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sábado, 24 de dezembro de 2022

A Pandemia da COVID-19 e a Potencialização das Desigualdades: Comunidades Ciganas e Meios de Comunicação

Trabalho também traz a dimensão das desigualdades na comunicação e saúde cigana

A Revista Comunicação e Sociedade, vinculada à Universidade do Minho, Portugal, publicou em seu volume 42 (Dezembro de 2022), texto abordando “A Pandemia da COVID-19 e a Potencialização das Desigualdades: Comunidades Ciganas e Meios de Comunicação”.

De autoria do Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo e da pesquisadora do universo Romani, ativista negra, Gabriela Marques, o trabalho pode ser acessado e baixado no seguinte link: https://revistacomsoc.pt/index.php/revistacomsoc/article/view/3825?fbclid=IwAR2nbaRRRncsrFNmK2jJpQOU2os0wcnYQFMtajVco5QH1x0Bp94XhZOn72U

O trabalho é um dos poucos que traz essa relação entre os povos ciganos, a comunicação e saúde no viés midiático e a pandemia da Covid-19.

Trazendo uma reflexão comparando abordagens de como a imprensa tradicional tratou o tema, especificamente, aprofundando a análise comparativa entre dois jornais, um espanhol e outro brasileiro.

Acompanhe abaixo o Resumo da publicação:

A Revista Comunicação e Sociedade, é vinculada à Universidade do Minho. Foto de reportagem realizada pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva sobre os povos ciganos e a pandemia

Os povos ciganos são uma minoria historicamente excluída, invisibilizada e perseguida nos diferentes países onde se encontram, especialmente se considerarmos o contexto de sua chegada à Europa e os processos de colonização desenvolvidos por esse continente.

Diante disso, trabalhamos neste texto os modos como as comunidades ciganas estão sendo impactadas pela pandemia da COVID-19, a partir de discussões das áreas da comunicação e da saúde, bem como de uma visão crítica dos processos mencionados anteriormente.

Refletimos teoricamente sobre como essas etnias são atravessadas por múltiplas opressões que as colocam em situação de desigualdade e qual o papel da comunicação em sua inclusão social ou na manutenção de sua exclusão. ]

Destacamos como sua invisibilidade e estereótipos históricos foram aflorados durante a pandemia, aprofundando as relações de desigualdades. A partir de um olhar crítico sobre as relações discursivas, analisamos duas reportagens jornalísticas publicadas ainda em 2020, uma, no Brasil, do jornal goiano O Popular, e outra, em Espanha, do jornal ABC de circulação nacional.

A culpabilização das populações ciganas pela disseminação do vírus e seu silenciamento enquanto sujeitos capazes de articular e de refletir discursivamente sobre suas condições e situações no contexto da pandemia foram alguns dos resultados encontrados, mostrando semelhanças nas representações dos povos ciganos no contexto ibero-americano.

Sobre os Autores

Aluízio de Azevedo Silva Júnior: 

Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais, Universidade Aberta de Lisboa, Lisboa, Portugal. Pós-doutorando do Laboratório de Comunicação e Saúde (LACES) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, Rio de Janeiro). Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8544-4134

Gabriela Marques Gonçalves:

Institut de Comunicació, Universitat Autònoma de Barcelona, Cerdanyola del Vallès, Espanha. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9964-7757

Como Citar

De Azevedo Silva Júnior, A., & Marques Gonçalves, G. . (2022). A Pandemia da COVID-19 e a Potencialização das Desigualdades: Comunidades Ciganas e Meios de Comunicação. Comunicação E Sociedade, 42, 259–273. https://doi.org/10.17231/comsoc.42(2022).3825

Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

Imagem 1 disponível em: https://www.carneiros.al.gov.br/artigo/semas-realiza-acao-de-prevencao-a-covid-19-nas-comunidades-cigana-e-quilombola 

Imagem 2 disponível em: https://www.abrasco.org.br/site/noticias/especial-coronavirus/a-inacreditavel-invisibilidade-que-cobre-os-povos-ciganos/47544/

