Com a tese "Produção Social de Sentidos em Processos Interculturais de Comunicação e Saúde: A Apropriação das Políticas Públicas de Saúde para Ciganos no Brasil e em Portugal" o aluno de pós-graduação de Informação e Comunicação em Saúde no ICICT, Aluízio de Azevedo, recebeu menção honrosa no Prêmio Oswaldo Cruz de Teses 2019 na área de Ciências Humanas e Sociais.
domingo, 17 de novembro de 2019
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Teses do PPGICS são destaque no Prêmio Fiocruz de Teses 2019
Por Assessoria
de Comunicação do Icict Fiocruz
A Vice-presidência de Educação, Informação e
Comunicação (VPEIC)/Fiocruz divulgou o resultado do Prêmio Fiocruz de Teses
2019 e o PPGICS - Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em
Saúde foi agraciado duas vezes.
Na área de Ciências Humanas e Sociais, foi premiada
a tese "A Produção Simbólica da Miséria e dos Miseráveis: Estado, mídia e
população", de Daniela Savaget Barbosa Rezende, e “A Produção Social dos
Sentidos nos Processos Interculturais de Comunicação e Saúde: a apropriação das
Políticas Públicas de Saúde para ciganos no Brasil e em Portugal”, de Aluízio
de Azevedo Silva Júnior, recebeu a menção honrosa.
Ambas as teses foram orientadas pela professora do
PPGICS e pesquisadora do Laboratório de Comunicação e Saúde (Laces), Inesita
Soares de Araujo. A primeira tem também a co-orientação de Kátia Lerner (PPGICS).
Ao todo, foram quatro vencedores e seis indicações
a menções honrosas, divididos nas categorias de medicina; saúde coletiva;
ciências biológicas aplicadas à saúde e biomedicina; e ciências humanas e
sociais.
Os vencedores receberão R$ 7.500,00 para participar
de evento acadêmico/científico nacional ou internacional.
Saiba mais
sobre as teses
Crédito das imagens
Foto Daniela
Savaget - Arquivo pessoal | Foto Aluízio Azevedo - Arquivo pessoal
domingo, 21 de julho de 2019
Apesar das mudanças, ciganos mantêm vivos costumes e tradições
"Se tem uma coisa que cigano gosta é de se
reunir, muita festa e comida", declara Terezinha Alves, 56 anos, membro de
uma família de ciganos, em Cuiabá. Em um encontro especial com o HiperNotícias,
eles contaram a história de sua origem, preconceitos por serem quem são e como
buscam manter os costumes até hoje.
Apesar de não haver um levantamento que confirme o
número de ciganos residentes em Mato Grosso, um estudo feito pelo jornalista
Aluízio Azevedo, primo de Fernanda Caiado, presidente da Associação Estadual
das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), aponta que pelo menos 200 vivam no
estado. Ele relata um pouco das tradições e da vida cigana no documentário
Kalon, Olhares Ciganos, disponível no fim da matéria.
"Tudo começou a mudar com o vô", conta
Fernanda Caiado, neta de Izidorio Pereira. Ele era cigano da etnia Kalon, mas
se envolveu com a cunhada e, como castigo, os familiares o obrigaram a viver
isolado no interior de Mato Grosso, enquanto eles partiam em viagem como de
costume. Exilado, o cigano desenvolveu depressão e estava sempre triste por ter
sido separado e deixado para trás.
Família cigana: Casamento de
Izidorio e Severiana Pereira
"Foi quando ele conheceu Jesus", disse
Abigail, uma de suas filhas. Seu Izidorio se converteu à religião e se tornou
evangélico. Na época, conheceu dona Severiana e se casaram, ela era uma moça
muito estudada.
A família conta que Severiana era muito inteligente
e aprendeu todos os costumes ciganos apenas observando e estudando. Por
exemplo, o dialeto cigano, denominado 'chibe', não pode ser ensinado para um
não cigano e dona Severiana aprendeu sozinha, observando a pronúncia e o que
poderia significar, entre outros costumes que passou a praticar. "Ela
sabia mais do que todo mundo", contou um dos integrantes da família.
"A minha mãe acabou pegando muito do cigano
para ela e acabou ficando mais cigana do que os outros", relatou Abigail.
De Guiratinga (distante 331 km de Cuiabá) eles se
mudaram para a Capital mato-grossense, ele faleceu em 1989 e ela em 2016.
Para a entrevista estavam reunidos, em casa, as
irmãs Abigail, Terezinha e Aparecida, filhas do casal Izidorio e Severiana.
Também estava Fernanda, filha de Terezinha, e seu marido Lucas, que é o seu
primo, além de José Roberto Martins, marido de Abigail, e o seu filho José
Roberto Martins Junior.
Eles relatam que são uma família muito unida.
