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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Filme Ciganenses aborda culturas cigana e circense

Patrocinada pela Funarte, obra mostra a tradição artística da família Fernandes, com foco na palhaçaria

Reportagem / Entrevista Especial, por Aluízio de Azevedo

Fotos: Barbara Jardim

Quem já foi criança um dia, sabe que um dos maiores desejos das pequenas é ir embora com o circo. Artes, artistas, palhaços, mágicos, picadeiros, lonas e muita luz e brilho do circo, uma das mais antigas formas de organização artística do mundo, fascinam e fazem a felicidade também de adultos e idosos, tornando os nossos dias mais alegres e menos enfadonhos.

Leia aqui entrevista completa com o diretor do filme, Roy Rogeres

Pois foi essa rica experiência de conviver com um circo que vivenciei durante cinco dias do mês de agosto (22 a 26), quando acompanhei as gravações do projeto “Ciganenses”. A produção é dirigida e roteirizada pelo multiartista de etnia cigana Calon, Roy Rogeres Fernandes Filho. Roy foi essa criança que nasceu e cresceu no circo da sua própria família, iniciando na arte da palhaçaria muito cedo.

Acesse a página de Cinagenses no Insta e acompanhe as novidades da produção

A família Fernandes é uma das precursoras do circo no país e hoje uma das maiores dinastias circenses, contando com mais de 10 circos, entre eles o Circo do Palhaço Futuca, o qual participei das gravações e pude conhecer o seu líder, Daniel Fernandes e toda a comunidade itinerante que o acompanha, durante sua estadia na cidade de Gravatá, em Pernambuco (PE).

Produção enfatiza a relação histórica e o entrelaçamento entre os ciganos de etnia Calon e as artes circenses desde os tempos coloniais

A gravação no circo do Palhaço Futuca, também uma das personagens principais da obra, foi a segunda etapa das captações. A primeira etapa ocorreu entre os dias 08 e 12 de agosto junto ao Circo Holiday, na cidade Valença do Piauí, no Piauí (PI), sendo este um dos primeiros circos da família Fernandes. Antes tiveram o Circo Chibiu, Circo Uberlândia, o Arte Palácio e depois foram formando-se e resultando nos demais.

As despesas para minha participação no evento e de outras duas pessoas ciganas da equipe, o design gráfico, Danillo Kalon e a social media, Sara Macedo, foram efetuadas pela Coordenação de Acesso e Equidade (Caeq) da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) do Ministério da Saúde (MS), que atua na pauta da saúde circense e cigana no órgão.

Equipe do Filme Ciganenses entrevista o palhaço de etnia Calon, Chapolin Colorado, do circo do Palhaço Futuca, que também é do mesmo grupo étnico

Re-existência e pioneirismo dos ciganos circenses

Não é por acaso, que tanto os povos ciganos, quanto os trabalhadores circenses, convergem na Coordenação das políticas de equidade do MS e do SUS. Além desse imaginário fantástico e romantizado do circo, há outros bem reais e negativos, que caminham lado a lado. Em tempos de globalização, streamings e redes sociais, essas comunidades - empresas enfrentam diversos problemas para manterem a cultura circense, levando alegria aos rincões mais distantes, onde as produções culturais não chegam.

Como bem destacou Roy Rogeres, que também é pesquisador do tema e um dos principais defensores da pauta circense e cigana no país, são resiliência e re-existência. “Importante destacar que os governos, as cidades, tenham olhares mais sensíveis e acolhedores para os povos circenses e ciganos, que enfrentam essa dupla perseguição e preconceito, mesmo querendo levar aquilo que há de melhor para as pessoas, que é a cultura, a alegria, as artes, a ludicidade. Esperamos conseguir contribuir, ainda que minimamente, para mostrar o quanto o circo é grandioso e rico, mas, ao mesmo tempo, atravessa e passa por desafios inúmeros para se manter em pé”.

Neste sentido, cultura, cinema, artes e culturas circenses e ciganas e saúde, se conjugam no filme Ciganenses para “projetar luz para a cultura do circo promovida por ciganos”. Na avaliação do diretor, “infelizmente a literatura não tem dado conta e não deu conta até aqui de explicitar essa relação diretamente entrelaçada entre os ciganos e o circo”.

Trabalhadores levantando a lona do Circo: Trabalho braçal para levar a leveda das artes circenses.

“Defendo que nós fomos os precursores do circo no Brasil desde a colonização, uma vez que a gente já fazia circo e arte durante o período colonial, nas praças coloniais. Não tem como a gente falar de circo com justiça social, sem falar da contribuição dos ciganos para as artes circenses no país”, enfatiza.

Outro objetivo principal da obra é registrar e documentar a história e a memória da família Fernandes, de origem cigana Calon, que lidera em torno de 10 circos no Brasil, que vêm resistindo ao longo de décadas.

“Apresentaremos no filme a cultura do circo no Brasil promovida pela resiliência e resistência da família Fernandes que conta hoje com todos esses circos e especialmente a tradição da palhaçaria, que na nossa família é o grande forte. No meio circense, nossos palhaços são respeitados. São inspirações para palhaços no Brasil inteiro, então, queremos mostrar a dupla cultura cigana e circense, especialmente a tradição da palhaçaria”, revela Roy.

A relação entre o circo e os povos ciganos não ocorre apenas no Brasil. Mas o ineditismo na obra produzida por Roy, é justamente mostrar que entre a etnia Calon as artes circenses também estão profundamente entrelaçadas. “Na América do Sul e em outros países têm muitos circos feitos por pessoas ciganas, a grande parte feita por etnias Rom e outras, mas os Calon também estão nesta vanguarda e é isso que a gente quer demarcar o espaço dos ciganos da etnia Calon nos circos do Brasil, enquanto fundadores e mantenedores desta tradição”.

A dinastia de Maria Cigana e João Cartomante

Artistas do Circo do Palhaço Futuca, durante sua temporada na cidade de Gravatá

Segundo Roy, os Fernandes começaram a fazer circo de 1940, 1950 pra cá. Primeiro com a apresentação de cinema em praças públicas, com projeções fílmicas, e a labuta com animais e nessas praças, passando o chapéu antigamente, até ter o circo como conhecemos hoje em formato de lona.