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Por que é urgente a mídia e o Estado Brasileiro conhecerem os povos ciganos

Nota de Esclarecimento da Roda Cigana de São Paulo combate preconceito em plataforma do ABC

O Coletivo Roda Cigana de São Paulo – Rede Humanitária vem a público esclarecer o absurdo e a situação vexatória que uma família extensa de etnia cigana Calon do município de Taubaté passou, graças a uma infeliz atuação de uma conselheira tutelar do município de Santo André e três integrantes da guarda municipal, ocorrida no dia 30 de julho. Na ocasião, três crianças, uma de dois anos e dez meses, uma de um ano e oito meses e outra de oito meses, foram privadas do direito ao convívio familiar e comunitário. Essa “atuação infeliz” as deixou afastadas da família até o dia 09 de agosto, quando foram reintegradas às famílias por Decisão Judicial da Comarca de Taubaté.

O caso foi divulgado na Plataforma Viva ABC na página da rede social Face book, contemplando apenas a versão da conselheira e dos guardas municipais que a auxiliaram nesta “ação infeliz”, mas não ouviu o outro lado, um equívoco que precisa de reparação. Desta maneira, escrevemos este texto, como direito de resposta, para que o digníssimo veículo coloque a versão da família, que não foi ouvida na reportagem.

A situação ocorreu quando as mães de duas crianças e as avós das três que estavam com elas, vendiam panos de prato no Centro de Santo André e foram abordadas de forma truculenta pela Conselheira Tutelar que acionou a guarda municipal; sendo conduzido a uma delegacia de polícia, após a conselheira, “perceber”, quando foram tirar os documentos das crianças de suas bolsas, que traziam um valor em espécime em suas bolsas.

Preconceito - Descumprindo o que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA); à revelia do desespero da mãe e da avó; e sem ter o cuidado de procurar outros parentes como o pai, o avô e a própria mãe de uma delas, que não estava presente no ato por estar convalescente; a conselheira retirou de imediato as crianças  de suas legítimas tutoras, as enviando para uma casa transitória em Santo André. De lá, a partir de uma ordem da promotoria, foram recambiadas para a casa transitória de Taubaté, só retornando ao lar de suas famílias no último dia 09.

Na reportagem, a conselheira, a guarda municipal e o repórter, atuaram de maneira preconceituosa e estereotipada, inclusive afirmando que pareciam estrangeiras e que estariam fugindo de Taubaté. Ora, o direito de ir e vir são garantidos constitucionalmente. Viajar é fundamental para o comércio informal, em que a maioria das pessoas ciganas se dedicam tradicionalmente, pois ocorre nas praças em que clientes e recursos são maiores.

Por certo, as pessoas que aparecem na notícia desconhecem o universo cigano e a imensa diversidade cultural existente entre as etnias ciganas, aparentemente, praticando racismo institucional. Não sabem, por exemplo, que somos constituídos por três grandes troncos étnicos, os Calon, os Rom e os Sinti e seus inúmeros grupos e subgrupos. Tão poucos sabem que juntos constituímos em torno de 500 mil pessoas, espalhadas por todos os estados brasileiros, mas com línguas, costumes e culturas únicas e próprias, porém, diversas e com um histórico de diferenças regionais e temporais.

As crianças ciganas não estavam perdidas, em situação de rua ou sendo exploradas. Para as culturas ciganas, idosos e crianças são tratadas com muito amor, carinho e respeito. Os anciãos por serem nossa fonte de sabedoria, conselhos e experiências. As crianças são os nossos “bens” mais preciosos, pois elas significam a continuidade da família, da cultura e do estilo de vida de ser e estar cigano. O cuidado e a educação nas comunidades ciganas são coletivos, executados essencialmente pelas mulheres. As principais responsáveis pelas crianças ciganas são suas mães ou avós, assim como as tias e tias-avós. Para uma mãe cigana, deixar seus filhos com avós significa que os deixarão com aquela que é mãe duas vezes e, portanto, não haveria melhor cuidado.

