quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ciganos ainda esquecidos e expulsos na França

 
Expulsões ocorrem há vários anos em França. Foto: Jornal O Globo.

Por: Douglas Estevam, de Paris, Publicado: 30/11/2010 - às 22h00, Atualizado: 25/08/2026 - às 13h43

A Comissão Europeia suspendeu, no final do mês de outubro, sua iniciativa de abrir um procedimento de infração contra a França por desrespeito à legislação do continente. Esse procedimento seria o primeiro passo de um processo que poderia levar o país à Corte de Justiça Europeia, embora sejam raros os casos que não se resolvem antes deste estágio. A França sofreria o processo em função de sua política de expulsões de ciganos ou roma para a Bulgária e a Romênia, que infringe as regras da diretiva de 2004 da União Europeia, que assegura a livre circulação de cidadãos dos países membros. Embora o procedimento de infração tenha sido suspenso, “a Comissão Europeia estará atenta e velará para que os compromissos assumidos pela França sejam inteiramente aplicados”, declarou Viviane Reding, comissária de Justiça da União Europeia.

Em algumas línguas, utiliza-se a palavra rom para designar o conjunto de uma população diversificada, presente em mais de 20 países europeus desde o século XV. Atualmente, a população rom tem mais de 10 milhões de habitantes na Europa, sendo composta por grupos étnicos diferentes, entre eles, alguns grupos boêmios, mansuches e sintis. Os roma (plural de rom) da Romênia são os mais numerosos e foram o principal alvo da política francesa nos últimos anos.

Um segundo procedimento de infração, relativo à discriminação, que vinha sendo previsto por Viviane Reding, continuará a ser estudado na Comissão. Ele se refere às políticas direcionadas especificamente a uma minoria, que figuravam em declarações oficiais do governo francês. A comissária de Justiça chegou a evocar as “deportações da Segunda Guerra Mundial”, declaração que agravou a relação entre a comissária e o governo francês.

A ação defendida por Reding encontrou forte resistência do presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Barroso, que se opunha à medida. O governo da França exerceu pressão, afirmando que procedimentos de infração seriam entendidos como uma “declaração de guerra”. Barroso, preocupado em manter suas relações com Sarkozy, vinha tentando minimizar a dimensão que a crise provocada pela expulsão dos ciganos vinha assumindo. Desde a realização do Conselho Europeu, no meio de setembro, o presidente francês enfatizou sua contrariedade com as posições de Viviane Reding. Um processo por discriminação motivado por desacordo com a Carta Europeia dos Direitos Fundamentais e a diretiva de livre circulação de cidadãos europeus nunca foi aplicado contra um Estado membro da União Europeia. A interpretação de Barroso é de que não haveria elementos jurídicos suficientes para uma tal iniciativa.

A comissária de Justiça denuncia que a situação na qual vivem os ciganos na Europa é “uma questão escandalosa para todos os europeus. Nós temos na Europa a maior minoria — 10 milhões de pessoas — que vive na pobreza absoluta, que não tem acesso à moradia, nem à saúde”, declarou.

A política sarkozysta de expulsão

Durante o verão deste ano, o governo francês colocou em prática seu mais audacioso e criticado plano de ação para a expulsão dos ciganos, com mais de 8 mil pessoas mandadas embora do país. As expulsões aumentaram desde a entrada da Romênia na União Europeia, em 1º de janeiro de 2007. Em 2003, o número de ciganos expulsos da França chegou a 2 mil e, em 2008, já passava de 8 mil.

A problemática particular das expulsões tomou a atual proporção após o assassinato, em julho, por um policial, do cigano Luigi Duquenet, de 22 anos, casado e pai de uma filha. Os policiais atiraram no carro em que o jovem se encontrava, alegando que teriam resistido a parar em um controle. Menos de 48 horas depois, mais de 50 pessoas de um grupo de ciganos da região reagiram, atacando o prédio da polícia da cidade de Saint-Aignan, na região. Outros grupos incendiaram carros em Onzain e Meher, e nas salas das prefeituras de Couddes e Thésée, além de destruir padarias, semáforos e placas de sinalizações. A situação só foi controlada após a intervenção de esquadrões da polícia, que ficaram nas ruas das cidades por alguns dias para impedir novos confrontos.