" Está todo mundo sempre junto, é uma ligação que não tem
explicação", conta Fernanda. E eles sempre se reúnem todo terceiro domingo
de cada mês na casa de um familiar diferente.
"Isso é bem forte! Geralmente as pessoas falam
família e é pai, mãe, irmão e, para a gente, não. Quando se fala em família, a
minha tia lá em Rondonópolis é família", disse José Roberto Junior.
Eles gostam de tomar muito chá e a mesa das
refeições está sempre cheia, geralmente o prato principal envolve carne de
porco e os ciganos não costumam comer sobremesa. Devido ao boicote sofrido por
Izidoro, hoje todos são evangélicos, alguns da Assembleia de Deus e outros
frequentadores da igreja Batista, fazem suas orações antes do almoço e quando o
convidado sai de sua casa.
Alan Cosme/HiperNoticias: familia cigana
Apesar de grande parte da tradição cigana ter se
perdido no tempo, cada integrante tem a sua história e carrega traços da
cultura dos antepassados. Terezinha, por exemplo, tem no sangue a sede por
viagens. Os ciganos são conhecidos por serem nômades, estarem sempre se movendo
pelas cidades, e ela não consegue ficar em casa.
Contam que na cultura cigana os homens são
extremamente machistas e que antigamente havia o costume de se casar com
parentes, como primos. Mas ao contarem isso começam a rir, já que Fernanda é
casada com o seu primo Lucas.
Abigail não usa roupas tradicionais do povo cigano,
mas adora saias, de preferência rodadas e muito coloridas. Ela relembra a fama
que as ciganas têm de lerem as mãos, mas já alerta que não faz isso. Ele revela
a farsa por traz do costume: é tudo um truque, pois são mulheres muito espertas
que conseguem as respostas dos clientes, sem que eles percebam.
Em uma coisa toda a família concorda: "ciganos
são naturalmente comerciantes". A maioria deles vendem produtos e adoram
negociar, está no sangue, não negam.
Preconceito
Muitas vezes quando se fala nos ciganos o
preconceito aparece e muita gente os encara com olhares desconfiados. No senso
comum, há a imagem de que são ladrões,
que roubam crianças e charlatões sempre tantando enganar as pessoas.
O preconceito faz com que membros da comuniade
cigana reneguem suas raízes e se escondam. A família conta que muitos ciganos
não se assumem ciganos por preconceito das pessoas e medo. Esse é um problema
até mesmo no ambiente de trabalho, eles têm receio de serem demitidos, pois
existem patrões que também acreditam que vão ser roubados. “É muito estereótipo",
desabafa Terezinha.
A família cigana conta que seu povo sempre sofreu e
foi marginalizado por uma ideia das pessoas que não condiz com a realidade.
Afirmam que gostariam que isso mudasse, que as pessoas entendessem que eles não
são assim e parassem de julgar todo um povo por serem desconhecidos.
A associação
Fernanda é presidente da Associação Estadual das
Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) e conta que seu povo circula entre os
estados de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso.
Apesar de afirmar que o estado que mais tem ciganos
é Goiás, ela diz que não dá para saber quantos são. O censo demográfico não
consegue ter uma estimativa, já que muitos ciganos vivem viajando, não têm
documentos, não sabem ler e não sabem os seus direitos básicos. Para ter um
número aproximado é preciso frequentar os acampamentos ciganos. O que não é
feito.
De acordo com Fernanda, a ideia de criar a AEEC
partiu de um dos seus primos, pois ele estudou e fez o o doutorado sobre a
saúde dos ciganos. Para os estudos, ele conversou muito com ciganos residentes
em Mato Grosso e outros estados. Aluízio de Azevedo produziu um documentário
sobre os ciganos Kalon, no estado, e estima que pelo menos 200 ciganos vivam em
Mato Grosso.
"Vimos a necessidade de criarmos a associação,
para conseguirmos pelo menos o básico de assistência aos ciganos",
explicou.
Ela aponta que a associação busca oferecer amparo
para que o povo seja tratado com dignidade. Os ciganos que vivem no nomadismo
não têm informações, não sabem os seus direitos básicos e eles querem que o
governo reconheça esse grupo de pessoas.
"A forma que eles vivem ainda está à mercê da
sociedade. Eles não estudam, não sabem escrever...", conta Fernanda.
Na família, Terezinha é assistente social e Abigail
contadora. Fernanda conta que a sua mãe é a primeira cigana a se formar em uma
universidade em Mato Grosso (ela frequentou a Universidade Federal de Mato
Grosso) e o seu primo, Aluízio de Azevedo Júnior, foi o primeiro do Brasil a
fazer doutorado.
