quinta-feira, 18 de março de 2021

Segundo encontro da Agenda 2021 da ONU para a proteção dos Ciganos nas Américas

Oficial de Direitos Humanos do Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Belen Rodriguez de Alba, conduziu o webinar

Evento ocorreu nesta quinta-feira (18/03) e reuniu ativistas de vários países latino-americanos, como Brasil, Argentina e Colômbia

Ocorreu nesta quinta-feira (18/03) mais um webinar do “ciclo da Agenda 2021 para a proteção dos Romani/Ciganos em Américas”, evento realizado pela Seção de Povos Indígenas e Minorias do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU).

O evento, que ocorreu entre 08 e 09h30 (horário de Mato Grosso), contou com a participação de representantes de organizações da sociedade civil de países como Brasil, Argentina, Chile e Colômbia, entre elas a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), representada pelo Assessor para Ciência e Comunicação, Aluízio de Azevedo.

A integrante do Coletivo Internacional #OrgulhoRomani e membro da ZOR – Asociación por los Derechos del Pueblo Giano/Romani” de Argentina, Aline Miklos, também participou do encontro, que contou com três mesas principais. A primeira delas, “diálogo sobre o trabalho do perito da ONU em violência contra as mulheres”, foi realizado pela Oficial do Escritório de direitos humanos da ONU para as mulheres, Renata Pretulan.

A segunda mesa foi apresentada pela Oficial de Direitos Humanos do Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Belen Rodriguez de Alba, e tratou sobre a forma de “apresentar uma queixa ao Relator da ONU sobre minorias ou outros relatores (racismo, pobreza)”.

Por fim, ocorreu a mesa de Estratégia de Advocacia, com dois focos: a possibilidade de enviar informações ao Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais após o relatório do Estado do Brasil; e a possibilidade de enviar informações de ONG para o processo de UPR na Argentina previsto para Novembro de 2022.

Este é o segundo webinar produzido pela Seção de Direitos Humanos da ONU com o intuito de formar os ativistas ciganos sobre os mecanismos de direitos humanos internacionais e da instituição, que dispõe de várias estratégias para cobrar a inclusão social e o respeito aos direitos das populações em situação de vulnerabilidade social, causada pelo racismo, machismo ou exclusão e desigualdade de qualquer natureza.

O primeiro ocorreu no dia 11 de fevereiro e finalizando o ciclo do primeiro semestre, em abril a organização realizará um terceiro webinar, que contará com também duas sessões, uma de formação e outra de “advocacy, ambas tratando acerca das questões de gênero e interseccionalidade.

Outras informações sobre a Seção de Direitos Humanos da ONU es suas páginas virtuais, como o site institucional, www.ohchr.org, conta no Twitter @UNHumanRights ou Facebook @unitednationshumanrights.

Assessoria de Comunicação AEEC-MT

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

RECONHECIMENTO: Calin Maria Divina Cabral recebe prêmio de mestra da cultura mato-grossense

Presidente da AEEC-MT, Fernanda Alves Caiado, entregou o prêmio à benzedeira e raizeira cigana

Por sua contribuição à manutenção da cultura cigana e ao enriquecimento da diversidade cultural de Mato Grosso; a mestra da medicina tradicional da etnia Calon, Maria Divina Cabral, 66 anos, recebeu, nesta sexta-feira (12.02), o prêmio de “Mestra da Cultura Mato-grossense”.

Diva, como é mais conhecida, é a figura central do projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã”, aprovado no Edital Conexão Mestres da Cultura da Lei Aldir Blanc; uma iniciativa da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de MT (SECEL-MT), em parceira com o Governo Federal.

“Essa homenagem evidencia o reconhecimento da pluralidade cultural mato-grossense. Mais do que gratidão pela atuação da cigana Diva, os produtos dessa homenagem ficarão registrados na história, serão uma referência que mostram o quanto nosso estado é grandioso em todos os aspectos”, expressa o titular da Secel, Alberto Machado.

O cheque do prêmio no valor de R$ 20.000,00 foi entregue pela presidente da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Fernanda Alves Caiado, na residência de Diva, em Rondonópolis. O encontro contou com a participação de sua mãe Lourdes, a anciã mais antiga da comunidade no município e de quem aprendeu a arte da medicina cigana, além de seu marido, Jair, filhas, netas e bisnetas.

“Procuro benzer a todos que aparecem. Fiz garrafadas para quatro mulheres nessa semana. Benzi um menino de verme e de quebranto no mês passado, que ele estava magro e agora já está muito forte e melhorou. Teve também minha neta que eu dei banho de mal de malssimioto, que é o verme na carne. Semana passada uma vizinha pediu para benzer um cachorro dela que tava doente e eu benzi, com minha fé em Deus, o cachorro curou”, conta Diva, ao revelar que suas rezas são sempre acompanhadas de medicamentos naturais extraídos de plantas do cerrado e da mata.

