quarta-feira, 22 de maio de 2024

Ser cigana ou cigano não é religião!

 

Uma questão muito comum que aparece no imaginário popular é que ser cigano é uma religião.

Mas não! Ser cigano/a é uma questão étnica. É preciso nascer Calon, Rom, Sinti ou de alguma etnia Romani.

Os povos ciganos não possuem uma religião de origem e isso não significa que não tenhamos espiritualidade ou mitologias próprias.

Estereótipos romantizados apontam para questões espiritualistas dos povos ciganos, que incluem a prática tradicional da leitura de mãos ou do tarot existente em alguns grupos.

O que leva muitos não ciganos a assumirem a identidade cigana por meio de práticas exotéricas, reforçando estereótipos e muitas vezes limitando e impedindo o acesso de pessoas das comunidades às políticas afirmativas.

Por outro lado, normalmente as pessoas Romani assumem e praticam as religiões dos locais onde vivem.

Historicamente, no Brasil, em Portugal e Espanha, os Calon, os Rom e os Sinti são em sua maioria católicos e devotos de Nossa Senhora da Aparecida.

Em alguns países como França e Itália há o culto à Santa Sara Kali, com peregrinação que ocorre todo ano a 24 de maio na cidade de Saintes-Maries-De-La-Mer, em França.

Atualmente, há um forte movimento neopentecostal que avança fortemente sobre as comunidades ciganas.

Uma boa parte das pessoas ciganas se converteram à essas igrejas evangélicas. Chegam mesmo a fundar denominações próprias, como em Portugal, onde a Igreja Filadélfia é composta em sua imensa maioria por Calons e Calins, incluindo presidentes e pastores.

Além disso, nos países onde o Islamismo é predominante há muitos grupos que são desta religiosidade.

Há muitos ciganos no Brasil que também são umbandistas, do Candomblé, ou outras religiosidades de matriz africana. E há também ciganos espiritualistas de denominações religiosas várias.

Fotos: @Juqueiroz; Artes: @Rodrigozaiden e @apenasTamii; textos: @aluiziodeazevedo

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terça-feira, 21 de maio de 2024

II Encontro de Mulheres Ciganas de MT ocorre dia 25 de Maio em Cuiabá

Evento ocorre dia 25 de maio em Cuiabá, reúne 30 mulheres Calins e valoriza os saberes e fazeres ancestrais das mulheres ciganas. Na foto, participantes do I Encontro produzem garrafada.

No próximo dia 25 de maio (sábado), 30 mulheres Calins participarão do II Encontro de Mulheres Ciganas de Mato Grosso. Uma realização da Associação Estadual das Etnias Ciganas (AEEC-MT), o vento é financiado por meio de seleção no edital público Viver Cultura 2022 da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT) e coordenado pela presidente da AEEC-MT, Rosana Cristina Alves de Matos.

O II encontro de Mulheres Ciganas de MT integra a programação do IV Encontro de Cultura Cigana de MT e é uma continuidade do movimento que a AEEC-MT iniciou em 2021, com a edição do I Encontro, que ocorreu em Rondonópolis entre 21 e 23 de abril. Os encontros visam promover o reconhecimento dos saberes e práticas ancestrais das mulheres ciganas do tronco étnico Calon como relevantes manifestações do patrimônio cultural cigano, mato-grossense e brasileiro.

Valorizando o aspecto cultural da itinerância, historicamente vinculado às etnias ciganas, o II Encontro ocorre em Cuiabá, segunda maior cidade com população cigana do Estado, reunindo mais de 100 pessoas. O evento ocorre na Chácara Almeida, localizada no bairro Dr. Fábio.

A programação conta com oficina de medicina tradicional Calon, especialidade de muitas mulheres ciganas, especialmente as anciãs, como a Mestra Diva e suas primas Dora, Olga, Cida, Isa, Terezinha, Biga e Irandi. O evento contará ainda com uma pequena mostra da culinária Calon.

