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terça-feira, 6 de maio de 2025

Ancestralidade Viva: Maria Luzia Alves Porto

Viva tia Luzia, literalmente uma luz nos caminhos dos Calon de MT mato-grossenses!

Maria Luzia Alves Porto, mais conhecida como Tia Luzia, pelos inúmeros sobrinhos, sobrinhos-netos e afilhados, é filha de Jordelina Rodrigues Cunha e Jerônimo Alves Pereira, primos de primeiro grau.

Tia Luzia nasceu na barraca em 15 de outubro de 1944 e tem 11 irmãos entre mulheres e homens: José, Izidorio, Euripedes, Lázaro, João, Aparecido, Elza, Alda, Lídia, Durvalina e Jorvina.

Natural de Uberlândia (MG), é casada com Juventino Porto há mais de 60 anos, com quem tem quatro filhos:  Alcemiro, Adeilson, Ademilson e Luzinete. Tem 12 netos e dois bisnetos.

Luzia chegou a MT, migrando com os outros 11 irmãos, nos lombos dos cavalos, viajando por Goiás, mais especificamente, pela fronteira entre Santa Rita do Araguaia (GO) e Alto Araguaia (MT).

Fixou residência em Guiratinga na década de 70, onde residiu por mais de 30 anos e realizou o curso de Auxiliar de Enfermagem, sendo a primeira mulher cigana mato-grossense a tirar um curso de nível técnico – ensino médio.

Trabalhou durante muitos anos como enfermeira na cidade, até que nos anos 2000 se mudou com a família para Sinop, onde vive atualmente.  Atuou em vários ramos do comércio, incluindo supermercado e farmacêutico.

É escritora e artesã e trabalhou por anos como vendedora ambulante de enxovais, roupas e outras mercadorias cosméticas e perfumes, uma tradição entre as Calin.

Foi criada na tradição Calon, com a mãe lendo mão e fazendo garrafadas, de quem herdou esses conhecimentos. É mestre em chibe e do alto dos seus 80 anos é uma das matriarcas Calins mais respeitadas, de honra e valor da comunidade Calon de MT, GO e MG.

Tia Luzia dá nome (Luzia e As Calins do Cerrado) da segunda temporada da série com mulheres Calin, que será lançada na web neste mês de maio, estrelando um dos cinco episódios.

Viva tia Luzia, literalmente uma luz nos caminhos ciganos mato-grossenses!

Viva a ancestralidade Calon!

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terça-feira, 30 de maio de 2023

Acesse o Guia de replicação do curso Juventude Cigana

Formação é voltada para jovens ciganos ou pertencentes a povos e comunidades tradicionais

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) lança, nesta terça-feira (30.05), o “Guia Prático para replicação para Povos Ciganos e Povos Tradicionais” do Curso de extensão “Juventude Cigana: da Invisibilidade à Comunicação Popular em Saúde”. A ação encerra as atividades do curso, que foi ofertado em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e teve como objetivo o combate às fake news e desinformação no campo da saúde pública.

O documento está disponível para baixar no seguinte link.

O curso ocorreu via Departamento de História da UFMT, por meio de Chamada Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Brasília e Organização Pan-Americana de Saúde, com financiamento do governo do Canadá. O projeto contou ainda com as parceiras dos coletivos Orgulho Romani e Ciganagens e do projeto Mapas da Vida, da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR).

O Guia de Replicação apresenta o passo-a-passo para que associações, coletivos e movimentos sociais de povos ciganos e/ou povos tradicionais possam reproduzi-lo em condições semelhantes aos que foram executados no curso de extensão. A formação ocorreu de forma online e beneficiou 21 jovens ciganos brasileiros, oriundos de 10 unidades federativas brasileiras: DF, GO, ES, MT, PA, PB, PE, PR, RJ e RN. 

Além do conteúdo das oficinas, o guia conta com objetivos, metodologia, avaliação e programa, além de dicas para antes de começar o projeto e conselhos práticos referentes também a cada uma das oito sessões sugeridas, a exemplo de dinâmicas e exercícios. No caso do Juventude Cigana, as sessões ocorreram entre 28/02/2023 e 23/03/2023, com uma hora e meia de duração, às terças e quintas-feiras, entre 19h e 20h30 (horário de MT).

Sugere-se que os participantes recebam uma bolsa como ajuda de custo e que ao final sejam formados para a produção de conteúdos digitais nas áreas de saúde, considerando o combate à fake news e levando em conta modelos de comunicação e saúde que se preocupem com as realidades dos povos tradicionais. 

O conteúdo apresentado foi construído pelos/as oficineiros/as: Aluízio Azevedo (AEEC-MT e Orgulho Romani), Aline Miklos (ativista Rom), Danillo Kalón (Ciganagens), Elisama Ximenes (Jornalista), Gabriela Marques (Orgulho Romani) e Roy Rogeres (Ciganagens). Já a diagramação é do artista visual Danillo Kalón, que também produziu a logomarca do projeto. A identidade visual e o social media do curso ficou a cargo de Rodrigo Zaiden, Diretor de Arte e Cultura da AEEC-MT.

Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT


quinta-feira, 2 de março de 2023

Jovens Ciganos participam de curso para combate às fake news em saúde

INTEGRAÇÃO:Exclusivo para juventude romani, encontros começaram nesta terça (28.02) e ocorrerão online até o próximo dia 23 de março

O curso de extensão Juventude Cigana: da Invisibilidade à Comunicação Popular em Saúde teve sua sessão inaugural nesta terça-feira (28.02). É a primeira sessão de uma programação que contará com oito encontros, voltados para o combate às fake news em saúde e a valorização das identidades e culturas ciganas. A formação é voltada para 30 jovens ciganos oriundos de 14 Estados brasileiros e pertencentes aos três troncos étnicos, os Calon, os Rom e os Sinti, que possuem culturas e identidades diferenciadas.

Nascida e criada no interior de Goiás e atualmente moradora de Goiânia (GO), a advogada e mestre em Direito Agrário, Sara Macedo, 26 anos, é uma das 30 jovens selecionadas para participar do curso. Pertencente ao tronco étnico Kalon, ela pondera que a relação entre a saúde dos povos ciganos, a comunicação e a saúde são pontos centrais. 

“A saúde sempre foi um debate que me atravessou de uma maneira muito grande. Toda minha família é usuária do SUS. Ninguém tem plano de saúde, no máximo aqueles planos funerários e a gente sabe que a saúde é um indicador importantíssimo das desigualdades em todas as comunidades historicamente perseguidas”, reflete Sara (foto).

Advogada popular ligada à Pastoral da Terra e atuando em Rondônia e Pará com casos de massacre no campo, Sara lembra que dados fidedignos são importantes para que os trabalhadores do SUS reconheçam os povos ciganos. “Quando a gente fala do SUS e dos profissionais destinados ao trabalho de unidades básicas de atendimento e nos postinhos do interior, a gente sabe que esse pessoal chega a partir dos dados e quando a gente fala da população cigana esses dados não existem. Então, como a gente faz?”, questiona a advogada Romani e complementa:

“A pauta da comunicação ou outra forma de comunicação para os nossos povos, que não fale de nós de maneira estereotipada e criminalizando, mas de outra forma de abordar, como a gente vai ver aqui, a partir da saúde. Este espaço do curso vai ser riquíssimo para a gente criar de fato alternativas de sobrevivência neste mundo”, conclui a participante.