“Em nossa família, o circo começou com a dona Maria Cigana, minha bisavó, junto como meu bisavô, o João Cartomante, que era caixeiro viajante e trabalhava com artes. A partir da perseguição e injusta morte dele, que é hoje um beato na cidade de Cocal (PI), D. Maria Cigana se envereda pelo lado do circo, com suas filhas e filhos, especialmente a mais velha, Josefa Fernandes, conhecendo um pouco mais das artes, pois já eram bons cantores, completos artistas, dançarinos. É muito talento e resistência, é muita resiliência”, relata o multiartista Calon.

A película, que tem previsão para estrear no segundo semestre do ano que vem, mostra também as dificuldades para manutenção da tradição circense nos dias de hoje

Entre as personagens principais do filme estão vários palhaços que pertencem à Família Fernandes. Entre eles, “o Palhaço Sapatão, que primeiramente era o Tio Rogério que fazia, depois passou para o irmão dele, o tio Cícero e agora é o Kenny Hollyman quem faz, o filho do Cícero; o palhaço Futuca, que é o Daniel, o palhaço Pipoquinha/Chapolin, o Wanderson; e o Beto Chameguinho, que hoje trabalha no Parque Beto Carreiro World. O Palhaço Chameguinho é um dos grandes nomes do circo nacional, uma das principais referências, tendo sido eleito em diversos concursos e páginas especializadas, o melhor palhaço do Brasil, por diversas vezes”, explica Roy, acrescentando que:

“Nós temos também a intenção de gravar com o palhaço Safadinho, que tá hoje em São Paulo e pertence à família e alguns outros, para além, claro, daquelas que conviveram e que desde então estão juntos fazendo o circo acontecer, suas esposas, as mães, como a tia Edna e a tia Lina, que são mulheres que dedicaram mais de 40 anos as artes do circo, além da nossa matriarca, a tia Iracilda, que mora em Barreiras, uma grande artista, com muita memória”.

A arte da palhaçaria é a especialidade da família Fernandes

Financiamentos e Apoios - O projeto Ciganenses foi aprovado no Edital Retomadas na categoria Circo da Funarte, com previsão de finalização até dezembro de 2025. “Para além disso, nós resolvemos que é muito importante buscar financiamento para finalização do filme, o que demanda um custo maior. Agora terminadas as gravações primeiras, a gente vai em busca de apoio para novas gravações e a finalização fílmica. Tivemos o apoio do Ministério da Saúde e do Ministério da Igualdade Racial para participação de pessoas que moram em Estados distantes, como o palhaço Beto Chameguinho e dos membros do Coletivo Ciganagens, o Aluízio, a Sara e o Danilo pudessem participar presencialmente, o que foi de suma importância”, conclui o diretor.

Saúde Cigana e Saúde Circense – As comunidades e trabalhadores circenses, assim como os povos ciganos, são acolhidos no Sistema Único de Saúde (SUS), a partir das políticas de equidade. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Povo Cigano/Romani (Portaria do Ministério da Saúde 4348 de 28/12/2018) ampara os povos ciganos e determina o atendimento diferenciado as pessoas das etnias ciganas presentes atualmente no Brasil. São elas os troncos étnicos Calon, Rom e Sinti e seus subgrupos.

Também no âmbito do SUS, a Portaria do MS 940 de 2011, que dispensa circenses, trabalhadores de parques e itinerantes e povos ciganos de apresentar comprovação de endereço para serem atendidos nos serviços do SUS. Atualmente tanto a pauta da saúde cigana, quanto da saúde circense, está sob os cuidados da Caeq/Saps/MS. Saiba mais no link: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude .

Ficha técnica

- Patrocínio: Funarte / Edital Retomadas – Categoria Circo

- Direção Geral: Roy Rogeres Fernandes Filho

- Fotografia e Montagem: Letícia Ribeiro

- Som Direto: Ronne Portela

- Stil e fotografia: Bárbara Jardim

- Supervisão de montagem e pesquisa e colaboração imagens: Aluízio de Azevedo

- Coordenação de Produção: Luanna Marylack

- Produção: Mariana Passos

- Assistente de Produção: Carla Lumena

- Redes sociais: Sara Macêdo

- Artes/designer: Danillo Kalon

- Condução e Assistência: Valney Transportes e Turismo

- Assistência de produção e direção: Irisma Fernandes

- Chefe de cozinha: Kleber Luis Souza Júnior

- Apoios: Ministério da Saúde e Ministério da Igualdade Racial



Entrevista com o diretor cigano e circense Roy Rogeres

O multiartista cigano e circense, Roy Rogeres, produz longa-metragem abordando as culturas cigana e circense. Obra é patrocinada pela Funarte.

Leia Reportagem especial sobre a produção

Aluízio: Pode falar um pouco mais sobre este entrelaçamento entre a cultura cigana e o circo?

Roy: Há muitos elementos culturais semelhantes entre a cultura do circo e da cultura cigana. Notadamente, a gente percebe primeiro pela vida na itinerância, a paixão e a valorização das lonas, quer seja como barraca, como circo, como moradia ou para um breve pouso. Em ambas, as artes, a dança, a música e o teatro estão presentes, porque a gente sabe que os ciganos são exímios artistas, artistas completos, com charme e presenças especiais que os diferem claramente.

Fomos também os primeiros domadores de animais, a lidar por exemplo com leões, onças, com cavalos, com macacos, animais de grande porte, a domar esses animais e a mostrar em espetáculos. Eram meus tios e meus familiares que aprendiam pela via da tradição, com meus avós, e ensinavam outras pessoas a serem domadores, a manter essa função artística. Então, primeiro uma facilidade muito grande na lida com os animais e isso demonstra a nossa natureza totalmente entrelaçada ao mundo animal, que somos, o respeito à natureza, o entendimento dos outros animais, a coragem, o respeito, e acima de tudo, o talento inato.

Além disso, o fascínio pela itinerância, pela natureza, por estar em vários lugares distintos, viajar, caminhar pelas estradas a onde poucos se aventuram, e conhecer outros mundos e culturas, não ter medo de chegar até onde não tinham passado ou conhecido anres. Outra característica que podemos dizer é a alegria, comum, entre povos ciganos e circenses. Em nossos meios ciganos e circenses, a alegria ela é muito maior. A criatividade é muito grande também, tudo se transforma para o povo cigano circense em algo, em algum elemento da necessidade do circo, algo novo e necessário na engrenagem. Além disso, fazem de um tudo quanto aos equipamentos circenses, desde os figurinos e adereços, aos bailados, números, funções de empresários e negociantes.