Presidente da AEEC-MT, Diva e o marido Jair

De acordo com a presidente da AEEC-MT, o projeto “Diva e as Calins de MT: Ontem, Hoje e Amanhã” tem como objetivo fortalecer as tradições e saberes ciganos, especialmente, aqueles mantidos pelas mulheres, partindo do reconhecimento de Diva como mestra da cultura mato-grossense e suas parentas, como tias, filhas, netas, sobrinhas, primas, etc.

“Hoje para nós enquanto associação e para a Diva foi um orgulho poder entregar esse prêmio, porque ela realmente representa a mulher cigana, não apenas na questão de fazer algo na representação cultural, que no caso são os produtos de medicina tradicional  e natural que ela produz; mas também pela mulher que ela é”, emociona-se Fernanda Caiado e complementa:

“Nós temos o exemplo dela que é uma guerreira, que mantém a casa, cuida da família através de um conhecimento que ela adquiriu pela nossa cultura e isso para gente é um orgulho e nós estamos muito felizes mesmo por poder participar desta parte da história da Diva”, conclui.

Texto: Aluízio de Azevedo, Assessor para Ciência e Comunicação

Fotos: Karen Ferreira

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

AEEC-MT participa da agenda 2021 da ONU para proteção dos direitos dos Povos Ciganos nas Américas

Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo, representará a instituição na série de encontros virtuais que começa nesta quinta-feira (11.02)

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) foi convidada pela Seção de Povos Indígenas e Minorias do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos para integrar o “ciclo da Agenda 2021 para a proteção dos Direitos dos Romani/Ciganos em Américas”.

Belen Rodriguez de Alba
De acordo com a Oficial de Direitos Humanos do Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Belen Rodriguez de Alba, a Agenda 2021 da ONU para os povos ciganos das Américas propõe um roteiro que tem dois eixos principias: “(1) uma série de capacitações que terão como objetivo entender e aprofundar os mecanismos de direitos humanos existentes em nível internacional (2) e uma agenda de “advocacy” (defesa de direitos).

Essas atividades ocorrerão nos meses de fevereiro, março e abril para 23 ativistas de comunidades ciganas de países como Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Estados Unidos e Canadá. O convite Seção de Povos Indígenas e Minorias da ONU foi direcionado ao Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo, que em 2020 já havia participado de outro seminário organizado pela Seção.

A integrante do Coletivo Internacional #OrgulhoRomani e membro da ZOR – Asociación por los Derechos del Pueblo Giano/Romani” de Argentina, Aline Miklos, também participará do ciclo. O Coletivo e a ZOR são importantes parceiras da AEEC-MT em nível internacional. Também está prevista a participação da reconhecida feminista cigana norte-americana, Ethel Brooks.

Programação - O primeiro “Webinario para pessoas e representantes pertencentes a populações Romani/Ciganas nas Américas”, ocorrerá no dia 11 de fevereiro de 21, entre 8h e 10h30 (horário de Cuiabá). O encontro contará com uma sessão de formação, ministrada por três moderadores: Belen Rodriguez de Alba, abrirá a sessão com o tema “Introdução ao sistema de proteção internacional de direitos humanos e perspectiva histórica da proteção das minorias em âmbito da ONU.

Na sequência, será debatido o tema “Trabalho do Relator da ONU para Minorias”, ministrado pela Oficial do Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Marina Narvaez. Encerrando a sessão, a também Oficial do Escritório de Direitos Humanos da instituição, Renata Pretulan, que abordará o tema “Trabalho da especialista da ONU sobre violência contra a mulher.

Este webinário contará ainda com uma sessão de estratégias de “Advocacy”, um termo que em português pode ser traduzido como “defesa de direitos”. Esta atividade debaterá “Direitos Humanos e Políticas Públicas para Povos Romani nos Países da América Latina”. A sessão estratégica sobre "Advocacy" será moderada pelo ativista cigano Rafael Saavedra, membro da Fundacion Secretariado Gitano, de Espanha. Como estratégia de trabalho, serão criados grupos de trabalhos por países, para debater o tema e um moderador assumirá a organização desta parte do webinário.

A Agenda de jornadas de formação da ONU para representantes e integrantes de comunidades romani nas Américas terá continuidade em 11 de março, com outras duas atividades: a sessão de formação “Proteção internacional dos direitos das minorias: quem constitui uma minoria, marco legal e instrumentos de proteção”; e a sessão de “advocacy”, quando os grupos de trabalhos por países reportarão as discussões iniciais de cada país.

Finalizando o ciclo do primeiro semestre, em abril a organização realizará um terceiro webinário, que contará com também duas sessões, uma de formação e outra de “advocacy, ambas tratando acerca das questões de gênero e interseccionalidade.

Assessoria de Comunicação AEEC-MT

 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

REPRESENTATIVIDADE: AEEC-MT passará a compor o Comitê Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais

Um dos representantes será o vice-presidente da AEEC-MT, Uanderson Pereira dos Santos, que nesta foto está ao lado da sua esposa Audelena Dias Cabral

Órgão tem como objetivo a formulação de políticas públicas específicas para estas populações, também consideradas minorias étnicas, culturais ou sociais

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) passará a compor, em 2021, o Comitê Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais (CEPCT-MT), indicando os representantes das comunidades ciganas.