Veja documentário É Kalon Olhares Ciganos: https://www.youtube.com/watch?v=TAx0IyzqwjE&feature=emb_logo
quinta-feira, 30 de maio de 2019
Pesquisa sobre povos ciganos conquista Prêmio Compós
Aluízio (o primeiro à esquerda), com ciganos da comunidade de Tangará da Serra (MT), seus tios-avós, durante pesquisa de campo (foto: Karen Ferreira)
Por Icict/Agência
de Notícias Fiocruz
Os primeiros ciganos chegaram ao Brasil ainda no
século 16. Apesar de os dados oficiais sobre eles serem muito escassos,
estima-se que haja, hoje, entre 500 mil e um milhão de ciganos no país, de
diferentes comunidades e etnias. Como se dão os processos de comunicação entre
as políticas públicas de saúde e esses povos?
O jornalista e antropólogo Aluízio de Azevedo Silva
Júnior, ele mesmo um cigano da etnia kalon, elencou essa e outras perguntas
como ponto de partida para sua pesquisa de doutorado, defendida em 2018. Pois o
trabalho A Produção Social dos Sentidos nos Processos Interculturais de
Comunicação e Saúde: a apropriação das Políticas Públicas de Saúde para ciganos
no Brasil e em Portugal acaba de conquistar a edição 2019 do Prêmio Compós de
Teses e Dissertações Eduardo Peñuela, um dos reconhecimentos mais importantes
na área da Comunicação.
Aluízio cursou seu doutorado no Programa de
Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS), do Instituto de
Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz). Foi
orientado por Inesita Soares de Araújo, do PPGICS, e coorientado por Maria
Natália Pereira Ramos, da Universidade Aberta (Uab – Lisboa), de Portugal.
Para sustentar sua tese, entrevistou 20 ciganos do
Brasil e 20 de Portugal. Ouviu inúmeros relatos de racismo institucional na
saúde, como casos de esterilizações forçadas de mulheres ciganas e também maus
tratos por parte de alguns profissionais, em Portugal.
No Brasil, identificou conflitos entre as equipes
de saúde e os povos ciganos, que enxergam a saúde de forma diferente dos
profissionais da área. Situações que revelam o racismo e os estereótipos que
ainda afetam o cotidiano dos povos ciganos, reforçando situações de exclusão e
de desigualdade social.
“Minha pesquisa se insere em campos e temas
bastante sensíveis para a saúde: o da comunicação e o das políticas de equidade
do Sistema Único de Saúde (SUS). Sobretudo aquelas voltadas para populações em
situação de exclusão ou desigualdade social, incluindo aí as minorias étnicas
e, dentro delas, as comunidades ciganas”, explica Aluízio.
“Esse público é definido no Plano Nacional de Saúde
como prioritário no atendimento do SUS, mas as políticas afirmativas em saúde
não têm conseguido sair do papel. E as comunidades nessa situação sofrem com
racismo institucional ou cuidados inadequados em saúde nos serviços públicos ou
privados, por desconhecerem e não respeitarem as suas especificidades e
contextos culturais, sociais, políticos e econômicos. Denunciamos situações de
negligenciamento e invisibilidade dessas populações na saúde”.
Inovações
metodológicas
Em sua pesquisa, o jornalista encontrou inúmeros
desafios. Um deles foi conseguir descortinar o universo cigano de forma
inovadora e sem preconceitos. “Esse tema ainda é pouco estudado. Ou, quando
ganha foco em estudos, em geral acaba enquadrado no molde científico
hegemônico, alimentando estereótipos e reforçando o racismo em todas as suas
faces, inclusive o epistêmico”, esclarece.
Para vencer esse desafio, aplicou à pesquisa de
campo o que chama de “metodologia fílmica semiológica, intercultural e decolonial”,
que incluiu, entre outras ações, um registro fílmico de várias comunidades
ciganas brasileiras e portuguesas. Esses registros deram origem a um vasto
material, que Aluízio pretende editar, para compor um longa-metragem sobre as
comunidades ciganas da etnia kalon. Para isso, porém, precisa conquistar
financiamento.
Inesita, orientadora do pesquisador durante o
doutorado, identifica muitos méritos no trabalho. “Um deles é como evidencia a
possibilidade de fazer uma pesquisa com rigor teórico e metodológico,
contribuindo para o avanço da ciência no campo da ‘comunicação e saúde’, ao
mesmo tempo em que é uma pesquisa comprometida com setores da população que
sempre estiveram à margem da sociedade. Não por quererem, mas porque foram
marginalizados, porque foram considerados desnecessários, supérfluos e mesmo
indesejáveis”.
A pesquisadora também destaca o fato de Aluízio
trazer a Filosofia Kalon como um dos quatro eixos de sustentação teórica da
tese, ao lado dos Estudos Culturais, das Epistemologias do Sul e da Semiologia
Social dos Discursos.