Cursando o último ano do ensino médio e trabalhando como jovem aprendiz na área de direitos humanos, Renata Letícia Beserra de Matos, 16 anos, de Cuiabá, também participou da abertura do curso e está animada com a possibilidade de aprendizado. “A minha expectativa para este curso é poder adquirir mais conhecimento como jovem cigana e fazer com que a cultura da nossa etnia continue crescendo e não seja deixada de lado”, comentou.

Integração entre jovens ciganos brasileiros

Durante a abertura, a presidente da AEEC-MT, Fernanda Alves Caiado, abriu a sessão inaugural destacando a felicidade em reunir participantes ciganos e ciganas de todo o Brasil. Ela também ressaltou a importância do curso, inédito no país, que também objetiva a produção de conteúdos digitais nas áreas de saúde, a consolidação de modelos de comunicação dialógicos e comunitários, que reconheçam e dialoguem com as realidades das comunidades romanis e debatam o conceito ampliado de saúde.

“Estamos muito felizes com a presença de todos esses jovens de vários Estados, para aprendermos e refletirmos conjuntamente o que é fake news e como enfrentá-la, a ligação entre informação, comunicação e saúde e a valorização das identidades e das culturas ciganas. Agradeço a todos que se dedicaram a este momento, em especial à Fiocruz, ao governo do Canadá, à UFMT e todas as organizações parceiras.  Estamos aqui com vocês, por vocês e para vocês. Que o curso fortaleça a comunicação e integração entre os ciganos brasileiros”, ponderou Fernanda.

Também na oportunidade, esteve presente a assessora sociotécnica do projeto pela Fiocruz Brasília, Aedê Cadaxa. Em sua fala, a jornalista e servidora pública, enfatizou que o projeto Juventude Cigana integra um projeto maior, com 15 instituições não governamentais, que trabalham com a proposta da comunicação e saúde, pró direitos humanos. Aedê desejou a todos “momentos de muito aprendizado, troca, conhecimentos e fortalecimento, especialmente porque a partir deste curso poderão criar uma rede de jovens ciganos comunicadores populares”. 


Segundo Aedê (foto acima), o objetivo da chamada é “justamente trabalhar a comunicação popular, comunitária, feita por vocês, por quem vivencia as realidades e busca espaço, a garantia dos seus direitos, respeito à sua cultura e modos de viver. A partir do governo federal, não conseguiríamos potencializar ou trabalhar formadores para trabalhar desta forma. Acreditamos muito no território, nas pessoas fazendo por elas, e é isso que a gente quer que instituições como a de vocês criem redes, formem vocês, para serem as vozes dos seus povos”, ressaltou.

Por fim, Aedê Cadaxa comentou sobre a importância do debate do conceito ampliado de saúde e o envolvimento dos jovens no enfrentamento às fake news neste campo. “Vemos em vocês jovens e que trabalham com as redes sociais muita potência, para que todos posam alcançar uma saúde de forma equânime e universal e não apenas o conceito de saúde que se vincula a doença, mas também o conceito de saúde que tem o direito, à identidade, às escolhas, aos modos de viver, trabalho, transporte, moradia e ser reconhecido como é”, concluiu.

Encerrando a abertura da sessão inaugural, a Coordenadora Pedagógica do projeto pela UFMT, a professora do Departamento de História da instituição, Ana Carolina Borges Nascimento, destacou que está participando com uma ponte para garantir que ele seja registrado e institucionalizado e o certificado saia em tempo hábil. Também representante do Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural e Imaterial de Seção Mato Grosso, Ana Carolina ponderou sobre a importância de cursos de extensão para trazer os povos ciganos para o ambiente acadêmico e também fortalecer as pautas da visibilidade romani e as questões de cidadania.

“Sabemos que vocês têm pautas e demandas complexas, envolvendo sobretudo as questões de cidadania e de território e também da fake news. Estou para parabenizar e mais para aprender, para escutar, fazer trocas. A discussão que venho envolvendo raça, gênero e este mundo do trabalho está mais realocado para populações indígenas e negras e agora conhecendo mais e trabalhando também com os povos romanis. Minha mãe é descendente de Boé Bororo e eu sou preta, então, espero poder partilhar e me coloco à disposição”, finaliza Ana Carolina.

Professora do Departamento de História da UFMT e coordenadora pedagógica do Projeto Juventude Cigana, Ana Carolina Borges

Juventude Cigana

Organizada pela Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) e o Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a formação oferece 30 vagas para pessoas ciganas entre 15 e 35 anos. 

Online, o curso é ofertado por meio de chamada pública lançada pela Fiocruz Brasília, em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e financiamento do Governo do Canadá. Também conta com as parcerias dos coletivos ciganos “Orgulho Romani” e “Ciganagens”, bem como o projeto Mapas da Vida, da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR). A solenidade de abertura do curso, que é online, contou com a participação de representantes de todas as instituições parceiras do curso.

Texto: Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

Fotos: Arquivos pessoais e Karen Ferreira


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Curso Juventude Cigana recebe 63 inscrições e organização amplia 10 vagas

Ação tem como objetivo formar membros da comunidades Romani brasileiros para o combate à fake News no campo da saúde e a valorização de suas identidades e culturas

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Fundação Oswaldo Cruz Brasília (Fiocruz Brasília) informam que o número de inscritos no Curso de Extensão “Juventude Cigana: da Invisibilidade à Comunicação Popular em Saúde” chegou a um total de 63 pessoas, superando a expectativa das instituições.

Desta forma, a coordenação do curso, em diálogo com os Coletivos Orgulho Romani e Ciganagens e a Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), por meio do projeto Mapas da vida, decidiu ampliar de 20 para 30 o número de vagas ofertadas. O curso é realizado por meio de chamada pública da Fiocruz Brasília em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e financiamento do governo do Canadá,

As inscrições começaram no dia 28 de dezembro de 2022 e encerraram em 31 de janeiro de 2023. O curso é online e terá início em 28 de fevereiro às 19h (horário de Mato Grosso) e 20h (horário de Brasília). Serão oito encontros de uma hora e trinta minutos, sempre às terças e quintas-feiras. A última aula ocorrerá em 23 de março.

Na ocasião, ocorrerá uma abertura com a presença de representantes de todas as instituições envolvidas, como a presidente da AEEC-MT, Fernanda Caiado, a professora do Departamento de História da UFMT, Ana Carolina Borges, a Assessora Técnica da Fiocruz Brasília, Aede Cadaxa e a representante do Coletivo Ciganagens e participante do curso, Sarah Macedo.

A maioria dos participantes são da etnia Kalon, seguido pelo tronco étnico Rom. Há apenas uma pessoa inscrita da etnia Sinti. Além disso, a maioria dos inscritos são do Estado de Mato Grosso. O critério de participação de todas as regiões brasileiras e diversidade de estados foi cumprida, alcançando um total de 14 unidades da federação e mais o Distrito Federal (DF).

Entre as cidades e Estados, temos pessoas oriundas de: Sousa (Paraíba), Natal (Rio Grande do Norte), São Sebastião do Passé (Bahia), São Luis (Maranhão), Olinda e Igarassu (Pernambuco), Ananindeua (Pará), Cuiabá, Tangará da Serra e Rondonópolis (Mato Grosso), Rio de Janeiro e Campo dos Goytacazes (Rio de Janeiro), Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Goiânia (Goiás), Florianópolis (Santa Catarina), Curitiba (Paraná), Vitória (Espírito Santo) e Aracaju (Sergipe).

