O filme media mestragem, É Kalon – Olhares Ciganos (2011, 35'), bateu os 100 mil acessos no YouTube.
Primeiro registro audiovisual que traz a comunidade cigana mato-grossense, o trabalho é patrocinado pelo Fundo Estadual de Cultura de MT, via Secretaria de Estado de Cultura.
Dirigido por Aluízio de Azevedo e com produção de Irandi Rodrigues Silva, a obra contou com a consultoria de Glória Albuês e Cícero Garcia.
Sinopse:
A
saga dos ciganos, considerados um das nações mais exóticas do mundo, devido ao
misterioso universo cultural, é tocada nesta obra o ao mostrar a vida e o
cotidiano de um grupo Kalon, formado por cerca de 200 pessoas, que vivem e
percorrem o Estado de Mato Grosso há mais de 80 anos. Fé, valores, conhecimentos
e maneira de viver são os fios condutores do vídeo, aspectos enfocados pelos
próprios membros do grupo. O objetivo foi mostrar como enxergam as passagens da
vida em seus rituais, além de contos e mitos, mesclando-os com as
interpretações e vivências da vida cotidiana atual, que se faz mestiça.
Ficha Técnica
Ano:
2010/2011
Direção,
Roteiro e pesquisa: Aluízio de Azevedo Silva Júnior
Produção
Executiva: Irandi Rodrigues Silva
Produção:
Aluízio de Azevedo Silva
Direção
de Arte: Duflair M. Barradas
Direção
de Fotografia: Duflair M. Barradas e Odenir
Consultoria
de Arte e edição: Glória Albuês e Cícero Garcia
Edição
e Montagem: Gisela M. Barradas e Aluízio de Azevedo Silva Júnior
Segunda edição do programa vai acelerar 20 negócios criativos e
organizações sem fins lucrativos para impulsionar o setor em todo o Estado
Por Cida Rodrigues | Secel-MT
Os
20 negócios ou organizações que participarão da segunda edição do edital
MOVE_MT, programa de aceleração de negócios criativos, de inovação e de impacto
social, já foram selecionados. Com um ciclo de aceleração de seis meses de
duração, o programa é realizado pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e
Lazer (Secel-MT) em parceria com o Instituto Oi Futuro. Os escolhidos são de
diferentes municípios mato-grossenses.
“O
MOVE_MT trouxe grandes resultados com os projetos acelerados na primeira edição
e agora se consolida ainda mais como o programa propulsor da economia criativa
em Mato Grosso. Parabéns aos projetos selecionados nessa segunda edição. E
contem com nossa equipe da Secel e a parceria do Oi Futuro nessa caminhada de
desenvolvimento de seus negócios criativos”, celebra o secretário da secretário
de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso, Jefferson Carvalho Neves.
Criado
para impulsionar empreendedores e líderes do setor que desenvolvem negócios ou
projetos com potencial de transformação social em Mato Grosso, o programa tem a
diversidade como marca. Dos selecionados, 60% se identificam como pretos ou
pardos, 65% são mulheres e 25% são pessoas da comunidade LGBTQIA+.
O
grupo inclui ainda projetos representados por pessoas com deficiência,
indígenas e ciganos, e 45% das ações selecionadas acontecem em municípios fora
da Região Metropolitana, ampliando acesso e fomentando a cultura criativa
também em comunidades ribeirinhas e no interior do Estado.
Ao
todo serão oferecidas 1.700 horas de capacitação e mentorias em gestão,
inovação, impacto social, criatividade e comunicação. Ao final da jornada,
serão distribuídos, a título de apoio financeiro, cerca de R$ 350 mil entre as
cinco iniciativas mais bem avaliadas na aceleração. Essas iniciativas serão
convidadas a realizar um intercâmbio no Lab Oi Futuro, no Rio de Janeiro, em
que farão uma imersão no ecossistema da economia criativa da cidade.
“Com
o segundo ciclo do MOVE_MT, conseguimos ampliar nosso impacto e levar inovação
a novos territórios, valorizando a diversidade como potência de desenvolvimento
e transformação social. O Oi Futuro segue no propósito de impulsionar
empreendedores da economia criativa em todo o país e pretende replicar o modelo
de sucesso do MOVE_MT para outros estados brasileiros com novos parceiros”,
afirma Carla Uller, gerente Executiva de Programas e Projetos do Oi Futuro.