A mesa de abertura terá a participação da Coordenadora Geral de Acesso e Equidade da Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Lilian Gonçalves e da técnica ponto focal para a pauta da saúde cigana no órgão, Rafaela Barros. Também conta com a participação da secretária adjunta de Cultura do Estado, Keiko Okamura e da presidente da AEEC-MT, Rosana Matos.

Aliás, Keiko também participará de roda de diálogo, ao lado de Antonieta costa, da Casa das Pretas, mediada pela ex-presidente da AEEC-MT, Fernanda Caiado, com o tema “Mulheres, ativismo social e empreendedorismo cultural”.

A programação contará ainda com a Roda de Diálogo “Medicina tradicional cigana: produzindo uma garrafada para saúde da mulher” e vivência com a artista cigana, Jaque Roque.  E palestra sobre saúde da mulher, com a participação da médica da família e comunidade, Ana Carolina Copriva, membro da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares.

Objetivos - Segundo a presidente da AEEC-MT e proponente do encontro, o objetivo é fortalecer as expressões culturais calon, partindo das mulheres. “Queremos fortalecer a nossa autoestima, a partir da revalorização das tradições das Calins e suas manifestações e modos próprios de autorrepresentação. Propomos um movimento de inclusão que gira em torno do reconhecimento dos saberes femininos. Valorizar as mulheres, é fortalecer a cultura Calon”, pondera Rosana.

Presidente da AEEC-MT e proponente do II Encontro de Mulheres Ciganas de MT, Rosana Alves

A produtora executiva do projeto, Fernanda Caiado, revela que a ideia central é a conservação de tradições, narrativas, memórias, histórias e costumes ciganos. Para ela, o fundamental, é trazer as demandas e necessidades das mulheres ciganas, especialmente, na área da saúde, foco da programação desta segunda edição. Para a Calin, garantir a continuidade da cultura Calon, significa enriquecer culturalmente a sociedade mato-grossense.

“Historicamente as etnias ciganas foram excluídas e perseguidas. Foram implementadas políticas persecutórias, nos proibindo de falar a língua, praticar nossos costumes, viver em comunidade. Mas nós resistimos, mantendo conhecimentos e práticas próprias, sem sermos assimilados. O que nós queremos é garantir que esse modo de vida próprio seja mantido e que nossos jovens e crianças tenham a possibilidade de um futuro de inclusão social plena”, avalia Fernanda.

Outro objetivo do projeto é desconstruir imaginários preconceituosos e discriminatórios contra as pessoas ciganas. Os preconceitos e o racismo histórico afetam sobretudo as mulheres Calins, impactadas duplamente: pelas exclusões socioeconômicas e étnico-racial e pelo viés machista, tanto da sociedade em geral, quanto internamente, uma vez que o machismo se manifesta, ainda que de forma diferente, entre algumas famílias ciganas.

“Houve uma tentativa de apagamento das identidades culturais ciganas, que são expressas ainda hoje por um imaginário recheado de estereótipos negativos, que precisam ser quebrados”, comenta o diretor de arte e cultura da AEEC-MT, Rodrigo Zaiden, diretor de produção e arte do II Encontro, lembrando que a proposta rompe com essas opressões e é construído com as participantes, suas narrativas e saberes.

Mulheres Ciganas confeccionam garrafada para saúde da mulher em Rondonópolis no I Encontro de Mulheres Ciganas de MT

I Encontro em Rondonópolis

Durante três dias de abril de 2021 (23 a 25 de abril) ocorreu, de forma inédita em Rondonópolis, o I Encontro de Mulheres Ciganas de MT. O evento foi um dos produtos transmidiáticos do projeto “Diva e as Calins de MT: Ontem, Hoje e Amanhã”, aprovado no edital Conexão Mestres da Cultura (Aldir Blanc, SECEL-MT).

