segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Educação cidadã é primordial para enfrentar racismo, diz Kabengele Munanga

Para antropólogo, combate ao problema se dá por três caminhos: leis, ensino com viés antirracista e ações afirmativas

Priscila CamazanoSÃO PAULO

O combate ao racismo estrutural depende de uma educação cidadã antirracista, sugere o antropólogo congolês-brasileiro Kabengele Munanga. Ele afirma que não há uma receita pronta para lutar contra o preconceito racial, mas há três caminhos possíveis: as leis, a educação antirracista e as ações afirmativas.

"As leis, embora existam, só atingem práticas racistas observáveis. Os preconceitos que são introjetados pela educação e estão na cabeça das pessoas, não. Só a educação pode atingir esse terreno", afirma.

Munanga é antropólogo e professor aposentado da USP. Ele nasceu em Bakwa Kalonji, no antigo Zaire, atualmente República Democrática do Congo, em 1940. Está no Brasil desde 1975.

Ao longo desses anos, ele se debruçou nos estudos sobre antropologia da África e da população afro-brasileira e nas questões raciais. O intelectual contribuiu de forma significativa na discussão sobre raça e para derrubar o mito da democracia racial.

Foi no país do continente africano que ele iniciou seus estudos na antropologia, ao cursar a graduação na Universidade Oficial do Congo (1964-1969). Depois, ganhou uma bolsa de estudos para fazer o doutorado na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.

Em 1971, o antropólogo retornou ao país de origem para fazer um trabalho de campo, mas foi impedido pela ditadura de Mobutu Sese Seko (1930-1997).

A convite do então diretor do Centro de Estudos Africanos da USP, ele veio ao Brasil, em 1975, e conseguiu, assim, concluir sua pesquisa.

O antropólogo ingressou como docente na USP em 1980, tornando-se o primeiro professor negro da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Na universidade, lecionou até 2012, quando se aposentou, após 32 anos na instituição.

O livro "Negritudes: Diálogos com o Pensamento de Kabengele Munanga" (Editora Autêntica), lançado em novembro, reúne textos em homenagem ao legado intelectual do professor.

A publicação aborda a sua longa trajetória no engajamento sociopolítico em defesa dos direitos humanos, por sua produção crítica de combate ao racismo e promoção da equidade étnico-racial.

Em conversa com a Folha, o professor falou sobre mito da democracia racial, racismo estrutural, ações afirmativas e a lei 10.639, que estabelece o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.

Por que o senhor define que no Brasil o racismo é um crime perfeito? 

É um crime perfeito porque o mito da democracia racial, por muito tempo, impediu que se falasse da existência do racismo no país.

Na época em que eu cheguei aqui, dizer que o Brasil era um país racista era como um crime. Eu não tive problema para fazer minhas pesquisas, porque meu tema era a África e nada tinha a ver com a questão do negro no país.

Mas tive um colega que veio da Índia para São Paulo com um projeto de estudo sobre a classe média negra em São Paulo. Um dia, ele declarou em uma entrevista que seu projeto era estudar aqui o racismo e a questão do negro no Brasil. Ele foi convocado pelo Dops [Departamento de Ordem Política e Social], passou duas noites lá e, no dia seguinte, não quis mais tocar no assunto. O tema do trabalho dele mudou para a existência das castas na Índia.

Isso é para mostrar o quanto era difícil [falar sobre racismo]. Nesse sentido, eu e outros colegas, como Hélio Santos, achamos que o racismo é um crime perfeito. É como um carrasco, e o carrasco mata sempre duas vezes. Mata fisicamente os negros e mata a consciência de todos os brasileiros.

Mas essa frase não é minha, vem de um prêmio Nobel judeu, Elie Wiesel. Foi ele que disse: o carrasco sempre mata duas vezes, a segunda é pelo silêncio.

Falando em silêncio, como lidar com essa faceta do racismo? 

Olha, esse silêncio é o mito da democracia racial e, como diz a própria palavra, é um mito. Os políticos e ideólogos usaram essa ideia justamente para escamotear os problemas da sociedade. Para dizer que o Brasil não é racista, porque é uma sociedade mestiça.

Essa ideia foi desmistificada a partir da década de 1930 pela Frente Negra Brasileira. Eles acreditavam que o problema era simplesmente de educação, mas, aos poucos, os negros que tiveram acesso a ela encontraram barreiras no mercado de trabalho. Eles chegaram à conclusão de que isso aqui não era democracia.