Precisamos ver o circo como uma empresa, como uma engrenagem que requer uma série de funções e que os ciganos desempenham com muita competência todas elas. Desde ser o dono do circo, a ser palhaço, ser secretário, articular as burocracias para que possam acessar os espaços e as cidades. São uma série de funções que os ciganos desempenham de maneira magistral e que serve de referência e exemplo para os circenses não-ciganos. Isso é lindo e motivante de perceber ao acessar os dois universos circenses, ciganos e não ciganos. São nítidas as diferenças, e não é que os não ciganos não sejam também divinos no que fazem, é que do lado de cá tem um quê mágicos e especial, possível de se notar e admirar.

Aluízio: Por que registrar o circo?

Roy: É importante fazer filme sobre o circo, primeiro porque dizem que o circo é o ‘primo pobre da cultura’, apesar de ser talvez a linguagem mais rica, porque ela abrange teatro, cinema, as artes, a música, ou seja, não faz sentido permanecer sendo assim, já que a cultura circense congrega diversas linguagens, ou seja, é muito rica, mas é pouco valorizada, pouco incentivada, pouco financiada e o nosso foco é então trabalhar com circos promovidos e feitos por ciganos tanto para demarcar esse espaço e documentar, quanto pela luta por reconhecimento cultural, visibilidade do circo-cigano e pela cidadania plena para seus fazedores.

Esta é a nossa grande responsabilidade mostrar que no Brasil, assim como no mundo, os ciganos foram também são responsáveis, sendo os precursores dessas artes, apesar de até então não terem levados muitos créditos. Aludem muito a cultura circense a personagens estrangeiros, a outros grupos, de nações, mas no Brasil nós temos o circo sendo feito por ciganos, ainda que não com lona, desde a colonização o circo está presente, fomos dos primeiros a chegar, então, não é difícil reconhecer esse pioneirismo. A cultura brasileira necessita reconhecer e valorizar o circo feito por ciganos, agindo contra o apagamento cultural e em favor do reconhecimento desta tradição entre nós.

De etnia Calon, os irmãos Fernandes: Irisma (Tati), Roy e Luana nasceram no circo

Aluízio: Abordar o circo a partir da etnia Calon é algo inédito?

Roy: Estamos produzindo uma obra inédita no Brasil, que é um filme inteiramente focado na cultura circense, a partir da cultura cigana, trazendo esse entrelaçamento entre essa dupla cultura. Por si só, a cultura cigana já é alvo de perseguição e de preconceito, assim como a cultura circense também é. Ou seja, esses preconceitos e perseguições acontecem duplamente nesse caso. O filme explicita isso na narrativa de todos os personagens, então, muitas vezes, primeiro apresentam-se circenses, e só depois afirmam ou reafirmam ciganidade. É uma estratégia para poderem almenos chegar e armar o circo.

O filme vai trazer justamente esses bastidores, como as dificuldades e os desafios que os circos enfrentam para estarem onde nenhum outro equipamento cultural acesso, que são os interiores, daí a importância do circo no Brasil e no mundo, porque fora das capitais e dos grandes centros, infelizmente, o acesso à cultura, ao teatro, ao cinema, a cultura em si é muito difícil e o circo ele leva enquanto equipamento cultural todas essas artes integradas, para onde nenhum outro chega.

Apesar das dificuldades, de cada vez mais as burocracias, de negativas de terrenos, como eles têm relatado, da dificuldade para conseguir chegar, quando chegam acabam conquistando aquele espaço e sempre que voltam e podem retornar, porque há um compromisso muito grande com aquela praça, como se chama os lugares onde o circo está.

O compromisso de deixar o terreno sempre muito bem limpinho, ainda que sejam alocados em terrenos distantes, mas com muito trabalho e muita luta, vêm demonstrando ser diferente daquilo que esperam, o circo vem resistindo. E vem resistindo porque enquanto arte leva para as pessoas dos lugares mais afastados, povoados e distritos, entretenimento, a cultura a oportunidade de vivenciar este mundo mágico, especialmente para as crianças e assim elas podem ser um pouco mais felizes, um pouco mais crianças em suas infâncias no campo. São inúmeros os benefícios do circo em uma praça. O circo é também cura e felicidade, onde as vezes imperam as tristezas, misérias, desalentos...

Aluízio: Já tem data para lançamento?

Roy: A ideia inicial era que o filme fosse lançado em abril/maio de 2025, mas infelizmente, com o falecimento de dois baluartes da família Fernandes, que são os tios Cícero Roberto e José Milton, as gravações que estavam previstas para o início do ano, acabaram acontecendo apenas em agosto, então precisamos adiar esse cronograma.

É possível, que em 27 de março, dia do teatro e dia do circo, a gente faça um pré-lançamento, a depender dos próximos passos. Mas a previsão de estreia não temos como estipular, uma vez que vamos buscar novos recursos para fazer um filme a altura do que foi captado de imagem, de som, de histórias, que são grandiosas, riquíssimas. Precisamos de mais tempo e apoio tanto para novas gravações, quanto para edição e finalização, para fazer um filme a altura da ambição do projeto, do que captamos em campo e mais do que isso: daquilo que merecem, merecemos.
A Família do Circo do Palhaço Futuca pousa para foto durante gravação do filme ocorrida em Gravatá, no interior de Pernambuco, no último mês de agosto

Fotos: Barbara Jardim

terça-feira, 23 de julho de 2024

Chibe Calon é aceita na UFBA como segunda língua estrangeira

 

De maneira inédita no Brasil, Programa de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia aprovou primeiro cigano de etnia Calon e tradição circense no Brasil, Roi Rogeres, em curso de doutorado. Foto: Barbara Jardim

O curso de Doutorado em Artes Cênicas (PPGAC), da Universidade Federal da Bahia (Ufba), aprovou no seu  processo seletivo de 2024.2, o primeiro cigano da etnia Calon e de tradição Circense no Brasil.