Confira
abaixo a lista completa das iniciativas selecionadas:
Casa
de Cultura Silva Freire (Cuiabá): Sediada no entorno do Centro Histórico de
Cuiabá, a ONG faz a gestão do acervo do poeta Benedito Sant’Anna da Silva
Freire e atende centenas de estudantes, professores e pesquisadores por meio de
seu Programa Educativo.
Núcleo
de Artes Cênicas Tradição Cigana (Cuiabá): Atua no registro e divulgação dos
saberes dos povos ciganos e no fortalecimento, conservação e manutenção das
culturas e identidades das etnias ciganas Kalon, Rom e Sinti. Oferece formação
em dança e teatro para pessoas ciganas de Rondonópolis, maior comunidade cigana
de MT.
Hip
Hop Atemporal (Cuiabá): O coletivo Favelativa reúne jovens periféricos,
especialmente do movimento hip hop, para desenvolver projetos, oficinas
culturais e eventos voltados para a juventude negra e periférica de Mato
Grosso.
Pé
de Folclore – Cáceres, Rios e Lendas (Cáceres): Tem como objetivo manter as
manifestações culturais populares em Cáceres, como Siriri, Cururu e Festas de
Santo por meio das artes cênicas (dança, música e teatro) e do incentivo às
manifestações populares.
Empreendedores
Criativos do Mato Grosso (Cuiabá): Grupo de empreendedores criativos da cultura
– músicos, artistas plásticos e contadores de histórias – que se uniram com o
objetivo de atender as regiões periféricas da cidade. Realizam projetos de
musicalização, ateliê popular de artes plásticas, incentivo à leitura e escrita
criativa, empreendedorismo juvenil e empoderamento feminino.
Arteagro
(Campo Verde): Confecção e comercialização de peças de artesanato a partir de
restos de algodão e palha de milho perdidos nas colheitas. O projeto trabalha o
desenvolvimento artístico, social e cultural, a empregabilidade, o
empreendedorismo, a geração de renda e a transformação de perdas em inovação.
Cidadão
Oddly (Cuiabá): Produtora independente de eventos LGBTQIA+ em Cuiabá. Atua
também na capacitação de travestis e transexuais para inserção no mercado de
trabalho.
Rua
Antiga (Chapada dos Guimarães): O negócio, que começou como um sebo itinerante,
ganhou endereço fixo e passou a funcionar como Espaço Cultural Metade Cheio,
que promove a memória regional por meio da literatura e da música. Além de
comercializar produtos culturais, promove ações de fomento à leitura e
exposições.
Apoio
à Cadeia de Valor do Cacau no Noroeste de MT (Juína): O projeto visa levar
conhecimento e assistência técnica aos produtores locais, estabelecendo
parcerias diretas, remuneração justa e enfatizando a importância da qualidade
do cacau para a produção de chocolates artesanais.
Loja
Karajá (Santa Terezinha): Criada pela comunidade indígena Karajá da Aldeia
Itxalá, a organização desenvolve projetos sustentáveis. O projeto propõe a
criação de sistema de venda de artesanato Karajá e a qualificação de jovens
indígenas para trabalhar com ferramentas de venda on-line.
Tece
Arte (Cuiabá): Coletivo de 55 mulheres empreendedoras que produzem peças
artesanais únicas e comercializam para turistas e lojistas. A iniciativa tem
como objetivo utilizar conhecimentos tradicionais para agregar valor aos
produtos artesanais e promover desenvolvimento sustentável na comunidade.
Rede
de Comercialização Social Solidária – RECOSS (Aripuanã): Busca criar um
ambiente de negócios para agricultores familiares, agroextrativistas, grupos
indígenas, artesãos e outros, conectando com consumidores por meio de um
aplicativo.
Produtora
Audiovisual Quariterê (Cuiabá): Nasceu como um desdobramento do Aquilombamento
Audiovisual Quariterê, formado por negros e indígenas. Tem como objetivo
desenvolver produções culturais e artísticas e participar do desenvolvimento de
políticas afirmativas no mercado audiovisual.
Grupo
Tibanaré(Cuiabá): Coletivo de teatro criado em 2006 na periferia de Cuiabá, com
foco na cultura popular regional. Realizam espetáculos, ações formativas e
festivais em espaços não-convencionais, buscando alcançar pessoas com pouco
acesso à cultura.
AMFMT
(Várzea Grande): A organização oferece oficinas de manifestações populares
tradicionais, em que produz figurinos e artefatos regionais, como violas de
cocho, mocho, ganzá e produtos da culinária regional. Também realiza
apresentações cênicas na Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá.