Depois, com as pesquisas da academia e as denúncias e protestos do movimento negro, a sociedade brasileira começou a se conscientizar.

Os negros se deram conta de que a educação era muito importante, mas depois chegaram à conclusão de que não bastava, precisava também de uma educação cidadã, que conscientizasse os brasileiros de que o Brasil é um país do pluralismo cultural, do encontro das culturas e civilizações.

O sr. afirma que "o mito da democracia racial, apesar de já ter sido destruído política e cientificamente, tem uma forma inercial difícil de desmantelar". Que forma é essa? 

Sabe o que é inércia? A inércia é um movimento que ainda deixa traços. Ainda há pessoas, apesar do crescimento da consciência, que acreditam em ideologias antigas, como a de que não há racismo no Brasil.

O mito foi desconstruído pelo movimento negro, pelos intelectuais, mas a força desse mito ainda existe na estrutura da sociedade e no inconsciente coletivo. Isso que chamo de inércia.

O que podemos fazer para combater essa forma inercial do racismo? 

Hoje, no Brasil, se fala em racismo estrutural depois do livro do Silvio Almeida e do Dennis de Oliveira, que escreveram obras com esse título. Ninguém utiliza a palavra racismo sem adjetivá-la.

O racismo tem uma forma difícil de destruir, aquela alojada na estrutura da sociedade que se manifesta nas instituições.

Esse racismo é o maior problema. Nós não temos ferramentas, receita pronta, para lutar contra ele. Se tivéssemos, não existiria mais racismo no mundo.

Como modificar a estrutura de uma sociedade capitalista? Não é pelo discurso. Ou se faz uma revolução e constrói outro modelo de sociedade, mas isso é uma utopia —com a qual estamos sonhando.

Ou nós temos três caminhos, que eu chamo de clássicos. O primeiro é pela lei. A primeira foi a Lei Afonso Arinos, de 1951. Depois, em 1988, na nova Constituição, aparece uma nova que diz que qualquer prática de racismo é crime imprescritível, inafiançável e sujeita a reclusão. Agora tem uma nova lei que o presidente Lula acabou de assinar. Ela considera a injúria racial como um crime sujeito a reclusão.

Mas as leis, embora existam, só atingem práticas racistas observáveis. Os preconceitos que são introjetados pela educação e estão na cabeça das pessoas elas não atingem. Só a educação pode transformar esses nuances que o racismo criou. Nesse sentido, a educação é um instrumento de luta contra o preconceito.

O terceiro caminho são as políticas de ações afirmativas, de inclusão, porque não basta dizer que perante a lei somos iguais, as pessoas vão continuar a discriminar.

Por que o racismo é sempre do outro? Qual a dificuldade em assumir as próprias manifestações racistas? 

Essa dificuldade tem a ver com a maneira como o racismo entrou no tecido social através da educação. As pessoas hoje têm dificuldade para dizerem que somos iguais.

Já ouviu falar da branquitude? Esse conceito nasceu da tese da Cida Bento. Ela foi a primeira pessoa a trabalhar com a consciência de branquitude, para mostrar que os brancos têm consciência das suas vantagens, mas não as criticam. Quer dizer que eles aceitam que são superiores para ter essas vantagens, mas ninguém reclama. Isso é racismo. Quando chega ao nível de naturalização não se vê mais injustiça.

A lei 10.639, que estabelece o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica, completou 20 anos. Educadores e especialistas ouvidos pela Folha afirmaram que falta formação dos professores e material didático sobre o assunto. Qual a avaliação do sr. sobre a lei? Por que as escolas estão com dificuldade de implementá-la? 

Olha, quando essa lei foi promulgada, fui uma das primeiras pessoas a falar dessa questão. Eu estava tentando mostrar que os educadores, os brancos e os negros, receberam uma educação racista. Muitos não sabem nem o que é realmente o racismo.

Como é que um educador que não sabe como o racismo à brasileira se expressa vai trabalhar com isso na sala de aula? A primeira coisa que fiz depois da lei 10.639 foram conferências de conscientização e sensibilização dos educadores em alguns municípios, para eles entenderem a importância da lei e que tinham uma grande responsabilidade.

Além dessas conferências, precisamos formá-los, porque eles não sabem como lidar com esse fenômeno. Tem também que produzir livros, materiais didáticos, porque os anteriores são repletos de preconceitos contra negros e povos indígenas.