A vivência reuniu 15 mulheres ciganas que trocaram experiências e aprofundaram conhecimentos em torno dos saberes da Mestra da cultura mato-grossense, Maria Divina Cabral, a Diva, condecorada no projeto pelos relevantes serviços prestados para a comunidade cigana e não-cigana como raizeira, benzedeira e conservação das tradições Romanis.

Outras informações: aeecmt@gmail.com

Aluízio de Azevedo, Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Estereótipos e preconceitos seculares contra as pessoas ciganas ampliam racismo e desigualdades

 

As pessoas Calon, Rom e Sinti, não são ladras, sequestradoras, trambiqueiras ou fantasias sexuais. Possuímos ricas e milenares identidades e culturas, com línguas, tradições e costumes diferentes.

Quando falamos em ciganos, vários estereótipos recheiam o imaginário social. Há duas visões bastante equivocadas, ambas nefastas. A primeira é uma visão romantizada e a segunda nos vê como bandidos perigosos.

A visão romantizada se exemplifica nas belas e sensuais mulheres ciganas, como Capitu, a personagem de Machado de Assis, que possuía “olhos de cigana, oblíquos e dissimulados”.

A romantização também povoa o ideário espiritualista, com as mulheres e homens ciganos místicos e capazes de prever o futuro.

Ou ainda, na versão cultural, graças as pessoas artistas ciganas memoráveis. Um exemplo é o cantor Sidney Magal que nunca foi cigano, mas se apropriou da cultura.

Outra visão é a que marginaliza as pessoas ciganas como trambiqueiras, ladras ou sequestradoras de criancinhas.

Há ainda uma visão falsa que nos classifica como sujos, imorais, transmissores de doenças etc.

Todas essas visões foram fabricadas para justificar a exclusão e a expulsão cigana, fomentar o racismo estrutural e as desigualdades sociais.

A verdade é que as pessoas ciganas são como quaisquer outras pessoas de outros grupos culturais, no sentido de haver pessoas boas e ruins.

Não é possível julgar uma nação inteira a partir de uma única característica, seja ela romântica ou negativa, pois ambas inferiorizam e retiram a humanidade.

Nós, Calons, Roms ou Sintis, precisamos ser conhecidos e reconhecidos, para que todo preconceito e estereótipo acabe.

Temos que ser valorizados pelas nossas manifestações culturais e filosofias que colocam os seres humanos e a natureza acima dos bens materiais e financeiros.

Fotos: @Juqueiroz; Artes: @Rodrigozaiden e @apenasTamii; textos: @aluiziodeazevedo

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NOTA DE REPÚDIO - QUEM FALA POR NÓS?

  

O município do Rio de Janeiro, por meio de sua Câmara Municipal, realizou recentemente, uma ação que supostamente seria de homenagem à Santa Sara Kali e aos povos ciganos, distribuindo moções. A ação seria louvável, não fosse o fato, que os próprios povos ciganos foram excluídos da homenagem e no lugar representando-nos estavam umbandistas, devotos da Santa, vestidos como ciganos e ciganas. 

Assim, ao invés de nos valorizar, a ação seguiu promovendo ações que nos aviltam e invisibilizam, reproduzindo estereótipos e promovendo curatelismo. Nos questionamos se as fés das pessoas lhe dão o direito de se colocar politicamente como nossos representantes? O Estado pode promover condecoração a qualquer a pessoa em nome de povos?

Na era da pós-verdade e das fake News, atitudes como essas reproduzem as marcas colonialistas, cumprindo um velho papel aplicado contra os povos tradicionais brasileiros: o silenciamento, o epistemicídio (assassinato de saberes e práticas), a invisibilidade e a exclusão social.

Não interessa ao Estado lidar com as verdadeiras demandas dos povos ciganos e com suas lideranças que vivem na pele e sabem o que é de fato serem ciganas e ciganos; mas dialoga e homenageia pessoas fantasiadas, coloridas e posadas para fotos.