Determinações sociais da saúde - A conselheira afirmou e o repórter confirmou, sem qualquer qualificação médica, que as crianças estariam doentes e aplicando diagnósticos médicos; inclusive, afirmando que as crianças estavam “dopadas”.  Depois perceberam que elas estavam sendo acompanhadas por tratamento médico, inclusive com os remédios delas na bolsa da mãe e da avó, o que a obrigou a rever sua posição. Entretanto, continuou a falar e o repórter a concordar sobre os dentes com cárie das crianças ciganas e que estavam sem condições de higiene.

A conselheira e o veículo de comunicação, deveriam se recordar que a saúde pública brasileira é bastante omissa e negligente para com grupos excluídos e em situação de vulnerabilidade, que sequer têm acesso a saúde primária, que dirá, à saúde bucal. Ademais, enquanto conceito, a saúde se faz a partir de múltiplas determinações sociais, em que a exclusão e a discriminação, são vetores que ampliam a situação de vulnerabilidade de grupos excluídos, mantendo-os longe do acesso aos serviços de saúde, muitas vezes, reforçando o já arraigado racismo institucional dessas instituições.

Além disso, foi esse modelo higienista adotado pelo estado brasileiro durante séculos na saúde pública, que levou ao fortalecimento de um estereótipo bastante nocivo sobre às pessoas e comunidades ciganas, contribuindo e fortalecendo com a exclusão social e a ausência de serviços cidadãos. Seria muito mais efetivo, se a conselheira tivesse auxiliado as mães a procurarem os serviços de inclusão social na saúde e acompanhá-las nesta burocracia, nem sempre fácil para quem desconhece as leis, como a Constituição Federal, que garante isonomia e equidade no tratamento para com todas as pessoas, independente de origem étnico-racial ou social.

Desconhecimento - Por outro lado, conselheira e guardas afirmaram, sem provas, que as crianças estariam circulando entre carros e adentrando em instituições bancárias. Perguntamo-nos e qualquer pessoa inteligente sabe que uma criança de oito meses ainda não sabe andar, e que as outras duas jamais seriam capazes de andar sozinhas em meio a carros. Qualquer banco, com todas as medidas de segurança, incluindo portas rotatórias com detectores de metal e seguranças armados à vista, nunca permitiriam crianças sozinhas adentrando em seus recintos.

Importante destacar que em nenhum momento a mãe e a avó se separaram das crianças ou as fizeram passar por situação de risco de vida. Repudiamos as falas levianas e recheadas de segundas intenções, acerca o recurso financeiro que as duas mulheres traziam em suas bolsas. Cabe questionar: é proibido andar com dinheiro na bolsa? Alguém sabe qual seria o destino desta quantia? Como sabem se não era inclusive para tratamento médico? Ou para a compra de materiais para vendas de comércio informal, especialmente, enxovais, uma tradição entre as mulheres ciganas?

Em que momento, a conselheira tutelar, o repórter ou mesmo a guarda civil se preocuparam em saber como o trabalho das mulheres ciganas foi impactado com a pandemia? Em saber que muitos acampamentos ciganos não têm acesso a água encanada em todas as barracas, que dirá saneamento básico? Será que não existem crianças de rua abandonadas na cidade de Santo André?

Por fim, esclarecemos que todas as ações equivocadas da conselheira e da guarda municipal de Santo André foram relatadas aos órgãos competentes, como o Ministério Público Federal, o Ministério Público Estadual e o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), que deverão adotar as medidas cabíveis

São Paulo, 13 de agosto de 2021,

ASSINA: – Coletivo Roda Cigana do Estado de São Paulo – Rede Humanitária


domingo, 12 de julho de 2020

Mídia e comunidades ciganas: a construção do imaginário ocidental e o (anti) ciganismo


Menino da etnia Calon assiste TV dentro da barraca enquanto almoça sentado no chão.
Foto: arquivo blog Estudos Ciganos Brasileiros