Afrotours:
A primeira agência de turismo afro de MT (Poconé): Propõe experiências em
comunidades quilombolas na região do Pantanal, desconstruindo a imagem de um
Pantanal apenas direcionada à fauna e à flora, ao mesmo tempo em que escuta as
necessidades e histórias das comunidades e comercializa essas experiências
fazendo com que as comunidades sejam vistas e tenham um retorno financeiro.
Bodega
Pantaneira – Loja Colaborativa (Santo Antônio do Leverger): Promove o
ecoturismo associado à comercialização de produtos oriundos da região
pantaneira, dando visibilidade aos artesãos e mestres da cultura popular na
região.
O
Universo “E Outros Bichos” (Chapada dos Guimarães): O projeto propõe o
desenvolvimento de uma ação transmídia a partir da série "E Outros
Bichos", com quatro temporadas relacionadas a diferentes regiões do
Brasil. A trama envolve a descoberta de seres míticos por pré-adolescentes e sua
jornada para proteger o meio ambiente.
Na
Floresta (Chapada dos Guimarães): O negócio criativo produz artigos de
papelaria, embalagens biodegradáveis e outros produtos a partir de resíduos de
bananeiras. Pretendem criar a Escola da Banana, para capacitar comunidades
vulneráveis na criação de produtos variados a partir das bananeiras.
Lista
Negra Podcast (Cuiabá): O podcast tem como objetivo dar visibilidade a
profissionais negros e discutir questões sociais e culturais que afetam a
população negra. Composto por mulheres da periferia de Cuiabá, o podcast busca
conscientizar e promover ações e mudanças positivas relacionadas à diversidade
e à inclusão.
O programa MOVE_MT
Após
o sucesso da primeira edição, o MOVE_MT 2 recebeu 116 inscrições de todas as
regiões do Estado, com uma grande adesão marcada pela diversidade: dos
inscritos, 65,5% se identificaram como pretos ou pardos, 57% são mulheres e 36%
são sediados fora da região metropolitana de Cuiabá.
O
processo de seleção do MOVE_MT envolveu uma comissão formada por especialistas
externos, representantes da Secel-MT e do Oi Futuro, que avaliou as iniciativas
inscritas levando em conta seu histórico, a consistência do projeto, o problema
social que busca resolver e o perfil do empreendedor.
Além
da seleção para o ciclo de aceleração, o MOVE_MT 2 realizou dois workshops de
estruturação de projetos para o público geral, em março e abril, que
beneficiaram 107 empreendedores locais. Em maio, o programa promoveu um
seminário na sede do FIEMT, voltado para empresários e grandes investidores,
para fortalecer o ecossistema da economia criativa em Mato Grosso.
Promovida
em 2022, a primeira edição do MOVE_MT ofereceu formação e aceleração a 30
negócios e projetos da economia criativa, totalizando cerca de duas mil horas
de capacitações e mentorias em Gestão, Tecnologia, Economia Criativa e Impacto
Social. O programa distribuiu cerca de R$ 320 mil em prêmios para as
iniciativas mais bem avaliadas e promoveu um intercâmbio no Lab Oi Futuro, no
Rio de Janeiro, para nove negócios participantes.
Projeto é para criação de núcleo de artes cênicas do Grupo de Danças Tradição Cigana de Rondonópolis
A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) foi uma das 20 instituições/projetos aprovadas na 2ª edição do Projeto de Aceleração de Negócios Criativos, de Inovação e/ou Impacto Sociocultural de Mato Grosso – MOVE_MT 2.
Desenvolvido pela Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), em parceria com a Oi Futuro, nesta segunda edição o Programa ofertará mentoria para a AEEC-MT com o objetivo de implementação do Núcleo de Artes Cênicas Tradição Cigana, em Rondonópolis.
Duas representantes do grupo de Danças Tradição Ciganas e o Diretor de Arte e Cultura da AEEC-MT participarão das mentorias oferecidas pela Oi Futuro. A ideia é que durante a mentoria, a organização consiga melhorar em ao menos três aspectos:
1) Formação em gestão e produção cultural, especialmente na captação de recursos e prestação de contas dos quadros da associação, para que consigam alçar voos mais altos, como a busca por acesso a recursos, eventos e outras atividades próprias das culturas e populações tradicionais dos povos ciganos;
2) Mentoria para a institucionalização e profissionalização do grupo de Danças Tradição Cigana, por meio da implementação de um projeto que visa a criação de um núcleo de Artes Cênicas voltado para as pessoas integrantes do grupo;
3) Possibilidade de financiamento para que este núcleo possa desenvolver atividades como oficinas de introdução às artes cênicas, teatro e dança, figurino e corte e costura, bem como outras funções e processos básicos para a montagem de um espetáculo de dança que passará a compor o repertório do grupo; confecção de indumentárias apropriadas para as danças desenvolvidas; recursos para aluguel de um espaço e transporte dos participantes para as atividades presenciais do curso.