Nós falamos por nós e nossas demandas estão para lá de meras performances. Estamos no mês dos povos ciganos, quando comemoramos o Dia Nacional dos Ciganos (24 de maio), entretanto, não há políticas para nós, não há escuta, não há partilha. Mas há sempre um bom samaritano a vestir nossas roupas e bandeiras.

Não aceitamos mais nos usarem como mote ou bandeira populista, apropriação cultural ou qualquer outro tipo de expropriação seja ela financeira ou simbólica. Estamos nós, os povos ciganos, preparados e com todas as ferramentas necessárias para desconstruir estereótipos e discriminações, para construir uma representação própria e de acordo com as nossas próprias maneiras de ver, de sentir e de estar.

Estamos aqui, vivos, em primeira pessoa para falar e denunciar a usurpação dos nossos saberes, identidades e culturas!

Assinam esta nota os seguintes coletivos e Associações Ciganas

1)    Coletivo Ciganagens

Email: coletivociganagens@gmail.com

2)    Associação Nacional das mulheres ciganas

Email: dinhavieiras@outlook.com

3)    Associação Nacional das Etnias Ciganas

Email: anecnacional@outlook.com

4)   Roda Cigana Rede Humanitária –

Email: lu_ynaiah@yahoo.com.br

5)   Associação Centro de Estudos e Discussões Romani – CEDRO

Email:      cedroeseupovocigano4@gmail.com

6)    Associação Vicente Vidal de Negreiros – Sousa/PB.

Email: ciganosidney6@gmail.com

7)    Associação Pedro Benício Maia – Sousa/PB

Email: figs1lacerda@gmail.com

8)    Associação Cigana Cambre

Email: associacaociganacambre@gmail.com

9)   Associação Comunitária Otávio Maia – Sousa/PB

Email: ciceroromaobatistachico@gmail.com

10Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso

Email:  aeecmt@gmail.com

11 ACIRGS– Associação Ciganos Itinerantes do Rio Grande  do Sul

Email: ciganositinerantesrs.winter@gmail.com

12Associação Cigana Aurora         Martim PB

Email: adelinoroque609@gmail.com

13 Coletivo da Familia Claudomiro Cigano – Conselheiro Lafaiete

Email: pantaleaomarcos36@gmail.com

14 Comunidade Eugenio Lacerda

Email: odiliomangueira75@gmail.com

15 Comcib – Coletivo das Mulheres Ciganas do Brasil

Email: iovanovitchitatiane@gmail.com              

16Familia Targino – Romulo

Email: produtosertanejocaico@gmail.com

17Associação Cigana de Marizópolis

Email: unovo4004@gmail.com

18Associação Raimundo de Doca Gadelha – Sousa/PB

   Email: nestorcigano133@gmail.com 

19 Associação de Ciganos de Condado na Paraíba (Ascocic)

20Confederação Brasileira Cigana CBC

Emails: confederacaobrasileiracigana@gmail.com               

21Associaçao de Preservação da Cultura Cigana do Parana – APRECI

Email: claudioiovanovitchi@gmail.com

22Federação Cigana de Minas Gerais – FEMICI

Email: leomg35@hotmail.com

23Associação de Preservação de Cultura Cigana do Estado do Ceará – ASPRECCEC

Email: joseeudo1963@gmail.com

24Associação Comunitária de Igualdade Racial dos Povos Tradicionais Iporá – Goiás – ACOPT –

Email: ademirb889@gmail.com

25Associação Beneficente Cultural e de Desenvolvimento Social dos  Povos Ciganos do Brasil - Abecc CE

Email: cavalcanteitamar1@gmail.com

26Centro Calon de Desenvolvimento Integral – C.C.D.I

Email: figs1lacerda@gmail.com

27Associação Estadual Cultural de Direitos e Defesa do Povo Cigano de Alagoas

Email: acialpenedoal@gmail.com

 

 

sábado, 18 de maio de 2024

Artigo Saúde mental dos povos ciganos

Acaba de sair publicado na Revista Ciência & Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), artigo que aborda a Saúde Mental dos Povos Ciganos.

