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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Exposição Multimídia Calin: acesse a plataforma digital

 

A Mestra da Cultura Mato-grossense e mestra da medicina tradicional cigana, Maria Divina Cabral, a Diva, é uma das principais fotografadas para a Exposição Multimídia Calin

A resistência, a diversidade e a beleza das mulheres ciganas do tronco étnico Calon que pertencem as comunidades romanis de três municípios: Rondonópolis, Cuiabá e Tangará da Serra. Este é o tema central que os interessados no universo romani poderão conferir na Exposição Multimídia Calin, disponível para ser acessada no link: https://galeriacalin.com.

A exposição “Calin” é um dos produtos transmídias que integram o projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã”; aprovado no edital Conexão Mestres da Cultura, da Lei Aldir Blanc, da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (SECEL-MT). Proposto pela Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), o projeto homenageia a raizeira e benzedeira cigana, Maria Divina Cabral, a Diva, como Mestra da cultura mato-grossense.

Trata-se da primeira exposição multimídia com foco no universo das mulheres ciganas do tronco étnico calon no país. Ao trazer as “Calins de Mato Grosso”, o projeto visa mostrar a diversidade das mulheres ciganas que vivem no Estado, registrar e valorizar seus valores, tradições e saberes. Também é uma forma de combater estereótipos e preconceitos sobre as mulheres ciganas.

A negociante Cleide Alves Cabral é filha da Mestra Diva e uma das participantes da Exposição Calin

“O material multimídia exposto é resultado de um encontro sutil e delicado entre nossa equipe e o modo como nos vemos, nos mostramos e, principalmente, queremos ser vistas. Assim, brindamos o público com novas autorrepresentações do universo romani, especialmente, do tronco étnico Calon. Esperamos que a plataforma se transforme numa referência nacional, quiçá internacional”, comemora a presidente ada AEEC-MT e coordenadora geral do projeto, Fernanda Alves Caiado.

O trabalho registrou mulheres de diferentes idades, propondo novas possibilidades do que é ser calin, cigana, mulher, mato-grossense, brasileira... A exposição une as famílias de Maria Divina Cabral, a Mestra Diva e suas parentas Nerana (Tangará da Serra), Irandi (Cuiabá), Terezinha (Cuiabá) e Nilva (Rondonópolis), mulheres que também consideramos como mestras da cultura cigana, pois conservam os saberes, as filosofias e as identidades da cultura cigana.

A estudante de administração da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Taize Aracelli Caiado Siqueira

Conceito - Em fotos, vídeos e textos, “Calin” vislumbra a criação de novas narrativas para que mais e mais mulheres ciganas se inspirem e possam criar os próprios caminhos. O site é composto por menus explicativos apresentando a exposição, o projeto, a mestra Diva, as mulheres que participam do trabalho; bem como traz vídeos e links para o blog e redes sociais da AEEC-MT.

“Apresentamos um universo ora onírico, ora de realidade, que se revela através da compreensão feminina de uma cultura milenar de resistência, cuja medicina tradicional se baseia na natureza. Como as raízes profundas das árvores retorcidas e sertanejas do cerrado, que resistem ao fogo e a seca, produzindo flores e frutos; as mulheres ciganas produzem cultura e cura que precisam chegar a mais e mais pessoas, ainda mais nesses tempos em que vivemos de pandemia, em que a saúde tornou-se uma questão central”, enfatiza a fotógrafa e curadora, Karen Ferreira.

A odontóloga Lara Karoline Alves Teixeira e sua filha Laura Teixeira Locatelli – Tangará da Serra

“Calin” é o modo como as mulheres do tronco étnico Calon se autodenominam. Assim, o nome da exposição, que também vai no projeto, é também uma forma de promover e valorizar os saberes ancestrais das mulheres ciganas mato-grossenses.

“A escolha por este nome sintetiza a desconstrução da palavra “cigana”, na busca por uma produção em artes visuais dialógica, que de fato represente as Calins a partir de suas percepções e modos de ver e viver a vida, enquanto ciganas, trabalhadoras, ativistas, estudantes... Este é um trabalho muito importante para a quebra de preconceitos e estereótipos que historicamente estiveram associados às ciganas, mas que são equivocados e racistas” conclui o diretor de arte e curador da exposição, Rodrigo Zaiden.

Nilva Rodrigues Cunha - Rondonópolis

Produtos transmídia - A plataforma virtual da exposição conta com uma abertura que se baseia na bandeira cigana, cuja roda vermelha que demarca o seu centro, dividindo a parte azul celeste acima, da verde abaixo. A Galeria Calin abrange quatro salas principais, a primeira delas, “Diquela Calin”, é composta por 34 fotografias e abre o site após a abertura animada.

As outras salas são “Tali Lachin”, “Lage no Mui” e “I Encontro de Mulheres Ciganas de Mato Grosso”. Este último evento é outro dos produtos transmídias do projeto “Diva e as Calins” e ocorreu entre os dias 22 e 24 de abril de 2021, em Rondonópolis, ocasião em que a Mestra Diva ministrou oficinas sobre medicina tradicional cigana para 15 mulheres das comunidades ciganas de Rondonópolis e de Cuiabá.