Vinculado à Secretaria de Estado de Trabalho, Ação Social e Cidadania (SETASC-MT); além dos Romani, o órgão congrega representantes de comunidades quilombolas, índigenas, morroquinas, retireiros, pantaneiros, pescadoras e ribeirinhas, de terreiro, entre outras, sempre vinculadas a alguma organização social sem fins lucrativos.

O objetivo do CEPCT-MT é levantar as demandas das comunidades tradicionais, suas necessidades, dialogar com elas, bem como propor, em conjunto com esses povos, políticas públicas específicas e apropriadas às suas diversidades culturais, territoriais e modos de vida.

Os dois indicados da AEEC-MT representarão as comunidades ciganas mato-grossenses de todas as etnias (Rom, Sinti e Calon) no Comitê. São eles, a diretora de mobilização da AEEC-MT, Terezinha Alves, da comunidade cigana de Cuiabá como titular; e o vice-presidente da associação, Uanderson Pereira dos Santos, da comunidade romani de Rondonópolis (a 220 km de Cuiabá), como suplente.

A assistente Social Terezinha Alves

Terezinha Alves, 59 anos, natural de Guiratinga (MT), é assistente social formada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e tem uma história de vida inspiradora: ela é a primeira cigana dos filiados na AEEC-MT a concluir uma graduação, nos anos de 1994. Tem larga experiência com projetos sociais e na militância social em prol das comunidades periféricas, especialmente, as ciganas.

Uanderson Pereira dos Santos, 34 anos, natural de Rondonópolis (MT), é agrônomo e sua esposa Audelena Dias Cabral, são dois dos principias líderes da comunidade no município de Rondonópolis e no Estado. Eles coordenam o Grupo de Danças Tradição Cigana, uma das principais atividades da associação no município.

Terezinha e Uanderson também são os representantes da AEEC-MT no grupo de trabalho que reúne lideranças ciganas nacionais, criado pelo Senado Federal em parceria com a Sexta Câmara do Ministério Público Federal (MPF), para debater a proposta de projeto de Lei que cria o Estatuto dos Povos Ciganos, em tramitação no Congresso Nacional.

Texto: Assessoria de Comunicação AEEC-MT

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Feminismo cigano: Existimos e resistimos! – Entrevista a Maria Gil

Cigana, atriz e portuguesa Maria Gil, ativista do movimento "Mulheres e Ciganas Existem e Resistem!"

Por HELENACARLAG

Combinei encontrar-me com a Maria Gil nos jardins do Palácio de Cristal. Um dos locais mais bonitos do Porto, Portugal. Amplo e verde, permite-nos usufruir de todos os raios de sol a que nós, mulheres, temos direito! Afinal, estamos no Verão! E, vamos falar de feminismos, mais propriamente de feminismo cigano. A Maria Gil é mulher e cigana. “Não é mulher vírgula cigana”, explica, “é mulher e cigana, o e é muito importante porque acrescenta algo. Ao facto de eu ser mulher, acrescento o cigana, é uma soma e o resultado desta soma é o que eu sou e me orgulho muito de ser”. Para além disto, também é feminista desde os dez anos de idade e sente na pele a intersecção destas três fortes camadas: mulher e cigana e feminista. 

Helena Ferreira (HF) – Diz-me como te tornaste mulher e resistente no seio de uma comunidade que, por um lado, é vítima de violência constante ao longo dos séculos por parte do patriarcado “branco” heteronormativo e por outro, é vítima do seu próprio patriarcado dentro da sua comunidade.

Maria Gil (MG) – A minha primeira resistência começou aos dez anos de idade, quando comecei a questionar porque me tratavam de forma diferente em relação aos rapazes e em relação às meninas da comunidade dita “branca”. Por exemplo, nunca percebi porque é que não podia estudar até porque o meu pai que era cigano sempre me disse que eu teria que estudar mas, entretanto este quadro alterou-se com a sua morte. De repente, fico sem pai, com uma mãe extremamente fragilizada e conservadora, que uniu a sua dor à necessidade de defender a sua versão da tradição e que aos sete anos me veste de negro e me tira da escola. Aí tomei a consciência da gravidade da situação, porque estava a ser alvo de uma superprotecção mal direccionada. Quando regresso à escola, com oito anos, volto uma menina vestida de negro e sou alvo de bullying por parte das outras crianças. Perdi o direito à cor e perdi o chão. Estou a falar nisto porque é muito importante que todas as mães e pais percebam que tirar as crianças da escola, principalmente as meninas, é uma violência e que só as estão a encaminhar para situações de fragilidade social e a dependências de terceiros.

"O patriarcado cigano, como todas as comunidades ciganas de uma forma geral, encontra-se entrecruzado pelas conjunturas de marginalidade, subalternidade e exclusão social"

HF – Existe a ideia pré-concebida de que a comunidade cigana é extremamente machista… Mais que a nossa, a dos ditos “brancos”?