Além do mais, em cada município teria que ter um monitoramento para saber se a lei está funcionando. Será que esse monitoramento existe? Eu tenho impressão de que a lei veio de uma maneira caótica.

Estava prevista para o ano passado a revisão da lei de cotas, mas foi adiada. Como avalia a situação das cotas? Há chances de perdermos essa política pública? 

As cotas são para reduzir um abismo de 400 anos [de escravidão]. Não se reduz um abismo de 400 anos em 20 ou 10 anos. Apesar da qualidade da política, isso vai demorar gerações. Não sei por que definiram 10 anos. Olha o exemplo da Índia. As cotas estão lá há 72 anos, porque eles sabem que é um longo processo.

As políticas de cotas têm de continuar, senão vai ser uma perda muito grande, um regresso para os negros. Quem vai perder vai ser a sociedade brasileira.


RAIO-X | KABENGELE MUNANGA, 82

Doutor em antropologia pela Universidade de São Paulo. É professor emérito do departamento de antropologia da FFLCH-USP. É autor de mais de 150 publicações entre livros, capítulos de livros e artigos científicos na área da antropologia da África e da população negra no Brasil, entre os quais "Os Basanga de Shaba" (1986); "Negritude: Usos e Sentidos" (1988); "A Revolta dos Colonizados" (1995); "Estratégias e Políticas de Combate à Discriminação Racial" (1996). É professor honoris causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É também pesquisador emérito do CNPq, entre outras dezenas de prêmios e títulos

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/02/educacao-cidada-e-primordial-para-enfrentar-racismo-diz-kabengele-munanga.shtml#comentarios

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Nota de pesar por Adriana, Renan, Beta, Eurípedes, Lídia, João e Lúcia

Com profundo pesar e sentimento, a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), comunica a morte de sete pessoas da comunidade, nos últimos 13 meses:

- Adriana Alves Cunha, por insuficiência renal, ocorrida no dia 14 de janeiro de 2022, aos 37 anos, no município de Rondonópolis.


- Renan Alves de Mattos, aos 18 anos, no dia 19 de fevereiro de 2022, após um acidente de moto, no município de Cuiabá


- Beta Alves Cabral, falecida em 31 de julho de 2022, por câncer de mama, residente em Rondonópolis.

- Eurípedes Alves Pereira, em 13 de dezembro de 2022, após sofrer um atropelamento, em Tangará da Serra.

- Maria Lídia Alves Martins, Em 24 de janeiro de 2023, de causas naturais, com 83 anos, residente em Alto Garças.


- João Alves Cabral, de AVC, no dia 07 de fevereiro de 2023, aos 70 anos, no município de Rondonópolis.

- Maria Lúcia Rodrigues Cunha, em 19 de fevereiro de 2023, por câncer de pulmão, com 57 anos, moradora de Tangará da Serra.


A direção da AEEC-MT dá os pêsames e os sentimentos a todos os familiares, pais, mães, avós, esposas e esposos, filhos e filhas, netos e netas, bisnetos e bisnetas, sobrinhos e sobrinhas e sobrinhas-netas e sobrinhos netos.

Infelizmente, os dias não têm sido dos melhores, pois a comunidade não cessa o luto, que entre nós ciganos é bastante longo e muito significativo.

Assim, rogamos que a paz, a cura a saúde e o bálsamo do Espírito Santo esteja com todas e todos!

Cuiabá-MT, 19 de fevereiro de 2023

Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT).

 

  

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Curso Juventude Cigana recebe 63 inscrições e organização amplia 10 vagas

Ação tem como objetivo formar membros da comunidades Romani brasileiros para o combate à fake News no campo da saúde e a valorização de suas identidades e culturas

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Fundação Oswaldo Cruz Brasília (Fiocruz Brasília) informam que o número de inscritos no Curso de Extensão “Juventude Cigana: da Invisibilidade à Comunicação Popular em Saúde” chegou a um total de 63 pessoas, superando a expectativa das instituições.

