Mostrando postagens com marcador lpg. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lpg. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Módulo II da Oficina de Chibe ocorre em Tangará da Serra para fortalecer a língua Calon

 
Projeto tem como objetivo conservar a “Chibe”, modo como os ciganos de etnia Calon denominam sua língua no Brasil

Com o objetivo principal de garantir a salvaguarda da “Chibe”, a língua do tronco étnico cigano Calon, será realizado no próximo dia 17 de outubro (sábado), na Chácara WR, em Tangará da Serra, o segundo módulo da Oficina de Chibe: Reavivando a Língua Calon. “Chibe” é o nome como as pessoas ciganas brasileiras dessa etnia denominam sua língua própria — também conhecida entre os ciganos portugueses como Romanon e, na Espanha, como Kalé.

O evento tem como proponente o multiartista e produtor cultural — também de etnia Calon — Aluízio de Azevedo, e conta com a parceria da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT). O projeto é realizado por meio de aprovação no Edital Viver Cultura Identidades – Edição Lei Paulo Gustavo, da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel/MT).

Além de fortalecer e conservar a Chibe entre as comunidades ciganas de Mato Grosso, especialmente em Tangará da Serra, município que reúne a terceira maior comunidade cigana do Estado, a iniciativa valoriza mestres da cultura que dominam fluentemente a língua, despertando nos mais jovens o desejo de conservá-la e o orgulho de pertencer à etnia Calon.

A programação foi elaborada pedagogicamente em diálogo com a cultura, a tradição e a identidade Calon, o que inclui a criação de materiais didáticos inéditos desenvolvidos especialmente para o evento por uma equipe de consultoria pedagógica formada por mestres da Chibe.

Oficina é exclusiva para pessoas ciganas de Tangará da Serra. Foto: João Aquino

“A oficina foi estruturada em formato de gincana. A programação está muito leve e divertida, pensada com carinho para um público variado, com idades que vão de cinco a 80 anos. Um dos materiais é o ‘Caderno de Atividades em Chibe, que conta com vários exercícios linguísticos de fixação, como caça-palavras, complete e ligue as frases, numerais e dicas de gênero (feminino e masculino)”, explica Aluízio de Azevedo, coordenador pedagógico do projeto.

De acordo com a presidente da AEEC-MT, Taize Aracelli Alves Caiado, a Chibe é um dos principais patrimônios culturais imateriais dos ciganos Calon e precisa ser conservada e reconhecida nos inventários estadual e nacional de línguas brasileiras. “Esta é a segunda edição do projeto em Tangará, e queremos levar a iniciativa a outros locais do Estado, principalmente, Cuiabá e Rondonópolis, que reúnem grandes comunidades ciganas e que também precisam fortalecer essa tradição”, ressalta.

O evento contará também com a participação da primeira e da segunda-secretárias da instituição, Irandi Rodrigues Silva e Orceni Rodrigues Angola, ambas integrantes da comunidade de Tangará da Serra.

Produção ressalta conservação da Chibe como patrimônio imaterial Calon

Segundo o diretor de produção do evento, Rodrigo Zaiden, além do caderno de atividades, outras dinâmicas foram desenvolvidas. “Uma delas é o jogo de Bingo Dialetal, que estimula a fixação da língua por meio do lúdico. A programação também inclui a tradução da música Bute Pilon, dos cantores de etnia Calon, Eddy Brito e Samuel, o registro de histórias e memórias dos anciãos e anciãs da comunidade, além de uma avaliação final”, detalha.

As crianças ciganas também participam do evento. Foto: João Aquino.

Respeitando o indicativo de lideranças locais e do movimento social cigano de não ensinar a Chibe a não-ciganos, o curso é exclusivo para cerca de 50 pessoas ciganas, incluindo crianças e adolescentes. Entre os participantes está Aldi Rodrigues, uma das produtoras e mediadoras do evento, que pondera sobre a importância da língua Calon:

“A Chibe carrega a expressão genuína do sentimento de nosso povo. É a perpetuação de nossa história de sobrevivência, cumplicidade e conexão com nossos antepassados. Para existir, é preciso proteger e perpetuar”, destaca.

Para Simone Carla Rodrigues, também produtora local, o encontro incentiva o aprendizado intergeracional. “Esse segundo encontro acontece justamente porque os meus filhos, os filhos dos meus primos, os sobrinhos e até mesmo nós adultos não temos tanto domínio da Chibe. Entendemos algumas coisas e sabemos falar poucas palavras. Sinto que a cultura acaba se enfraquecendo. Como a Chibe vem de uma tradição oral, sem registro em dicionários, esses encontros nos permitem reviver momentos e fortalecer nossa identidade”, aponta.

A coordenadora de produção local, Adriana Rodrigues, reforça que um dos grandes impactos do projeto é a geração de emprego e renda dentro da própria comunidade cigana de Tangará da Serra. Foram criados mais de 30 postos de trabalho diretos, englobando equipes de comunicação, produção local e alimentação, com a contratação de 15 anciãos e anciãs como oficineiros da Chibe — três dos quais são pessoas com deficiência (PCDs).

Evento, que prevê a participação de 50 pessoas, é financiado pela Secel/MT, por meio do Edital Viver Cultura Identidades - Edição LPG, categoria Povos Ciganos. Foto: João Aquino.

Adriana destaca ainda que o segundo encontro da oficina é fundamental para a comunidade cigana tangaraense. “Nossa língua é viva, aprendida no diálogo cotidiano com pais, avós e tios. Como não temos uma gramática escrita formal para ser aprendida de forma escolarizada, o aprendizado se dá na fala”.

Para a produtora Calon, com a globalização e a mudança no modo de vida, em que as famílias já não vivem em acampamentos tradicionais e moram mais distantes umas das outras, a prática diária da Chibe diminui. “Isso faz com que os mais novos acabem não aprendendo. Assim, considero este encontro importantíssimo para preservar nossa língua, evitar que ela desapareça e garantir que um dos nossos maiores patrimônios continue existindo no futuro”, conclui.

Kaiardon Produções - Assessoria de Comunicação 

Anciãos são os oficineiros da oficina de Chibe. Foto: João Aquino.

Ficha Técnica

Realização: Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT)

Proponente do projeto e Coordenação Geral: Aluízio de Azevedo Silva Júnior

Produção Executiva e Consultoria de Chibe e Língua Cigana: Irandi Rodrigues Silva

Direção de Produção e Direção de Arte: Rodrigo Zaiden

Coordenação de Produção: Adriana Rodrigues

Produção Local: Aldi Rodrigues e Simone Rodrigues

Mediação da Oficina: Aldi Rodrigues e Aluízio de Azevedo Silva Júnior

Fotografia e audiovisual: Maria Clara Aquino

Identidade Visual: Tami Lage

Técnico de Som: João Aquino

Mestres da Chibe

Estroécio Rodrigues Cunha

Orceni Rodrigues Angola

Venerana Rodrigues Cunha Pereira

Anésio Divino Rodrigues Cunha

Leida Alves Cunha

Daniel Rodrigues Angola

Luzia Laceni

Aluízio de Azevedo Silva

Irandi Rodrigues Silva

Terezinha Alves

Ranulfo Rodrigues Cunha

Taize Aracelli Alves Caiado

Nilva Rodrigues Cunha

Anderson Souza Lobo

Adevair Rodrigues Cunha

Maria Barbosa Cunha