O feito foi alcançado pelo jornalista e multiartista Roi Rogeres Fernandes Filho, oriundo da Família Fernandes -  uma das maiores e mais tradicionais circenses do país. Mas não para por aí, com o inovador edital que contempla línguas tradicionais na etapa de avaliação das línguas estrangeiras, o PPG aceitou o Romanó-Kaló, do tronco étnico cigano Calon, na avaliação desta etapa.

Conhecida em Portugal como Romanon e no Brasil como Chibe, a língua Calon é uma das principais tradições ciganas e serve tanto como forma de reconhecimento entre os diferentes grupos, como também em situações de defesa.

No edital deste ano, o PPGAC/UFBA destacou no item k), que  para comprovar proficiência em língua estrangeira em nível instrumental, “candidatos/as indígenas, ou de comunidades tradicionais afrodescendentes, serão isentos/as de comprovar proficiência em uma língua estrangeira, desde que apresentem uma declaração da comunidade de origem como sendo falante da sua língua ou guardiã da memória e/ou da herança da língua ou de línguas em processos de retomada, mediante aprovação da comissão de seleção”.

O resultado final do processo seletivo do PPGAC foi divulgado no final deste semestre, e o recém mestre também pela Ufba, conquistou a vaga com o anteprojeto de pesquisa “CIGANENSES NU ESPELHO: A Tradição Circense entre os Povos Ciganos Calóns e a sua contribuição para a cultura do Circo no Brasil”.

O novo doutorando obteve nota 10 na prova oral e assegurou um lugar entre cinco primeiros colocados, de um total de 10 selecionados, sendo o primeiro doutorando de origem Cigana-Circense no Brasil. A família Fernandes conta hoje com diversos circos pelo Brasil, a exemplo do  Holiday, Miraculous, Las Vegas, Big Brother, Indianápolis, Irmãos Fernandes e Circo do Palhaço Futuca.

“Apesar de todos os meus familiares Ciganos-Circenses já serem mais do que PHDs nas artes e tradições do Circo, vou em busca desse título concedido por uma Universidade Federal não somente por mim, mas por todos os/as ancestrais encantados/as e vivos/as, que lutaram e lutam cotidianamente para manter viva e acesa a chama do Circo e das nossas tradições” comemorou Roi.

Ele acrescentou que “nesse sentido, essa vitória tem um sabor especial com a contemplação da nossa língua-mãe, a Chib, a qual tanto nos orgulhamos e segue nos salvando de tantas violências e nos unindo. Todo povo de tradição e comunidades étnicas, devem ter suas oralidades e línguas valorizadas, reconhecidas e consideradas, assim, o PPGAC dá um exemplo relevante e certamente frutífero,  de como um edital de processo seletivo deve considerar os Povos Tradicionais do Brasil. Em nosso processo de retomada, são iniciativas como essa que fortalecem as nossas lutas”.

O PPGAC-Ufba é um dos pioneiros do Brasil na área das Artes Cênicas, e avaliado com nota máxima na CAPES.

“Precisamos ser tratados como SUJEITOS e AUTORES, e não mais como meros OBJETOS de pesquisas, como até aqui têm sido feito muitos/as pesquisadores/as, e sei que no PPGAC a minha pesquisa irá florescer e dar muitos bons frutos ainda para nosso Povo Cigano e para a universidade brasileira. Sermos contemplados nas ações afirmativas do mesmo é o próximo passo em que irei reivindicar, já que as nossas contribuições para as diversas linguagens artísticas,  artes cênicas, música, artes visuais, o próprio circo, para a dramaturgia, são incomensuráveis e precisamos atuar para esse reconhecimento !”,finalizou Fernandes.

Trajetória – Roi Rogeres nasceu em Pernambuco, e é o quarto de seis filhos, tendo cada um nascido em um Estado diferente do Brasil em itinerância com os circos. Na adolescência, deixou a vida itinerante para fixar acampamento e estudar em Feira de Santana, onde cursou Jornalismo na Faculdade Anísio Teixeira (FAT), com bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni). Esteve educando em Artes Cênicas na Ufba, onde concluiu em 2023 o mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade (PPGEISU), na linha de pesquisa Políticas Públicas, Cultura, Gestão, e Bases Históricas e Conceituais da Universidade, com um estudo autoetnográfico acerca das políticas públicas do ensino superior – ações afirmativas – para os Povos Ciganos. 


UFBA terá primeiro Cigano Calón de Tradição Circense em um curso de Doutorado no Brasil

O curso de Doutorado em Artes Cênicas (PPGAC), da Universidade Federal da Bahia (Ufba), terá entre seus estudantes o primeiro cigano da etnia Calón e de tradição Circense no Brasil. O feito foi alcançado pelo jornalista e multiartista Roi Rogeres Fernandes Filho, oriundo de uma das maiores e mais tradicionais famílias circenses do país, que conta hoje com diversos circos pelo Brasil, dentre esses o Holiday, Miraculous, Las Vegas, Big Brother, Indianápolis, Irmãos Fernandes e Circo do Palhaço Futuca.

O resultado final do processo seletivo do PPGAC foi divulgado nesta quarta-feira (12). Com o anteprojeto de pesquisa “CIGANENSES NU ESPELHO: A Tradição Circense entre os Povos Ciganos Calóns e a sua contribuição para a cultura do Circo no Brasil”, o estudante obteve nota 10 na prova oral e assegurou a aprovação entre os cinco primeiros colocados, de um total de 10 selecionados, se tornando o primeiro doutorando de origem Cigana-Circense no Brasil.

“Apesar de todos os meus familiares Ciganos-Circenses já serem mais do que PHDs nas artes e tradições do Circo, vou em busca desse título concedido por uma Universidade Federal não somente por mim, mas por todos os/as ancestrais encantados/as e vivos/as, que lutaram e lutam cotidianamente para manter viva e acesa a chama do Circo e das nossas tradições. Para documentar essa história linda e de superação, além de ocupar esses espaços de formação e poder, não para dar voz ou ser voz, pois as suas são mais do que suficientes, mas para ser também mais uma voz ativa em lugares que não foram pensados e criados para nós, para ecoar a riqueza da contribuição incomensurável dos nossos Povos Ciganos para o Circo, além da formação cultural, identitária, social e histórica do nosso Brasil, que é também Cigano-Circense- CIGANANENSE, tem que aceitar! ”, comemorou Roi Rogeres.