Desta forma, a coordenação do curso, em diálogo com os Coletivos Orgulho Romani e Ciganagens e a Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), por meio do projeto Mapas da vida, decidiu ampliar de 20 para 30 o número de vagas ofertadas. O curso é realizado por meio de chamada pública da Fiocruz Brasília em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e financiamento do governo do Canadá,

As inscrições começaram no dia 28 de dezembro de 2022 e encerraram em 31 de janeiro de 2023. O curso é online e terá início em 28 de fevereiro às 19h (horário de Mato Grosso) e 20h (horário de Brasília). Serão oito encontros de uma hora e trinta minutos, sempre às terças e quintas-feiras. A última aula ocorrerá em 23 de março.

Na ocasião, ocorrerá uma abertura com a presença de representantes de todas as instituições envolvidas, como a presidente da AEEC-MT, Fernanda Caiado, a professora do Departamento de História da UFMT, Ana Carolina Borges, a Assessora Técnica da Fiocruz Brasília, Aede Cadaxa e a representante do Coletivo Ciganagens e participante do curso, Sarah Macedo.

A maioria dos participantes são da etnia Kalon, seguido pelo tronco étnico Rom. Há apenas uma pessoa inscrita da etnia Sinti. Além disso, a maioria dos inscritos são do Estado de Mato Grosso. O critério de participação de todas as regiões brasileiras e diversidade de estados foi cumprida, alcançando um total de 14 unidades da federação e mais o Distrito Federal (DF).

Entre as cidades e Estados, temos pessoas oriundas de: Sousa (Paraíba), Natal (Rio Grande do Norte), São Sebastião do Passé (Bahia), São Luis (Maranhão), Olinda e Igarassu (Pernambuco), Ananindeua (Pará), Cuiabá, Tangará da Serra e Rondonópolis (Mato Grosso), Rio de Janeiro e Campo dos Goytacazes (Rio de Janeiro), Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Goiânia (Goiás), Florianópolis (Santa Catarina), Curitiba (Paraná), Vitória (Espírito Santo) e Aracaju (Sergipe).

Objetivo

Em um contexto em que a pandemia da Covid-19 acentuou as desigualdades sociais, ampliando o negligenciamento em comunicação e saúde dos povos tradicionais, em especial, os povos ciganos, este curso tem como objetivo oferecer uma formação online de curta duração (15h) em comunicação popular em saúde para 30 jovens romani brasileiros para atuação junto às suas comunidades no uso das ferramentas digitais e sua importância para o enfrentamento ao racismo, ao anticiganismo e o combate à desinformação e fake news no campo da saúde pública.

Oficinas e Oficineiros

Quatro oficineiros são membros da comunidade Romani: Aluízio de Azevedo, Roy Rógeres e Danillo Kalon, são do tronco Kalon; e Aline Miklos, do tronco Rom, etnia Kalderash

28/02: Apresentação do projeto, dos facilitadores, oficineiros e participantes: Gabriela Marques (Orgulho Romani), Aluízio de Azevedo (AEEC-MT), Fernanda Alves (AEEC-MT), Ana Carolina Borges (UFMT) e Aede Cadaxa (Fiocruz).

02/03: A informação  e a comunicação no campo da saúde (Aluízio de Azevedo)

07/03: O que é desinformação e fake news? Como identificar? (Roy Rogeres) 

09/03: Definindo e identificando racismo e anticiganismo: discursos de ódio e violências simbólicas (Aline Miklos)

14/03: Fact-checking: fontes, canais, legitimidade e representatividade (Karla Araújo)

16/03: Uso seguro das redes: midiatização e juventude (Gabriela Marques)

21/03: Produção de conteúdo para redes sociais: desafios para a autorrepresentação (Danillo Kalón)

23/03: Encerramento, apresentação de propostas e avaliação: Gabriela Marques (Orgulho Romani), Aluízio de Azevedo (AEEC-MT), Fernanda Alves (AEEC-MT), Ana Carolina Borges (UFMT) e Aede Cadaxa (Fiocruz).

Texto: Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Departamento de História da UFMT abre curso para comunicação popular em saúde para jovens ciganos

O curso consiste em oito sessões online, com especialistas e profissionais, sobre temas relativos à comunicação e saúde das comunidades ciganas

união entre o Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) promove as inscrições até 31 de janeiro do curso voltado para a comunicação popular em saúde. A iniciativa faz parte do projeto “Juventude Cigana: da invisibilidade à comunicação popular em saúde” está com inscrições abertas a partir de formulário eletrônico.  