Objetivo

Em um contexto em que a pandemia da Covid-19 acentuou as desigualdades sociais, ampliando o negligenciamento em comunicação e saúde dos povos tradicionais, em especial, os povos ciganos, este curso tem como objetivo oferecer uma formação online de curta duração (15h) em comunicação popular em saúde para 30 jovens romani brasileiros para atuação junto às suas comunidades no uso das ferramentas digitais e sua importância para o enfrentamento ao racismo, ao anticiganismo e o combate à desinformação e fake news no campo da saúde pública.

Oficinas e Oficineiros

Quatro oficineiros são membros da comunidade Romani: Aluízio de Azevedo, Roy Rógeres e Danillo Kalon, são do tronco Kalon; e Aline Miklos, do tronco Rom, etnia Kalderash

28/02: Apresentação do projeto, dos facilitadores, oficineiros e participantes: Gabriela Marques (Orgulho Romani), Aluízio de Azevedo (AEEC-MT), Fernanda Alves (AEEC-MT), Ana Carolina Borges (UFMT) e Aede Cadaxa (Fiocruz).

02/03: A informação  e a comunicação no campo da saúde (Aluízio de Azevedo)

07/03: O que é desinformação e fake news? Como identificar? (Roy Rogeres) 

09/03: Definindo e identificando racismo e anticiganismo: discursos de ódio e violências simbólicas (Aline Miklos)

14/03: Fact-checking: fontes, canais, legitimidade e representatividade (Karla Araújo)

16/03: Uso seguro das redes: midiatização e juventude (Gabriela Marques)

21/03: Produção de conteúdo para redes sociais: desafios para a autorrepresentação (Danillo Kalón)

23/03: Encerramento, apresentação de propostas e avaliação: Gabriela Marques (Orgulho Romani), Aluízio de Azevedo (AEEC-MT), Fernanda Alves (AEEC-MT), Ana Carolina Borges (UFMT) e Aede Cadaxa (Fiocruz).

Texto: Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

AEEC-MT e UFMT abrem inscrições para curso Juventude Cigana: da Invisibilidade à comunicação popular em saúde

 

A formação é online, gratuita e destinada exclusivamente para jovens romani de todo o Brasil. Inscrições começam nesta sexta-feira, 30/12/22 e vai até 20/01/2023. No Card os oficineiros do curso.

            A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), em parceria com o Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), abriu inscrições para o curso online e gratuito realizado dentro do projeto “Juventude Cigana: da invisibilidade à comunicação popular em saúde". O objetivo é formar jovens ciganos, ciganas e ciganes para a produção de conteúdos digitais nas áreas de saúde considerando o combate à fake news e a consolidação de modelos de comunicação que se preocupem com as realidades das comunidades romaníes no Brasil.

            O curso é organizado pelos jornalistas e pesquisadores Aluízio de Azevedo e Gabriela Marques, do coletivo Orgulho Romani e  a partir de chamada pública da Organização Pan Americana de Saúde (OPAS) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)  com financiamento do governo do Canadá, que selecionou projetos de comunicação popular em saúde de todo o país.

            Serão realizadas oito sessões online, com especialistas e profissionais, sobre temas relativos à comunicação e saúde das comunidades ciganas, partindo do olhar crítico às mídias e a desinformação em saúde. Entre eles, a informação e a comunicação no campo da saúde; o que é desinformação e fake news, identificando racismo e anticiganismo: discursos de ódio e violências simbólicas; uso seguro das redes: midiatização e juventude; e produção de conteúdo para redes sociais: desafios para a autorrepresentação.

            Os encontros acontecerão entre 28/02 e 23/03 com uma hora e meia de duração cada. As inscrições estão abertas até 31/01 pelo link no formulário do Google Forms: https://forms.gle/saeZ9cXWa4gbXhQc9.                

Participantes com pelo menos 70% de presença receberão certificado ao final da formação emitido pela Universidade Federal do Mato Grosso e uma ajuda de custo como incentivo à participação. Após o encerramento do curso, será elaborado um guia online sobre produção de conteúdos em saúde para populações ciganas.

Critérios para seleção

-        Curso exclusivo para pessoas ciganas;

-        Faixa etária preferencial: 15 a 35 anos;

-        A seleção buscará paridade de gênero e diversidade sexual entre participantes;

-        Disponibilidade para participação nos horários do curso (19h às 20h30 - horário de MT e 20h às 21h30 - horário de Brasília);

-        A seleção buscará equidade étnica entre participantes proporcional às populações ciganas no Brasil;

-        A seleção buscará uma maior distribuição territorial com participantes das cinco regiões brasileiras

-        Em caso de alto volume de inscrições, será elaborada uma lista de espera, podendo haver abertura de mais vagas.

Programação

28/02 - Apresentação do projeto, dos facilitadores, oficineiros e participantes

02/03 – A informação  e a comunicação no campo da saúde - com Aluízio de Azevedo , Dr. em Informação, Comunicação e Saúde - Fiocruz/RJ, conselheiro Nacional de Promoção de Políticas de Igualdade Racial (CNPPIR), assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT.

07/03 –   O que é desinformação e fake news? Como identificar?  - com Roy Rógeres, cigano – jornalista da etnia Calon e tradição circense. Multiartista e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade(PPGEISU)

09/03 - Definindo e identificando racismo e anticiganismo: discursos de ódio e violências simbólicas - com a Dra. Aline Miklos, cantora, defensora dos direitos humanos, Senior Fellow na Oficina do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OACNUDH/ América do Sul).

14/03 - Fact-checking: fontes, canais, legitimidade e representatividade - com Karla Araújo: jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com experiência nas áreas de política, economia, cidades e fact-checking, em trabalho desenvolvido em sites e jornal impresso.

16/03 - Uso seguro das redes: midiatização e juventude - com Gabriela Marques: jornalista e professora, com Mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutorado em Comunicação Audiovisual e Publicidade pela Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha). Trabalha com populações ciganas desde 2015, membro do coletivo Orgulho Romani.

21/03 - Produção de conteúdo para redes sociais: desafios para a autorrepresentação - com Danillo Kalon: artista visual e tatuador. Formação audiovisual, no Riomarket Jovem em parceria com o Festival de Cinema do Rio para jovens periféricos. Produtor Cultural e fotógrafo, artista plástico autodidata.

23/03 – Encerramento, apresentação de propostas e avaliação.

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Serviço

O que: Inscrições Curso “Juventude Cigana: da Invisibilidade à Comunicação Popular em Saúde

Quando: 30/12/2022 a 20/01/2023

Inscrições: https://forms.gle/saeZ9cXWa4gbXhQc9

Formato: online, 15h, terças e quintas entre 28/02 a 24/03/23

Texto: Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

Artes: Rodrigo Zaiden

Dúvidas: aeecmt@gmail.com

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Orgulho LGBTQIAP+ Cigan@: uma pauta urgente!

Acesse o manifesto Ververipen Pride 2020 sobre o movimento LGBTQIAP+ Cigan@: 

Neste dia 28 de junho, comemora-se o dia internacional do orgulho da diversidade sexual. É um mês que tradicionalmente ocorrem as maiores paradas das diversidades de gênero em todo o mundo, cuja cidade de São Paulo é a mais badalada, reunindo milhões de pessoas. Mas este dia não é apenas para manifestar o orgulho das pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneras, Queers, Intergênero, Assexuais, Pansexuais e mais... (LGBTQIAP+). 