Audelena Dias Cabral é coordenadora do grupo de danças Tradição Cigana - Rondonópolis

O terceiro e último produto transmídia do projeto Diva é a websérie “Diva e as Calins de MT”, cujo teaser também está linkado no site da exposição, em conjunto com outros pequenos vídeos. A websérie é composta por cinco episódios, com cinco minutos, sendo que cada um deles traz uma mulher cigana, sendo o primeiro deles, a mestra Diva. As outras mulheres abordadas nos quatro episódios são: Nerana, Irandi, Terezinha e Nilva.

Para saber mais sobre o projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã”, acesse a plataforma da Exposição Multimidia Calin ou o Blog da AEEC-MT.

 

Texto: Aluízio de Azevedo

Fotos e gifs: Karen Ferreira

 

Mulheres Ciganas na Exposição

- Mestra Maria Divina Cabral – Rondonópolis

- Lurdes Rodrigues Cunha – Rondonópolis (In Memoriam)

- Venerci Rodrigues Cunha - Rondonópolis

- Venerana Rodrigues Pereira – Tangará da Serra

- Nilva Rodrigues Cunha – Rondonópolis

- Irandi Rodrigues Silva – Cuiabá

- Terezinha Alves - Cuiabá

- Cleide Alves Cabral - Rondonópolis

- Jéssika Lorrayne Alves Cabral Lima Leme - Rondonópolis

- Leidiane Alves Pereira - Rondonópolis

- Cristiane Alves Pereira - Rondonópolis

- Ana Cristina Souza Pereira - Rondonópolis

- Suiany Mendes Cabral - Rondonópolis

- Isabella Souza Pereira - Rondonópolis

- Paula Cabral Leme – Rondonópolis

- Erlaine Rodrigues Silva - Cuiabá

- Eunice Alves Pereira Teixeira – Tangará da Serra

- Fernanda Alves Caiado - Cuiabá

- Lucélia Márcia Alves Pereira - Cuiabá

- Laura Teixeira Locatelli – Tangará da Serra

- Lara Karoline Alves Teixeira – Tangará da Serra

- Rafaela Alves Ribeiro – Tangará da Serra

- Rosana Cristina Alves de Matos Cruz  - Cuiabá

- Renata Letícia Bezerra de Matos - Cuiabá

- Taize Aracelli Caiado Siqueira - Cuiabá

- Rafaela Caiado Sacramento Siqueira - Cuiabá

- Audelena Dias Cabral – Rondonópolis

- Clara Silva Zaniboni - Cuiabá

- Elizângela Marcel - Rondonópolis

- Márcia Rodrigues – Rondonópolis

- E os meninos Benjamim Romeu Alves Fonseca (Tangará da Serra ) e Davi Silva Zaniboni (Cuiabá)

 

Ficha Técnica

- Coordenação Geral – Fernanda Alves Caiado

- Produção Executiva - Fernanda Caiado e Lucélia Márcia Alves Pereira;

- Direção de Fotografia e fotografia - Karen Ferreira

- Concepção, Pesquisa e Direção de produção - Aluízio de Azevedo e Rodrigo Zaiden

- Curadoria - Karen Ferreira, Aluízio de Azevedo e Rodrigo Zaiden

- Direção de Produção - Nilva Rodrigues

- Direção de Programação - Terezinha Alves

- Direção de Arte, Rodrigo Zaiden

- Produções Locais - Jéssika Lorraine, Audelena Dias Cabral, Rosana Cristina Alves de Mattos e Suiani Alves Pereira.

- Projeto Expográfico Virtual  - Rodrigo Zaiden e Aluízio de Azevedo

- Webdesigner - Vicente de Albuquerque

- Desenvolvimento da plataforma – Trinca Produções

- Contabilidade: Adriana Rodrigues Angola

- Assessoria para Ciência e Comunicação - Aluízio de Azevedo

- Maquiagem e Cabelo - Alisson Rangel

terça-feira, 27 de abril de 2021

Mestra Diva ensina mulheres ciganas a arte das garrafadas e o banho de mal de simioto

Evento reuniu 15 mulheres que puderam vivenciar experiências acerca da medicina tradicional cigana e servirá também como disparador para uma exposição fotográfica e uma web série

A mestra da cultura mato-grossense e cigana da etnia Calon, Maria Divina Cabral, mais conhecida como Diva, foi a principal protagonista do I Encontro de Mulheres Ciganas de Mato Grosso, que ocorreu nos últimos dias 23, 24 e 25 de abril no município de Rondonópolis. Diva foi premiada no Edital Conexão Mestres da Cultura da Lei Aldir Blanc da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (SECEL-MT) e o evento integra o projeto “Diva e as Calins de MT: Ontem, Hoje e Amanhã”.