As atividades do projeto terão como referência primária as indumentárias tradicionais, inserindo o toque da moda, enriquecerá a parte estrutural do grupo, que passará a contar com um figurino pensado para suas apresentações.
Ao participar de toda a mentoria, que durará seis meses, começando a partir de setembro de 2023, as cinco melhores iniciativas, das 20 selecionadas pelo Move-MT, após passar por uma banca realizada pela Oi Futuro, receberão um prêmio no valor de R$ 70.000,00 cada. Todas as 20 iniciativas, incluindo a AEEC-MT, receberá pela participação na mentoria e defesa do projeto, no terceiro mês de sua execução, um valor simbólico de R$ 2.860,00.
O resultado pode ser conferido no site da Move_MT: https://oifuturo.org.br/editais/move_mt/
Texto: Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT
Professora Mimi Sato, uma defensora incansável dos direitos humanos e da terra, que nos deixou recentemente e cujo legado permanece
Por Aluízio de Azevedo Silva Júnior, Ex-orientando de Mestrado de Mimi Sato
Borboleta
O
privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por
certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.
Eu
imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza,
um
mundo livre aos poemas.
Daquele
ponto de vista:
Vi
que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi
que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi
que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi
que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
Manoel
de Barros
Não foi com Manoel de Barros, que escreve este
belo poema que aprendi a ser borboleta. Foi com Mimi Sato. O tomo emprestado
para começar este texto e entrelaça-lo nesta homenagem, pois descreve
perfeitamente o meu sentimento em ser borboleta e cada vez que vejo e me sinto
uma borboleta, lembro que foi a Mimi que me ensinou a ser assim.
Musa inspiradora da ciência e da arte,
orientadora de Mestrado e amiga querida, foi quem abriu os meus olhos e alma
para um mundo com seres humanos, animais, plantas e todos os seres coexistindo
e vivendo em uma ecologia centrada em Gaia, essa nossa mãe terra que a tudo nos
oferece para a existência.
Com Mimi, tive o privilégio insetal de ser uma
borboleta. Fã ardorosa de Manoel de Barros, além de pesquisadora altamente
produtiva nos campos da Educação e da Educação Ambiental (EA); era poeta de mão
cheia. Uma artista sensível, que como Gaston Bachelard, conseguia unir esses
dois contrários que parecem impossíveis de coexistirem: a ciência e as artes,
como fez em seus escritos. Uma marca que ficará viva no seu legado e
ex-orientandos.
Foi com Mimi Sato aprendi que as árvores são
sim mais competentes em auroras do que os homens. Primando por uma educação
Paulo Freireana, mais do que repetir que “eva viu a uva”, praticava a conexão
contextual, não apenas socioeconomicamente, como também ambientalmente. Entre
conceitos e os afetos, espalhava amor no acolhimento a todas as diversidades e
grupos em situação de exclusão.
Ao mesmo tempo, tecia habilidosas e
contundentes críticas pela libertação do planeta das garras da opressão
desenvolvimentista da globalização neoliberal. Com ela, me situei em uma
educação ambiental viva, que não separa a cultura da natureza e nem os direitos
humanos dos direitos da terra e, assim, senti que o diálogo com os povos
ciganos é possível dentro de uma ciência da vida, que prima pela inclusão.
Convivendo e sendo acolhido enquanto cigano,
LGBTQIAP+ por Mimi Sato, compreendi “que as tardes são mais aproveitadas pelas
garças do que pelos homens”. E que o Pantanal tem um valor inestimável. Aprendi
que a ciência não precisa ser dura, nem fixa, nem rígida. Que as metodologias
podem dialogar com os fenômenos, mas que os sujeitos jamais devem ser relegados
a segundo plano, assim como a natureza.
Aprendi com Mimi “que as águas têm mais
qualidade para a paz do que os homens”. Que os espíritos das águas das culturas
indígenas ou do folclore popular brasileiro não são meras lendas ou mentiras.
Que os mitos representam essa imbricação total entre humanos e meio ambiente,
cultura e natureza e que são uma forma muito rica de percepção dos povos
tradicionais.