A organização do curso está a cargo dos jornalistas e pesquisadores Aluízio de Azevedo e Gabriela Marques, do coletivo Orgulho Romani e a partir de chamada pública da Organização Pan Americana de Saúde (OPAS) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O financiamento do projeto acontece a partir do governo do Canadá, que selecionou projetos de comunicação popular em saúde. A professora Ana Carolina da Silva Borges, chefe de Departamento de História, conta que a ideia do curso surgiu a partir de parcerias.

“Conheci o Aluízio através do Fórum de Patrimônio Cultural de Mato Grosso, onde atualmente estou na presidência. A partir de várias ações que o fórum faz, principalmente voltada para a invisibilidade das populações tradicionais de Mato Grosso, a gente montou um cronograma de ações que vieram de várias frentes de atuação que tem funcionado desde a pandemia de forma bastante intensa”, explica a professora (foto abaixo). 


A professora conta que há várias áreas de conhecimento, como antropologia, história e organizações não governamentais presentes desenvolvendo ações como projetos de extensão e projetos de pesquisa. “A gente viu a necessidade de mapeamento e formação para as populações tradicionais em situação de vulnerabilidade e que também tem certa invisibilidade no âmbito social”, relata Ana Carolina da Silva Borges acrescentando que as atividades já tem visibilidade nacional.

Curso surgiu para superar desinformação sobre população cigana

O curso consiste em oito sessões online, com especialistas e profissionais, sobre temas relativos à comunicação e saúde das comunidades ciganas, partindo do olhar crítico às mídias e a desinformação em saúde. Entre 28 de fevereiro e 23 de março entram em discussão a informação e a comunicação no campo da saúde; o que é desinformação e fake news, identificando racismo e anticiganismo: discursos de ódio e violências simbólicas; uso seguro das redes: midiatização e juventude; e produção de conteúdo para redes sociais: desafios para a autorrepresentação.

“Vimos que há certa demanda sobre essas discussões e há uma certa má informação sobre a populações ciganas. Veio a parceria junto com o Departamento de História para desmontar as imagens pré-concebidas, estigmatizadas e distorcidas sobre as populações ciganas. É deixar de criminalizá-los pelo foco do combate às fake news. Temos esse propósito dentro do projeto com a formação em caráter informativo e de capacitação para que as pessoas possam manejar informações para quebrar os pré-conceitos com impacto social significativo”, pontua a professora Ana Carolina da Silva Borges.

A organização informa que participantes com pelo menos 70% de presença recebem certificado ao final da formação emitido pela UFMT. Após o encerramento do curso, será elaborado um guia online sobre produção de conteúdos em saúde para populações ciganas.

Outras parcerias estão em construção

A professora  Ana Carolina da Silva Borges pontua ainda que projetos estão em reposicionamento para 2023 como o Mapas da Vida, já desenvolvido com a Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) e a Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat). “Novas parcerias estão em costura para 2023 como o projeto Mapas da Vida. É um projeto que é interinstitucional e interdisciplinar, já realizado com a UFR e Unemat, além de pessoas com engajamento político em Mato Grosso para o mapeamento das populações tradicionais em situação de vulnerabilidade”, relata.

A ideia consiste em um levantamento gráfico com dados quantitativos com quantidade de mortos e infectados recortando algumas cidades que tinham populações tradicionais de Mato Grosso. “A gente montou vários gráficos e temos produção de material audiovisual, com pessoas que estiveram na frente. Tinham algumas temática que a gente recortava com pandemias, queimadas, dengue e a zika para saber como as populações tradicionais montam estratégias de sobrevivência diante do descaso do poder público”, conta a professora.

Um site especialmente preparado para populações tradicionais foi o resultado do projeto. “A gente montou um site para disponibilizar os materiais e as populações tradicionais saberem como está o contexto deles e foi pedido que pós pandemia o projeto não se encerrasse por conta dos produtos audiovisuais construídos como podcasts, entrevistas e rodas de conversa em formas de aulas que são pedidos das comunidades tradicionais”, destaca sobre a parceria com a AEEC.

