sábado, 5 de setembro de 2026

A poética indomável de Tony Gatlif no cinema, veja onde assistir filmes do cineasta cigano morto essa semana

Uma homenagem ao cineasta que fez da sua arte o território simbólico dos povos ciganos

*Por Aluízio de Azevedo, Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

Tony Gatlif tem sido a maior inspiração do meu fazer cinematográfico. Jamais vi outra pessoa conseguir capturar o universo cigano na sua inteireza, de forma tão comovente, sutil e de uma profundidade absoluta! 

Ele criou uma estética cigana própria e marcou o mundo por mostrar o quão geniais e fortes são as raizes e rizomas dos ciganos.

A morte do cineasta franco-argelino Tony Gatlif, aos 77 anos, em Arles (França), silencia uma das câmeras mais urgentes, viscerais e rítmicas do cinema europeu contemporâneo. Longe do olhar contemplativo de gabinete e da condescendência do exotismo ocidental, que nos padroniza ou estereotipa de inúmeras formas e jeitos, Gatlif jamais filmou as diferentes manifestações das identidades e culturas ciganas, a partir da margem.

Gatlif traz uma lente que movia-se de dentro. Seu olhar e mãos eram o pulso orgânico de quem transformou o próprio exílio e a ancestralidade em um manifesto poético e político contra o conceito de fronteira. Suas obras são um manifesto ao anticiganismo e sua trajetória o exemplo de que nós ciganos somos capazes de chegar a lugares de destaque e de permanente conservação da nossa cultura, sem medos e com muito orgulho em ser cigano/a.

Em Lacho Drom, por exemplo, ele mostra sem dizer uma única palavra, que em qualquer parte do mundo em que estamos, mantemos costumes e tradições próprias que nos fazem ciganos mesmo vivendo em diferentes países numa trajetória única de arte e força cultural ancestral, que permanece viva e latente, apesar das inúmeras perseguições e violências seculares de países europeus e outros lugares por onde vivemos.

Nascido Michel Dahmani em Argel, em 10 de setembro de 1948, filho de pai berbere (cabila) e mãe cigana andaluza, o cineasta carregava no corpo as cicatrizes do deslocamento. Sua infância na Argélia colonial foi sucedida por uma chegada dramática à França no início dos anos 1960, no ápice do conturbado processo de independência argelina.

Sem teto, enfrentando o preconceito sistêmico e experimentando passagens por reformatórios juvenis, sua vida tomou um rumo definitivo em 1966, quando um encontro fortuito com o lendário ator Michel Simon, o impulsionou ao estudo do teatro e à escrita cinematográfica.

A estreia na direção com o longa La Tête en ruine (1975), seguida por La Terre au ventre (1978) e pelo seminal Les Princes (1983), definiu o contorno ético de toda a sua trajetória: a recusa peremptória ao folclore estilizado e o compromisso inegociável com os corpos sufocados pela marginalização e pela violência institucional.

No Youtube é possível assistir ao filme "Liberte Korkoro": https://www.youtube.com/watch?v=22kl-TqgXco  

Para Gatlif, o cinema não era um exercício de estilo acadêmico, mas uma ferramenta de restituição da dignidade. Para mim, a sua maior obra prima, sem dúvidas, é Lacho Drom, que pode ser traduzido em algo como “Boa viagem”.

Latcho Drom e a música como território cigano inviolável

Para assistir ao filme há uma opção no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=r3IqHvk3f28

Se o cinema moderno buscou repetidamente cartografar a memória coletiva sem recorrer às muletas da narrativa convencional, poucas obras alcançaram a densidade tátil e sensorial de Latcho Drom (1993). Vencedor do prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes, o filme permanece como a obra-prima inconteste do diretor e um dos marcos mais expressivos do documentário poético internacional.

Em 103 minutos de vertigem plástica e musical, Gatlif constrói uma odisseia rigorosamente desprovida de vozes explicativas em off, entrevistas didáticas ou cartelas explicativas. A migração milenar dos ciganos, desde o deserto árido do Rajastão, na Índia, passando pelo Egito, Turquia, Romênia, Eslováquia e Hungria, até desaguar nas ruelas de Sevilha e Jerez de la Frontera, na Espanha, é articulada exclusivamente através do canto, da dança, do ritmo e do gesto.

Em Latcho Drom, a música deixa de ser entretenimento ou mero adorno para se converter em documento histórico, escudo psíquico e afirmação territorial simbólica inegociável das diferentes culturas ciganas ao redor do mundo.