Mimi Sato me ensinou que o desenvolvimentismo,
o progresso, a globalização e o capitalismo, são cegos não apenas para o bem
estar, o bom viver, a inclusão social e educacional, como também é cego quanto
às graças oferecidas pelo meio ambiente. Ainda com essa “Borboleta”, aprendi
“que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas”, que, por vezes,
se assoberbam, ficam indolentes e giram apenas em torno de si mesmos e de um
modelo hegemônico que apenas mantém opressões, colonialidades e exclusões do
capitalismo, justificando-o.
Mas também foi com Mimi Sato que aprendi o verbo
“esperançar”, que conjuga sempre acreditar e ter fé que é possível mudar o
mundo para melhor, com mais justiça ambiental, justiça social e justiça
epistemológica.
Que os povos tradicionais e os povos ciganos e
todas as minorias oprimidas pelo capitalismo, colonialidade ou
heteropatriarcalidade, como e mulheres e dissidentes de gênero e sexualidade,
são também re-existentes e promovem sociedades sustentáveis, uma alternativa ao
modelo de desenvolvimento sustentável, que não passa de um arremedo ao velho sistema.
Figura:
Cara-col, autores: Aluízio de Azevedo e Cícero Garcia. Oferecida à Mimi Sato.
Ano 2007.
Fundamentalmente, foi com Mimi, que aprendi e
a ser pesquisador e me apaixonei pela ciência e aprendi a ser educador
ambiental. A conheci em 2004, ano em que trabalhava na Assessoria de
Comunicação da (Ascom) da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso
(Seduc-MT) e ela foi consultora do Projeto de Educação Ambiental (Preá),
política na área da educação ambiental do órgão.
O Preá era vinculado ao setor de educação
ambiental na Seduc, que tinha à frente como coordenadora a bióloga e doutora em
Educação Ambiental, Débora Pedrotti, que tinha acabado de defender a tese com
Mimi no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato
Grosso (UFMT).
Mas a minha aproximação ocorreu apenas em
agosto de 2007, após ingressar no Mestrado do PPGE em março daquele ano, com
outro orientador, que assumiu outro compromisso fora da universidade e menos de
seis meses de adentrar no curso me vi na situação obrigatória de ter que mudar
de orientação.
De todos os professores do PPGE, Mimi era é
que a mais me despertava emoção e brilho nos olhos. Seu jeito doce, mas também
firme, crítico e com afeto, me cativou desde a primeira vez que a vi. Mas ali,
no PPGE, pude ver de perto o tamanho do coração e o acolhimento que Mimi
projetava no GPEA.
Nossa relação mais íntima começou também com
uma poesia, que fiz, após procurar Débora e ser aconselhado por ela que Mimi
Sato era a melhor orientadora possível para acolher os povos ciganos,
convidando-a para me orientar neste processo. Quando conversei e li a poesia
com o convite, os olhos dela brilharam e aceitou imediatamente.
Não poderia ter outra orientação melhor, pois
além de uma orientadora de primeira qualidade em produção acadêmica, mantinha
uma poderosa crítica no campo da educação ambiental brasileiro, revigorando-o a
partir da periferia mato-grossense.
E, principalmente, além de uma orientadora
atuante, pronta para atender e muito parceira e compreensiva, ganhei também uma
amiga pessoal querida e mais do que isso uma forte aliada dos povos ciganos,
que desde 2007 nunca deixou de estar em todos os seus diálogos com os povos
tradicionais. Mimi você vive em nós e seu legado será honrado!
Formação é voltada para jovens ciganos ou pertencentes a povos e comunidades tradicionais
A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) lança, nesta terça-feira (30.05), o “Guia Prático para replicação para Povos Ciganos e Povos Tradicionais” do Curso de extensão “Juventude Cigana: da Invisibilidade à Comunicação Popular em Saúde”. A ação encerra as atividades do curso, que foi ofertado em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e teve como objetivo o combate às fake news e desinformação no campo da saúde pública.
O documento está disponível para baixar no seguinte link.
O curso ocorreu via Departamento de História da UFMT, por meio de Chamada Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Brasília e Organização Pan-Americana de Saúde, com financiamento do governo do Canadá. O projeto contou ainda com as parceiras dos coletivos Orgulho Romani e Ciganagens e do projeto Mapas da Vida, da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR).
O Guia de Replicação apresenta o passo-a-passo para que associações, coletivos e movimentos sociais de povos ciganos e/ou povos tradicionais possam reproduzi-lo em condições semelhantes aos que foram executados no curso de extensão. A formação ocorreu de forma online e beneficiou 21 jovens ciganos brasileiros, oriundos de 10 unidades federativas brasileiras: DF, GO, ES, MT, PA, PB, PE, PR, RJ e RN.