Na segunda quinzena de agosto, o número de expulsos já era maior que mil. Novas leis estão previstas pelo ministro da Imigração Eric Besson, permitindo a expulsão de estrangeiros em caso de “ameaça à ordem pública por ocasião de atos repetidos de roubo ou mendicância agressiva”. Uma circular enviada pelo Ministério do Interior para todas as prefeituras da França, no início de agosto, especulava que “300 acampamentos ilícitos deverão ser evacuados em três meses, prioritariamente os de ciganos”. Esta circular, que só viria a se tornar pública mais de um mês depois, em setembro, dizia que “convém evidentemente impedir a instalação de novos acampamentos ilícitos de ciganos”.

Críticas nacionais e internacionais

Mesmo antes do conhecimento da circular ministerial, uma série de declarações de repúdio às expulsões que se intensificaram em agosto vinha sendo feita tanto dentro como fora do país. O Comité pela Eliminação da Discriminação Racial da ONU (Cerd), formado por 18 especialistas independentes, constatava um “discurso político de natureza discriminatória na França” e, em particular, “o aumento de manifestações de violência de caráter racista contra os ciganos”. O ministro das Relações Internacionais da Romênia se disse “cético” em relação à eficácia da política francesa. Mesmo a repercussão internacional da política sarkozysta não foi suficiente para fazer o governo recuar.

No início de setembro, manifestações realizadas em toda a França, denunciando a política “xenófoba do governo”, reuniram cem mil pessoas, entre representantes de sindicatos, ONGs, organizações de ciganos, partidos de esquerda, estudantes e militantes de direitos humanos. O porta-voz do Partido Socialista, Benoît Hamon, denunciou uma “estigmatização escandalosa” e críticas similares foram feitas por Jean-Luc Mélenchon, presidente do Partido de Esquerda, e por Noël Mamère, do Partido Verde.

Para Alain Daumas, presidente da União Francesa de Associações de Ciganos (Ufat), as iniciativas do governo são “um verdadeiro regime de apartheid em função de uma legislação de exceção”, fazendo referência às restrições de liberdade de circulação, à obrigação de apresentar-se a cada três meses nos serviços de polícia e à recusa em escolarizar as crianças por parte de alguns municípios.

Segundo Olivier Legros, professor na Universidade de Tours, esse processo de expulsões se inscreve numa «operação de comunicação num contexto de crise política e reconquista eleitoral. Ela procura mostrar a retomada do controle de uma situação difícil da parte do governo francês, de afirmar a existência de um Estado forte e eficaz». Legros, que também é membro da Associação Urban-Rom, que agrupa mais de 50 pesquisadores e associações trabalhando em nível europeu, afirma que «estão sendo inventados novos dispositivos que vão permitir o controle da mobilidade das populações julgadas indesejáveis e restringir seu acesso ao território francês».

O ministro da Imigração Besson afirmou inúmeras vezes, inclusive em encontro com a comissária Viviane Reding, que não estava ciente da circular que ordenava a expulsão explícita dos ciganos. Segundo ele, a circular teria sido escrita pelo diretor do gabinete do ministro do Interior, que enviou nova circular para os prefeitos a fim de “eliminar qualquer mal-entendido sobre uma eventual estigmatização”. O novo texto pede aos prefeitos para continuarem as evacuações dos acampamentos ilegais “não importando quem sejam seus ocupantes”.

A decisão da Comissão Europeia de não apresentar um procedimento de infração por discriminação não está completamente descartada, mas as possibilidades de que isso aconteça são muito reduzidas. A França deve realizar, até janeiro de 2011, a regularização das expulsões, colocando-se de acordo com a diretiva de 2004 da União Europeia, que assegura a livre circulação dos cidadãos dos países membros.

O governo já enviou todos os dados relativos aos 550 acampamentos que foram eliminados, dos quais dois terços dos ocupantes, segundo o governo francês, não eram ciganos (dados contestados por organizações sociais). Há aproximadamente 14 países que cometem infrações na transposição da diretiva de livre circulação, segundo as declarações da comissária de Justiça.

No momento, a discussão se concentra sobre o caso francês, e o país tem até o início de 2011 para se adequar às leis da União Europeia. Até lá, “a França continua sob vigilância. Nós continuamos a examinar os dossiês que nos foram transmitidos pelas autoridades francesas”, conclui a comissária de Justiça.

Disponível em: https://revistaforum.com.br/revista-forum/ciganos-ainda-esquecidos-na-franca/

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