“Essa aprovação só foi possível porque os meus ancestrais permitiram e fizeram florescer em mim esse desejo pulsante de fazer retornar o que lhes pertencem, e seguir lutando de formas outras pelo reconhecimento e projeção que merecem. Para que sejamos tratados como SUJEITOS e AUTORES, e não mais como meros OBJETOS de pesquisas, como até aqui têm sido feito muitos/as pesquisadores/as. Que muitos outros Ciganos, especialmente de tradição circense, ocupem esses lugares e espaços se quiserem, pois infelizmente são raros/as os/as doutores/as ciganos/as, possíveis de serem contados nos dedos, e quando acessamos fortalecemos as diversas lutas de nosso povo!”, complementou.

Trajetória – Roi Rogeres nasceu em Pernambuco, e é o quarto de seis filhos, tendo cada um nascido em um Estado diferente do Brasil em itinerância com os circos. Na adolescência, deixou a vida itinerante para fixar acampamento e estudar em Feira de Santana, onde cursou Jornalismo na Faculdade Anísio Teixeira (FAT), com bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni). Esteve educando em Artes Cênicas na Ufba, onde concluiu em 2023 o mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade (PPGEISU), na linha de pesquisa Políticas Públicas, Cultura, Gestão, e Bases Históricas e Conceituais da Universidade, com um estudo autoetnográfico acerca das políticas públicas do ensino superior – ações afirmativas – para os Povos Ciganos.

Disponível em: https://ihac.ufba.br/pt/48870/ 

  

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Primeiro cigano de tradição circense defende mestrado na UFBA

 

O trabalho reflete os dilemas superados por ciganos/as para acesso ao ensino superior e apresenta um panorama das políticas de ações afirmativas para ciganos/as promovidas por Instituições de Ensino Superior (IES) no Brasil

A Universidade Federal da Bahia (UFBA), através do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências professor Milton Santos (IHAC) - Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade (PPGEISU), promove a primeira banca de defesa do mestrado de um cigano da etnia Calón de tradição circense, nesta sexta-feira (29).

O jornalista, multiartista e estudante Roi Rogeres Fernandes pesquisou a relação dos Povos Ciganos com o Ensino Superior, através do método autoetnográfico. O trabalho apresenta os dilemas superados por ciganos/as para acesso ao ensino superior e um panorama das políticas de ações afirmativas promovidas por Instituições de Ensino Superior (IES), voltadas a essa comunidade tradicional, instituída oficialmente em 2007. O estudo contou com a orientação de Georgina Gonçalves, profa. Dra. titular do PPGEISU.

A banca será composta pelo cigano da etnia Calón e pesquisador Dr. Aluízio de Azevedo (FIOCRUZ-RJ); profa. Dra. Claudia Nunes (UFS), cigana Calin; profa. Dra Sônia Sampaio, titular do PPGEISU/UFBA. E homenageará o primeiro professor Dr. Cigano do Brasil, Jucelho Dantas da Cruz (UEFS), um dos principais articuladores das cotas para estudantes ciganos/as na Bahia, Estado pioneiro na iniciativa. A apresentação acontecerá em formato remoto. Os interessados em acompanhar a defesa, podem enviar manifestação de interesse para o e-mail roirogeresff@gmail.com para recebimento do link, que será disponibilizado considerando a limitação de acesso à sala virtual.



PPGEISU foi o primeiro PPG da UFBA a incluir Povos Ciganos nas ações afirmativas

Em maio de 2021, o curso de Mestrado Acadêmico do PPGEISU acrescentou os povos ciganos para ingresso por meio das ações afirmativas, através de vagas supranumerárias, além de estudantes (as) negros (as), pretos (as) e pardos (as), e sobrevagas para indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e pessoas trans (transexuais, transgêneros e travestis), sendo o primeiro programa de Pós-Graduação (PPG) da UFBA com vagas específicas para ciganos/as.

De acordo com Maria Thereza Coelho, coordenadora do PPGEISU, a primeira banca defendida por estudante cigano no Programa, com membros também ciganos na banca, reflete o compromisso com a reparação social para com a comunidade, bem como demonstra que o PPG segue de portas abertas para acolher a pluridiversidade étnica, característica da população brasileira.

“Recentemente aumentamos a nota do Programa junto à CAPES e aprovamos o projeto de implementação do doutorado acadêmico, o que amplia o nosso campo de atuação educacional e social. Fomos o primeiro da UFBA a tomar essa iniciativa ao acolhermos um estudante cigano, mas desejamos não sermos o único. Esperamos que a iniciativa inspire outros/as estudantes das etnias ciganas a ocuparem esses espaços historicamente negados e assim fazemos cumprir também o nosso compromisso de reparação. É um momento especial para toda comunidade acadêmica”, declarou.



Fotos: Bárbara Jardim

quarta-feira, 16 de março de 2022

Podcast Cultural foca nas vozes de mulheres ciganas de tradição circense

  

Sarrara Fernandes é a entrevistadadora do podcast

Quem deseja saber mais sobre a vida cigana circense têm agora a oportunidade de conhecer e ouvir as vozes de sete mulheres ciganas em podcast cultural que acaba de ser lançado no último dia 10 de março. Trata-se da série “As sete ciganas e o Circo”, que pode ser ouvido na plataforma Spotify, por meio do link: https://open.spotify.com/show/7tx7WmEC5q7MnvYZH089qj.

O produto cultural traz uma conversa as “Irmãs Fernandes”: Iracilda, Cacilda, Cleibia, Àgda, Irismar, Dorinha e Mércia Fernandes, que acessam suas memórias para narrar as tradições, desafios e obstáculos enfrentados durante seus itinerários por diversos circos. A família Fernandes está na quinta geração de ciganos-circenses, é considerada uma das únicas com a cultura cigana e circense juntas, dividida em diversos circos espalhados pelo Nordeste brasileiro.

O projeto idealizado pela também cigana de tradição circense Sarrara Fernandes, sobrinha das ciganas protagonistas, visa contribuir com a preservação da memória de mulheres ciganas de tradição circense, visibilizar essas narrativas e fortalecer as lutas das mulheres ciganas, no sentido de combater preconceitos e estereótipos.