Além do conteúdo das oficinas, o guia conta com objetivos, metodologia, avaliação e programa, além de dicas para antes de começar o projeto e conselhos práticos referentes também a cada uma das oito sessões sugeridas, a exemplo de dinâmicas e exercícios. No caso do Juventude Cigana, as sessões ocorreram entre 28/02/2023 e 23/03/2023, com uma hora e meia de duração, às terças e quintas-feiras, entre 19h e 20h30 (horário de MT).
Sugere-se que os participantes recebam uma bolsa como ajuda de custo e que ao final sejam formados para a produção de conteúdos digitais nas áreas de saúde, considerando o combate à fake news e levando em conta modelos de comunicação e saúde que se preocupem com as realidades dos povos tradicionais.
O conteúdo apresentado foi construído pelos/as oficineiros/as: Aluízio Azevedo (AEEC-MT e Orgulho Romani), Aline Miklos (ativista Rom), Danillo Kalón (Ciganagens), Elisama Ximenes (Jornalista), Gabriela Marques (Orgulho Romani) e Roy Rogeres (Ciganagens). Já a diagramação é do artista visual Danillo Kalón, que também produziu a logomarca do projeto. A identidade visual e o social media do curso ficou a cargo de Rodrigo Zaiden, Diretor de Arte e Cultura da AEEC-MT.
Colonizar um povo é como
adestrar um boi. Ambas ações consistem na remoção da identidade, mudança de
território e condenação do modo de vida alheio. Essa é a associação que Antônio
Bispo dos Santos, também conhecido como Nêgo Bispo, faz em "A Terra Dá, a
Terra Quer".
Lançado nesta segunda (29), o
livro desmancha conceitos como ecologia, desenvolvimento e decolonialidade —a contraposição ao
pensamento de perspectiva colonialista e eurocêntrica.
O autor propõe o que chama de
contracolonialismo, que seria a recusa de um povo à colonização, o que, segundo
ele, é praticado há séculos por africanos, indígenas e quilombolas.
Nascido na comunidade Saco do Curtume, no
Piauí, Bispo ganhou notoriedade em movimentos sociais, na década de 1990,
quando chegou a se filiar a partidos políticos, que abandonou anos depois.
Desde então, se voltou para a defesa dos povos quilombolas.
Novo livro de Antonio Bispo dos Santos já está disponível
Em
"A Terra Dá, a Terra Quer", o sr. critica o colonialismo e se opõe à
chamada decolonialidade, termo cada vez mais usado em contraposição ao
pensamento colonial. Em vez disso, fala em contracolonialismo. Por quê? Só
pode ser decolonizado quem foi colonizado. Qualquer pessoa que se sinta
colonizada pode lutar para ser um decolonial.
Mas decolonialidade é uma teoria,
não trajetória. Nunca existiu um movimento decolonial que tenha atuado de forma
resolutiva em prol de um povo. O contracolonialismo é diferente. Os quilombos
não foram colonizados.
O povo da academia que se diz progressista e só lê autores europeus, sim,
precisa se decolonizar.
O
sr. também diz preferir usar ‘colonialismo’ a ‘racismo’. É bom discutir racismo, mas ele é apenas um dos elementos
colonialistas. Quando se fala em racismo, habitualmente as pessoas pensam na
sociedade eurocristã. O colonialismo vai além disso. É para todas as vidas
existentes.
Como
combater o colonialismo? Não
queremos matar os colonialistas. Por isso, falo ‘contracolonialismo’. É uma
fronteira que estamos estabelecendo entre nós e a sociedade eurocristã
monoteísta.
[O extinto
quilombo dos] Palmares poderia
ter destruído o Recife, mas não devemos destruir nada. Nossa proposta é dizer:
'Vivam do jeito de vocês e viveremos do nosso, mas, se porventura, perceberem
que o nosso é bom, nos deixem ensinar'.
Além do
contracolonialismo, o sr. destrincha o conceito de cosmofobia, que seria uma
desconexão entre a humanidade e a natureza. Se opondo a essa lógica, diz,
então, que não é humano, mas sim, quilombola. Em termos práticos, o que quer
dizer? O povo eurocristão
monoteísta tem medo do próprio Deus, da natureza, do cosmo. É tanto medo que
tem dificuldade de se relacionar com rios, terra, vento —daí a palavra
‘cosmofobia’.