O artigo é assinado por Anna Brandão, Aluízio de Azevedo (Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT), Judit Balázs e Cristiane Andrade.

Para baixar a obra, que aborda a saúde mental como um direito humano básico, correlacionando a questão com os processos de pobreza, discriminações étnicas, raciais e desigualdades, basta acessar o site da Revista:

https://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/saude-mental-dos-povos-ciganos-revisao-de-literatura-integrativa/19195?id=19195

Acompanhe abaixo o resumo:

Tema:

Os povos ciganos são considerados socioeconomicamente em situação de vulnerabilidade, sendo expostos a processos de exclusão e violência históricos, que ainda se fazem presentes.

A saúde mental é um componente essencial da saúde, um direito humano fundamental e central nas correlações das análises sobre pobreza, discriminações étnicas e raciais e desigualdades.

Objetivo:

Por meio dessa revisão integrativa, buscou-se conceber o estado da arte a respeito da saúde mental dos povos ciganos.

Método:

A busca seguiu as diretrizes do PRISMA e foi realizada em seis bases de dados (BVS, ProQuest, PsycInfo, PubMed, Scopus e Web of Science); 27 artigos compuseram a amostra final.

Sete categorias de análise foram construídas: transtornos mentais, suicídio, infância e adolescência, aspectos psicológicos, fatores de risco e proteção, gênero e prevenção em saúde mental.

Resultados:

Os estudos apontam para diversas situações de vulnerabilidades na experiência das pessoas ciganas no que diz respeito à saúde mental.

Destacamos o papel excludente de sociedades majoritárias supremacistas em relegar as comunidades ciganas a um lugar de marginalização e invisibilidade, que se expressa, por exemplo, através da baixa produção científica a respeito dessas comunidades, especialmente no contexto latino-americano.

Palavras-chave: Romani. Ciganos. Saúde Mental em Grupos Étnicos.

Referência e acesso:

Brandao, A., Silva Júnior, A. de A., Balázs, J., Andrade, C. B.. Saúde mental dos povos ciganos: revisão de literatura integrativa. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2024/Abr). [Citado em 18/05/2024]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/saude-mental-dos-povos-ciganos-revisao-de-literatura-integrativa/19195?id=19195

Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Nomadismo: opção cultural ou política de expulsão perpétua?

Tio Rey (foto) há mais de 45 anos fixou residência em Rondonólis-MT

Historicamente, os povos ciganos foram vinculados ao nomadismo. Todas as vezes que falamos nestes grupos étnicos, uma das primeiras características culturais que aparecem no imaginário social é o nomadismo.

De fato, as diásporas milenares nunca foram somente uma opção cultural, mas uma imposição das sociedades e nações por onde nossos antepassados foram passando.

Atualmente 80% ou mais das pessoas ciganas não são mais nômades. O próprio conceito de nomadismo é defasado. O correto é utilizar itinerantes ou viajantes.

A itinerância prevê rotas, que têm um ponto de partida e um ponto de retorno. Já o nomadismo, prevê uma migração a ermo.

A memória oral dos Calon diz que viemos do Egito. Já a ciência, por meio de uma pesquisa linguística, afirma que as primeiras migrações se originaram na Índia.

No século XIV, os Calon já estavam na Espanha e Portugal. Foi desses dois países, que chegaram ao Brasil, durante 300 anos de colonização, degredados, expulsos, pelo simples fato de serem ciganos.

Em Portugal, até muito recentemente havia leis proibindo as pessoas ciganas nômades de permanecerem no mesmo local por mais de 48 horas.

No Brasil, durante séculos, as polícias, comandada pelo Estado, trataram os ciganos como criminosos, bandidos perigosos, que precisavam ser expulsos.

Ocorreram episódios conhecidos como as Correrias Ciganas. Consistia nas polícias invadirem acampamentos e matarem crianças, velhos, mulheres, sem distinção.