Por Aline Miklos, Gabriela Marques e Aluízio de Azevedo para o Blog Estudos Ciganos Brasileiros
Em maio de 2019, um deputado e seu assessor foram assassinados em plena luz do dia, no centro de Buenos Aires e em menos de 24 horas os assassinos foram presos. Até hoje não se sabe o verdadeiro motivo do crime, mas a origem étnica dos criminosos foi descoberta assim que foram presos e a partir de então a mídia e as autoridades políticas começaram a especular sobre o tema. A ministra de segurança da época, Patricia Bullrich, querendo mostrar a eficiência de seu governo, postou em sua conta de twitter a seguinte frase: "Todo clã mafioso cigano já está detido".

Esta afirmação serviu como uma carta branca a toda forma de preconceito. Assim, alguns jornais começaram a dizer que os ciganos costumavam andar armados. No principal jornal do país apresentaram um mapa mostrando onde estava concentrado o maior número de ciganos por bairro em Buenos Aires. Dois dias depois, a filha da pessoa que estava dirigindo o carro onde se encontrava o assassino foi à delegacia perguntar pelo seu pai e imediatamente presa por suspeita de participação no crime.

Com este evento, os jornais foram além: começaram a dizer que esta mulher era amante do assessor do deputado, que o crime era uma "questão de honra" e havia sido cuidadosamente premeditado. Diziam que crimes de honra eram corriqueiros nas comunidades ciganas. A foto desta mulher foi publicada em vários meios de comunicação e quanto mais ela dizia que não conhecia as vítimas, mais era condenada não só pela mídia, mas também pelos que destilavam comentários de ódio na internet. 

Por algumas semanas o número de casos de ataques racistas aumentou absurdamente no país e os ativistas que chegaram a ir a rádios e programas de televisão foram bombardeados por mensagens de ódio. A polícia não conseguiu provar nenhum vínculo entre uma das vítimas e a filha do motorista e logo ela foi liberada.

A partir deste caso, poderíamos perguntar: quais as nuances entre a relação das comunidades ciganas e a mídia? A mídia contribui para a construção estereotipada e racista do imaginário sobre as comunidades, culturas e pessoas ciganas?  Os modos como a imprensa as abordam é diferente dos modos com que os filmes, as músicas, as peças de teatro, os livros de literatura ou os textos e teorias científicas? É sobre essas e outras perguntas que pretendemos refletir nesse texto, sem a pretensão de esgotá-las.

A construção do imaginário ocidental e do imaginário brasileiro sobre @s cigan@s foi baseada tanto em estratégias de violência física, incluindo inúmeras leis anticiganas, como prisão, degredo, etc; como em estratégias de violência simbólica para sua opressão e exclusão. No campo simbólico, populações ocidentais criaram processos de identificação e diferenciação racistas e estereotipadores e construíram @ cigan@ como o seu “outro”, ao modo como construíram o outro oriental.

Não por acaso, os ciganos espanhóis atraíram tanto interesse de artistas e viajantes europeus no século XVIII e sua presença na sociedade espanhola era vista como a representação do Oriente no Ocidente, uma aproximação a um Outro que se acreditava distante (Sierra, 2017). Este processo de construção da outreidade também fez com que a maioria das narrativas construídas sobre a origem dos povos ciganos buscasse esta origem fora do que consideravam como "civilização", ou seja, fora do continente europeu. Desta forma, a teoria acadêmica sobre a origem indiana destes povos se encaixou perfeitamente neste cenário de exclusão.

Por seu estilo de vida e valores diferentes dos europeus, as pessoas ciganas  foram historicamente associadas a intrusos exóticos, sendo que uma das consequências desta construção simbólica é o fato de que a política ocidental tem sido genocida ao longo de séculos com a população romani, sendo o nazismo o exemplo mais cruel, quando 500 mil pessoas ciganas foram assassinadas, sob a justificativa de serem raças inferiores, ou não-humanos, se observarmos do ponto de vista da teoria decolonial.