Em Gênesis, quando Adão e Eva
estavam no caminho do Éden, interagiam com tudo, não precisavam trabalhar, se
submeter a uma ordem externa. Mas Deus humaniza eles, cria o terror e diz que a
terra será maldita porque comeram o fruto proibido. É a Bíblia que cria os
seres humanos —e quem está fora dela é selvagem.
Nós, quilombolas, convivemos em
harmonia com as demais vidas. Os quilombos são lugares de relacionamentos. As
cidades, de civilizações. Precisamos animalizar a humanidade e desumanizar a
animalidade.
Como
assim? Só os humanos usam a
linguagem escrita. Nós, outros seres, nos comunicamos de outras formas,
inclusive sonora. Passamos a vida ouvindo esse povo das escrituras dizer que
não sabemos ler. Ora, os humanos não sabem falar.
Ainda
nessa linha de escrita versus oralidade, o sr. diz que em comunidades
quilombolas as histórias são passadas de boca em boca, sem nenhuma monetização.
Por que decidiu se tornar escritor? Não
sou escritor. Sou uma pessoa que escreve para estabelecer uma fronteira entre
os saberes. Sou um lavrador que também lavra palavras.
Quando a escola escrita chegou à
nossa comunidade, no fim dos anos 1960, nosso povo se recusou a participar, mas
ao ver que perderia tudo se continuasse assim, colocou as crianças para estudar
a linguagem das escrituras. Entrei na escola para isso.
Me tornei um tradutor da
comunidade. Não vou negar que sei falar e escrever muito bem. Mas decidi
escrever somente três livros [dois foram lançados] porque sou mesmo da
oralidade.
Ao
traçar uma relação entre favelas e quilombos, o sr. critica programas como o
Minha Casa, Minha Vida e o antigo Fome Zero, os classificando como
colonialistas. Não há nada neles para elogiar? Nada é apenas bom ou apenas ruim. O problema desses
programas é que tiram das pessoas o direito de arquitetar, compor e plantar o
que querem. Claro, melhor ter Fome Zero do que deixar morrer de fome. É melhor
ter o Minha Casa, Minha Vida do que ficar na rua. Mas não são coisas para
festejar. São para escapar.
O Minha Casa, Minha Vida tirou a
laje das favelas. As casas são pequenas, não têm quintal. As pessoas ficaram
confinadas, sem festa.
No Piauí, o Fome Zero foi
lançado em Guaribas [município que, na época, era considerado um dos mais
pobres do país]. Nunca houve debate com as pessoas de lá. Falavam que ali era
pobre porque não tinha nem restaurante nem hotel, mas gente rica não precisa
disso.
O
sr. também critica alguns discursos ambientalistas. O que o levou a isso? Tem muito ambientalista que vive nas cidades mas quer
consertar a floresta. É engraçado. As cidades estão alagadas, cheias de lixo,
mas querem mexer onde não sabem viver.
O
livro traz a ideia de que, na prática, não há diferença entre gestão de
esquerda e de direita. Nos últimos anos, o Brasil entrou numa crescente
polarização política. Como analisa isso? A direita e a esquerda são maquinistas que dirigem o
mesmo trem colonialista. Escolher o vagão permite decidir os passageiros com
quem você vai viajar. Mas a viagem é a mesma, vai para o mesmo caminho.
É preciso uma mudança estrutural.
Cabe a nós, quilombolas e indígenas, extrair tudo o que pudermos deste Estado
para criar nossas próprias estruturas.
Lula não fez reforma agrária
favorável aos agricultores familiares porque não teve coragem. Fez reforma
agrária para o agronegócio. Ele diz que acabou com a fome do povo e fará isso
de novo. Ora, o que acabou, acabou. Se voltou é porque não acabou.
E quanto à gestão
Bolsonaro? Não tive a oportunidade de
extrair tanto dele, mas pude conhecer melhor o Estado e certas pessoas. Foi um
governo sem máscaras, literalmente —nem contra Covid nem política.
Também serviu para quebrar
alguns intermediários. Tinham setores da esquerda que nunca protagonizavam a
própria vida mas queriam mexer na nossa.
Para nós, quilombolas, foi o
momento de preparar nossas defesas e refletir. Agora, ninguém trata Lula igual
das outras vezes.
Há semelhanças entre Lula e
Bolsonaro? Qual a diferença entre Bolsonaro
e um governo que autoriza a mineração em território quilombola sem cumprir os
protocolos da Convenção 169? Do ponto de vista da mineração, não há diferença.
Quem manda são as mineradoras.