No Podcast, Sarrara realiza entrevistas com as sete ciganas, que revelam as dores, emoções, alegrias, e aspectos singulares das culturas ciganas e circense através das suas histórias. O enfrentamento ao preconceito por suas origens está na pauta dos diálogos repletos de emoção, informação e valorização das culturas ciganas e circenses.

O projeto contribui com a oferta de conhecimentos e conteúdo feito por ciganas e acerca das mesmas para a sociedade baiana, além de alcançar o máximo de pessoas pela via da comunicação digital. Almeja também combater a ciganofobia e ao anticiganismo (racismo contra ciganos/as), para a melhoria e condições de vida das mulheres ciganas, especialmente as de tradições circenses, valorizar suas culturas, memórias e tradições.

Para a realizadora do projeto, “oportunizar lugares de fala para mulheres ciganas e circenses – historicamente vítimas de opressão, silenciamentos, violências e preconceitos, e impulsionar a participação e a representatividade das ciganas nos espaços de formação cultural e cidadania no Estado da Bahia” são a principal motivação da iniciativa.

O Podcast Cultural “As Sete Ciganas & o Circo” tem o apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura (Prêmio Cultura na Palma da Mão/PABB) via Lei Aldir Blanc, redirecionado pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Texto e foto: Assessoria de Comunicação

quarta-feira, 2 de março de 2022

Entrevista exclusiva: Roy Rogeres fala sobre seu filme de estreia “Debaixo das Lonas, Tudo é mais bonito!”

O cigano de tradição circense, Roy Rogeres, lança obra fílmica nesta sexta-feira (04 de março), às 20h, no Canal do You Tube da produtora Mulher de Bigodes Filmes. Veja a matéria completa aqui.

Para saber mais sobre o filme, fomos ouvir o cineasta, que também é jornalista e teatrólogo, sobre sua estreia no cinema. Ele contou tudinho sobre o que podemos esperar na obra e nos próximos trabalhos.

Roy é comunicólogo – jornalista –, militante, multi-artista e pesquisador dos povos ciganos circenses, cursando mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade Federal da Bahia (PPGEISU-IHAC/UFBA), onde é representante estudantil. Ele pertence à quarta geração da tradicional família Fernandes; composta por ciganos da etnia Calon e de tradição circense e acaba de finalizar seu primeiro filme média-metragem, “Debaixo das Lonas, Tudo é mais bonito!”, que conta a vida de sua irmã mais velha, Irisma Fernandes, também conhecida artisticamente como “Tati, a Cigana”

Durante toda infância e adolescência o cineasta acompanhou vários circos pelo Brasil, passando por várias escolas, até que por volta de 15 anos, a família fixou acampamento na cidade de Feira de Santana-Bahia. Também cursou Artes Cênicas – Interpretação Teatral, na UFBA e desenvolveu amplo trabalho no campo das artes cênicas, participando de vários espetáculos e festivais de teatro por todo o Estado.

Roy possui também experiência na gestão de RH e Negócios e em assessorias de comunicação de organizações privadas e públicas. Atuou como repórter nos jornais impressos Folha do Estado da Bahia e A Tarde. Atualmente é assessor de comunicação da Secretaria Municipal da Saúde de Salvador e produtor cultural independente.

Roy Rogeres e Tati, a Cigana: irmãos circenses herdaram veia artística da família Calon

Confira abaixo entrevista exclusiva com o multi-artista cigano e cirsense:

Aluízio: Como teve a ideia para transformar a vida de Tati, a Cigana em filme? O que ela tem de especial que pode servir para outras pessoas?

Roy: A ideia de transformar a vida da Tati em filme é muito antiga. Nutro uma admiração, um orgulho e um amor por ela muito grande. E isso vem do reconhecimento desde muito cedo da magnitude dela enquanto artista, enquanto pessoa. As responsabilidades que ela assumiu muito jovem, uma vez que meu pai faleceu eu tinha dois anos e ela era a irmã primogênita. Através dela nós tínhamos contratos no circo. Ela foi e continua sendo uma super artista e desde muito pequeno minha admiração existe. A ideia de fazer um filme, veio na última visita, quando estive lá no rancho dela e nós conversando da vida, desses caminhos e descaminhos, dessa itinerância, dela ter parado exatamente no lugar onde se arranchou e toda essa história, então; eu pensei naquele momento, em novembro do ano passado, que na primeira oportunidade iria transformar essa ideia, essa história da vida dela, que por si só já tem bastante conteúdo e coisas interessantes e admiráveis, em um projeto cultural. Acabou dando certo, nós fomos aprovados nesse projeto, com a maior pontuação da região de SISAL, na Bahia, que compreende o município de Tucano,  distritos de povoado Crenguenhem e comunidade umburaninha, onde ela reside. Nós fomos aprovados muito por conta do objetivo que é visibilizar sobretudo as mulheres ciganas de tradição circense.

Aluízio: O que você objetiva com a obra?

Roy: a gente objetiva visibilizar as pautas das mulheres ciganas de tradição circense. Contribuir, colaborar no combate ao racismo, no nosso caso anticiganismo, ciganofobia; desqualificar narrativas negativas relacionadas aos ciganos e povo circense. Mostrar também como é a vida de fato debaixo dessas lonas de circos e não só essa parte glamourizada e romantizada. O projeto parte da ideia de mostrar a realidade, as dificuldades, desafios, a falta de incentivo para os circos de menores porte. Visibilizar as narrativas de ciganos, feita por ciganos. Uma mulher que assume o seu lugar de fala, cigana circense, que narra sua vida, trajetória, itinerância,  os desafios que passou, que superou e que supera e continua a superar todos os dias, afinal de contas o preconceito existe muito grande e no caso dos povos ciganos e povos circenses é um duplo preconceito.


"é uma cultura ainda marginalizada, a gente costuma dizer que o

circo é o primo pobre da cultura e a gente precisa mudar este 

cenário".


Aluízio: É um filme de cigan@s com cigan@s, este é um diferencial?