As polícias provocavam a fuga em desespero das pessoas ciganas para as matas, abandonando bens e pertences, para sobreviver.

Existem inúmeros arquivos policiais e jornalísticos comprovando essas ações, especialmente, em Estados como Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Apesar dessas ações terem diminuído consideravelmente, nos dias atuais ainda continuam. Em 2021, por exemplo, ocorreu um caso envolvendo uma família cigana com 10 irmãos e a polícia militar da Bahia em 2021.

Após um conflito, a polícia baiana promoveu uma verdadeira caçada a esta família, assassinando 8 de 10 irmãos e provocando terror em comunidades ciganas do Estado.

Além do que, viver de forma nômade, em barracas, não possibilita acesso a questões como água encanada, luz elétrica, esgoto, recolha de lixo e outras questões infraestruturais.

Fotos: @Juqueiroz; Artes: @Rodrigozaiden e @apenasTamii; textos: @aluiziodeazevedo

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segunda-feira, 13 de maio de 2024

Povos Ciganos: Povos Tradicionais brasileiros


Desde 2007, por meio do Decreto Presidencial 6.040, os povos ciganos foram reconhecidos pelo Estado brasileiro como Povo Tradicional.

Assinado pelo presidente Lula, o Decreto instituiu no país a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT)

A Política é uma ação do Governo Federal que busca promover o desenvolvimento sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs), incluindo os três troncos étnicos ciganos, os Calon, os Rom e os Sinti.

Além dos povos ciganos, este decreto reconheceu também outros 27 seguimentos, incluindo indígenas, quilombolas, pantaneiros, retireiros do Araguaia, morroquianos, entre outros.

Para gerir e organizar esta política, existem dois órgãos: Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais - CNPCT, criada pelo Decreto de 13 de julho de 2006.

A política também é articulada pelos próprios PCTs, por meio do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), órgão colegiado de caráter consultivo que desde 2023 é vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

O CNPCT tem por finalidade o acompanhamento e aprimoramento das políticas públicas para os Povos e Comunidades Tradicionais que se identifiquem como grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, garantindo que suas tradições culturais, religiosas, econômicas e territoriais sejam preservadas.


As ações e atividades voltadas para o alcance dos objetivos da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais ocorrem de forma intersetorial e integrada.

Atualmente, duas entidades representam os povos ciganos no CNPCT. São elas:

Titular: Maria Jane Soares Targino Cavalcante da Associação Comunitária dos Povos Ciganos de Condado da Paraíba (Ascocic);

Suplentes: 1º Suplente - Valdir de Almeida Apolinário, do Instituto Brasileiro de Apoio aos Segmentos Étnico-raciais (Ibaser; e 2º Suplente - Michel Luiz Kriston, da Associação Maylê Sara Kali (AMSK).

Acompanhem nossa campanha, compartilhem e nos ajudem a quebrar estereótipos e preconceitos históricos sobre os povos ciganos.

Fotos: @Juqueiroz; Artes: @Rodrigozaiden e @apenasTamii; textos: @aluiziodeazevedo

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sexta-feira, 10 de maio de 2024

Oficina de Chibe: Reavivando a Língua Calon

 

Exclusivo para comunidade cigana, evento reuniu 50 pessoas em Tangará da Serra para fomentar a conservação do Romanó-Kaló, mais conhecida no Brasil como Chibe

O último dia 11 de maio (sábado) foi uma data muito especial para a comunidade cigana que reside no município de Tangará da Serra (localizado a 240 km de Cuiabá). Na ocasião, cerca de 50 pessoas pertencentes ao tronco étnico Calon participaram da Oficina de Chibe: Reavivando a Língua Calon.


Realizado pela Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), o evento é uma das atividades que integram a programação do IV Encontro de Cultura Cigna de Mato Grosso. Exclusiva para pessoas ciganas, a oficina foi um dos projetos selecionados na categoria Povos Ciganos do Edital Viver Cultura 2022, da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT).