Disponível em: https://ufmt.br/noticias/departamento-de-historia-abre-curso-para-comunicacao-popular-1672922378#top_page 

Filme “Caminhos Ciganos” viaja no universo romani de Brasil, Portugal e França

Músicos ciganos tocam durante a peregrinação de Santa Sara Kali, em Saintes-Maries-De-La-Mer, França, reunindo ciganos do mundo todo, no dia 24 de maio, quando se comemora a padroeira cigana

Com uma linguagem cinematográfica, que inova ao apresentar cenas e cores vibrantes e uma estética romani tão íntima, que só quem é de dentro consegue captar; o curta metragem “Caminhos Ciganos” registra a longa viagem de um cineasta de etnia Calon, Aluízio de Azevedo, que ocorreu em 2017, no intuito de reconhecer e fortalecer sua identidade e ancestralidade. Aprovado no Edital Audiovisual 2021 – Cine Motion da Secretaria de Estado de Cultura, Esportes e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), o trabalho está em fase de finalização e deve ser lançado no início do segundo semestre deste ano.

A trajetória pelo universo cigano inicia em seu microcosmo familiar, com seus tios-avós, os cunhados Eurípedes e Araxides e Stoesse, em Tangará da Serra (MT). De lá, o cineasta, percorreu milhares de quilômetros, de carro, ônibus, avião e barco, entre Brasil, Portugal e França. Mas foi na cidade, sua terra natal, que surgiu ideia de enviar recados de seus parentes, que pertencem ao tronco étnico Calon – os outros dois são os Rom e os Sinti – para os ciganos que encontrasse no caminho.

Trailler - barraco improvisado, sem água e luz, na cidade de Beja, Portugal

Com cenas completamente inéditas do universo cigano, a produção audiovisual entrelaça as sutilezas e surpresas desses encontros, a produção reconecta pessoas separadas por séculos. A exemplo dos irmãos cantores sertanejos Jefferson e Wanderley, do Acampamento Nova Canaã, em Brasília; ou das “Marias” Rosa e Amélia, da cidade de Beja, em Portugal, que apresentam os dramas e os modos de vida romani no país.

Road movie dirigido por cineasta de etnia Calon aborda culturas e identidades ciganas numa narrativa poética e intimista

Acompanhado por dois parceiros de viagem, os codiretores Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira e partindo da técnica de câmera na mão, o trabalho é recheado de travellings, conversas coletivas e registros cotidianos de diferentes comunidades ciganas dos três países. Nada convencional, a narrativa traz reconhecimentos identitários mútuos, a r-existência na manutenção de valores e estilos de vida distintos das sociedades majoritárias, bem como o passado comum de perseguição e racismo.

“Em 2017, percorremos inúmeras cidades brasileiras, portuguesas e francesas, no intuito de conhecer outras comunidades ciganas, conviver com elas e imergir em seus cotidianos. Passamos por mais de quatro cidades no Brasil, 10 cidades em Portugal e uma cidade na França. Cruzamos e conversamos com personagens marcantes da vida romani, que encantam pela visão sabedoria e simplicidade e contam como acontecem suas relações com os não-ciganos, a hibridação e/ou a manutenção das identidades Romani”, lembra Aluízio de Azevedo.

Aluízio conversa com o Rom Kalderash, Rosan Mifalu, de Hungria, em frente à Catedral de Saintes-Maries-De-La-Mer, de onde sai a peregrinação de Santa Sara Kali

O diretor e roteirista explica que historicamente, os povos ciganos foram vítimas de políticas colonialistas/racistas, processos de invisibilização e silenciamento. Filmes, livros de literatura e estudos científicos oscilam entre representações de ódio e romantização, ora como bandidos perigosos, ora pontuando aspectos da sensualidade/sexualidade das mulheres, visões equivocadas.

“Essa realidade perpetuou imaginários negativos e impede o acesso à cidadania e serviços como educação, saúde, transporte, moradia ou trabalho formal. Assim, propomos um trabalho de autorrepresentação em todo o processo fílmico, desde a idealização, até a edição e circulação, aprofundando nos olhares ciganos, de maneira a transformar imaginários preconceituosos seculares”, enfatiza.

Saintes-Maries-De-La-Mer – Tendo por método orientador o cinema compartilhado de Jean Rouch, o filme-ensaio traz elementos identitários, como a língua, o trabalho tradicional com as vendas ou a leitura de mãos, a manutenção de manifestações culturais e tradições”, pondera o codiretor Rodrigo Zaiden, ao destacar que um dos pontos altos é a peregrinação de Santa Sara Kali.

