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domingo, 6 de setembro de 2026

Candidatos ciganos não conseguem viabilizar candidatura, a luta cigana por representação eleitoral

 

Ismael Calon, do PT Goiás, acusa fundo partidário de exclusão e negligenciamento. Foto: Jornal Opção.

Por Aluízio de Azevedo

No papel, o sistema democrático brasileiro celebra a diversidade e a pluralidade como pilares fundamentais da cidadania. Na prática das estruturas político-partidárias, contudo, o que se observa é a perpetuação de engrenagens de exclusão que confinam os povos tradicionais e, de modo visceral, os povos ciganos, que ainda continuam à margem dos espaços de poder, de política e de tomada de decisão.

A sub-representação política dos povos Rom, Sinti e Calon no Brasil não é consequência do desinteresse de nossas comunidades, mas o resultado direto de um racismo institucional e de um anticiganismo estrutural que impedem uma maior participação social nos espaços de controle social, nos espaços de tomada de decisão eleitoral e o florescimento de candidaturas autônomas.

O caso recente vivenciado por Ismael Calom, do Partido dos Trabalhadores (PT), liderança da etnia Calon no estado de Goiás e candidato a deputado estadual, escancara como esse racismo institucional, que atua no cotidiano eleitoral. Veja reportagem no Jornal Opção repercutindo o caso.

Diante da ausência de repasses equitativos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do isolamento promovido pela própria estrutura partidária, a Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás emitiu uma dura Nota de Repúdio, onde o candidato expressa a lógica partidária, que opera entre silenciamentos: “Não estamos reivindicando privilégio. Estamos reivindicando respeito, igualdade de condições e reconhecimento político.”

Em um trecho da nota, a AEEC-GO destaca:“causa profunda preocupação que uma candidatura que carrega essa representatividade seja tratada com valor zero de recursos partidários. Em outro trecho, afirma que “inclusão não pode existir apenas no discurso. Ela precisa se materializar também nas oportunidades, na participação política e no acesso às estruturas necessárias para que representantes de grupos historicamente marginalizados possam disputar eleições em condições minimamente justas”.

A AEEC-GO percebeu que recursos financeiros e invisibilidade social e histórica são problemas reais enfrentados pelas candidaturas ciganas: “A candidatura de Ismael Calom representa uma oportunidade concreta de levar a voz da população cigana para dentro do Parlamento. Silenciar ou deixar sem estrutura uma candidatura que busca representar uma comunidade historicamente invisibilizada significa, em nossa avaliação, perder uma oportunidade de ampliar a democracia e a representatividade política brasileira”.

Totens, folclore ou fetiche?

O episódio evidenciou como as legendas utilizam a imagem de lideranças ciganas como espécies de totens, operando nos campos do folclore e do fetiche. Em momentos convenientes somos convocados, com todas as nossas cores e “exotismo” para ornamentar discursos de diversidade. Entretanto, assim que há uma oportunidade real, negam as condições econômicas e estruturais mínimas de viabilidade nas urnas ou em qualquer espaço decisório de poder efetivo que inclua a gestão de recursos públicos.

A manifestação vinda de Goiás ecoa a uma indignação que é observada por todo o território nacional e nas duas principais linhas ideológicas partidárias em disputa hoje no Brasil: esquerda ou direita. Caso parecido ocorreu com o também pré-candidato a deputado estadual, Rubinho Cruise, de etnia Rom de Campinas (SP), que sequer conseguiu viabilizar sua candidatura pelo Partido Liberal (PL), como conseguiu no último pleito em 2022, ocasião em que também acusou o partido de negligenciá-lo no fundo eleitoral e no fornecimento de material eleitoral.

Esse estrangulamento financeiro e comunicacional enfrentado por candidatos ciganos é alimentado por mecanismos de apagamento institucional que começam antes mesmo da abertura das campanhas. A Justiça Eleitoral ainda não consolidou um recorte étnico-demográfico específico nos registros do Tribunal Superior Eleitoral para identificar candidatos da população cigana.

Sem dados oficiais que monitorem a presença e o desempenho dessas candidaturas, o racismo institucional opera na sombra de indicadores inexistentes, o que dificulta a fiscalização e a denúncia por parte dos órgãos de direitos humanos. O próprio IBGE, órgão máximo das estatísticas no Brasil sequer contabiliza-nos no censo populacional. A história oficial ocultou as contribuições ciganas ao longo de mais de quase cinco séculos de presença em território brasileiro.

Somado a esse apagamento estatístico e invisibilidade histórica, a distribuição das verbas do Fundo Partidário permanece totalmente centralizada nas diretrizes dos caciques partidários.