O que quero dizer é que, sim,
Bolsonaro e Lula são diferentes, mas essas diferenças não são tão favoráveis.
O que Lula fez para o povo
quilombola? Criou o quê? Qual é o nosso espaço de poder dentro deste governo?
Pergunto porque é dos amigos que a gente deve cobrar o melhor acolhimento.
Apesar de hoje dizer que direita
e esquerda caminham juntas para o mesmo destino, o sr. já foi filiado ao PSB e
ao PT, considerados de esquerda. O que fez se desvincular desse meio? Atuei em movimento sindical, partido e
movimentos sociais por um bom tempo. Ao contrário da minha criação, me deparei
com um conhecimento todo escriturado. Tentaram me convencer de que a sociedade
era composta por duas classes, a trabalhadora e a patronal. Eu nasci e me criei
na roça, numa comunidade quilombola. Como lavrador, nunca fui ou tive patrão.
Também diziam que os quilombos
são formados por povos que fugiram da escravidão. Isso é muito pouco. [Na época
da escravidão] Você podia fugir e aceitar trabalhar na condição dos colonos,
mas não foi o que aconteceu com os quilombolas. Os quilombos continuam
resistindo ao sistema como um todo.
Desde então, qual sua relação
com a política? A última vez que votei foi em
1996, e em 1998, me desvinculei do movimento sindical. Hoje participo de uma
mobilização para estruturamos a nossa comunidade. Essa é a nossa grande luta de
defes
RAIO-X | ANTÔNIO BISPO DOS
SANTOS, 63
É membro da comunidade Saco do Curtume, no Piauí, onde atua em defesa dos povos
quilombolas. Seus livros lançados são "Colonização, Quilombos, Modos e
Significações" e "A Terra Dá, a Terra Quer".
Tia Nerana Rodrigues sempre trabalhou como agricultora e é reconhecida pela amorisidade
Cada semana de maio estamos lançando um dos cinco episódios da minissérie no canal do YouTube da AEEC-MT, em comemoração ao Dia Nacional dos Ciganos
O quinto
episódio desta temporada da série Diva e as Calins de MT, com a agricultora
Nerana Rodrigues (Tangará da Serra) vai ao ar às 14h da próxima quarta-feira (31
de maio). O mês de maio foi escolhido para a divulgação da série por ser quando
comemoramos o dia Nacional dos Ciganos (24 de maio), desde 2006.
Tia Nerana, como é mais conhecida, nasceu em Minas Gerais e passou boa parte da vida vivendo nas barracas e
viajando nos lombos dos cavalos, pelos sertões goianos e mato-grossenses, até
fixar residência, no município de Tangará da Serra.
Uma das mais respeitadas
matriarcas calin em MT, tia Nerana é casada com Eurípedes Alves Pereira e reconhecida pela amorosidade, pela generosidade e as
mãos boas para as plantas, fala sobre como era a vida das mulheres ciganas no
passado e como atualmente, conseguem estudar e se empregam no mercado de
trabalho formal.
Temporada 1
- A série começou
a ser exibida em 04 de maio (quinta-feira), com o episódio 1, que conta a
história de vida da raizeira e benzedeira de etnia Calon, Maria Divina Cabral,
a Diva, reconhecida como Mestra da Cultura Mato-grossense.
O episódio
(2) Água trouxe as narrativas da assistente social, Terezinha Alves, que atualmente
é diretora de Habitação e Assistência Social da AEEC-MT, é conselheira nacional
de Igualdade Racial (CNPIR-Ministério da Igualdade Racial) e integra o Comitê
Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais de MT (CEPCT-MT).
O episódio
(3) ar aborda as memórias da comerciante e viúva, Nilva Rodrigues Cunha, do
município de Rondonópolis. Ela é uma exímia contadora de causos e faz questão
de manter os trajes tradicionais e a língua cigana.
O episódio
(4) Fogo retrata a professora Irandi Rodrigues Silva estrela o episódio e conta
como aprendeu a ler escrevendo o nome no chão e depois passou 25 anos
alfabetizando numa escola estadual.
A série integra o projeto “Diva
e as calins de Mato Grosso: Ontem, Hoje e Amanhã”, aprovado no Edital Conexão
Mestres da Cultura, da lei Aldir Blanc, da Secel-MT.
Pelo ineditismo no reconhecimento e na conservação
do patrimônio imaterial brasileiro e da diversidade cultural nacional, a
iniciativa e seus produtos transmídias, incluindo a série, foi uma das cinco
vencedoras do prêmio Rodrigo Mello Franco / 2033, concedido pelo IPHAN.