Denominada “Romanon” ou “Romanó-kaló”, a Chibe, como é mais conhecida entre os ciganos do tronco étnico Calon, é um dos principais traços culturais deste tronco étnico cigano. Ela serve tanto como demarcador cultural de autoidentidade e forma de reconhecimento entre as etnias distintas (as outras duas são os Rom e os Sinti), pois cada qual tem sua língua própria; quanto como uma forma de proteção e segurança frente às pessoas não-ciganas.


De acordo com a coordenadora geral do projeto, Adriana Rodrigues, a oficina é uma iniciativa inédita no Brasil e visou promover e fortalecer as lideranças ciganas anciãs, incluídas no projeto como mestres da cultura cigana, por manterem a língua romanó-kaló, com isso fortalecendo também os saberes tradicionais Calons, garantindo a conservação desta forma única de conceber e representar o mundo.


Adriana coordenou a organização da Oficina de Chibe


“A oficina mirou na valorização da identidade e cultura ciganas, nossos modos de ver e viver a vida, junto aos jovens de todos os gêneros, despertando o orgulho e a autoestima Calon. Promovemos um encontro e um intercâmbio intergeracional entre jovens e os mais velhos e mais velhas ciganas, após um período pandêmico que obrigou às medidas do isolamento social”, destaca Adriana.


Conceito e programação 


A diretora de programação da oficina de Chibe, Aldi Rodrigues, explicou que além de uma programação diversificada, que incluiu materiais didáticos e pedagógicos criados exclusivamente para a oficina, pensando a lógica de pensamento da Chibe e da identidade cultural Calon. O encontro contou com dinâmicas, que valorizam os modos de vida ciganos, saberes, práticas, memórias, narrativas e mitologias próprias.


A Diretora de programação Aldi Rodrigues

“Acreditamos que o retorno à ancestralidade é um componente importante para a formação humana, especialmente, para crianças, adolescentes e jovens. Conhecer o passado é importante para situar-nos no mundo de hoje e pensar um imaginário com possibilidades de futuro que incluam socialmente as pessoas ciganas, nos reconhecendo plenamente, de maneira a desconstruir as visões estereotipadas e racistas”, pondera Aldi.


A parte conceitual da oficina foi toda construída em conjunto com os participantes, respeitando o direito de autorrepresentação. A exclusividade desta ação de valorização da Chibe somente ao público cigano, por exemplo, respeita a regra e o desejo dos anciãos Calon de que não pode ser ensinada aos não ciganos.


Conforme explica a coordenadora pedagógica do projeto, Eunice Alves, a iniciativa para a realização da oficina “surgiu através da constatação que a grande maioria dos adultos e Jovens da comunidade não ter conhecimento da Chibe.  Havendo assim a necessidade de preservação”. 



A pedagoga Eunice Rodrigues coordenou a execução pedagógica do evento


Segundo Eunice, a oficina é uma estratégia pedagógica que teve o objetivo de trazer conceitos básicos. “Comunidades tradicionais possuem uma identidade linguística própria e essa oficina é o início para o resgate e preservação da Chibe. Sabemos que a língua é um elemento fundamental na manutenção da identidade da nossa comunidade”. “A expectativa é que crianças aprendam a língua dos nossos ancestrais com seus pais e avós, que sintam orgulho, que elas mantenham sua identidade linguística através da transmissão oral preservando sua cultura”, analisa.


Para Eunice, o constante ataque às identidades e culturas ciganas, que passam por estratégias como padronização cultural ou estereotipação, foram fatores que influenciaram na desvalorização do ser cigano e suas características culturais. Assim, “a oficina cumpriu uma dupla função, a valorização das lideranças anciãs e seus saberes, bem como a renovação da Chibe entre a geração mais jovem”. 