MG – Não. O patriarcado cigano, como todas as comunidades ciganas de uma forma geral, encontra-se entrecruzado pelas conjunturas de marginalidade, subalternidade e exclusão social. Neste sentido, reivindicar a masculinidade e responder às normas que lhes são impostas é de vital importância para a afirmação da própria identidade, estigmatizada e desconsiderada pela sociedade dos payos (pessoas que não são ciganas). Por isso, não os posso considerar mais machistas, mas sim homens que se movem pelas circunstâncias que o meio social lhes proporciona que, por vezes, são extremamente violentas. Transgredir as leis e as normas na nossa comunidade ganha uma visibilidade absoluta. Há sempre a tendência para apresentar a nossa população como um grupo homogéneo, como se o sexismo e a opressão patriarcal fossem prerrogativas de culturas exoticizadas como a nossa. Por exemplo, se ocorrer uma violação dentro da comunidade cigana, os ciganos passam a ser todos violadores e é uma notícia que tem grande impacto na comunicação social.

HF – Sim, dá a sensação que assistimos ao aumento da violência contra a população cigana na Europa, o que se comprova com as declarações racistas que temos presenciado nos últimos dias no nosso pequeno país. Como sentes isto?

MG – Acho que toda esta violência social geral que se tem vindo a desenvolver, tem como ponto de partida o patriarcado. Não se chegava a este ponto de violência racial se as sociedades não colocassem na sua organização as relações de alteridade, de superioridade de uns seres humanos sobre os outros. E todos estes acontecimentos tornam urgente a necessidade de um activismo sempre presente e de um feminismo cigano em estado de alerta. Por exemplo, devíamos estar já nesta fase, na primeira década do século XXI, a discutir a partilha de responsabilidades e a afirmação nos processos de integração e de negociação com a sociedade dita maioritária, isto é, termos voz de igual para igual e isso não acontece. Os payos, e as payas também, ainda pretendem falar por nós, dizer-nos o que está certo e o que está errado. A cultura dominante impõe-nos uma identidade e insere-nos numa gaveta e a questão é como constróis e desconstróis a tua própria identidade e resistes a ser colocada nessa gaveta. Por outro lado, e em simultâneo, tens as lutas dentro da tua própria comunidade, pela visibilidade das mulheres e igualdade de género, o que não é fácil porque o machismo é tão perverso que gera nas mulheres um sentimento de protecção e elas sentem-se umas patetas alegres (vítimas felizes), porque o homem toma conta delas. São estas patetas alegres que defendem a divisão entre as mulheres sérias e as outras. As sérias são as firmes, as castradoras, as grandes defensoras do patriarcado contra aquelas que assumem as suas identidades, que ousam e que são verdadeiras consigo mesmas e com a dupla sociedade que enfrentam(a dos payos e a cigana) e que fazem as suas opções. Tenho a certeza que se as patetas alegres tivessem noção que são oprimidas, mais mulheres ciganas seriam feministas e livres.

HF – Existem vários estereótipos instaurados no nosso imaginário social: todas as mulheres ciganas são feirantes (vendedoras ambulantes), não estudam, casam cedo e com ciganos, e são mães de famílias numerosas.

MG – Isso é tão ridículo como eu dizer que as mulheres payas portuguesas têm todas bigode e vestem todas de preto. Sempre existiram mulheres ciganas resistentes, embora não tenham sido apelidadas de feministas. A verdade é que não têm que ser apelidadas de feministas ou considerarem-se assim. Existem mulheres ciganas em todas as profissões e que estudam. Já existem muitas mulheres ciganas licenciadas e doutoradas e que não casam nem têm filhos. Ou seja, que fazem as suas escolhas e lutam por elas. Tenho, no entanto, que referir que o grande desafio é criticar as estruturas patriarcais internas e, ao mesmo tempo, tentar evitar reforçar os estereótipos negativos sobre a nossa comunidade, por exemplo, porque defendo que todas as meninas devem estudar, não posso permitir que isso seja visto pelos payos logo como: “Pois, eles não deixam as meninas estudar porque as casam muito cedo”, ou seja, evitar que as reivindicações de género se tornem um instrumento de alterização e de estigmatização de um grupo subalterno e racializado. Tenho ainda que falar aqui da interseccionalidade que mostra o cruzamento de diferentes opressões: de género, classe, “raça” e sexualidade, sofridas pelas mulheres ciganas. As formas de discriminação interagem umas com as outras, há que afirmar a consequente necessidade de uma luta plural contra o racismo, a opressão de classe e contra o machismo tanto interno, como externo às comunidades.

HF – Passava dias a falar contigo, mas temos que terminar por agora, claro, porque vamos voltar a conversar, com toda a certeza. E, para terminar, tenho que te perguntar: O que podemos nós, mulheres “brancas” feministas fazer para apoiar as mulheres ciganas?

MG – Deixar de lado o paternalismo e sobretudo valorizar a nossa voz, porque a temos, como vês. Não podem impor-nos a vossa cultura. Deixem-nos evoluir conscientemente, construir e desconstruir a nossa identidade, tornar-nos mulheres, como referiu a Simone de Beauvoir. Não nos salvem, não precisamos de ser salvas. Nós somos a semente das Mulheres e Ciganas que não foram queimadas e esterilizadas. Existimos e resistimos.

Disponível em: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/08/05/feminismo-cigano-existimos-e-resistimos-entrevista-a-maria-gil/ 


Assista aqui a uma entrevista da TV Portuguesa à Maria Gil: https://www.youtube.com/watch?v=4N-E1qDDiHc


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Maria Divina Cabral: mestra da cultura cigana Calon e mato-grossense

Projeto que contempla a mestra foi aprovado no edital Conexão Mestres da Cultura da Lei Aldir Blanc

Com enorme satisfação, a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) comunica a aprovação do projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: ontem, hoje e amanhã” no edital Conexão Mestres da Cultura da Lei Aldir Blanc, que reconheceu a raizeira e membra desta associação, Maria Divina Cabral, como uma mestra da cultura mato-grossense.

O resultado foi publicado nesta terça-feira (08/12) na página eletrônica da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (SECEL-MT). Também foram aprovados outros 74 mestres e a lista pode ser acessada no link: http://www.cultura.mt.gov.br/documents/362998/15771026/Resultado+Final+Mestres+da+Cultura/e127afee-9d52-0432-a8bc-76831f79f499.

Diva, como é mais conhecida, nasceu na cidade de Mineiros (GO) e viveu boa parte de sua vida nos lombos dos cavalos, trafegando pelas cidades dos Estados da região Centro-oeste, até que no início da década de 70 fixou residência com sua mãe, pai, irmãos e parte de sua comunidade no município de Rondonópolis (a 210 km de Cuiabá, no sul do Estado).

Atualmente, a Calin mora em uma modesta residência de apenas três cômodos, na Vila Poroxo e ajuda a todos que chega com rezas, benzeções, aconselhamentos e remédios naturais. A comunidade Calon de Rondonópolis é a maior comunidade cigana de MT, reunindo em torno de 150 pessoas.

Além de premiar a mestra Maria Divina Cabral com um prêmio no valor de R$ 20 mil, o projeto contempla ainda a realização de um encontro de mulheres ciganas em Rondonópolis, que servirá como dispositivo para a construção de uma websérie documental “Diva e as Calins” e a criação de uma exposição fotográfica virtual sobre as mulheres ciganas mato-grossenses de vários municípios.

Assista ao vídeo “Uma Família Cigana” e conheça mais sobre Diva e sua família: https://www.youtube.com/watch?v=29EiQeQa_nc

Maria Divina Cabral – mestra da cultura cigana Calon mato-grossense

A cigana da etnia Calon (também pode ser escrito como Kalon ou Calom), Maria Divina Cabral, 66 anos, é uma mestra da cultura cigana em todos os sentidos. Diva, como é mais conhecida, nasceu a 25 de setembro de 1954, em uma barraca num acampamento na cidade de Mineiros (Goiás). Filha de Lázaro Alves Pereira e Lourdes Rodrigues Pereira, casou-se dentro da tradição cigana, com o seu primo (filho da irmã do pai), Jair Alves Cabral, construindo e mantendo um profundo conhecimento da filosofia Calon e seu sistema de ação e organização sociocultural.

A Calin (modo como as mulheres ciganas se autodenominam) viveu boa parte de sua vida nos lombos dos cavalos, trafegando pelas cidades dos Estados da região Centro-oeste, até que no início da década de 70 fixou residência com sua mãe, pai, irmãos e parte de sua comunidade no município de Rondonópolis (a 210 km de Cuiabá, no sul do Estado). Mãe de duas filhas, Selma e Cleide, avó de quatro netas (Lorraine, Suani, Leidiane e Cristiane) e três bisnetas (Cristina, Paula e Isabela); atualmente é a principal e mais importante raizeira e benzedeira cigana no Estado, mantendo viva a medicicna tradicional na comunidade Calon mato-grossense.

Integrante fixa do conselho de anciãos da etnia Calon e membra fundadora da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Diva é respeitada e ouvida por todos da comunidade, por sua experiência e sabedoria na condução e salvaguarda de diversos costumes, narrativas e saberes da filosofia kalon. A sua participação e influência na comunidade, que reúne em torno de 300 pessoas no Estado, não se limita a Rondonópolis, chegando a outras comunidades Calon de municípios como Tangará da Serra, Cuiabá, Sinop, Guiratinga, Pedra Preta, Campo Novo dos Parecis e Alto Araguaia.

Apesar de não ter sido alfabetizada e nunca ter frequentado uma sala de aula, Diva é versada na língua romanó-kaló, que no Brasil é também conhecida como chibe, sabe todas as simpatias, ervas apropriadas e rituais de cura infantis, aplicando-os em crianças ciganas e não-ciganas, produz remédios e unguentos naturais para mulheres e homens que tem problemas de fertilidade e os mais variados tipos de enfermidade, sendo conhecedora de uma variedade incrível de plantas medicinais do cerrado e da floresta amazônica.

Os saberes da medicina tradicional Calon foram aprendidos pela anciã Calin ainda na infância, quando acompanhava sua mãe, dona Lourdes, ou as suas avós, Maria e Jordelina, ao cerrado ou à floresta, para fazer a colheita das plantas, ervas e matérias primas necessários para a confecção dos remédios naturais.

A raizeira começou fazendo garrafadas para si mesma ainda muito jovem, depois para os parentes e logo estava atendendo também aos não-ciganos, que passaram a cada vez mais procurá-la. Há cerca de 10 anos, desde quando sua mãe, dona Lourdes, de 84 anos se aposentou das funções de raizeira por problemas de saúde, Diva assumiu as suas funções e entre os cuidados com a matriarca, que mora no mesmo lote, vem mantendo viva a chama da medicina cigana no Estado.

Atualmente com 65 anos, a Calin mora em uma modesta residência de apenas três cômodos, na Vila Poroxo e ajuda a todos que chega com rezas, benzeções, aconselhamentos e remédios naturais. Já auxiliou a milhares de pessoas em Mato Grosso e até mesmo de outros lugares do país, como Goiás e Minas Gerais. Sempre é chamada para reuniões de aconselhamento entre os seus familiares, mesmo os mais distantes. Também é consultada sobre questões referentes aos inúmeros aspectos culturais e identitários Calon, como as leis do casamento, do luto e do funeral, o que a torna, definitivamente, uma mestra da cultura popular cigana mato-grossense e brasileira.

Em 2011, Maria Divina participou do filme documental É Kalon – Olhares Ciganos (35’), que foi patrocinado pelo Fundo Estadual de Cultura de Mato Grosso. E em 2015, foi lançado o curta-metragem “Uma Família Cigana”, que conta a história de sua família, com foco nela e em sua mãe, D. Lourdes. Entre 2014 e 2018, Diva foi uma das principais interlocutoras da tese de doutorado “Produção Social dos Sentidos em Processos Interculturais de Comunicação & Saúde: a apropriação das políticas públicas de saúde para ciganos no Brasil e em Portugal”, defendida na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, Rio de Janeiro) em agosto de 2018. O trabalho foi vencedor do prêmio Compós – Eduardo Peñuela de teses e dissertaçãoes 2019 como melhor tese de comunicação do país, concedido pela Compós – Associação Nacional de Cursos de pós-graduação em comunicação; e recebeu menção honrosa no prêmio Fiocruz de teses 2019.

Desde 2017, Diva é membro fundadora e uma das principais representantes da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), uma instituição sem fins lucrativos, que foi criada neste mesmo ano e é filiada à Associação Nacional das Etnias Ciganas (ANEC), cuja sede é em Brasília. Também em 2017 Diva participou do longa-metragem etnodocumental, “Calon Lachon”, que está em fase de produção e registrou, além da comunidade mato-grossense, também uma comunidade em Brasília, diversas comunidades Calon de nove cidades portuguesas e a peregrinação de Santa Sara Kali, que ocorre todo ano no dia 24 de maio na cidade francesa de Saintes-Maries-De-La-Mer. A produção está em fase de edição e vai ser lançada em 2019, tendo a raizeira como uma das principais personagens.

 

sábado, 21 de novembro de 2020

Epistemologias Ciganas, Interculturalidade e Produção Social dos Sentidos: uma articulação decolonial no campo da Comunicação e Saúde

Membro da AEEC-MT publica capítulo em livro publicado pela Associação Latino Americana de Investigadores em Comunicação (ALAIC) e a  Universidade Autônoma de Barcelona

Acaba de ser publicado (29 de outubro de 2020) um capítulo de autoria do assessor para ciência e comunicação da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo, no livro “Comunicación Y Salud em América Latina: Contribuiciones al Campo” (Comunicação e Saúde na América Latina: contribuições ao campo”).

Com o título “Epistemologias Ciganas, Interculturalidade e Produção Social dos Sentidos: uma articulação decolonial no campo da Comunicação e Saúde”; o texto é escrito em conjunto com a professora da Fiocruz, Inesita Soares de Araujo e aborda a construção epistemológica que Aluízio realizou no doutorado, incluindo, de forma inédita, os saberes produzidos pelas comunidades ciganas no diálogo acadêmico. 

A comunidade cigana mato-grossense foi uma das principais participantes desse trabalho de doutorado e está contemplada no capítulo da publicação. 

Editada pelo Institut de la Comunicació de la Universitat Autònoma de Barcelona (Incom-UAB), a obra foi organizada por Mónica Petracci e Janet García Gonzáles, em conjunto com a Equipe Coordenadora do Grupo de Trabalho (GT 5) de Comunicação e Saúde da Associação Latino Americana de Investigadores de Comunicação (ALAIC).

A obra é uma compilação de trabalhos que foram apresentados no GT durante os contressos de Montevideo (2012), Lima (2014), México (2016) e Costa Rica (2018) e segundo suas organizadoras, tem objetivos acadêmicos e institucionais.

“Apuntan al fortalecimiento y visibilidad del campo Comunicación y Salud, del Grupo de Trabajo (GT) en Comunicación y Salud de la Asociación Latinoamericana de Investigadores en Comunicación (ALAIC) y de las relaciones entre los y las investigadores de la región”, diz as autoras.

Para fazer download do E-book: https://ddd.uab.cat/record/233410

Resumo do capítulo “Epistemologias Ciganas, Interculturalidade e Produção Social dos Sentidos: uma articulação decolonial no campo da Comunicação e Saúde”

Evidenciamos os arranjos teóricoepistemológicos que tomou por base uma multireferencialidade de saberes que envolveu a articulação de quatro matrizes: os estudos culturais, os estudos semiológicos, os estudos decoloniais e a filosofia (de vida) cigana, que foi tomada como um quarto modo de produzir conhecimento, conceitual e epistemologicamente tão válida quanto as correntes científicas.

Destacamos os conceitos centrais de cada matriz e os modos que os articulamos para a produção de um diálogo científico e inovador com as pessoas ciganas, reconhecendo que têm saberes acumulados, portando, devem ser levadas em consideração, especialmente no que diz respeito à análise e à reflexão sobre a saúde cigana.

A “Filosofia Cigana” se sustenta em narrativas que povoam as memórias e histórias orais e se fazem presentes na estruturação de elementos culturais, simbólicos e comunicacionais, de grupos ciganos brasileiros e portugueses da etnia Kalon, que são postos em prática e ensinados de geração em geração.

Elementos que ancoram seus modos de ver e viver a vida, formas de organização social e de estar no mundo, que subvertem e/ou resistem aos modos capitalistas de vida e sua ênfase no consumo e no descarte do ser humano, assumindo valores de solidariedade e amizade. Assim, descartamos a visão estereotipada da historiografia moderna de que seriam vagabundos, trambiqueiros, ou criminosos perigosos (ladrões, sequestradores, trapaceiros etc.).

Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Ciganos serão incluídos em políticas afirmativas de cotas na Unilab do Ceará

Após portaria da Instituição, Grupo de Trabalho é criado para elaborar ações inclusivas e determinar grupos identitários contemplados e quantidade de vagas a serem disponibilizadas

A comunidade cigana foi incluída nas políticas de cotas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). O Grupo de Trabalho (GT) para elaboração do projeto de políticas afirmativas estudantis da Unilab no Ceará foi criado após a portaria de número 438 ser assinada pelo reitor Roque do Nascimento Albuquerque, na última segunda-feira (19). Tendo como objetivo elaborar ações inclusivas na Instituição, a proposta é pioneira no Estado por incluir os ciganos dentro dos grupos contemplados.

Segundo a portaria, o GT é responsável pela “elaboração das diretrizes, critérios de seleção, vagas e permanência das populações contempladas no Programa de Ações Afirmativas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira”.

Na perspectiva do presidente do Instituto Cigano Brasil (ICB), cigano Calon, Rogério Ribeiro, essa ação é de “extrema importância” para reduzir desigualdades históricas, inspirar a proposta em outras Instituições de ensino superior e incentivar a entrada e permanência desse grupo em espaços do ensino superior.

Conforme aponta, somente da etnia Calon são contabilizados cerca de 20 mil ciganos no Ceará, distribuídos em pelo menos 60 municípios. Porém, há somente duas estudantes autointituladas ciganas na Instituição.

“Cerca de 70% dos ciganos são analfabetos. Então isso é um incentivo e grandeza de uma instituição como a Unilab atender também o povo cigano”, compartilha.

Inclusão

A cigana do subgrupo Rom, Kalderash, Flor Fontenele, vê essa inclusão como “uma conquista tremenda, enorme”. Sendo uma das duas estudantes autointituladas ciganas que está na Unilab Ceará, cursando o 4º semestre de Bacharelado em Humanidades, compreende que há uma dificuldade de conseguir ocupar o ensino superior e permanecer.

Para além de estudante, ela também está compondo o GT e busca ajudar a identificar o número de ciganos com ensino médio concluído, pois “serão os futuros estudantes que poderão acessar essas cotas”. Além disso, deseja acompanhar as reuniões durante o processo para traçar as diretrizes de seleção. “A nossa defesa nesse momento é que seja um edital específico, ou seja, que ciganos concorram com outros ciganos por essas vagas”, finaliza.

De acordo com o reitor da Unilab, Roque Albuquerque, cigano da etnia Calon, o foco da ação é poder dar assistência a grupos em situação de vulnerabilidade e historicamente excluídos do ensino superior. 

Os ciganos, por sua história, também foram contemplados para o programa de cotas e essa inclusão, para ele, é “de suma importância”.

“Eu sou um cigano e me tornei o primeiro reitor cigano em uma universidade pública no Brasil. Incluir os ciganos é uma correção histórica, é importante que saibam que estamos aqui e que existimos. Somos capazes. Se eu cheguei, outros podem chegar. É marco”, declara.

Grupo de Trabalho

Segundo o pró-reitor de Políticas Afirmativas e Estudantis da Instituição, James Moura, durante a fase inicial de planejamento, serão definidos os critérios de seleção dos grupos específicos. Além dos ciganos, devem ser contemplados outros grupos identitários, como indígenas e quilombolas.

