de Danças Tradição Cigana, de Rondonópolis. Integrando a rede estadual de ensino, o projeto foi coordenado pelos professores Joaquim Vilela Neto e Selma Ribeiro, esta última também cigana de etnia Calon e integrante da AEEC-MT.

A programação contou com apresentações de dança do Tradição Cigana e a presença do diretor da escola, das coordenadoras Clarice Terezinha Dallabrida e Neuracy trindade Santana, além do ator Ataíde Arcoverde, que é natural e morador de Guiratinga.

Assista ao vídeo da participação do grupo de Danças Tradição cigana na Escola Maria Fragelli:


Além da participação do grupo de danças Tradição Cigana, o evento contou com um cine-debate que exibiu o filme “Caminhos Ciganos” e dois episódios da websérie “Diva e As Calins de Mato Grosso”: episódio 1 Mestra Diva e episódio água Terezinha Alves.

Falando em nome da AEEC-MT, Nilva Rodrigues, que é coordenadora de mulheres da instituição reforçou algumas questões centrais acerca da cultura, das tradições, da identidade do tronco étnico Calon, bem como destacou o combate ao preconceito e ao racismo.

"Eu estou muito feliz com a escola que promove esse projeto, inspirado pela minha prima Selma. Parabéns para todos os alunos e alunas que estão aqui aprendendo mais sobre respeito, cidadania e uma cultura tradicional. Graças a Deus, nós ciganos, em Mato Grosso, deixamos de ser nômades e na segunda geração temos professores, jornalista, advogados, enfermeiros e muitas pessoas ciganas formadas, que alcançaram a educação superior".

Veja no vídeo o discurso de Nilva na íntegra:

 

De acordo com Selma Ribeiro, o público do projeto são os alunos do ensino fundamental II e ensino médio. Segundo ela, o objetivo geral do projeto é proporcionar aos alunos o contato com a história, tradições e lutas dos povos ciganos, destacando sua presença em Mato Grosso.

Além disso, o projeto teve como objetivos compreender a trajetória nômade e a fixação das comunidades em MT; valorizar o papel da mulher cigana (Calin) na preservação da cultura e na conquista de espaços acadêmicos e políticosç; e estimular o pensamento crítico sobre os direitos das comunidades tradicionais.

“O Dia Nacional do Povo Cigano (24 de maio) é uma oportunidade para desconstruir estereótipos e combater o preconceito histórico contra as etnias ciganas. Ao focar em figuras locais, como Mestra Diva e Terezinha Alves, o projeto humaniza a história, conectando o conteúdo acadêmico à realidade do estado de Mato Grosso e promovendo a educação para a diversidade e igualdade racial”, explica Selma, ao acrescentar que:

“Em Guiratinga, não poderia ser diferente, poderemos contar com a participação e mostrar da diversidade cultural destes povos através do grupo Tradição Cigana de Rondonópolis com danças típicas, o dialeto, as vestimentas, na etnobotânica, nos fitoterápicos, na transformação de metais como tachos de cobre, contribuição essencial ao comercio entre tantas outras contribuições”, finaliza Selma.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Câmara dos Deputados debate criação do Estatuto dos Povos Ciganos no próximo dia 26 de maio

Audiência será interativa; envie suas perguntas. Elza Fiúza / Agência Brasil

Fonte: Agência Câmara de Notícias

A Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados promove na terça-feira (26) audiência pública para discutir o Projeto de Lei 1387/22, do Senado, que cria o Estatuto dos Povos Ciganos.

A reunião será realizada às 17 horas, em plenário a ser definido.

O debate atende a pedido do deputado Luiz Couto (PT-PB). Segundo ele, o projeto reconhece, valoriza e protege direitos dos povos ciganos no Brasil.

"Apesar da presença histórica no país, essa população ainda enfrenta invisibilidade institucional, discriminação, preconceito e dificuldade de acesso a direitos fundamentais, como educação, saúde, moradia, trabalho e participação em políticas públicas", afirma.

O parlamentar acrescenta que a criação do Estatuto dos Povos Ciganos é uma medida necessária para enfrentar desigualdades históricas e fortalecer a proteção legal dessas comunidades, respeitando suas especificidades culturais e modos de vida.