Ao enquadrar o lamento lancinante de uma cantora romena sob a neve rigorosa ou a combustão física das palmas no flamenco andaluz, a câmera de Gatlif recusa o distanciamento voyeurístico e se funde à respiração dos músicos. A música surge como a única pátria imune às deportações, aos muros e ao esquecimento.

Cinco Décadas de Mover Fronteiras e Reescrever a História

Ao longo de cinco décadas de carreira prolífica, Gatlif ergueu uma filmografia de mais de vinte títulos que transitaram com extrema fluidez entre o lirismo cru e o engajamento social. Após a delicadeza de Mondo (1995), o cineasta alcançou projeção internacional com Gadjo Dilo (O Estranho Louco, 1997).

Há uma opção para ver o filme no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=bArC4p-nliI

Protagonizado por Romain Duris, o longa conquistou o Leopardo de Prata no Festival de Locarno e o Prêmio César de Melhor Trilha Sonora Original, premiação que Gatlif voltou a arrebatar com Vengo (2000). Outra de suas obras primas, Vengo é uma imersão trágica e dionisíaca no universo do flamenco ancestral.

Para ver Je Suis Né D'Une Cigogne (1999): https://vkvideo.ru/video547001063_456244677

A maturidade de sua linguagem cinematográfica consagrou-se com Exils (2004), pelo qual recebeu o prestigiado Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes. O filme acompanha a travessia inversa de dois jovens que deixam Paris em direção à Argélia, buscando refazer o caminho da memória e do pertencimento.

Anos mais tarde, em Korkoro (Liberdade, 2009), Gatlif prestou uma contribuição histórica inestimável ao abordar abertamente o genocídio dos ciganos perpetrado pelo regime nazista —, feito que lhe rendeu o Grand Prix do Festival do Mundo de Montreal.

Para ver o filme Djam, o link: https://vkvideo.ru/video639822436_456239908

Mesmo em suas produções finais, a exemploo de títulos como Indignados (2012), inspirado no movimento dos indignados europeus, Geronimo (2014), Djam (2017), Tom Medina (2021) e o derradeiro Ange (2025), o cineasta preservou a mesma vivacidade libertária de sua juventude, recusando as facilidades do cinema burguês para manter sua câmera voltada para a rua, para o improviso e para a liberdade das paixões humanas, que se manifestam nas roupagens ciganas.

Filmografia Completa e Prêmios de Destaque

A trajetória cinematográfica de Tony Gatlif estende-se por cinquenta anos de produção contínua, reunindo longas-metragens de ficção, documentários poéticos e projetos de preservação cultural. A seguir, apresenta-se a relação cronológica completa de suas obras diretoriais, seguida por suas principais honrarias internacionais.


Principais Honrarias Razoáveis:

Ao longo de sua carreira, Gatlif recebeu o Prêmio Un Certain Regard (1993) e o Prix de la Mise en Scène / Melhor Direção (2004) no Festival de Cannes; dois Prêmios César de Melhor Trilha Sonora Original (por Gadjo Dilo em 1999 e Vengo em 2001); o Leopardo de Prata no Festival Internacional de Locarno (1997); o Grand Prix das Américas no Festival do Mundo de Montreal (2009); e o Prix Henri-Langlois pelo Conjunto da Obra e Humanismo (2011).

Filmografia

• 1975 – La Tête en ruine

• 1978 – La Terre au ventre

• 1981 – Corre, gitano

• 1981 – Canta gitano

• 1983 – Les Princes

• 1985 – Rue du départ

• 1989 – Pleure pas my love

• 1990 – Gaspard et Robinson

• 1993 – Latcho Drom (Obra-Prima / Un Certain Regard em Cannes)

• 1995 – Mondo

• 1997 – Gadjo Dilo / O Estranho Louco (Leopardo de Prata em Locarno & Prêmio César)

• 1999 – Je suis né d'une cigogne

• 2000 – Vengo (Prêmio César de Melhor Trilha Sonora)

• 2002 – Swing

• 2004 – Exils (Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes)

• 2006 – Transylvania

• 2009 – Korkoro / Liberdade (Grand Prix do Festival de Montreal)

• 2012 – Indignados

• 2014 – Geronimo

• 2017 – Djam

• 2021 – Tom Medina

• 2025 – Ange

*Aluízio de Azevedo é cigano de etnia Calon, produtor cultural independente, multiartista, cineasta. Jornalista de formação, com especialização em cinema, mestre em educação Ambiental e mitologias ciganas e doutor e pós-doutor em informação e comunicação e saúde dos povos ciganos de Brasil e Portugal pela Fiocruz/RJ.

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