Na opinião da produtora do evento, Simone Carla Rodrigues Oliveira, a realização da oficina é importante “para não deixar a nossa cultura morrer, porque com tanto preconceito que há entre os povos, que a gente meio que vai deixando de viver a nossa vida de cigano e vivendo a vida das pessoas não-ciganas e a gente esquece um pouco de falar a nossa língua. No tempo dos nossos pais, a Chibe era mais usada, já no nosso não é tão usado, então, para não deixá-la esquecida no passado, para que os meus filhos e netos possam aprender”.

Simone Carla Rodrigues produziu a Oficina de Chibe

“Os resultados que eu queria, é que as pessoas não ciganas nos veem com outros olhos, porque o povo cigano só é visto com olho ruim. Se a gente for pegar filmes, novelas, sempre mostram a gente como bandidos, que roubam, gostaria que a nossa oficina mostrasse para a população que nós não somos ruins, não somos ladrões, pelo contrário, que nós somos trabalhadores, temos profissões e somos honestos”, conclui Simone.


Equipe Cigana


A oficina teve uma equipe de coordenação e a maioria dos cargos de execução do projeto é composta por profissionais de origem Calon. Além de Adriana, Aldi, Eunice e Simone, integram a equipe o Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo e o Diretor de Arte e Cultura da instituição, Rodrigo Zaiden.


A oficina contou com a participação especial de 15 anciãs e anciãos ciganos que residem em Tangará da Serra, incluindo Estroécio Rodrigues Cunha, mais conhecido como os tios Anésio, Alvone, Luzia, Nerana, Maria, Leida, Toesse, Orceni, Daniel, Egídio, Irandi, Aluízio, Coraci, Cida, Olga e Terezinha que comandaram as atividades. 


IV Encontro de Cultura Cigana de MT


Uma realização da AEEC-MT, o evento integra uma série de programações paralelas, tendo em vista marcar as comemorações do Dia Nacional dos Povos Ciganos, que se comemora a 24 de maio. Além da Oficina de Chibe, o II Encontro de Mulheres Ciganas de MT e o lançamento da minissérie Luzia e As Calins do Cerrado, que ocorrem em Cuiabá no dia 25 de maio, também integram o IV Encontro. Além disso, a AEEC-MT iniciou em 01 de maio uma campanha virtual de valorização dos povos ciganos e em breve lançará nas ruas de Cuiabá a Exposição Diquela, com lambes trazendo fotografias e artes envolvendo comunidades ciganas.



Aluízio de Azevedo, Assessor de Comunicação

Fotos: Ju Queiroz e Arquivos AEEC-MT


Ficha Técnica


Realização - Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de MT (Secel-MT)

Proponente - Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT)

Coordenação Geral – Adriana Rodrigues Angola e Aluízio de Azevedo

Coordenação Pedagógica – Eunice Alves

Direção de Programação – Aldi Rodrigues

Direção de Produção – Simone Carla Rodrigues Oliveira

Direção de Arte – Rodrigo Zaiden

Consultoria Pedagógica e Assessoria de Comunicação e imprensa – Aluízio de Azevedo

Produção Executiva – Adriana Rodrigues Angola, Fernanda Caiado e Rosana Cruz

Identidade Visual e layout – Tamii e Rodrigo Zaiden

Designer Gráfico – Rodrigo Zaiden e Tamii

Videomaker – João Aquino


Anciãos Ciganos em Tangará da Serra Mestres da Chibe

Adevair Rodrigues Cunha

Aluízio Azevedo Silva

Alvone Rodrigues Cunha

Anésio Divino Rodrigues Cunha

Coraci Rodrigues Cunha de Carvalho

Daniel Carlos Angola

Egídio Luiz Teston

Estroécio Rodrigues Cunha

Irandi Rodrigues Silva

Leida Alves Cunha

Luzia Laceni de Jesus, RG 550 267 

Maria Aparecida Alves Rodrigues

Maria Barbosa Cunha

Orceni Rodrigues Angola

Venelci Rodrigues de Souza

Venerana Cunha Pereira


Outras Informações: (65) 99911-3473

Aluízio de Azevedo, Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT