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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Artista de MT transforma herança cigana em arte reconhecida no mundo

 

Exposição organizada pela ONU reúne e reconhece artistas minoritários de vários países.

Helena Werneck - Especial para o GD - redacao@gazetadigital

O artista cigano mato-grossense Aluízio de Azevedo, 46, tem seu trabalho reconhecido internacionalmente com mostra em Genebra, na Suíça. Autodidata nas artes plásticas, ele teve obras selecionadas para a exposição “Arts, Minorités & Droits Humains” (Artes, Minorias e Direitos Humanos), na Organização das Nações Unidas (ONU), que foi aberta ao público no dia 31 de julho e segue exposta até o fim de agosto.

Nascido em Tangará da Serra e radicado em Cuiabá, o pintor, cineasta, jornalista, escritor e pesquisador transformou as raízes ciganas, a infância vivida na zona rural e a paixão pela arte em uma trajetória reconhecida dentro e fora do Brasil.

A arte entrou na vida de Aluízio antes mesmo da alfabetização. Ainda criança, aos três ou quatro anos, ele insistia para que os pais lessem contos e histórias ilustradas. Entre livros como Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho, nasceu um encantamento pelas imagens que, décadas mais tarde, atravessaria pinturas, filmes, poemas, contos, crônicas e pesquisas acadêmicas.

"Eu chorava para os meus pais lerem histórias para mim. Meu pai tinha uma coleção de livros dos clássicos da literatura. Eu ficava vendo aqueles desenhos, achava aquilo incrível e isso me inspirou muito", recorda.

O interesse pelo desenho ganhou força durante os primeiros anos escolares. Já a dedicação efetiva à pintura começou por volta dos 23 ou 24 anos. Aos 26, ele passou a encarar a produção artística de maneira mais profissional. A formação, no entanto, aconteceu principalmente pela experimentação, pela leitura e pela observação.

"Eu sempre fui muito autodidata. Nunca fiz nenhum curso. Já li muito sobre arte, adoro ler sobre história da arte e conheço os movimentos artísticos europeus. Alguns me inspiram muito, assim como a arte regional", revela.

Uma das pessoas decisivas nesse processo de aprofundamento e profissionalização foi a artista plástica Eliana Mara. A convivência com a pintora mostrou que aquilo que ainda ocupava o espaço de passatempo poderia se transformar em profissão.

"Ela me incentivou muito e me inspirou demais a começar de uma forma mais profissional, e não ser somente um hobby", conta.

Embora a pintura ocupe lugar central em sua trajetória, Aluízio se define como um multiartista. Além das artes visuais, atua na literatura, no cinema, na pesquisa acadêmica e no jornalismo.

"Eu pinto, desenho, faço poemas, contos e crônicas, escrevo, faço cinema, sou especialista em cinema, trabalho com roteiros e já fiz algumas consultorias para o teatro. Gosto muito de todas as artes", detalha

O jornalismo acabou se tornando a profissão responsável por garantir estabilidade financeira, mas ele admite que gostaria de viver exclusivamente da produção artística. "Se eu pudesse, seria só artista. Porém, é muito difícil se manter no mercado artístico e na indústria cultural, principalmente para os artistas independentes".

Educação abre portas 

A história de Aluízio começou em uma comunidade rural de Tangará da Serra, onde passou a infância sem energia elétrica e água encanada. A rotina era sustentada pela agricultura de subsistência e um rádio a pilha era praticamente o único contato com o mundo exterior.

"A gente vivia da subsistência daquela comunidade rural. Plantava, mas não tinha nada de luxo. A única tecnologia era um radinho", relembra o artista.

O caminho entre aquela realidade e a atuação profissional nas artes foi construído principalmente por meio da educação. Seus pais voltaram a estudar já adultos e se tornaram professores, mudança que transformou a realidade da família.

"Meus pais conseguiram romper essa bolha econômica e social. Estudaram depois de adultos. Minha mãe virou professora e meu pai também. Eu fiz graduação, mestrado, especialização em cinema, doutorado e pós-doutorado. A educação e a ciência foram abrindo portas e lugares que ajudaram a construir a minha trajetória como artista."

Arte como resistência

Tela Bandeira Cigana Revisitada é uma das obras que estão na exposição.

Sua produção artística também dialoga diretamente com a identidade cigana e com a luta contra o preconceito.

"Sair desse lugar de exclusão social, ainda mais sendo cigano e trabalhando essas questões, é muito desafiador. Existe um racismo estrutural muito forte, preconceito e um imaginário social que a gente precisa quebrar", pontua o jornalista.

Para Aluízio, artista vai muito além de produzir belas imagens.

"Ser artista, para mim, é ser alguém visionário, que consegue olhar à frente do seu tempo, fazer leituras e críticas sociais, culturais, econômicas e políticas. O artista consegue transcender a mera realidade."

Carreira e trajetória

Um dos marcos de sua carreira foi o lançamento do documentário Calon: Olhares Ciganos, em 2012, obra que ampliou sua atuação no audiovisual. A carreira também o levou a Brasília, onde trabalha como servidor concursado do Ministério da Saúde, e ao Rio de Janeiro, onde realizou doutorado e pós-doutorado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), antes de retornar a Mato Grosso.

O reconhecimento internacional veio em 2023, quando teve trabalhos selecionados para uma mostra promovida pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, voltada a artistas pertencentes a grupos minorizados.

"Ter o meu trabalho reconhecido internacionalmente é uma maravilha, é uma consagração. É também uma forma de divulgar, estar em uma galeria internacional, conhecer outros artistas e fazer trocas culturais."

Mato Grosso é cultura

Ao falar sobre a produção cultural mato-grossense, Aluízio afirma que o Estado possui artistas capazes de ocupar qualquer circuito nacional ou internacional, mas ainda enfrenta dificuldades relacionadas ao financiamento e à valorização da cultura.

"Os artistas regionais, cuiabanos e de Mato Grosso são artistas de primeira linha. Não perdem em nada para produções nacionais e internacionais", garante.

Aluízio Indica

Questionado sobre quais artistas recomenda ao leitor conhecer, ele cita três nomes que considera fundamentais para compreender a arte produzida em Mato Grosso.

João Sebastião Costa (1949–2016) foi pintor, desenhista, professor e um dos maiores representantes das artes plásticas mato-grossenses. Conhecido pelas pinturas que retratam a fauna, a cultura popular e, especialmente, a onça-pintada, tornou-se uma referência para diferentes gerações de artistas. "O Sebastião Costa me toca muito. Trabalhei com ele em uma exposição em homenagem à Maria Taquara. Ele me inspira demais."

Gervane de Paula (1961–) é um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira produzida em Mato Grosso. Pintor, escultor e curador, leva para suas obras temas ligados ao Pantanal, ao Cerrado, às questões sociais e à identidade regional. "Gervane de Paula é muito maravilhoso."

Adir Sodré (1962–2020) foi um dos artistas mais importantes da chamada geração contemporânea das artes plásticas mato-grossenses. Suas pinturas, marcadas por cores vibrantes e forte crítica social, tornaram-se referência nacional e ajudaram a consolidar Mato Grosso no circuito artístico brasileiro. "O Adir Sodré me inspira muito. É um artista incrível."

"A gente não perde nada para o circuito nacional. O que temos é menos dinheiro, menos reconhecimento e menos incentivo financeiro", conclui.

Exposição

Exposição abriu em 30 de julho e permanece até 30 de agosto no Lago Quai Wilson.

A exposição internacional “Arts, Minorités & Droits Humains” (Artes, Minorias e Direitos Humanos) é pública e apresenta o trabalho de 30 artistas pertencentes a grupos minoritários e oriundos de diversos países.

Todos os 30 artistas convidados, incluindo Aluízio de Azevedo, que também é ativista e Conselheiro Estadual de Promoção de Igualdade Racial de Mato Grosso (CNPIR/MT), foram vencedores de uma das cinco edições do prêmio para artistas minoritários, que também é organizado pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU. O artista cigano brasileiro recebeu menção honrosa no prêmio em 2023.

A exposição estará disponível aos visitantes do lago a partir do dia 31 de julho e seguirá aberta até o dia 31 de agosto de 2026. 

A organização do evento programou visitas guiadas nos dias 02 (15h às 16h, horário local/) e 04 de agosto (18h à 19h, horário local).

Disponível em: https://www.gazetadigital.com.br/editorias/cidades/artista-transforma-heranca-cigana-em-arte-reconhecida-no-mundo/854686

terça-feira, 28 de julho de 2026

Artista Cigano de MT participa de Exposição Artes Minorias e Direitos Humanos da ONU

 
Exposição será no Lago de Genebra, Suíça, entre 31 de julho e 31 de agosto

O multiartista cigano de etnia Calon de Mato Grosso, Aluízio de Azevedo, é um dos 30 artistas convidados a integrar a exposição internacional “Arts, Minorités & Droits Humains” (Artes, Minorias e Direitos Humanos), uma exposição pública que apresenta o trabalho de 30 artistas pertencentes a grupos minoritários e oriundos de diversos países.

Todos os 30 artistas convidados, incluindo Aluízio de Azevedo, que também é ativista e Conselheiro Estadual de Promoção de Igualdade Racial de Mato Grosso (CNPIR/MT), foram vencedores de uma das cinco edições do prêmio para artistas minoritários, que também é organizado pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU. O artista cigano brasileiro recebeu menção honrosa no prêmio em 2023.

Realizada pelo Escritório de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), a vernissage de abertura do evento ocorrerá às 18h (horário local) dia 03 de agosto (segunda-feira), a beira do Lago Wilson (Quae Wilson), em Genebra (Suiça).

A exposição estará disponível aos visitantes do lago a partir do dia 31 de julho e seguirá aberta até o dia 31 de agosto de 2026.

A organização do evento programou visitas guiadas nos dias 02 (15h às 16h, horário local) e 04 de agosto (18h à 19h, horário local).

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Artista de MT é convidado a apresentar curta sobre povos ciganos em exposição da ONU na Suíça

Aluízio de Azevedo vê na arte uma forma de desmitificar os estereótipos e preconceitos contra a cultura cigana e e a comunidade LGBTQIAPN+.

Por Jardes Johnson, g1 MT

05/11/2024 21h52  Atualizado há 13 horas

O multiartista mato-grossense, Aluízio de Azevedo, de 44 anos, natural de Tangará da Serra, a 242 km de Cuiabá, é um dos convidados da Exposição Artes Minorias e Direitos Humanos, que ocorrerá no Centro de Artes da Escola Internacional de Genebra, a partir desta quarta-feira (6), na Suíça. O evento é promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Leia aqui também reportagem publicada no site da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT).

O convite surgiu após Aluízio ter se inscrito no Concurso Internacional de Arte para Artistas Minoritários da ONU, em 2023. Ele expôs cinco telas e exibiu a websérie 'Diva e as calins de Mato Grosso', feita em conjunto com a Associação Estadual das Etnias Ciganas (AEEC-MT), que retrata a vida de mulheres ciganas do estado em cinco episódios, sendo premiado pela comissão de curadores com menção honrosa (assista ao teaser abaixo).

Teaser da websérie 'Diva e as calins de Mato Grosso'

Este ano, a ONU está realizando uma retrospectiva com 22 vencedores das três edições do concurso, entre eles, o Aluízio. Desta vez, o diretor, roteirista e artista plástico apresentará duas obras, o curta-metragem 'Caminhos Ciganos', que aborda a vivência da comunidade cigana em locais como Portugal, França e em Mato Grosso, e a tela 'Totem de Mim LGBTQIAPN+ Cigane'.

Tela 'Totem de Mim LGBTQIAPN+ Cigane' — Foto: Aluízio de Azevedo

Aluízio, que é cigano da etnia Calon, contou ao g1 que o contato com a arte vem desde cedo, sempre aliado à cultura cigana. A família dele passou cerca de 80 anos como nômades até fixar residência em Mato Grosso. Segundo ele, cerca 400 familiares e pertencentes da comunidade estão espalhadas pelos municípios. Hoje, ele vê na arte, uma forma de desmitificar os estereótipos e preconceitos contra os povos ciganos.

"Existe uma visão muito estereotipada de que os ciganos são bandidos, trapaceiros que vão roubar, então poder demonstrar que os ciganos têm uma cultura milenar vinda do Egito, que por onde passamos, fomos agregando coisas culturais, levar a nossa arte, é maravilhoso", declarou.

Bastidores do curta-metragem 'Caminhos Ciganos'

Lideranças Calon da Comunidade Cigana em Tangará da Serra. Foto: Karen Ferreira.