Santa Sara Kali durante peregrinação na cidade de Saintes-Maries-De-La-Mer, em França, é acompanhada por multidão até o mar onde é banhada revivendo o mito de como chegou na cidade

“Acompanhamos a tradicional lavagem da padroeira cigana no mar mediterrâneo, junto com os amigos Florance Michel (Sinti de Itália), Rosan Mifalu (Rom de Hungria), e Monet Françoa (Manush de França), que fazem questão de comemorar anualmente. A peregrinação não é apenas uma manifestação de muita fé,  reunindo muita música e dança; elementos que os ciganos mantém em todos os territórios visitados e que brindam o público com sua originalidade”, conta Zaiden, que também atua como produtor e assistente de montagem na produção.

Como uma personagem coletiva que vai ligando personagens e territórios romani; a peregrinação de Santa Sara Kali aparecerá ao longo da narrativa com planos e sequências do ritual e dos acontecimentos profanos e musicais em seu entorno. “Abordamos o universo cigano por uma perspectiva dinâmica, cuja linha condutora são as viagens e vozes romani, que apresentam seus mundos de dentro para fora”, pontua a também codiretora e diretora de fotografia Karen Ferreira, ao enfatizar que:

“Um dos objetivos é o registro fílmico como fortalecimento das culturas e identidades ciganas, visando a quebra de estereótipos negativos. Outro é trazer novos materiais de pesquisa, por meio do diálogo intercultural promovido entre as comunidades visitadas dos diferentes países; para repensar questões relativas as estruturas sociais e a forma que a sociedade ocidental vê e (re)trata os povos ciganos”, complementa karen.

Tio Eurípedes Alves Pereira (in memorian), Tangará da Serra, tem presença marcante no documentário

Estratégia de distribuição – O projeto prevê a realização de circuito de lançamento com exibições presenciais específicas para as comunidades ciganas das quatro cidades/comunidades de Mato Grosso que participam: Tangará, Rondonópolis, Cuiabá. Também conta a criação de uma plataforma digital para divulgar informações como ficha técnica, trailer, teaser, making off, materiais de assessoria de imprensa e marketing (peças gráficas como cartaz, cartões, cards).

O site servirá ainda para ancorar redes sociais no Insta e YouTube, que serão criadas, exclusivas para divulgação do trabalho; espaço para clipagem de todo conteúdo da obra; e ao cabo de três anos de lançamento, a própria obra.

Barraca no Acampamento Nova Canaã, Rota do Cavalo, Sobradinho I, Brasília DF, que é uma das comunidades ciganas brasileiras que participam do filme

Sinopse

Os caminhos que levam ao universo romani em três países, Brasil, Portugal e França, são apresentados numa narrativa poética e intimista, inspirada na estética do premiado cineasta cigano Tony Gatlif, diretor de “Lacho Drom” (1992) e “Gadjo Dilo” (1997). Em destaque as culturas ciganas vistas de dentro, valorizando imaginários próprios. A viagem inicia com a família de um cineasta de etnia Calon em Mato Grosso; que corta o Brasil e atravessa o oceano Atlântico para reencontrar com sua ancestralidade, registrando cada comunidade, suas personagens e cotidianos marcantes, nuances de manifestações culturais, modos de vida e tradições romani, como também denúncias de exclusão e perseguição históricas.

Ficha Técnica

Pesquisa, Roteiro e Direção: Aluízio de Azevedo

Codireção: Rodrigo Zaiden e Karen Ferreira

Produção Executiva: Irandi Rodrigues Silva

Direção de Produção: Rodrigo Zaiden

Produções Local Portugal: Pimênio Ferreira

Produção Local Brasil: Fernanda Alves Caiado

Direção de Fotografia: Karen Ferreira

Fotografia complementar: Rodrigo Zaiden e Aluízio de Azevedo

Montagem: Juliana Corsino e Aluízio de Azevedo

Assistente de Montagem: Rodrigo Zaiden

Edição: Juliana Corsino

Finalização/Colorização: Isabela Padilha

Designer Gráfico e Webdesigner: André Victor

Assessoria de Comunicação e Imprensa: Aluízio de Azevedo

 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

AEEC-MT e UFMT abrem inscrições para curso Juventude Cigana: da Invisibilidade à comunicação popular em saúde

 

A formação é online, gratuita e destinada exclusivamente para jovens romani de todo o Brasil. Inscrições começam nesta sexta-feira, 30/12/22 e vai até 20/01/2023. No Card os oficineiros do curso.