Sem regras formais de incentivo, cotas ou políticas afirmativas direcionadas aos povos tradicionais, a exemplo das conquistas acumuladas por outros segmentos sociais, os projetos políticos autônomos de nossas comunidades continuam dependendo da boa vontade de dirigentes que rotineiramente enxergam as pautas ciganas como secundárias ou de baixo apelo eleitoral.

A história das relações entre o Estado brasileiro e os povos ciganos foi longa e perversamente marcada por tentativas de tutela, nas quais terceiros se arrogavam o direito de planejar, decidir e falar por nós. Essa lógica paternalista no movimento social cigano está definitivamente superada. Precisa agora ser superada nos espaços de poder, de participação social e de decisões eleitorais e políticas.

A atuação contínua das organizações autônomas, como a Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás, parceira da AEEC-MT, demonstra diariamente que as pessoas ciganas possuem formulação teórica própria, denso acervo intelectual e plena capacidade de articulação política e mobilização social. Ainda são muitos os desafios e problemas estruturais a serem enfrentados. Mas um passo de cada vez.

Ao mesmo tempo em que ocupamos o espaço público por meio de produções na literatura, audiovisual, salvaguarda dos saberes ancestrais e fortalecimento das nossas manifestações culturais, afirmamos que o campo das decisões institucionais também nos pertence por direito. O racismo estrutural e o racismo institucional, o anticiganismo, precisam ser superados.

Os episódios vividos por Ismael Calom e por Rubinho Cruisé são o retrato de uma democracia que se recusa a ser plena. Romper essas barreiras e assegurar recursos, visibilidade e igualdade na disputa é o único caminho para garantir que os povos ciganos autodeclarem e decidam seus próprios rumos, sem intermediários, sem tutelas ou curatelas.

Confira Abaixo a nota de repúdio completa da AEEC-GO

“NOTA DE REPÚDIO

Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás

A Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás vem a público manifestar seu profundo repúdio e indignação diante da classificação da candidatura de Ismael Calom, candidato a deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores em Goiás, com valor de R$ 0,00 em recursos partidários, conforme informado à Associação.

Ismael Calom não representa apenas uma candidatura individual. Trata-se de um cigano que há anos luta pela visibilidade, dignidade, cidadania, justiça social e inclusão da população cigana, levando para o espaço político uma comunidade historicamente invisibilizada.

Em Goiás, estamos falando de mais de 22 mil pessoas da etnia cigana, que também têm o direito de serem ouvidas, representadas e incluídas nos espaços de decisão política. No Brasil, a população cigana é estimada em cerca de 1 milhão de pessoas, que igualmente lutam por reconhecimento, respeito, políticas públicas e participação social.

Por isso, causa profunda preocupação que uma candidatura que carrega essa representatividade seja tratada com valor zero de recursos partidários.

A Associação entende que essa situação precisa ser esclarecida e debatida, pois inclusão não pode existir apenas no discurso. Ela precisa se materializar também nas oportunidades, na participação política e no acesso às estruturas necessárias para que representantes de grupos historicamente marginalizados possam disputar eleições em condições minimamente justas.

Essa situação também nos leva a questionar a coerência entre a prática partidária e os princípios de inclusão, diversidade, participação popular e justiça social historicamente defendidos pelo campo político do qual fazemos parte e pelas políticas de inclusão associadas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Não estamos reivindicando privilégio. Estamos reivindicando respeito, igualdade de condições e reconhecimento político.

A candidatura de Ismael Calom representa uma oportunidade concreta de levar a voz da população cigana para dentro do Parlamento. Silenciar ou deixar sem estrutura uma candidatura que busca representar uma comunidade historicamente invisibilizada significa, em nossa avaliação, perder uma oportunidade de ampliar a democracia e a representatividade política brasileira.

A Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás reafirma que continuará defendendo a participação política da população cigana e cobrando dos partidos políticos compromissos concretos com a inclusão e a diversidade.

Nossa luta não é apenas por uma candidatura. É pela voz de milhares de ciganos e ciganas de Goiás. É pela voz de aproximadamente 1 milhão de brasileiros pertencentes à população cigana. É pelo direito de todos os povos historicamente invisibilizados ocuparem os espaços onde são tomadas as decisões que afetam suas vidas. Não queremos privilégios. Queremos igualdade. Não queremos favores. Queremos oportunidades. Não queremos ser lembrados apenas em discursos. Queremos participar das decisões.

A população cigana existe, participa, trabalha, vota e também quer representação política. Inclusão política precisa sair do discurso e chegar à prática.

ASSOCIAÇÃO ESTADUAL DA ETNIA CIGANA DE GOIÁS

Em defesa da dignidade, da representatividade e da inclusão política do povo cigano.