Identidade e estereótipos - A questão da nomeação/classificação “ciganos” é um dos processos de opressão simbólica contra as pessoas ciganas. Essa realidade é reverberada nos dicionários de língua portuguesa e língua espanhola, que os classificam como “trapaceiros”. O mesmo ocorreu com a construção conceitual da palavra “Ciganos” ou da “cultura cigana”, o estudo de sua história, grupos e tradições. Os estudos ciganos, chamados também de “ciganologia”, de acordo com Moonen (2011) foi bastante anticigana durante séculos e auxiliou na construção deste imaginário racista e hiper negativo.

Um exemplo desta realidade é o escritor Grellmann, que foi traduzido para várias línguas. Segundo Moonen (2011, p. 132) o autor “só teve contatos esporádicos com alguns poucos ciganos e que, em lugar de realizar pesquisa de campo, preferiu citar outros autores, inaugurando assim uma prática que tornar-se-ia comum entre os ciganólogos”. 

“Grellmann costumava citar fontes jornalísticas sensacionalistas. Num capítulo sobre “Comidas e Bebidas Ciganas”, por exemplo, transcreveu a notícia de jornais de 1782 que acusava os ciganos de serem canibais, comedores de carne humana. Na época, 84 ciganos foram presos como suspeitos de terem assassinado e depois comido algumas pessoas desaparecidas: 41 foram decapitados, enforcados ou esquartejados. Em 1783, logo após a publicação do livro, que se tornou um best-seller mundial com edições em várias línguas, ficou provado que esta acusação não teve o menor fundamento e que os 41 ciganos mortos (e os outros ainda presos) tinham sido inocentes: as pessoas que supostamente tinham virado churrasco cigano, reapareceram mais vivas do que nunca (MOONEN, 2011, p. 132).

Bens simbólicos e a opressão social - E o que a imprensa e a mídia tem a ver com tudo isso? Como órgãos mediadores comunicacionais, formadores de opinião e divulgação de informações, notícias e outros produtos simbólicos das áreas artísticas e culturais, tem tudo a ver. Elas dialogam com a ciência e o imaginário coletivo, mutuamente, reforçando, criando e mantendo tais visões negativas e estereotipadas das pessoas ciganas. Em outras palavras, podemos dizer que essas indústrias do entretenimento são empresas que possuem os seus interesses próprios, sendo pautadas e pautando os fluxos, as informações e os temas importantes para a sociedade.

Assim, quando falamos sobre a representação das comunidades ciganas nos meios de comunicação, temos que situar o debate no contexto mais amplo da representação dos grupos minoritários nesses espaços. Vale mencionar que o tema está diretamente influenciado pelo modo como a mídia se organiza na maior parte do mundo, ou seja, como parte de grandes grupos empresariais, sejam eles exclusivamente do campo da comunicação - onde  o mesmo grupo é dono de emissoras de rádio, de televisão, de jornal impresso, revista e páginas na internet - ou não exclusivamente deste campo, onde  grupos empresariais de outros setores se infiltram nos meios de comunicação, vistos como  mais uma oportunidade de fortalecer seus negócios (RAMONET, 2012; CAGÉ, 2016).

Esta informação é importante porque nos ajuda a entender quem controla os meios de comunicação e, portanto, seus conteúdos. Classificados por muitos teóricos como o 4o poder, os meios de comunicação formam parte das estruturas de decisão, influenciando e sendo influenciada por elas. No caso, estamos falando de poder simbólico, o poder de fazer ver e fazer crer (Bourdieu, 1989). Assim como ocorre num mercado de bens físicos, os bens culturais em suas mais diversas linguagens (meios de comunicação, teorias científicas, cinema, música, literatura, teatro, etc), os bens culturais podem ser comparados a um mercado simbólico, em que são produzidos, circulados e consumidos e isso não apenas do ponto de vista da mídia, como de todo e qualquer ato discursivo (Araújo, 2002). Há negociações para que um ponto de vista seja aceito e legitimado. Há conflitos e tensões entre os interlocutores de um ato comunicativo para a prerrogativa da última palavra (Pinto, 2002).