“Por fim, realçaria que o pesquisador, um cigano
kalon, que por méritos próprios tornou-se jornalista, depois antropólogo e
finalmente conquistou seu título de doutor entre nós, no PPGICS, fez dos
participantes de sua pesquisa coautores desse processo de produção de
conhecimento sobre uma realidade tão negligenciada quanto negligenciado é o
povo cigano. E isso é muito precioso”.
Exclusão
social
Para Aluízio, outro desafio marcante teve a ver com
a barreira de um estereótipo: a ideia, equivocada, de que pessoas ciganas não
gostam de estudar. “É muito raro um cigano chegar ao nível superior, o que dirá
concluir uma tese de doutorado”, lamenta. “Também nos deparamos com uma
realidade dura e cruel de políticas anticiganas que foram desenvolvidas pelas
nações ocidentais ao longo dos séculos, inclusive no Brasil e em Portugal.
Coisas como degredo, expulsão, a proibição de falar
a língua cigana e de praticar os costumes, prisões, sequestros de bens e até
assassinatos. Ações que deixaram um rastro de exclusão social, onde hoje se
encontra uma imensa parcela das pessoas ciganas. E a nossa proposta foi
justamente romper com esses paradigmas excludentes para mostrar que as
comunidades ciganas também têm saberes e modos de vida que podem contribuir, de
alguma forma, para o diálogo acadêmico e político sobre as políticas de saúde”.
Além de atuar como jornalista no núcleo de Mato
Grosso do Ministério da Saúde, o autor tem se dedicado a atividades acadêmicas
para divulgar a tese. “Também tenho buscado modos para fazer com que o
conhecimento coletivo produzido na pesquisa chegue como devolutiva às
comunidades ciganas, para que ampliem os seus argumentos e fortaleçam seus
discursos.
Bem como aos gestores em políticas públicas de
saúde e de outras áreas de direitos humanos, para que possam subsidiar suas
tomadas de decisões em prol da saúde cigana, da justiça social e da igualdade
racial, que são questões garantidas constitucionalmente e em diversas leis”.
Dez anos do
PPGICS
A forma como encara a ideia de “equidade”, afinal,
é o grande trunfo da tese de Aluízio, destaca Inesita: “A equidade é um desafio
ao mesmo tempo simples e gigantesco. O desafio do reconhecimento de que os
grupos sociais têm suas especificidades culturais e que elas merecem respeito.
O desafio da decisão (e coragem) política de
conferir mais atenção aos setores da população historicamente negligenciados,
entendendo que o negligenciamento na saúde é parte inseparável da situação em
que esses grupos se encontram. O desafio de perceber que a comunicação é parte
inseparável desse negligenciamento, e que nenhuma política para minorias poderá
ser implantada plenamente se a comunicação que a constitui e que a viabiliza
não respeitar também o princípio da equidade”.
O reconhecimento do Prêmio Compós à tese de Aluízio
acabou coincidindo com uma data importante para o PPGICS: seu aniversário de 10
anos. O programa de pós-graduação, que oferece mestrado acadêmico e doutorado
em Informação e Comunicação em Saúde, está avaliado com nota 5 pela Capes, e já
formou cerca de 40 doutores e 90 mestres.
quinta-feira, 14 de março de 2019
MPF ouve anseios de comunidade cigana em Mato Grosso e estreita relações
Quatro procedimentos serão instaurados para que ciganos possam ter acesso a serviços essenciais
Representantes da comunidade cigana em Mato Grosso
estiveram reunidos na última sexta-feira (11) com o procurador da República,
titular do Ofício de Comunidades Indígenas e Populações Tradicionais no
Ministério Público Federal em Mato Grosso (MPF/MT), Ricardo Pael Ardenghi.
Durante a reunião, foram apresentadas as principais demandas e necessidades do
povo cigano, tanto no estado, quanto no país como um todo. O encontro faz parte
da ação coordenada Maio Cigano, que integra o calendário do Projeto MPF Cidadão
30 anos.
A presidente da Associação Estadual das Etnias
Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Fernanda Caiado agradeceu o olhar
diferenciado que está sendo dado na tratativa com o povo cigano e entregou ao
procurador um documento contendo informações básicas sobre as comunidades
ciganas no estado e a pauta com as demandas locais e nacionais. “Precisamos
agradecer ao MPF, em nome do procurador Ricardo, por ter tomado essa decisão de
olhar com outros olhos, não só a cultura, mas os ciganos hoje, que temos em
Mato Grosso e no Brasil. Nós temos acompanhado o trabalho que o Ministério
Público Federal tem feito em alguns pontos, como a efetivação do Dia do Cigano.
Existem outras coisas que precisam melhorar e agora, com o apoio do MPF, a
gente sabe que vai melhorar”, afirmou Fernanda.
Para o procurador Ricardo Pael, este é o momento de
abrir um canal de diálogo com a comunidade cigana, que não tinha contato com o
MPF no Estado. “Este é um processo que estamos iniciando e que daremos
andamento, buscando atender as demandas que estão sendo colocadas, dando maior
visibilidade às necessidades de todas as comunidades ciganas, principalmente as
daqui de Mato Grosso”, enfatizou.
Situações como a falta de dados por parte do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) sobre a população cigana no país,
a falta de acesso a documentos, saúde, educação e moradia, leia-se lugares
apropriados para os acampamentos das famílias que ainda permanecem nômades,
foram a principais problemas apresentados pelos representantes da comunidade
cigana em Mato Grosso. “Não existem áreas específicas para os acampamentos, e,
quando são cedidas, não possuem nenhuma infraestrutura como água, banheiros e
energia elétrica. A precariedade é muito grande. Torna-se insalubre e faz com
que as pessoas engrossem o coro de que os ciganos são sujos e porcos”,
enfatizou a presidente da Associação das Etnias Ciganas em Mato Grosso.
Fernanda explicou que a AEEC-MT tem conhecimento de
que existem grupos ciganos nas cidades de Rondonópolis, Tangará, Cuiabá, Sinop,
Alto Garças, Pedra Preta e Barra do Garças, e que a intenção é se aproximar de
outras associações ciganas existentes no país, como a do Distrito Federal. E,
apesar de não haver dados específicos sobre ciganos em Mato Grosso, Fernanda
acredita que existem pelo menos 700 pessoas no estado que se identificam como
ciganos.
Durante o encontro, tanto Fernanda, quanto a
professora Irandi Rodrigues Silva, cigana de nascimento, e Marcos Gatass,
cigano e professor de danças ciganas, falaram sobre a fixação do povo em Mato
Grosso, e também sobre a cultura e os costumes dos ciganos como um todo, sobre
as divisões por etnias, sobre o linguajar entre outros temas.
A professora Irandi falou um pouco sobre sua
história. “Sou cigana de pai e mãe, nasci em uma barraca e perambulei até os 16
anos por aí em um lombo de cavalo, até meus pais fixarem moradia em Tangará da
Serra. A partir de então, nós começamos a nos misturar com os não ciganos, até
para que nossa cultura pudesse sobreviver”, ressaltou a cigana, formada em
Pedagogia no Instituto Tangaraense de Educação, servidora pública aposentada.
Para ela, a pior situação que o cigano vive nos
dias atuais ainda é o preconceito. “Cigano não se identifica como tal, até a
língua está se acabando. A vida de cigano, na integração social na atualidade,
é muito difícil. Antigamente era mais fácil. As pessoas ainda têm aquela visão
de que cigano é enganador, e rouba crianças, e isso nos traz muitas
dificuldades, principalmente para as nossas crianças”, ressaltou.
Marcio Gatass, professor de dança cigana, corrobora
as palavras de Irandi ao afirmar que muitos parentes não dizem que são ciganos
devido ao preconceito. “Precisamos ser bem vistos e não mal vistos. É preciso
que tenhamos visibilidade para acabar com este estereótipo que existe sobre os
ciganos”, completou.
Por fim, o procurador Ricardo Pael explicou que,
com base nas informações repassadas a ele durante a reunião e documentalmente,
serão instaurados quatro procedimentos administrativos pelo MPF/MT, sendo um
sobre a questão de acesso a documentação civil; outro sobre o acesso à saúde,
observando as peculiaridades do povo cigano; acesso à educação, enfatizando a
questão de discriminação e possibilidade de abertura de cotas; e também para
acesso a acampamentos com infraestrutura como energia e sanitários. Além disso,
os documentos serão enviados às unidades do MPF no interior. “Diante de tantos
problemas enfrentados pelos ciganos no Mato Grosso, é inadmissível que não haja
nenhum procedimento instaurado. Essa realidade começa a mudar hoje”, concluiu.
Texto e fotos: Redação do site O Livre
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Pesquisa analisa a comunicação de políticas de saúde para ciganos no Brasil e em Portugal
Por: Graça Portela (Icict/Fiocruz)
Em agosto de 2018, um aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS/Icict/Fiocruz) defendia uma tese considerada por alguns como
“diferente”. Orientado por Inesita Soares de Araújo (PPGICS) e co-orientado por Maria Natália Pereira Ramos, da Universidade Aberta – Uab Lisboa, de Portugal, Aluízio de Azevedo Silva Júnior – ele mesmo um cigano da etnia Kalon – mapeou e analisou os processos interculturais de comunicação (produção, circulação e apropriação) das políticas públicas de saúde para ciganos no Brasil e em Portugal.
“diferente”. Orientado por Inesita Soares de Araújo (PPGICS) e co-orientado por Maria Natália Pereira Ramos, da Universidade Aberta – Uab Lisboa, de Portugal, Aluízio de Azevedo Silva Júnior – ele mesmo um cigano da etnia Kalon – mapeou e analisou os processos interculturais de comunicação (produção, circulação e apropriação) das políticas públicas de saúde para ciganos no Brasil e em Portugal.
Intitulada A Produção Social dos Sentidos nos Processos Interculturais de Comunicação e Saúde: a apropriação das Políticas Públicas de Saúde para ciganos no Brasil e em Portugal, a tese de Azevedo faz um extenso levantamento histórico da vida cigana e também – sob a ótica da saúde – tenta mostrar qual o impacto das políticas públicas para esses povos.
“Mil nações”
A origem dos povos ciganos é imprecisa. Alguns atribuem a sua origem à Índia, outros ao Egito. A maior dificuldade é devido não se ter “a história escrita, apenas a oral”, como explica Azevedo, que ainda chama a atenção para a quantidade de lendas, mitos, fantasias e construções do senso comum que cercam os povos ciganos no imaginário popular. “Isto mantém e reforça preconceitos e estigmas, discriminação, desigualdades e exclusões”, afirma Azevedo.
Mesmo assim, é possível identificar grupos de ciganos antes do século 10, na Turquia, nos países balcânicos (Albânia, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Grécia, República da Macedônica, Montenegro, Sérvia, Kosovo, além da porção turca no continente europeu), e na Croácia, Romênia, Eslovênia e a Áustria. Na Europa Ocidental, a presença inicial dos povos ciganos é reconhecida na Alemanha, em 1417. Ainda no século 15, eles são encontrados na França, Grécia, Espanha e Portugal, dentre outros países.
Mesmo assim, é possível identificar grupos de ciganos antes do século 10, na Turquia, nos países balcânicos (Albânia, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Grécia, República da Macedônica, Montenegro, Sérvia, Kosovo, além da porção turca no continente europeu), e na Croácia, Romênia, Eslovênia e a Áustria. Na Europa Ocidental, a presença inicial dos povos ciganos é reconhecida na Alemanha, em 1417. Ainda no século 15, eles são encontrados na França, Grécia, Espanha e Portugal, dentre outros países.
O aluno do PPGICS chama a atenção em sua tese que, durante séculos, por todos os países por onde passaram, os povos ciganos deveriam seguir leis e regulamentos específicos, que no fundo buscavam
erradicá-los ou obrigá-los a se integrarem na sociedade através da sedentarização, além de criminalizá-los.
“Terra exsilium”
Ainda no século 15, Portugal passa a ser o primeiro país do mundo a lançar uma política agressiva contra os ‘romani’, como eram chamados os povos ciganos à época, com o banimento ou degredo para as terras do Novo Mundo – países africanos e o Brasil. Azevedo cita em sua tese que – pela
legislação portuguesa vigente, a colônia americana foi legitimada como destino para os ciganos degredados já no ano de 1549, por meio de um decreto de Dom João III.
legislação portuguesa vigente, a colônia americana foi legitimada como destino para os ciganos degredados já no ano de 1549, por meio de um decreto de Dom João III.
Segundo dados levantados por Azevedo, por quase 300 anos – graças a ligação histórica entre Portugal e o Brasil – povos da etnia cigana Kalon foram os que desembarcaram e viveram no país.
Aluízio de Azevedo explica que desta forma, entre as normativas e punições aplicadas aos ciganos
no Brasil ao longo do período colonial, durante o época imperial e até durante a República (até os anos 1940), constavam: a proibição de ser cigano, que incluía falar a língua própria, usar seus trajes, viajar em bandos, praticar a leitura de sorte ou ‘feitiçarias’, praticar a ‘vagabundagem’ ou a mendicância; a sedentarização com a ocupação de trabalhos fixos, a separação de famílias, com a entrega de filhos para que soldados os ‘educassem’.
Aluízio de Azevedo explica que desta forma, entre as normativas e punições aplicadas aos ciganos
no Brasil ao longo do período colonial, durante o época imperial e até durante a República (até os anos 1940), constavam: a proibição de ser cigano, que incluía falar a língua própria, usar seus trajes, viajar em bandos, praticar a leitura de sorte ou ‘feitiçarias’, praticar a ‘vagabundagem’ ou a mendicância; a sedentarização com a ocupação de trabalhos fixos, a separação de famílias, com a entrega de filhos para que soldados os ‘educassem’.
Embora em menor escala, também ocorreram assassinatos de ciganos no Brasil com o apoio da população, através de caçadas aos grupos e acampamentos. Além disso, afirma Azevedo, qualquer cidadão tinha direito a prender ciganos e entregá-los na cadeia mais próxima, podendo a pessoa tomar-lhes todos os bens, ouro, roupas ou cavalos.
Números no Brasil
Segundo estimativas do IBGE e, conforme explica Aluízio de Azevedo Silva Júnior em sua tese, e de estudiosos ligados ao tema, existem no Brasil (dados de 2013) cerca de 500 mil pessoas ciganas, divididas por três grandes etnias. Temos os Kalon (a maioria no país), os Rom e os Sinti, que ainda se subdividem em diversos grupos e subgrupos. “Ser cigano é pertencer a uma etnia cigana e não a uma religião. Aliás, os grupos ciganos não têm uma religião de origem e, normalmente, adotam a religião dos lugares onde estão. No Brasil a maioria é católica, mas hoje há um forte movimento de conversão às igrejas evangélicas”, esclarece Azevedo.
Em 2014, o IBGE divulgou o ‘Perfil dos Estados e dos Municípios Brasileiros 2014’, que reunia os resultados da Pesquisa de Informações Básicas Estaduais – ESTADIC e da Pesquisa de Informações Básicas Municipais – MUNIC realizadas nos 27 estados e nas 5.570 municipalidades brasileiras, respectivamente.
A grande dificuldade de se ter uma ideia real da quantidade de ciganos vivendo no país é que nem todos são nômades. Assim, o governo federal reconhecia – por intermédio da então Secretaria de Igualdade Racial (Seppir) – que “os dados oficiais sobre os povos ciganos ainda são muito incipientes", conforme está descrito no documento “Brasil Cigano – Guia de Políticas Públicas para Povos Ciganos” (2013). O próprio IBGE em 2011, quando realizou a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC), identificou 291 municípios, distribuídos em 21 estados, que abrigavam acampamentos ciganos; sendo Minas Gerais a que mais possuía esses acampamentos (58), seguida da Bahia (53) e Goiás (38).
Pegando apenas os dois maiores estados do país – São Paulo e Rio de Janeiro, pode se ter uma ideia de como estão espalhados os povos ciganos no Brasil. Dos 92 municípios do Rio de Janeiro, 16 possuem acampamentos de ciganos. Desses, apenas Carapebus tem local específico para este fim. Já o estado de São Paulo, somente 33 cidades, das 645 existentes no estado, possuem acampamentos, sendo que oito destinam uma área específica para o acampamento de ciganos.
Para Azevedo, mesmo esses dados governamentais seriam falhos porque os acampamentos, normalmente, correspondem aos ciganos que ainda são nômades e por isso mesmo migram. Por exemplo, em dezembro de 2017, haviam dois acampamentos ciganos na cidade de Rondonópolis (Mato Grosso) que não estavam contabilizados. Além do que, hoje, aproximadamente 80% dos ciganos fixaram residência e as informações da MUNIC não dizem nada a respeito dos ciganos que não são mais nômades, explica.
Saúde cigana
Uma das principais demandas apresentadas pelos povos ciganos é a saúde. O Sistema Único de Saúde (SUS) garante o atendimento a todos os cidadãos e os povos ciganos contam com um “Cartão para Cidadão em Situação Especial”, que contempla além de ciganos, estrangeiros, índigenas,
apenados (presos cumprindo pena em regime fechado ou semi-aberto) e a população fronteiriça do país, conforme a Portaria 940, de 4/9/2012, do Ministério da Saúde. Contudo, com características sócio-culturais próprias, este atendimento acaba sendo prejudicado, como afirma Azevedo: “muitos grupos, devido as suas especificidades culturais, não aceitam que as pessoas sejam atendidas por outras de sexo diferente. Por exemplo, se uma mulher cigana vai procurar os serviços de saúde, dificilmente continuará o tratamento se for atendida por um médico. O mesmo vale para os homens ciganos, que não gostam de ser atendidos por mulheres médicas”.
apenados (presos cumprindo pena em regime fechado ou semi-aberto) e a população fronteiriça do país, conforme a Portaria 940, de 4/9/2012, do Ministério da Saúde. Contudo, com características sócio-culturais próprias, este atendimento acaba sendo prejudicado, como afirma Azevedo: “muitos grupos, devido as suas especificidades culturais, não aceitam que as pessoas sejam atendidas por outras de sexo diferente. Por exemplo, se uma mulher cigana vai procurar os serviços de saúde, dificilmente continuará o tratamento se for atendida por um médico. O mesmo vale para os homens ciganos, que não gostam de ser atendidos por mulheres médicas”.
O aluno do PPGICS também chama a atenção sobre como os grupos ciganos têm um outro olhar para a saúde. “Eles vêem a saúde de forma diferente dos profissionais da área e da população em geral. Quando um cigano fica doente, muitas vezes, o grupo todo acaba indo para o hospital e aí se
encontram muitos conflitos, principalmente, pelos horários e limites de visitas aos pacientes”.
encontram muitos conflitos, principalmente, pelos horários e limites de visitas aos pacientes”.