Roy: Com certeza vai ser um filme de ciganos, com ciganos, por ciganos, sobre ciganos, acerca dos ciganos e tendo alguém com esta visão de dentro, ,de baixo, é um diferencial enorme, importante e com certeza dá um quê de especial para a relevância que o filme tem, afinal de contas, é raro, uma das poucas pessoas que eu vejo fazendo filmes estando dentro, fazendo parte da comunidade cigana e também artística, como um cineasta, é você Aluízio. Não posso deixar de ressaltar a grande inspiração e incentivo que vejo a partir de você, do seu trabalho, como comunicólogo jornalista, que também envereda aí pela área do cinema. Faço cinema muito com essa inspiração e com esse intento de fazermos nós as nossas histórias, de contarmos nós as nossas visões de mundo, nossas vidas, nossos desafios, alegrias, dores e tristezas. Tudo isso ser dito por nós tem um sabor muito especial e com certeza isso reflete no conjunto do filme.


Família Fernandes e equipe do filme: tradição circense que passa de geração em geração

Aluízio: Como é a relação entre as pessoas ciganas e o circo, ela é antiga?

Roy: A relação dos povos ciganos como circo posso dizer que é milenar. No caso da minha família, o circo sempre foi um meio de sobrevivência, uma tradição que a gente já nasceu. As últimas gerações já nasceram assim, estamos na quinta geração, a Tati é da terceira geração. Nós nascemos nessa tradição e esta é uma relação antiga, uma tradição milenar. Os povos ciganos, de uma maneira em geral, estão sempre muito ligados com a arte como um todo, quer seja a música, a dança, também a performance, o teatro e as artes circenses, a que considero como uma das artes mais completas, envolve a dança, a música, a magia, a comunicação e tantas coisas. É uma relação antiga, que vem sendo nutrida há duras penas, porque como disse o preconceito com os povos ciganos e povos circenses é duplo. Já tem o preconceito quando se é de circo. Quando se é um forasteiro chegando na cidade, as pessoas muitas vezes tem um olhar negativo, uma recepção negativa e este é um grande desafio, na medida que, tem também pessoas com outro olhar, com admiração, que vão para o circo porque gostam. Em muitas cidades o acesso a cultura, as opções de cultura e entretenimento são muito escassas, então, ter um circo é sempre motivo de alegria. E o filme explicita muito disso, o quanto as pessoas do circo provocam as pessoas na cidade, em vários lugares, quer seja no fascínio, na repulsa, na amizade, no receio, no medo, um misto de sentimentos que fica claro no filme e a gente aborda. Os desafios de se chegar nos terrenos, nas praças como a gente chama, muitas vezes a noite, sem acesso a água a energia, enfim, toda uma dificuldade. Há as pessoas que negam e o apoio do município, às vezes não tem. Noutras, o terreno que o município dá para o circo ficar é lá no final da cidade, perto do lixão... Então, é uma cultura ainda marginalizada, a gente costuma dizer que o circo é o primo pobre da cultura e a gente precisa mudar este cenário.


"Debaixo das lonas tudo é mais bonito, na minha visão de cigano

 circense e acredito que as lonas das marquises, das tendas, das 

barracas, do circo, nos convidam a olhar este mundo, este 

universo e a vida de uma outra forma, com mais beleza". 


Aluízio: Como se sente em dirigir e representar a sua própria cultura?

Roy: estou estreando como diretor de filme. Sai do circo tinha pouco mais de 15 anos e desde então já enveredei no teatro e nas artes cênicas, o que foi uma forma de continuar na arte circense, inserido na arte. Durante a minha vida toda, fiz teatro em grupos, participei de muitos festivais, espetáculos infantis, adultos, juvenis, percorri a Bahia inteira com vários espetáculos de teatro e é uma experiência que colaborou para hoje me inserir no cinema, nesta arte que sempre gostei muito, admirei. Foi através do cinema e desejando fazer cinema, que comecei a prospectar opções de pesquisa. Acabei cursando uma disciplina especial no mestrado sobre cinema documentário e aprendi muito nessa disciplina. Essa sementinha estava plantada aqui dentro e uni o útil ao agradável: a experiência que já tinha do circo, do teatro, na produção de espetáculos e de filmes, que também participei como assessor de comunicação. A gente acaba sendo multirreferencial, múltiplos, me considero um multi-artista hoje e estrear é uma sensação de muita alegria. Não posso negar, que estou orgulhoso com o resultado, feliz, por poder, através de uma plataforma exibir um trabalho feito com pouco recurso e investimento, mas o suficiente para afetar as pessoas. O filme traz uma beleza, o lado genuíno das pessoas e mostra algumas das características muito marcantes do nosso povo, como é o caso da oralidade, servindo para romper estereótipos e barreiras. As pessoas esperam que nós sejamos de um jeito e aí a Irismar, que é a Tati, personagem principal do documentário, mostra ser uma pessoa diferente daquilo que se espera, assim como nós mostramos ser diferentes daquilo que se espera. Quis mostrar essa realidade que é dura e sofrida do povo cigano, circense sobretudo, mas uma realidade de superação, de belezas, alegrias, de muitas coisas positivas. Claro a gente não pode romantizar as situações de marginalidade, o fato de vivermos historicamente as margens da sociedade, discriminados, silenciados e oprimidos. Tudo isso serve como um conjunto de indignação que faz com que a gente queira levar, nós ciganos, o outro lado, o nosso olhar para nossa história.

Aluízio: Porque as pessoas devem ver Debaixo da lona, tudo é mais bonito? E, de onde vem esse nome?

Roy: porque é capaz de tocar, transporta os espectadores para muitas emoções, para uma narrativa forte e contundente. Uma narrativa de muitas das que se tem notícias. Um filme feito por ciganos, de ciganos, acerca dos ciganos, de tradição circense. A gente sabe que a literatura, as próprias artes, muitas vezes invisibilizam esses povos, ou quando são retratados, aparecem de maneiras incoerentes. A gente mostra com as limitações que um projeto não tão grande, mas como cinema independente, com as dificuldades inerentes em se fazer cinema, com pouco investimento, mas a gente mostra nesse filme o porquê estar debaixo das lonas é tão bonito! Porque debaixo das lonas tudo é mais bonito, na minha visão de cigano circense e acredito que as lonas das marquises, das tendas, das barracas, do circo, nos convidam a olhar este mundo, este universo e a vida de uma outra forma, com mais beleza. E fica o convite, para todos assistirem. É um filme feito com muita garra, muita vontade, com muita gente que acredita na proposta, na relevância do filme, em contribuir com um futuro do universo cigano circense, com menos dores e mais oportunidades. Um futuro com maior valorização das culturas ciganas e circenses, maior apoio. Que se abram os caminhos para essas culturas, porque elas também andam juntas.