            A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), em parceria com o Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), abriu inscrições para o curso online e gratuito realizado dentro do projeto “Juventude Cigana: da invisibilidade à comunicação popular em saúde". O objetivo é formar jovens ciganos, ciganas e ciganes para a produção de conteúdos digitais nas áreas de saúde considerando o combate à fake news e a consolidação de modelos de comunicação que se preocupem com as realidades das comunidades romaníes no Brasil.

            O curso é organizado pelos jornalistas e pesquisadores Aluízio de Azevedo e Gabriela Marques, do coletivo Orgulho Romani e  a partir de chamada pública da Organização Pan Americana de Saúde (OPAS) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)  com financiamento do governo do Canadá, que selecionou projetos de comunicação popular em saúde de todo o país.

            Serão realizadas oito sessões online, com especialistas e profissionais, sobre temas relativos à comunicação e saúde das comunidades ciganas, partindo do olhar crítico às mídias e a desinformação em saúde. Entre eles, a informação e a comunicação no campo da saúde; o que é desinformação e fake news, identificando racismo e anticiganismo: discursos de ódio e violências simbólicas; uso seguro das redes: midiatização e juventude; e produção de conteúdo para redes sociais: desafios para a autorrepresentação.

            Os encontros acontecerão entre 28/02 e 23/03 com uma hora e meia de duração cada. As inscrições estão abertas até 31/01 pelo link no formulário do Google Forms: https://forms.gle/saeZ9cXWa4gbXhQc9.                

Participantes com pelo menos 70% de presença receberão certificado ao final da formação emitido pela Universidade Federal do Mato Grosso e uma ajuda de custo como incentivo à participação. Após o encerramento do curso, será elaborado um guia online sobre produção de conteúdos em saúde para populações ciganas.

Critérios para seleção

-        Curso exclusivo para pessoas ciganas;

-        Faixa etária preferencial: 15 a 35 anos;

-        A seleção buscará paridade de gênero e diversidade sexual entre participantes;

-        Disponibilidade para participação nos horários do curso (19h às 20h30 - horário de MT e 20h às 21h30 - horário de Brasília);

-        A seleção buscará equidade étnica entre participantes proporcional às populações ciganas no Brasil;

-        A seleção buscará uma maior distribuição territorial com participantes das cinco regiões brasileiras

-        Em caso de alto volume de inscrições, será elaborada uma lista de espera, podendo haver abertura de mais vagas.

Programação

28/02 - Apresentação do projeto, dos facilitadores, oficineiros e participantes

02/03 – A informação  e a comunicação no campo da saúde - com Aluízio de Azevedo , Dr. em Informação, Comunicação e Saúde - Fiocruz/RJ, conselheiro Nacional de Promoção de Políticas de Igualdade Racial (CNPPIR), assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT.

07/03 –   O que é desinformação e fake news? Como identificar?  - com Roy Rógeres, cigano – jornalista da etnia Calon e tradição circense. Multiartista e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade(PPGEISU)

09/03 - Definindo e identificando racismo e anticiganismo: discursos de ódio e violências simbólicas - com a Dra. Aline Miklos, cantora, defensora dos direitos humanos, Senior Fellow na Oficina do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OACNUDH/ América do Sul).

14/03 - Fact-checking: fontes, canais, legitimidade e representatividade - com Karla Araújo: jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com experiência nas áreas de política, economia, cidades e fact-checking, em trabalho desenvolvido em sites e jornal impresso.

16/03 - Uso seguro das redes: midiatização e juventude - com Gabriela Marques: jornalista e professora, com Mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutorado em Comunicação Audiovisual e Publicidade pela Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha). Trabalha com populações ciganas desde 2015, membro do coletivo Orgulho Romani.

21/03 - Produção de conteúdo para redes sociais: desafios para a autorrepresentação - com Danillo Kalon: artista visual e tatuador. Formação audiovisual, no Riomarket Jovem em parceria com o Festival de Cinema do Rio para jovens periféricos. Produtor Cultural e fotógrafo, artista plástico autodidata.

23/03 – Encerramento, apresentação de propostas e avaliação.

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Serviço

O que: Inscrições Curso “Juventude Cigana: da Invisibilidade à Comunicação Popular em Saúde

Quando: 30/12/2022 a 20/01/2023

Inscrições: https://forms.gle/saeZ9cXWa4gbXhQc9

Formato: online, 15h, terças e quintas entre 28/02 a 24/03/23

Texto: Assessoria para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

Artes: Rodrigo Zaiden

Dúvidas: aeecmt@gmail.com