A data foi estabelecida a partir do episódio que ficou conhecido como a rebelião de Stonewall, quando a comunidade LGBTQIAP+ reagiu confrontando a polícia após uma série de repressões e violências históricas.

Desde a década de 60, com o emergir dos movimentos juvenis e no bojo das transformações sociais decorrentes do modelo democrático que defende as liberdades individuais, as questões de gênero e sexualidade surgem nos cenários nacional e internacional e vêm ganhando o centro dos debates políticos cuja pauta principal é o combate aos preconceitos inúmeros e à LGBTQIAPfobia, já que o Brasil é, infelizmente, o país com maiores índices de violência contra essa comunidade, especialmente as pessoas trans.

Um primeiro ponto a se reconhecer nesse debate é compreender a diversidade de gêneros como um fenômeno complexo que engloba condições culturais e sociais, para além das biológicas e que desembocam num espectro muito mais amplo do que o clássico binômio homem-mulher.

Cada dia surgem mais pessoas se identificando e/ou se afirmando de formas diferenciadas do que constam em seus registros de nascimento, buscando o movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queers, Agêneros, Intergêneros e Pansexuais (LGBTQIAP+), que no início eram apenas três (GLS) e hoje está com nove caracteres, sendo oito letras e o sinal de positivo ao final, justamente para indicar que essa diversidade não se restringe às citadas.

Super importante e legítimo este movimento para garantir e reconhecer as manifestações de gênero em suas inteirezas. Somando-se a esta estratégia será preciso também trazer sombras e luzes para outras questões que atravessam o movimento, mas quase sempre estão ausentes dos debates e merecem urgentemente ganhar novas perspectivas e avanços. O que acontece quando a pessoa LGTQIAP+ pertence à uma comunidade tradicional em situação de vulnerabilidade social, caso dos povos ciganos? E se ela for uma mulher cigana trans ou lésbica?


Intersecções

Reconhecemos que os modos de construção dos gêneros, da sexualidade, das relações familiares e sociais variam imensamente de um povo para outro, de cultura para cultura e de uma classe social para outra. Ainda que o padrão masculino-feminino seja o mais comum, não há um padrão ou forma única de ver essas manifestações ou outras de sexualidade e gênero. O salto adiante, é compreender que as opressões ocorrem não apenas do ponto de vista do machismo e do gênero. Elas se manifestam em camadas.

Ser mais ou menos excluído ou sofrer mais ou menos preconceito pela condição de gênero varia quanto à idade, a cor da pele, à etnia, a sexualidade e a condição social. Homens gays brancos normativos e cristãos tendem a ser mais bem sucedidos e sofrer menos preconceito. Pessoas negras, indígenas, ciganas ou de etnias não europeias tendem a ser mais marginalizadas, assim como as mulheres e pessoas trans, que pertencem a essas etnias.

O machismo se manifesta não apenas com as mulheres, como também no maior preconceito para com os gays afeminados ou as mulheres e homens trans na sociedade em geral e dentro da própria comunidade LGBTQIAP+. Há um culto ao falo no imaginário gay que, de alguma forma, reproduz a misoginia ao ridicularizar o papel do passivo, que ocuparia o “papel da mulher” e super/valorizar o do ativo que ocuparia o papel do “homem”. Caso essas pessoas forem pobres, a exclusão estará completa.

No cotidiano as opressões interseccionadas funcionam como barreiras duplas, triplas, quádruplas para o acesso a serviços cidadãos. É um xadrez complexo, mas que precisa ser reconhecido tanto pelo movimento LGBTQIAP+, quanto pelos outros movimentos, pois se tangenciam e devem dar as mãos para lutar conjuntamente contra todas as opressões. Também não há como fazer políticas públicas afirmativas e reparatórias, sem levar em conta as especificidades da complexidade humana, sem essa premissa.

Movimento LGBTQIAP+ Cigano



No caso dos povos ciganos, o próprio movimento social é bastante recente no Brasil, sendo construído nos últimos 30 a 40 anos. Há ainda muitas lacunas e faltam representações que abarquem à diversidade de grupos, subgrupos e famílias espalhadas por todo o território nacional. Um desses vazios é justamente o movimento de gênero e sexualidade ou o estabelecimento de um debate mais firme quanto às questões como a misoginia e o machismo, que pouco têm sido olhadas ou completamente ignoradas pelo movimento cigano “clássico”.

É preciso pensarmos e debatermos todas as questões pertinentes, incluindo as formas de resistência em suas variadas dimensões. A libertação e a emancipação plenas só ocorrem quando as opressões em todos os níveis cessarem: colonialismo, machismo, capitalismo, todas as formas de discriminações, xenofobia, misoginia, racismo, Lgbtqiapfobia etc. Essas pautas têm de necessariamente estar nas prioridades estratégicas dos movimentos sociais como um todo, incluindo no movimento cigano.

Precisamos nos inspirar em outros países e irmãos ciganos como Espanha e Romênia, onde essa união de temas e pautas já é uma realidade. Há inclusive associações de mulheres ciganas e LGBTQIAP+ ciganes. Em Espanha, por exemplo Demetrio Gómez, ativista e defensor dos direitos ciganos, fundou o Fórum de jovens ciganos Europeus e é presidente da plataforma e associação “Ververipen, Rroms por la diversidade”, que faz um brilhante trabalho nessa temática LGBTQIAP+ Cigana. Que esses exemplos floresçam por aqui, pois os Povos ciganos não escapam de questões inerentes a condição humana.



Texto: Aluízio de Azevedo, Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT, Conselheiro Nacional de Igualdade Racial representando os Povos Ciganos

Fotos: Ververipen, Rroms por la Diversidade: https://ververipendiversity.wordpress.com/

domingo, 30 de janeiro de 2022

Aline Miklos é a convidada da segunda edição do programa Odova Romani

 

Musicista, cantora, pesquisadora e ativista de etnia Rom-kalderash fala com exclusividade sobre o lançamento dos seus novos projetos

Na próxima terça-feira (01.02), os amantes das artes ciganas têm um encontro marcado: às 19h (horário de mato Grosso) acontece o segundo episódio do Programa de entrevistas para web Odova Romani – Vozes Ciganas, com a ilustre presença da convidada internacional, Aline Miklos, que entrará na live direto de Buenos Aires, Argentina.

Entre outros temas abordados no programa, a cantora falará sobre a repercussão e o sucesso que o seu novo CD, Kalo Chiriklo, tem feito, após o lançamento no segundo semestre do ano passado. Aline também falará sobre o seu trabalho desenvolvido no ativismo cigano nacional e internacional. O programa acontece nas páginas do insta do apresentador @aluiziodeazevedo e da convidada @alinemiklos.

“Este encontro do Programa Odova Romani, de alguma forma, revive as lives que realizamos no Coletivo Orgulho Romani, durante o primeiro ano da pandemia, quando entrevistamos vários ativistas e artistas ciganos de Brasil, Portugal e Espanha, também produzindo conteúdo bastante qualificado e com foco na autorrepresentação cigana”, comenta o apresentador do programa Aluízio de Azevedo.

A estreia do programa ocorreu no dia 27 de janeiro (quinta-feira), com a presença da diretora de mulheres da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Nilva Rodrigues Cunha. A parte 1 da conversa pode ser conferida aqui e a parte 2 aqui.

A terceira e última convidada da temporada será a presidente da AEEC-MT e produtora cultural do projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã”, aprovado na lei Aldir Blanc, Fernanda Caiado. A entrevista ao vivo com Fernanda vai ao ar no dia 08 de fevereiro (Terça-feira), às 19h no canal do Insta dos dois convidados.