Roy quando criança em suas andaças e artes pelo circo

Aluízio: No Brasil temos muitas famílias ciganas e circenses?

Roy: No Brasil temos não só a minha família, temos outras... mas a minha acredito ser uma das maiores, se não a maior, com mais de sete circos pelo Brasil. A Irismar traz na sua trajetória este fator de ser um artista que vivenciou neste Brasil inteiro com mais de 20 circos e merece ter sua história contada, reconhecida, por toda sua contribuição do ponto de vista cultural para as culturas ciganas e circenses. Ela vem disseminando ambas as culturas, repassando esses conhecimentos ancestrais e é isso que o filme nos coloca: diante das culturas ciganas e cirenses, não só aquilo que nos alegra, lindo, romântico e mágico; como também aquilo que nos torna humanos, vulneráveis. Aí consiste o esplendor deste filme: retratar de maneira fidedigna, verdadeira, a partir de suas próprias narrativas, as histórias e memórias de uma cigana de tradição circense, que tem muito orgulho disso, da família. Este filme é uma declaração de amor e orgulho ao povo cigano de tradição circense.

Texto: Aluízio de Azevedo

Fotos: Roy Rogeres

Filme “Debaixo das lonas, tudo é mais bonito!” estreia nessa sexta (04.03)

 Película adentra circos, tendas, marquises e barracas para retratar os povos ciganos de tradição circense, com foco na vida da artista "Tati, a Cigana" (Foto)

Cigano da etnia Calon, jornalista, ativista, pesquisador, diretor de cinema e artista nascido e criado no circo. A definição de multi é pouca para Roy Rogeres, que vem conquistando espaço cada vez maior junto ao movimento cigano brasileiro e aos cenários artístico e circense. Na próxima sexta-feira (04 de março) estreia seu primeiro documentário, “Debaixo das Lonas, Tudo é mais bonito!”. Com trinta e cinco minutos, o filme estará disponível a partir de 20h (de Brasília), no canal da produtora “Mulher de Bigode Filmes”, na plataforma do You Tube: www.youtube.com/mulherdebigodefilmes.

A obra cinematográfica projeta luz para as culturas e tradições do povo cigano e circense ao descortinar a história de Irisma Fernandes, mais conhecida como “Tati, à Cigana”. Pertencente a etnia “Calon”, a artista da terceira geração dos Fernandes - uma das maiores e mais tradicionais famílias Ciganas e Circenses do Brasil - viveu itinerante em mais de vinte circos, passando por diversos estados brasileiros.

Atualmente e para assegurar a formação escolar das filhas; a artista abdicou da vida nos circos e fixou acampamento na comunidade “Umburaninha”, povoado “Crenguenhem”, na região de Tucano-Bahia/Território Identitário do SISAL, onde as cenas foram gravadas.

Filha primogênita dentre seis, Irisma assumiu muitas responsabilidades após a morte precoce do pai – Roy Rogeres Fernandes, assassinado aos 33 anos, durante o espetáculo de matinê do Circo Mexicano. A ela coube manter e repassar as tradições ciganas e circenses aprendidas com o pai, avós, tios e tias para os seus irmãos: Liberta Lamarks, Luanna Marylack, Roy Rogeres Filho, Kimberly Maclaynny e Keôma Kewwynny, e para os filhos: Igor Matheus, Jeniffer e Yasmynny Fernandes, além dos netos e netas.

Nascida e criada debaixo das lonas, aos sete anos deu os primeiros passos como equilibrista no arame esticado. Foi dançarina, atuou em números de mágica, seguiu trapezista, bailarina do ar na corda indiana e em tecido, sendo a primeira jovem mulher a se arriscar no “escadete” (escada giratória) -  impressionante número circense que exige demasiada força e equilíbrio, geralmente praticado por homens. Especializou-se em números aéreos de alto nível de dificuldade, tornando-se uma das mais destacáveis artistas circenses brasileiras, chegando a receber propostas internacionais.

Em seu itinerário, atuou debaixo das donas dos circos Arte Palácio, Mexicano, Circo D ́Líbano, Circo Porto Rico; Circo Los Campelos, Circo D’ Itália, Norte Americano, Circo Santini, Real Plaza, Circo do Palhaço Repolho, Circo Big Brother, Miraculous, Circo do Palhaço Fuxiquinho, Espacial, Circo Irmãos Fernandes, Circo Real Estrelar, dentre outros, até concretizar o sonho de ter o próprio circo, o “Koliseu”, percorrendo centenas de cidades do Brasil em quase todos os Estados.

O documentário ganhou vida por meio de parceria com a produtora “Mulher de Bigode Filmes”. Premiado com a maior pontuação do território identitário do SISAL, o filme quer contribuir no combate ao preconceito, e a propagação de estereótipos atribuídos aos povos ciganos, especialmente, os de tradição circense, a fim de valorizar e ressaltar os aspectos positivos destas culturas. E tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura (Prêmio Cultura na Palma da Mão/PPAB) via Lei Aldir Blanc, redirecionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal. 



FICHA TÉCNICA

Direção e Roteiro: Roy Rogeres Fernandes Filho

Direção de Fotografia, Montagem e Cor: Letícia Ribeiro

Direção de arte: Roy Rogeres Fernandes Filho

Produção: Roy Rogeres Fernandes Filho & Mulher de Bigode Filmes

Assistente de Direção e Produção: Thierri Moitinho

Som Direto: Ronne Portela

Fotos: Bárbara Jardim

Arte gráfica: Camila Camila

Cenografia: Pitô

Figurino: Irisma Fernandes (Tati)

Maquiagem: Jeniffer Fernandes

Assistente de produção: Nena Fernandes

Assesoria Mídias Digitais: Yasmynny Fernandes

Assessoria de Comunicação: Roy Rogeres Fernandes Filho

Produção de Set: Bruna Santana, Jeniffer Fernandes, Yasmynny Fernandes

Trilha Sonora:

"BETCHARI" - GRUPO ENCANTO CIGANO

"TU MAI LÊ" - GRUPO ENCANTO CIGANO

"LAMENTO CIGANO" – ALEX FLORES (GRUPO RORARNI)

Texto: Assessoria de Imprensa do projeto
Fotos: Barbara Jardim