“As ações afirmativas têm um papel de um processo de reparação histórica das desigualdades de acesso de ensino. Apesar das políticas de cotas existirem, precisa avançar e contemplar outros grupos que também foram historicamente marginalizados no sentido de acesso ao ensino superior”, declara.

O GT possui um prazo de 60 dias para apresentar um documento a fim de direcionar, de modo mais prático, as políticas afirmativas. Após a finalização do GT em janeiro, as propostas ainda passarão por trâmites internos e jurídicos dentro da Unilab, não havendo, portanto, um prazo efetivo para o início de adoção das cotas.

Disponível em: agenciabr.com.br/ciganos-serao-incluidos-em-politicas-afirmativas-de-cotas-na-unilab-do-ceara/ 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

AEEC-MT participa de consulta da ONU para agenda 2021 da Seção de Povos Indígenas e Minorias


 Encontro reuniu mais de 20 ativistas ciganos de países como Brasil, Argentina, Colômbia e Estados Unidos

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) participou, nesta quinta-feira (15/10), de uma reunião da Seção de Povos Indígenas e minorías do Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas (IPMS) para debater sobre o planejamento da agenda 2021 da instituição para os povos Romani que vivem nas Américas, especialmente, na América Latina.

A abertura da consulta, que ocorreu na plataforma zoom entre 09h e 13h (horário de Cuiabá), foi realizada pelo chefe da Seção de Povos Indígenas e Minorías do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OACNUDH), Paulo David, com a coordenação da Oficial de derechos humanos especialista em minorias da OACNUDH, Belen Rodriguez de Alba.

Com o intuito de examinar a melhor maneira de utilizar o tempo e os recursos humanos para apoiar aos defensores dos direitos humanos e a sociedade civil cigana nas Américas em 2021, o encontro reuniu mais de 20 ativistas de países como Brasil, Argentina, Colômbia e Estados Unidos.

Entre eles, o Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT e membro do coletivo internacional #OrgulhoRomani, o Kalon Aluízio de Azevedo, que mediou a mesa 2 “Reconhecimento, Participação, proteção e marco jurídico"; e a integrante do coletivo #OrgulhoRomani e da Associação Zor, de Argentina, a Romi brasileira Aline Miklos, que mediou a mesa 1 “Preocupações e questões de direitos humanos que afetam as populações romani nas Américas”.

Além dessas duas mesas, o encontro contou com outras três: “Aspectos de gênero e interseccionalidade", mediada pela ativista Romi brasileira, Veruska Vanconcelhos; “Conhecimento e uso do sistema das Nações Unidas”, cuja mediação foi feita pela Romi colombiana, Ana Dalila Gomez Baos; e “Até à frente: opções para configurar a agenda 2021", mediada pelo Rom argentino Jorge Bernal.

Aline Miklos apresentou a questão dos direitos humanos, da discriminação e do racismo que enfrentam as comunidades ciganas nas Américas. Ela destacou a importância em se construir planos nacionais de integração para os povos romani em todos os países americanos. 

Já Aluízio apresentou um debate sobre a situação atual do reconhecimento, da inclusão e da proteção dos povos ciganos, refletindo sobre as leis e as políticas afirmativas, apresentando um panorama atual em curto e médio prazo, especialmente, acerca dos impactos das crises pandémicas, que aflorou o racismo estrutural e problemas sociais históricamente enfrentados pelas pessoas romani.

O representante da AEEC-MT ponderou ainda que setores governamentais, organizações nacionais e internacionais da sociedade civil organizada e o próprio movimento social cigano como aspectos positivos para mudar essa realidade de exclusão que foi agravada pela pandemia do Covid-19 em todos os países latinoamerianos. Por fim, Aluízio também lembrou a importância de políticas públicas transversais e interseccionais, que favoreçam questões de gênero voltadas para mulheres e LBGTQI+ ciganos.

Várias propostas surgiram durante a reunião, entre elas, a de que cada país crie um grupo de trabalho para levantar as principais demandas e especificidades. O grupo também sugeriu a criação de um documento sintético que será assinado por todos os participantes da consulta para ser entregue ao Fórum de Minorías e ao Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU.

O professor e ativista kalon brasileiro da Bahia, Jucelho Dantas, além de integrantes da Associação Internacional Sarah Mailê Kali, também participaram da reunião representando o movimento cigano brasileiro.

Assessoria de Comunicação da AEEC-MT

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Comunidade Cigana prorroga mantado da diretoria da AEEC-MT

A diretoria continuará no mandato por mais um ano, quando terão novas eleições

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) decidiu por unanimidade, no último dia 27 de setembro (domingo) prorrogar o mandato da sua nova diretoria para o próximo ano, no período entre 01 de outubro de 2020 a 30 setembro de 2021. A Assembleia Geral ocorreu entre 09h e 09h40, de maneira virtual pela plataforma zoom.

Conheça mais sobre o histórico da AEEC-MT e da comunidade cigana kalon em Mato Grosso aqui: https://aeecmt.blogspot.com/p/historico-e-objetivos.html

Texto: Aluízio de Azevedo, Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

Fotos: Arquivo de família Alves Pereira