Na ocasião, Maria Divina ensinou as 15 mulheres participantes do encontro alguns dos principais remédios e tratamentos da medicina tradicional Calon. São medicamentos como xaropes, garrafadas, chás e banhos a base de plantas do cerrado e produtos naturais, indicados para os mais variados tipos de enfermidades, como doenças da pele, infecções do aparelho urinário, digestivo e gastrointestinal, reumatismo, saúde da mulher, gripes e resfriados, bronquites, asma, infertilidade, picadas de cobra, pedras nos rins, perda de cabelo, anemia e até mesmo alguns tipos de câncer.

As 15 mulheres participantes, todas parentas diretas de Diva, como suas duas filhas e três netas, mãe, tia, sobrinhas e primas, aprenderam com Diva o processo de identificação e arranque das raízes e plantas, a secagem, o estoque e armazenamento, bem como a infusão para a composição das garrafadas para alguns tipos de enfermidades, como saúde da mulher, para anemia e limpeza de pele. Esta programação fez parte da roda de diálogo “Princípios Introdutórios à Medicina Tradicional Cigana”.

Mestra Diva ensinando a fazer a garrafada, 
um dos principais medicamentos da medicina tradicional Calon

“Eu sou muito feliz pela minha cultura, pela minha nação e por quem eu sou hoje. Sou alegre por ser cigana e ter esta descendência. Não tenho vergonha de ser cigana, de jeito nenhum. Tem gente que tem preconceito. Alguns acham bom, outros acham foram da linha, mas Deus sabe que nós somos honestos. A cultura cigana tem muita sabedoria. Não tenho estudo, a minha medicina vem de Deus e tudo descendência da minha origem cigana, aprendido com a minha avó e agora tenho a oportunidade de passar para minhas filhas e outras parentas”, emocionou-se Diva, ao complementar:

“Conheço todas as plantas do cerrado e sei manipular, usar para curar várias doenças. Curei tantas pessoas com essas garrafadas e outros chás, como ferida que não sara, útero de mulher com infecção e feridas. Mulheres que usam essas garrafadas não tiram útero, ovário, nada disso. Curei minha mãe, com uma garrafada, de insônia e falta de circulação. Tem um senhor que já estava há mais de 10 anos com problema de garganta. Fiz um chá de açafrão, romã, boldo e alho, ele tomou e sarou de um problema já de 10 anos. E sabe por que nós ainda não pegamos corona? Primeiro Jesus e depois nossos remédios”, pondera.

Durante a abertura do encontro, foi exibido um vídeo com uma mensagem do Secretário de Estado de Cultura, Esportes e Lazer, Alberto Machado, a Diva e as participantes do evento. “Fico muito feliz e muito orgulhoso de ver um projeto que homenageia o povo cigano ser aprovado na SECEL e acho que a nossa função aqui é esta de mostrar todos os lados da nossa cultura, todas as vertentes da nossa cultura e fico feliz em ver a cultura do povo cigano sendo prestigiada aqui. Coloco a secretaria de portas abertas a todos vocês e desejo um bom encontro”, disse o secretário em seu recado.

Assista abaixo o vídeo do Secretário da SECEL na integra: 

Mal de Simioto - A medicina cigana também cura algumas doenças que não são reconhecidas pela biomedicina científica, a exemplo do Mal de Simioto, também conhecida como a doença do macaco ou doença do verme na carne. “Essa doença os médicos não curam, porque eles não conhecem. Costuma dar em criança e jovens, mas também pode atingir adultos e idosos. Ela deixa a pessoa fraca, anêmica e vai ficando só o couro e o osso de tão magra, só tem olho e barriga, parecendo um macaco. Vai indo morre de tanta fraqueza”, explica Diva.

De acordo com a mestra da cultura mato-grossense, que também é benzedeira, o tratamento para o mal de simioto, denominado de “banho de verme na carne”, envolve toda uma ritualística. A começar pela utilização do leite materno para a confirmação do diagnóstico, que se faz também pelos sintomas de emagrecimento excessivo e aparência física de um macaco; passando por uma esfoliação na pele, por meio da aplicação de uma pasta composta por produtos como azeite, mel, trigo e fermento de pão; até chegar ao banho e à ingestão de uma infusão que se utiliza de um número variado de plantas medicinais caseiras, do cerrado e frutíferas.

“Já curei foi muita gente com esses banhos. Teve até um menino que já estava desenganado pelos médicos. O menino chegou carregado, na escadeira da mãe e no terceiro dia do banho já estava correndo na rua e jogando bola. As minhas duas filhas, as quatro netas e as três bisnetas todas passaram pelo banho de mal de simioto e hoje são mulheres fortes e sadias. Eu também já fiz esse tratamento quando era criança pelas mãos da minha mãe Lourdes e minha avó Maria”, relembra Diva.

Saiba mais sobre o projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã” aqui: https://aeecmt.blogspot.com/2020/12/maria-divina-cabral-mestra-da-cultura.html

Texto: Aluízio de Azevedo

Fotos: Karen Ferreira