Por isso, não é de se estranhar que seus profissionais, tidos como trabalhadores de perfil intelectual e/ou criativo, façam parte em sua maioria da sociedade majoritária (ROSS; Playdon, 2001); enquanto os grupos minoritários, incluindo os ciganos, ocupem lugares de interlocução marginais nas redes de comunicação tradicionais (Araujo 2002), devido a uma série de fatores e fontes de mediação, que são postas em prática e ação por meio de contextos sociais, econômicos, políticos e culturais que incluem, por exemplo, o histórico de racismo e a exclusão social (Silva Júnior, 2018).

A ausência de pessoas pertencentes a grupos minoritários como agentes destes meios de comunicação faz com que eles sejam representados, basicamente, de duas maneiras: por meio de estereótipos hiper negativos ou por meio da exotização e folclorização seja de sua aparência, seja de sua cultura e costumes (OLEAQUE, 2014). Quando nenhuma destas duas formas de representação acontece, o que se nota é a invisibilização, a ausência desses grupos, suas narrativas, filosofias, olhares sobre o viver e ver o mundo, mitologias e saberes; seja nos conteúdos informativos, seja nos conteúdos ficcionais (WILLEM, 2010), fazendo com que suas vozes e discursos sejam silenciados, assim como foram silenciados historicamente.

Este padrão pode ser aplicado às populações ciganas em diferentes países. Entre os estereótipos negativos podemos destacar, tanto nos conteúdos ficcionais, como não-ficcionais, que as pessoas ciganas estão sempre relacionadas à pobreza ou ao mundo do crime, a conflitos, assassinatos, brigas, roubos e outras atividades ilegais. No caso do conteúdo informativo, a situação é ainda mais grave já que diferentes códigos deontológicos e éticos da profissão de jornalista orientam a não mencionar a origem étnica das pessoas mencionadas nas matérias (GONÇALVES, 2019). Qual a diferença em mencionar que um roubo foi feito por um cigano ou por um branco? A mesma que, na lógica do jornalismo comercial, faz com que negros flagrados com drogas sejam traficantes enquanto brancos sejam usuários. Por isso, não é possível encontrar nenhuma manchete que diga “Três brancos são presos após roubo de carros”.

Folclorização x Ativismo - Já os casos de folclorização se dão, por um lado, quando os meios de comunicação dão destaque a algum membro da comunidade cigana devido à sua habilidade em alguma área: a dança, a música, o teatro, o esporte. Estes sujeitos são destacados como portadores de um dom e uma exceção em suas comunidades. Por outro lado, a exotização acontece como a outra face da moeda do desconhecimento. Neste sentido, os sujeitos ciganos são representados pelo mistério, como se fossem portadores de tradições e costumes que fogem do entendimento da sociedade majoritária, mas que são admirados por  representarem algo distante de sua realidade.

No Brasil, podemos exemplificar estes casos pela relação fácil que a maioria das pessoas faz entre ser cigano e ser livre, ou entre ser mulher cigana e ser atraente e conquistadora, ou entre ser cigano e ser destemido. Estes estereótipos estão presentes em diversas músicas brasileiras e, de algum modo, na clássica telenovela Explode Coração. Quando não se encaixam em nenhum dos exemplos mencionados acima, as populações ciganas estão simplesmente ausentes dos meios de comunicação, esquecidas, silenciadas e invisibilizadas na complexidade de seus modos de ver e viver o mundo. Tudo isto como um espelho da vida cotidiana, influenciando e sendo influenciado pelo dia a dia de discriminação e preconceitos que o Anticiganismo produz.

Outra  tendência dos meios de comunicação é a  homogeneização das pessoas romanis, sob o termo genérico “ciganos”, do mesmo modo que ocorreu com os povos indígenas e os povos negros, sendo classificados independentemente de diferenças culturais, linguísticas, de costumes e organização. Mas é importante destacar que os diferentes grupos ciganos não seguem o mesmo processo de construção de suas culturas e identidades.