Odova Romani – Vozes Ciganas é patrocinado pelo Edital Movimentar da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (SECEL-MT) e tem como objetivo ser uma janela para que mestres da cultura cigana e artistas romanis possam apresentar suas manifestações e produções culturais e imateriais.

Outras informações: aeecmt@gmail.com ou (65) 99911-3473.

Texto: Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT 

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Intercom lança livro Comunicação e Ciência na era Covid-19: dois capítulos abordam ciganos

Obra conta com capítulo com foco na experiência do coletivo #OrgulhoRomani e a pauta cigana na comunicação pública em meio à covid-19

A Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) acaba de lançar o livro “Comunicação e ciência na era covid-19”, que contém um capítulo abordando a questão cigana durante a pandemia e a atuação de militantes-pesquisadores vinculados ao Coletivo Internacional #OrgulhoRomani.

O capítulo “Orgulho Romani” e a pauta cigana na comunicação pública em meio à covid-19” é assinado por dois dos três membros do Coletivo: a jornalista, ativista negra e pesquisadora das comunidades ciganas e a mídia, Gabriela Marques; e pelo jornalista, ativista e pesquisador da comunicação e saúde, Aluízio de Azevedo, que também é assessor para ciência e comunicação da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT).

O coletivo Orgulho Romani também é formado pela musicista, cantora, ativista e pesquisadora cigana, Aline Miklos.

Uma publicação do GP de Políticas e Estratégias de Comunicação da Intercom, o livro contou com a organização de suas coordenadoras: Elen Geraldes, Gisele Pimenta, Kátia Belisário, Rafaela Pinto e Ruth Reis.

Um dos capítulos, o ensaio “Comunicação popular, meio digital e pandemia: experiência de uma pesquisa-intervenção”, de autoria de Breno da Silva Carvalho e Ana Gretel Echazú Böschemeier, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), também abordam em seu texto um projeto de boas práticas de enfrentamento à covid-19 voltada para comunidades e movimentos sociais incluindo ciganos, indígenas e quilombolas nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará.

Com 245 páginas e 16 capítulos com experiências variadas sobre a comunicação pública, a universidade, a ciência e a pandemia; a obra será lançada nesta quinta-feira (07.10), entre 16h e17h, na sala 21 da Plataforma do Congresso da Intercom) e será fechada aos inscritos no evento.

Entretanto, o livro pode se baixado na página do GP Políticas e Estratégias de Comunicação da Intercom:

https://www.portalintercom.org.br/eventos1/gps1/gp-politicas-e-estrategias-de-comunicacao

Texto: Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Na Mídia: As Romani/Ciganas do Cerrado e a existência de uma cultura milenar

 

Guardiãs da sabedoria cultural, as mulheres romani/ciganas lutam para que as próprias narrativas sejam contadas e mantidas de pé junto ao Cerrado.

Do Site Favela em Pauta

Texto Ludmila Almeida


No Brasil, há mais de 400 anos, os romani, também conhecidos como ciganos, representam um dos povos tradicionais formadores da sociedade brasileira. Uma cultura e percepção de mundo milenar, que encontra no Cerrado a sua continuidade histórica. São mulheres sábias, pesquisadoras, artistas, advogadas e defensoras de direitos humanos que lutam pelo direito à existência frente à ignorância do Estado brasileiro, que não concretiza políticas públicas efetivas que combatam a violência tanto ao modo de ser romani/cigano, quanto do direito de ser mulher. 

 

Apesar da Constituição de 1988 e o Decreto n° 6.040/2007, de Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, estabelecerem o reconhecimento dessas comunidades e instaurar o direito à manifestação cultural, o acesso à educação, à saúde, à proteção ao modos de criar, fazer e viver, ainda é desafio diário frente a invisibilidade enquanto cidadãos de direito. Isso se espelha com a carência de dados atualizados sobre essa população, de forma que no censo de 2010 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não os considerou enquanto um povo. Foi apenas em 2011 que o IBGE começou a mapear os acampamentos que existiam no Brasil e em 2013 publicou um número aproximado de 500 mil romani/ciganos no país.

 

Atualmente, a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (Seppir/MMFDH) estima que a população romani/cigana seja por volta de 1 milhão de pessoas localizadas em todo o Brasil. Eles são constituídos por três grandes etnias: os Calon, os Rom e os Sinti, e cada uma é constituída por línguas, culturas, costumes e trajetórias diferentes. 

 

No final do século XVI os primeiros romani/ciganos chegaram ao Brasil deportados pela política segregacionistas de Portugal que os viam como ameaça à civilização e o modo de ser europeu. A etnia Calon, a maior no Brasil, foi a que primeiro chegou e se espalhou pelos estados. Anos mais tarde, fugindo da guerras e do nazismo, a etnia Rom (vindos da Romênia, Turquia e Grécia a partir do século XIX) e Sinti (vindos da Alemanha, Itália e França a partir do século XIX) buscaram refúgio no país. 

 

Transitando à procura de território e sendo expulsos de vários lugares, os romani/ciganos ainda são atingidos pelo preconceito e estereótipos. Histórias difundidas tanto como forma de retirar a importância da pluralidade cultural desse povo, quanto de reconhecer que são pessoas que também constroem esse país todos os dias. Somente em 2015, o Governo Federal cedeu a primeira terra à comunidade cigana, o local é chamado de “Terra Prometida”, um acampamento localizado no Distrito Federal que ainda demanda de uma infraestrutura básica para se viver com dignidade. 

 

A autopreservação contra a imposição cultural guia a resistência desses povos do Cerrado. O direito de promover a percepção de mundo enquanto romani/cigano passa pela garantia do acesso à terra e ao território, seja de forma itinerante, semi-itinerante ou sedentária. Assegurar isso é possibilitar que as mulheres desses povos continuem promovendo os saberes ancestrais e as experiências de vida que partem do chão cerradeiro e são sustentados por ele.

 

Sabedoria milenar mantida no e pelo Cerrado

Um dos legados mantido pelas mulheres é a força das plantas medicinais que encontra no Cerrado uma gama de possibilidades para enriquecer esse conhecimento. Pelas mãos das romani/ciganas, as narrativas de seu povo são ensinadas e perpetuadas. A natureza se transforma não só em saúde ao corpo físico, mas, principalmente, em saúde cultural, isto é, no fortalecimento da comunidade para viver e sonhar novos futuros.

Integrante permanente do conselho de anciãos da etnia Calon e membra fundadora da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Maria Divina Cabral, mais conhecida como Dona Diva, é mestra da cultura mato-grossense, raizeira e benzedeira. Sua sabedoria, a partir da filosofia Calon, já ganhou destaque em documentários e pesquisas, e a torna uma referência nacional sobre um dos povos que constituem a história do Brasil. Além de aconselhamento entre os seus familiares, é uma guardiã dos conhecimentos referentes aos aspectos simbólicos que marcam os Calon, como as leis do casamento, do luto e do funeral.

Eu tenho prazer em curar muitas pessoas. A floresta pra mim é tudo, é minha medicina. A terra pra mim é alegria, significa muito pra mim, fazer plantação, colher, é tudo na vida, a gente vem da terra e volta pra terra”, conta a mestra que honra o legado sobre a terra e a cura que foram aprendidas com a avó, Maria Madalena de Jesus, e depois da mãe Maria de Lurdes Rodrigues. 