Da Redação – MO

Fonte: Agência Câmara de Notícias

Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1274966-comissao-debate-criacao-do-estatuto-dos-povos-ciganos-participe/

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Projeto desenvolve Roteiro de montagem e primeiros cortes de série com ciganos de Brasil e Portugal

Financiado pela Secel-MT, roteiro conta com três episódios inéditos, incluindo participantes de comunidades de Mato Grosso como Tangará da Serra e Cuiabá

Ocorre nesta sexta-feira (22/05), em Cuiabá, às 19h30, no Ateliê Kaiardon, mais uma exibição do pré-lançamento do projeto Calon Lachon – roteiro de série documental. Realizado pelo multi-artista de etnia Calon, Aluízio de Azevedo, o projeto constitui-se em um roteiro de montagem de uma série documental em três episódios com a temática dos povos ciganos de Brasil e de Portugal, especialmente, do tronco Calon, maioria das comunidades ciganas nos dois países.

A exibição e o pré-lançamento do roteiro de montagem da série, que tem como título “Calon Lachon” na língua Chibe significa “Bom Cigano” ou “Cigano Bom”, ocorrerá por meio de parceria com a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), em comemoração ao Dia Nacional dos Ciganos (24 de maio). Na última sexta (15/05), os episódios também foram exibidos no mesmo local.

Patrocinado por meio de seleção no Edital de seleção pública 04/2023/Secel/MT – Cinemotion Edital de Desenvolvimento de Roteiro – Edição Lei Paulo Gustavo da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT), a serie Calon Lachon já está em adiantado processo de pós-produção e agora procura novos recursos para ser finalizada e comercializada no circuito de exibição.

Diretor e roteirista da série, Aluízio de Azevedo. Foto: Karen Ferreira

“Diferente de outros projetos de roteiros que ainda vão ser produzidos, o projeto se destaca por ser um roteiro de montagem, executado a partir de materiais que já foram captados, durante os mais de 10 anos de pesquisa que venho desenvolvendo com os povos ciganos”, explica Aluízio, reforçando que boa parte desse material, que soma mais de uma centena de horas de gravação e inclui 40 entrevistas com pessoas ciganas de Brasil e de Portugal, foi gravado em 2017, ano em que imergiu em comunidades brasileiras e portuguesas para o seu trabalho de campo de doutorado e cuja metodologia fílmica orientou todo o processo de produção e captação fílmica.

Esse material ficou guardado durante esse período e, quando em 2023, surgiu o edital para desenvolvimento de roteiro para produção de uma série audiovisual, Aluízio de Azevedo, aproveitou a oportunidade e propôs o desenvolvimento de roteiro de montagem de uma série. Assim, ao invés de apenas um roteiro de produção, o roteiro de montagem escrito a partirdo projeto e com a consultoria dos quatro consultores de roteiro, vem acompanhado com um primeiro corte de montagem dos três episódios da série. 

O projeto para desenvolvimento do roteiro de montagem da Calon Lachon ocorreu durante todo o ano de 2025 e contou com a participação de quatro consultores: Rodrigo Zaiden, Karen Ferreira, Diego Baraldi e Irandi Rodrigues Silva. Esta última, consultora de cultura cigana da comunidade Calon de Tangará da Serra e uma das personagens centrais da série. Já Zaiden e Karen também estiveram presentes no processo de captação fílmica do material captado em 2017 e são codiretores da série.

O tema principal da série é o universo cigano, narrado e autorrepresentado pelas próprias pessoas ciganas. Por meio de uma escuta aprofundada, a obra revela transformações culturais, identidades múltiplas e distintas formas de integração/exclusão, mostrando suas relações, contradições e resistências. A serie aborda esse universo a partir de uma perspectiva dinâmica e intimista, cuja linha condutora são as viagens e vozes das pessoas encontradas pelo caminho, que apresentam seus mundos de dentro para fora. 

Segundo Rodrigo Zaiden, o que está em foco são os encontros e a conexão das pessoas ciganas, que apesar dos séculos e os milhares de quilômetros que as separam, se reconhecem enquanto pertencentes ao tronco Calon, que mantém tradições, “r-existindo” à modernidade/colonialidade, sem perder o time da atualidade.