Não há uma essência cultural cigana única, mas sim múltiplas identidades, com distintos grupos, subgrupos, que variam conforme a região e o país onde se movimentam. Os diferentes grupos ciganos costumam se autoidenficar como Rom, Kalon ou Sinti, grupos que possuem costumes, línguas e tradições diferentes e devem ser entendidos em sua diversidade e não como um homogêneo único, como costuma ocorrer nos meios de comunicação, ampliando os estereótipos acerca dessas populações. 

No decorrer dos tempos todos estes grupos se espalharam também por outros países da Europa e foram deportados ou migraram inclusive para as Américas. Diante desta realidade, resta às comunidades ciganas buscar espaços alternativos para amplificar suas vozes. Por isso, nos últimos anos foi possível ver uma grande atuação de ativistas ciganas e ciganos na internet, fazendo uso especialmente das redes sociais .

Um exemplo poderia ser a organização "Gitanas feministas por la diversidad" que possui contas em todas as redes sociais e, inclusive, oferecem cursos online sobre feminismo cigano. Na América Latina, o coletivo #OrgulhoCigano mantém uma live todas as semanas no Instagram sobre temáticas relacionadas às comunidades ciganas. Existem também iniciativas que pretendem monitorar o discurso de ódio tanto nos meios de comunicação quanto nas redes sociais, como é o caso de Romani Pativ, ligada à Plataforma Khetane, da Espanha.

Estas iniciativas se colocam não só como um espaço alternativo para fazer frente ao discurso da mídia hegemônica, mas também como uma possibilidade de construção de redes entre ciganas e ciganos de diferentes partes seja em nível nacional, seja internacional. Isso possibilita não só o seu fortalecimento enquanto grupo, como também força os meios de comunicação tradicionais a mudar pouco a pouco seus discursos, crítica tão necessária à mídia já que, segundo os próprios relatores sobre questões das minorias da ONU, há um uso generalizado de estereótipos nas representações dos ciganos, suas culturas e identidades.


Referências Bibliográficas

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BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Editora Bertrand do Brasil, 1989.
CAGÉ, Julia. Salvar los medios de comunicación. Barcelona: Editorial Anagrama, 2016.
GONÇALVES. G. M. Medios de Comunicación y Cohesión Social: Consumo mediático y cultural de la población gitana de Cataluña. Tese de Doutorado. Universidad Autónoma de Barcelona: Cerdanyola del Vallés, 2019.
MOONEN, F. Anticiganismo: Os ciganos na Europa e no Brasil. Recife, PE: 2011. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/ciganos/a_pdf/1_fmanticiganismo 2011.pdf
OLEAQUE, Joan M. Los gitanos en la prensa española – Variación y reiteración de los planteamientos de los diarios ABC, El País y La Vanguardia en la representación de los gitanos como grupo (1981-2010). Tesis Doctoral Universitat de València: Valencia, 2014.
ONU – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Conselho de Direitos Humanos Genebra, 2015: A luta contínua das comunidades ciganas em todo o mundo - Novo relatório da perita das Nações Unidas sobre as minorias – Tradução livre. Genebra: 2015.
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PINTO, M. J. Comunicação e Discurso: Introdução à Análise de Discursos. São Paulo: Hacker Editores, 2002.
Silva Júnior, A. A. (2018). Produção Social de Sentidos em Processos Interculturais de Comunicação e Saúde: a apropriação das políticas públicas de saúde para ciganos no Brasil e em Portugal. (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde, ICICT, FIOCRUZ. Disponível em: https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/33131
RAMONET,  Ignacio. A explosão do jornalismo: das mídias de massa à massa de mídias. São Paulo: Publisher Brasil, 2012.
ROSS, Karen; PLAYDON, Peter (Ed.). Black Marks: Minority Ethnic Audiences and Media.
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SIERRA, María. Estereotipos gitanos del siglo XIX – un invento romántico. Andalucía en la
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WILLEM, Cilia. ‘Roots and Routes’ - Young people from diverse ethno-cultural backgrounds
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