“Garrafadas para útero, para ovários, para os rins, pulmões, banho para mal de simioto (doença do verme na pele), para mulher com infecção, para engravidar, para não engravidar”, descreve alguns dos tratamentos, e contínua sobre algumas, das várias, plantas que utiliza: “algodãozinho, barbatimão, cancerosa, aguniada, a cuiabana, que todo mundo não conhece, tem o piãozinho, a infalível, erva moura, garco velho, a pinha dos rins”. 

Atualmente, com residência em Rondonópolis – Mato Grosso, a mestra é a ministrante do projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: ontem, hoje e amanhã”, que venceu o edital Conexão Mestres da Cultura da Lei Aldir Blanc. “Calin” é como a mulher Calon é nomeada na comunidade. O projeto, que já tem dois anos, é constituído pelas filhas e netas de Dona Diva e se consolida com a promoção da roda de diálogo “Princípios Introdutórios à Medicina Tradicional Cigana”, a produção do etno documentário chamado “Diva e as Calins”, a exposição virtual multimídia “Calin” e a roda de diálogo “Rememorando a Chibe”. Também chamada de romanon ou romanó-kaló, Chibe é o modo como os ciganos brasileiros da etnia calon denominam sua língua, da qual a anciã possui um vasto conhecimento.  

O projeto ainda contribui para romper com a ignorância cultural e perpetuar os saberes ancestrais. “Eu fiquei muito feliz por ela [a mestra], porque é um momento que nós não poderíamos proporcionar. E ela já ajudou bastante as pessoas com seus remédios, banhos em crianças e tantas outras coisas. Muitas pessoas que não conhecem viram a cara, não entendem, e  acredito que tendo esse reconhecimento as pessoas possam mudar o conceito sobre a nossa cultura”, relata Leidiane Alves, participante do projeto e uma das netas de Dona Diva, a respeito da importância do reconhecimento da mestra pelo Estado e do quanto isso contribui para que a sociedade conheça a verdadeira história dos povos romani. 


“Eu tenho muito orgulho da minha origem de ser cigana. Ser cigana é igual ser como você, só que muda o astral, a vida”. afirma a mestra.

 

Como uma árvore do Cerrado, Dona Diva foi e é resistente e resiliente aos enfrentamentos que precisou vivenciar enquanto mulher romani/cigana, e devido a suas raízes profundas, nunca se deixou apagar o conhecimento de seu povo. Uma riqueza evidente a cada vez que ela acessa as águas de saberes cultivados há séculos. 

Guardiãs da sabedoria cultural, as mulheres romani/ciganas lutam para que as próprias narrativas sejam contadas e mantidas de pé junto ao Cerrado.

 

No Brasil, há mais de 400 anos, os romani, também conhecidos como ciganos, representam um dos povos tradicionais formadores da sociedade brasileira. Uma cultura e percepção de mundo milenar, que encontra no Cerrado a sua continuidade histórica. São mulheres sábias, pesquisadoras, artistas, advogadas e defensoras de direitos humanos que lutam pelo direito à existência frente à ignorância do Estado brasileiro, que não concretiza políticas públicas efetivas que combatam a violência tanto ao modo de ser romani/cigano, quanto do direito de ser mulher. 

 

Apesar da Constituição de 1988 e o Decreto n° 6.040/2007, de Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, estabelecerem o reconhecimento dessas comunidades e instaurar o direito à manifestação cultural, o acesso à educação, à saúde, à proteção ao modos de criar, fazer e viver, ainda é desafio diário frente a invisibilidade enquanto cidadãos de direito. Isso se espelha com a carência de dados atualizados sobre essa população, de forma que no censo de 2010 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não os considerou enquanto um povo. Foi apenas em 2011 que o IBGE começou a mapear os acampamentos que existiam no Brasil e em 2013 publicou um número aproximado de 500 mil romani/ciganos no país. 

 

Atualmente, a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (Seppir/MMFDH) estima que a população romani/cigana seja por volta de 1 milhão de pessoas localizadas em todo o Brasil. Eles são constituídos por três grandes etnias: os Calon, os Rom e os Sinti, e cada uma é constituída por línguas, culturas, costumes e trajetórias diferentes. 

 

No final do século XVI os primeiros romani/ciganos chegaram ao Brasil deportados pela política segregacionistas de Portugal que os viam como ameaça à civilização e o modo de ser europeu. A etnia Calon, a maior no Brasil, foi a que primeiro chegou e se espalhou pelos estados. Anos mais tarde, fugindo da guerras e do nazismo, a etnia Rom (vindos da Romênia, Turquia e Grécia a partir do século XIX) e Sinti (vindos da Alemanha, Itália e França a partir do século XIX) buscaram refúgio no país. 

 

Transitando à procura de território e sendo expulsos de vários lugares, os romani/ciganos ainda são atingidos pelo preconceito e estereótipos. Histórias difundidas tanto como forma de retirar a importância da pluralidade cultural desse povo, quanto de reconhecer que são pessoas que também constroem esse país todos os dias. Somente em 2015, o Governo Federal cedeu a primeira terra à comunidade cigana, o local é chamado de “Terra Prometida”, um acampamento localizado no Distrito Federal que ainda demanda de uma infraestrutura básica para se viver com dignidade. 

 

A autopreservação contra a imposição cultural guia a resistência desses povos do Cerrado. O direito de promover a percepção de mundo enquanto romani/cigano passa pela garantia do acesso à terra e ao território, seja de forma itinerante, semi-itinerante ou sedentária. Assegurar isso é possibilitar que as mulheres desses povos continuem promovendo os saberes ancestrais e as experiências de vida que partem do chão cerradeiro e são sustentados por ele.

 

Sabedoria milenar mantida no e pelo Cerrado

Um dos legados mantido pelas mulheres é a força das plantas medicinais que encontra no Cerrado uma gama de possibilidades para enriquecer esse conhecimento. Pelas mãos das romani/ciganas, as narrativas de seu povo são ensinadas e perpetuadas. A natureza se transforma não só em saúde ao corpo físico, mas, principalmente, em saúde cultural, isto é, no fortalecimento da comunidade para viver e sonhar novos futuros.


Projeto coordenado por Dona Diva tem o objetivo de passar o saber para as próximas gerações. Foto: Karen Ferreira.

 

Integrante permanente do conselho de anciãos da etnia Calon e membra fundadora da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Maria Divina Cabral, mais conhecida como Dona Diva, é mestra da cultura mato-grossense, raizeira e benzedeira. Sua sabedoria, a partir da filosofia Calon, já ganhou destaque em documentários e pesquisas, e a torna uma referência nacional sobre um dos povos que constituem a história do Brasil. Além de aconselhamento entre os seus familiares, é uma guardiã dos conhecimentos referentes aos aspectos simbólicos que marcam os Calon, como as leis do casamento, do luto e do funeral.

 


Eu tenho prazer em curar muitas pessoas. A floresta pra mim é tudo, é minha medicina. A terra pra mim é alegria, significa muito pra mim, fazer plantação, colher, é tudo na vida, a gente vem da terra e volta pra terra”, conta a mestra que honra o legado sobre a terra e a cura que foram aprendidas com a avó, Maria Madalena de Jesus, e depois da mãe Maria de Lurdes Rodrigues. 


 

“Garrafadas para útero, para ovários, para os rins, pulmões, banho para mal de simioto (doença do verme na pele), para mulher com infecção, para engravidar, para não engravidar”, descreve alguns dos tratamentos, e contínua sobre algumas, das várias, plantas que utiliza: “algodãozinho, barbatimão, cancerosa, aguniada, a cuiabana, que todo mundo não conhece, tem o piãozinho, a infalível, erva moura, garco velho, a pinha dos rins”. 