Abordamos o tema de forma inédita, revelando nuances, manifestações culturais, memórias e identidades culturais de maneira única e dentro de uma perspectiva própria que rompe com imaginários estereotipados e visões racistas históricas que insistem em permanecer contra os povos ciganos”, pondera o codiretor e consultor de roteiro de montagem.

SERVIÇO:

O que: lançamento do roteiro de montagem da série Calon Lachon

Quando: 15 de maio e 22 de maio (sexta-feira)

Onde: Ateliê Kaiardon, Rua Eng. Ricardo Franco, 427, Centro de Cuiabá

Horário: 19h30

Sinopses dos Episódios

Episódio 1 - Jalemos Situque

"Jalemos Situque" (Vamos embora) estabelece o território brasileiro como ponto de partida. Através de um intercâmbio audiovisual entre comunidades de Mato Grosso e o acampamento Nova Canaã, o episódio desvela os marcadores culturais específicos do Calon no Brasil. A música de raiz e a cultura das “gambiras” (negociações) surgem como elementos de resiliência, enquanto a narrativa aborda a transição do nomadismo secular para a fixação territorial e os impactos ambientais no Cerrado. O episódio destaca a memória dos antepassados, a preservação da tradição oral e a importância da união política para a conquista de direitos públicos específicos.

Episódio 2 – “Chiba Calin”

Em "Chiba Calin" (Fala Cigana) a lente expande-se para as comunidades ciganas portuguesas. O episódio cria um espaço de "recados" e olhares recíprocos, unindo líderes brasileiros, com Wanderley da Rocha, em Nova Canaã, a figuras como Adérito Montes, em Lisboa. Passando por cenários que vão das margens do Tejo ao Bairro das Pedreiras, em Beja, documentamos um contraste gritante: a preservação orgulhosa da língua e das tradições familiares em face de uma exclusão extrema. O cotidiano de crianças que brincam entre trailers e a denúncia da falta de água encanada e habitação digna revelam que os desafios do racismo atravessam fronteiras nacionais, exigindo uma luta coletiva que conecte a Europa ao Brasil.

Episódio 3 – “Fé em Duvele”

O episódio final, "Fé em Duvele" (Deus), tece a tapeçaria espiritual desses povos que, embora muitas vezes forçados, estão em constante movimento. A peregrinação a Saintes-Maries-de-la-Mer em honra a Santa Sara Kali fornece a espinha dorsal rítmica e visual, simbolizando uma reunião da diáspora cigana. Esta devoção tradicional é colocada em tensão dialética com a crescente influência evangélica entre os Calon, manifestada em cultos domésticos em Cuiabá e celebrações rítmicas na Igreja Filadélfia, em Portugal. A obra investiga como o sagrado se molda a novos ritos, desde a rumba gospel até as pregações das Testemunhas de Jeová no Distrito Federal, mas sem deixar de manter alguns de seus fundamentos centrais, como a liberdade interior e a paz de espírito.

FICHA TÉCNICA

- Realização: Edital de seleção pública 04/2023/Secel/MT – Cinemotion Edital de Desenvolvimento de Roteiro – Edição Lei Paulo Gustavo da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT)

- Proponente: Aluízio de Azevedo Silva Júnior

- Codireção: Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira

- Pesquisa, Roteiro e Direção: Aluízio de Azevedo Silva Júnior

- Consultoria de Roteiro de Cultura Cigana: Irandi Rodrigues Silva

- Consultoria de Roteiro: Rodrigo Zaiden, Karen Ferreira e Diego Baraldi

- Direção de Produção: Rodrigo Zaiden

- Direção de Fotografia: Karen Ferreira

- Imagens complementares: Aluízio de Azevedo e Rodrigo Zaiden

- Montagem e edição dos primeiros cortes dos episódios: Aluízio de Azevedo

- Produção Local Mato Grosso: Fernanda Caiado

- Produção Local Portugal: Pimènio Ferreira

- Designer Gráfico e Direção de Arte: Rodrigo Zaiden

- Assessoria de Comunicação e Imprensa: Aluízio de Azevedo