 

Atualmente, com residência em Rondonópolis – Mato Grosso, a mestra é a ministrante do projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: ontem, hoje e amanhã”, que venceu o edital Conexão Mestres da Cultura da Lei Aldir Blanc. “Calin” é como a mulher Calon é nomeada na comunidade. O projeto, que já tem dois anos, é constituído pelas filhas e netas de Dona Diva e se consolida com a promoção da roda de diálogo “Princípios Introdutórios à Medicina Tradicional Cigana”, a produção do etno documentário chamado “Diva e as Calins”, a exposição virtual multimídia “Calin” e a roda de diálogo “Rememorando a Chibe”. Também chamada de romanon ou romanó-kaló, Chibe é o modo como os ciganos brasileiros da etnia calon denominam sua língua, da qual a anciã possui um vasto conhecimento.  

 

O projeto ainda contribui para romper com a ignorância cultural e perpetuar os saberes ancestrais. “Eu fiquei muito feliz por ela [a mestra], porque é um momento que nós não poderíamos proporcionar. E ela já ajudou bastante as pessoas com seus remédios, banhos em crianças e tantas outras coisas. Muitas pessoas que não conhecem viram a cara, não entendem, e  acredito que tendo esse reconhecimento as pessoas possam mudar o conceito sobre a nossa cultura”, relata Leidiane Alves, participante do projeto e uma das netas de Dona Diva, a respeito da importância do reconhecimento da mestra pelo Estado e do quanto isso contribui para que a sociedade conheça a verdadeira história dos povos romani. 

 

“Eu tenho muito orgulho da minha origem de ser cigana. Ser cigana é igual ser como você, só que muda o astral, a vida”. afirma a mestra.

 

Como uma árvore do Cerrado, Dona Diva foi e é resistente e resiliente aos enfrentamentos que precisou vivenciar enquanto mulher romani/cigana, e devido a suas raízes profundas, nunca se deixou apagar o conhecimento de seu povo. Uma riqueza evidente a cada vez que ela acessa as águas de saberes cultivados há séculos. Ministra a oficina sobre plantas medicinais do Cerrado. Foto: Karen Ferreira.

 

“O Cerrado é tudo pra mim, tem todos os remédios que preciso. [Mas] desmatou muito e acabou muito com os remédios. Antes se achava pelo ramo, aí com o desmatamento você vai ter que conhecer pelo cheiro e pela raiz”, relata sobre a ameaça que o bioma sofre, uma ameaça também aos saberes populares. A anciã, que muitas vezes precisa andar longe em busca das plantas que já não se encontram mais tão perto, ainda diz que caminhar pelo Cerrado é muito prazeroso, o ar é outro. A manutenção do Cerrado é a garantia de saúde aos povos tradicionais.

 

Arte como veículo de manutenção dos saberes

Após pesquisar na América Latina e na Europa lendas sobre os romani/ciganos, Aline Miklos do povo Rom, etnia Kalderash, e doutoranda em história da arte, se deparou com narrativas que reforçam a rejeição e a violência. Como resposta e protesto, decidiu contar outra narrativa a partir da música, uma arte que aprendeu no dia a dia com os pais, desde criança e junto às festas da comunidade. Aliás, entre outras contribuições, foram os povos romani/ciganos que fundaram o Circo, a arte circense no país. São comunidades que sustentam a circulação de percepções de mundo, tradições e pluralidades que compõem o que se chama hoje de cultura brasileira.

 

Como cantora e compositora, Aline integra a banda Kalo Chiriklo e lançou recentemente o álbum musical “Pajaro Negro”. A artista usa a arte para contar a história em primeira pessoa e combater os estereótipos difundidos pelo mundo. Além de ser uma forma de expressar sua identidade, a arte para os povos romani/ciganos é veículo de transmissão da história e das tradições.

 

As pessoas da etnia Rom-Kalderash são conhecidas, historicamente, como as que trabalham na transformação do metal e do cobre, e do império austro-húngaro, no final do século XIX, quando vieram para o Brasil. A família de Aline chega pelo Estado do Maranhão e ao longo dos anos foi descendo até Minas Gerais, depois Bahia até chegar em Goiás onde estão desde a década de 50. O encontro de culturas já está bem misturado, como a artista mesmo diz, tanto a culinária goiana quanto as garrafadas com plantas do Cerrado fazem parte de sua trajetória e de sua família. 

 

“A gente não é folclore, a gente não é mito, a gente existe”

Apesar de tantos anos no país, esses povos ainda se deparam com o desrespeito, especialmente a mulher. “Assim como qualquer mulher de outra etnia, ela sofre preconceito duas vezes: uma por ser mulher e outra por ser romani. Muitas mulheres romani sustentam suas casas através do trabalho de adivinhação e do trabalho de leitura de mão, a sociedade dúvida muito porque é trabalho feminino, se fosse masculino eu acredito muito que a sociedade, no geral, não iria duvidar tanto”, diz a respeito do estereótipo de desconfiança ao qual muitas mulheres romani/ciganas são lançadas. 

Junto ao ato de deportar esses povos para o Brasil, a Europa também projetou discursos preconceituosos e racistas que tentam eliminar a riqueza e a forma de se relacionar com o território. Essa violência ainda persegue esses povos em diáspora a séculos pelo país, povos que são, muitas vezes, estereotipados, com direitos humanos retirados e barrados ao bem viver, à vida digna e ao respeito de sua diversidade.

 

As histórias dos povos romani são passadas pela oralidade, tradições milenares que encontram enfrentamentos históricos sobre o seu modo de viver e sua forma de se organizar. E as mulheres foram e são fundamentais na manutenção desses saberes, da memória e da transmissão de valores.

 

Elas são educadoras por excelência, porque é preciso ser. Para além do ser comunidade, é preciso ser porque o Estado não cumpre o seu papel. A educação formal é feita para povos sedentários, não se tem oportunidades para ciganos itinerantes. Se cria burocracia para impedir que a gente esteja nesse espaço”. conta Sara Macêdo.

 

Criada em meio às cavalgadas de Trindade e puxadoras de folia, Sara Macêdo vem de uma família localizada, atualmente, em Pontalina, Goiás. Mulher romani, pertencente a etnia Calón, o maior grupo romani no Brasil, a mestranda em direito agrário pela Universidade Federal de Goiás (UFG), é ecossocialista, assessora jurídica popular e integrante do Coletivo Ciganagens, e vem para Goiânia em 2013 para estudar, mas o retorno ao campo já está em seus planos. “Enquanto povo tradicional nesse Cerrado velho, eu tenho muito orgulho de ser um dos povos que tenta barrar a extinção desse bioma e que tenta prevalecer apesar das atribulações”.


Sara é integrante do Coletivo Ciganagens que busca valorizar a riqueza cultural dos povos romani/ciganos. Foto: Arquivo Pessoal.


“A gente não é folclore, a gente não é mito, a gente existe”, pontua Sara sobre o quanto a existência cultural de tais povos se encontra ameaçada e pautada em um processo de desumanização que não os reconhece enquanto seres de direito. A garantia tanto de transitar quanto de se fixar em um território é direito constitucional. Porém, segundo a assessora jurídica, a construção das leis são estruturadas de forma econômica, jurídica e psicológica para que a única forma de viver no mundo seja a sedentária, aquela que aceite viver em casas pequenas, sem contato com a natureza e com pessoas presas a uma rotina burocrática. “É nós por nós. O direito dos povos transitarem pelo território deveria ser tão natural, tão simples, é o direito e a liberdade de andar pelo nosso próprio territorio”, ressalta. 

 

Pelo direito à terra e ao andarilhar

Contra a ideia de terra mercadoria e pelo direito de transitar, os povos ciganos se constroem nos trânsitos, nas trocas, nas festas, no cuidado com a família. A luta pelo acesso à terra é o direito de não se submeter ao projeto hegemônico, que tenta a todo custo os enquadrar em uma caixinha de modo de ser e estar. “A perspectiva de se sedentarizar é imposta a nós. Muitas comunidades andam e ficam muito tempo num lugar porque ali tem mais qualidade de vida e andam com menos tempo em outro lugar porque ali tem menos qualidade de vida. É o básico da existência”, pontua sobre a falta de reconhecimento sobre as tradições dos povos romani/ciganos que não são respeitados, mesmo estando na Constituição o direito à liberdade, à moradia e do ir e vir.

 

“Não gosto do termo nômade, porque é como se fosse algo de livre e espontânea vontade e, na maioria das vezes, não. Os ciganos, na concepção popular, no imaginário popular são vistos como filhos do vento, que a gente anda por esporte, que a gente não gosta de ter casa e eu falo: olha quem que gosta de pagar aluguel? pagar energia? gosta de pagar água para viver? A gente, enquanto povo tradicional, acredita que isso não é normal”, diz Sara sobre as questões que dizem respeito ao básico para se viver, como casa, terra, educação, saúde, que deveriam ser inerentes a qualquer sociedade e não espaços privados atrelados a apenas uma forma de viver.

 

“O povo do Cerrado é esse povo que consegue se transformar e viver de várias maneiras”. 

Sara Macêdo

 

O ser itinerante em busca de condições melhores de vida vai de encontro também à busca pelo acesso à saúde pública, pois em muitos postos de saúde ainda é exigido comprovante de endereço e identidade, além da falta de um atendimento que respeite a cultura de tais povos, o que atinge o direito à vida. “Todas as plataformas políticas criadas para povos ciganos no país, vieram dos próprios povos ciganos”, diz a assessora jurídica. 

 

Aline Miklos, da etnia Rom-Kalderash, complementa que o preconceito e perseguição desabrigam esses povos, depois o Estado começa a nomeá-los como “nômades por natureza” e os culpam pela própria precariedade de vida. 


Além disso, são pessoas que realizam trabalhos que precisam viajar muito para fechar vendas. “Inclusive minha família viajava acompanhando as festas populares, mas sempre tinham casa em algum lugar e voltavam. Então, eu não chamo isso de nomadismo, eu chamo isso de trabalho itinerante”, destaca.

 

A efetivação dos direitos é preocupante, mesmo com a aprovação tardia da portaria 4.348, de 28 de dezembro de 2018, da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Povo Cigano/Romani. Ainda tramita também no Senado Federal brasileiro o Projeto de Lei 248/2015 que propõe o chamado “Estatuto do Cigano” que visa garantir a partir de regime jurídico específico os direitos fundamentais dos povos romani, especialmente os relacionados à educação, à cultura, à saúde, ao acesso à terra, à moradia, ao trabalho e à promoção da igualdade.

 

Povos do Cerrado e o direito de permanecer no Cerrado

Reconhecer a diversidade dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado é reconhecer outras relações com a terra-território. Nisso, a importância de se preservar os ritos e as espiritualidades é parte da manutenção cultural que carece de proteção por parte de políticas públicas. Isso é necessário para que tais saberes não sejam apagados, como a própria história do Brasil já realiza ao nem mesmo mencionar esses povos e comunidades tradicionais na história oficial, povos tão antigos quanto o próprio Brasil.

 

“Precisa-se criar uma conscientização de que o nosso modo de vida não é errado, mas sim de uma riqueza enorme. Temos nossos cantos, nossa própria língua, diversas espiritualidades”, diz Sara sobre o anticiganismo e a violência etnico-racial contra os romani/ciganos. “O território para os romani está sempre relacionado a comunidade e a família. Geralmente eles transitam onde eles têm família e isso é fundamental, é muito importante. A comunidade e o território são duas coisas importantes”, relata Aline Mikos sobre o território não só ser uma morada, mas também a força que faz permanecer viva o modo de ser romani/cigano.

 

“Ser uma mulher cigana, de comunidades seminômades, semi andarilhas, que estão em transição, transacionar, principalmente em Goiás, é uma dificuldade muito grande. A gente tem a questão da propriedade da terra e da posse da terra aqui de uma maneira que não possibilita esse andarilhar, essa possibilidade de transitar nos territórios. Acho que isso, na verdade, não é igual para todas as pessoas, porque as mais ricas têm direito ao território e as pessoas mais pobres não. Essas têm que lutar bastante por aquele espaço em que ela está, mesmo se ela está ali durante muito tempo”, analisa Sara sobre a ideia de domínio da terra e a urgência de se ter espaços que tanto acolham os povos itinerantes, quanto políticas que possibilitem o direito à terra.

A pesquisadora ainda conta que seus avós trabalharam por muito tempo em cafezais no sul de Goiás e afirma que a pior questão do país é o agronegócio nesses espaços, especialmente, no que diz respeito ao trabalho escravo. Hoje vivem em Pontalina, Goiás, e apesar de ter acesso à terra vivem cercados de monoculturas que envenenam o solo, as águas e provoca a falta de chuvas.

“A terra é poder, é subsistência. E foi uma estratégia muito grande da hegemonia criar uma sociedade, no geral, de maioria na cidade. Porque um povo que não decide o que come, que tem que depender de um supermercado caro, com as coisas cheio de veneno para comer, é um povo que não tem poder de nada”.

afirma sobre a construção histórica do “êxodo rural”, que foi e é uma forma de expulsar as pessoas do campo e encurralá-las na cidade sob o controle do Estado.

“A terra é espírito, a terra tem poder, é onde a gente enterra nossos ancestrais, nos dá de comer, onde montamos nossas barracas, montamos nossas casas, onde a gente cria raízes, é onde tem rio que dá o peixe pra gente comer”. Sara ressalta que essa reverência à terra também se encontra no respeito aos ancestrais vivos, às anciãs e anciãos romani/ciganas, pois são eles que tem a maior sabedoria e experiência sobre a tradição, são eles que dividem a herança, às práticas de cura, passam os segredos espirituais aos mais novos como forma de preservar o legado e sobreviver no mundo gadjo (não romani). Por isso, a ideia de asilo para idosos não faz parte da concepção sociocultural deste povo, que vê como um ato de abandono e desrespeito à memória.

Para Sara, os povos do campo são todos povos tradicionais, porque estão segurando um modo de existência que a cidade não segura. A pesquisadora acredita na formação de uma frente ampla dos povos tradicionais na América Latina para trazer esse país de volta.

“Na medida que o Cerrado está bem, está vivo, nosso povo tradicional está bem e está vivo”, finaliza.

Arte em Destaque: Júlia Barbosa | Edição: Renato Silva.

Disponível em: https://favelaempauta.com/as-romani-ciganas-do-cerrado/?fbclid=IwAR0j4ysKGHKArJdYIJugfS6J5B4TsxILX2dmd8XHpdpUm6fwqS4PY_BsQls