Em entrevista ao site do Icict, Aluízio de Azevedo Silva Júnior fala um pouco mais sobre a sua tese, o racismo que envolve os povos ciganos e o impacto disto na saúde destes povos.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Artigo: Comunidades ciganas: milenares, sábias e resistentes
"Estudamos, trabalhamos, pagamos impostos, exercemos a cidadania e caminhamos para reverter essas visões negativas e promover a inclusão social.
Desde o século X, quando chegamos na
Europa, sofremos com sucessivas políticas persecutórias. A mais grave foi o
nazismo, que assassinou mais de 500 mil ciganos. Em Portugal, onde estamos desde
o século XIV, foram editadas leis que proibiam as pessoas ciganas de andarem
juntas, de falarem suas línguas, de exercerem suas profissões tradicionais,
enfim, de serem ciganos, sob pena de prisão, tortura, assassinato ou degredo. Hoje
a população cigana é a que sofre mais preconceitos e está em situação de
exclusão e desigualdade social no país.
Foi através do degredo português que
chegamos ao Brasil no primeiro século da colonização. Registros históricos
apontam para a presença cigana fazendo comércio em terras tupiniquins já nos
anos de 1530. Até a independência do Brasil (1822), milhares de famílias
ciganas foram expulsas de lá para cá. Junto com os degredados veio também o
racismo contra as pessoas ciganas, que já estava arraigado na cultura portuguesa
e continuou a pairar no imaginário social dos brasileiros.
Surgiram e persistem até os dias de
hoje estereótipos e estigmas, negativos ou romantizados, que vão do ladrão e
sequestrador de criancinhas, até ao artista e a mulher hipersexualizada,
representada, por exemplo, pela personagem de Machado de Assis, a prostituta
Capitu, olhos de cigana, oblíquos e dissimulados. Apesar das tentativas de
genocídio cultural e físico, resistimos! Ajudamos a construir o Brasil e a
identidade nacional, exercendo uma forte influência na culinária e na música
popular brasileira, incluindo o Samba e a música sertaneja.
As comunidades ciganas se compõem de três grandes etnia, os Kalon, os Sinti e os Rom, que se subdividem em inúmeros grupos; as comunidades ciganas formam a maior nação sem território. Somos mais de 15 milhões de pessoas vivendo em todos os continentes e países, o que nos torna muito diversos. Temos culturas que ultrapassam os mais de mil anos de história. Com filosofias e modos de vida, que congregam saberes e narrativas, histórias e conhecimentos riquíssimos. Resistimos às opressões do colonialismo, mas fomos perseguidos pela sociedade ocidental.
Atualmente, somos aproximadamente 500
mil pessoas vivendo em todos os estados. Em Mato Grosso há uma considerável
comunidade fixa e circulam vários grupos nômades. A nossa família, que tem cerca
de 300 pessoas, está por aqui há mais de 80 anos, principalmente, nos
municípios de Cuiabá, Rondonópolis e Tangará da Serra. Felizmente, muitos ciganos
brasileiros estão integrados e são reconhecidos socialmente.
Estudamos, trabalhamos, pagamos
impostos, exercemos a cidadania e caminhamos para reverter essas visões
negativas e promover a inclusão social. Porém, segundo relatório da Organização
das Nações Unidas (ONU, 2016), “no Brasil, as famílias de ciganos estão
frequentemente em situação de extrema pobreza, sem acesso a eletricidade, água
potável e saneamento básico adequado”.
Nesse documento, a ONU destaca a
importância do papel da mídia no combate ao racismo contra as pessoas ciganas. Um
trabalho que pode ser feito de várias maneiras: não perpetuar imagens
negativas, divulgando sem preconceitos as culturas e comunidades ciganas, seus
saberes e filosofias; denunciar a falta de acesso a serviços básicos
educacionais, de saúde e sociais; ou ainda cobrar das autoridades competentes
políticas públicas de promoção e proteção da igualdade racial.
Para conhecer mais sobre o
relatório da ONU, acesse o documento da
relatora especial da ONU em espanhol (aqui) e em inglês (aqui).Por Aluízio de Azevedo e Simone Rodrigues
Assessoria de Comunicação da AEEC-MT
Texto Disponível em: http://clicknovaolimpia.com.br/slideshow/id-801697/comunidades_ciganas__milenares__sabias_e_resistentes
domingo, 30 de setembro de 2018
Vigilância, controle e políticas públicas de saúde para ciganos: reflexões sobre desigualdade e exclusão
Estados europeus e americanos sempre exerceram vigilância e controle sobre as etnias ciganas, que foram expostas a diversas formas de violência física e simbólica
A população
mundial cigana - aproximadamente 12 milhões de pessoas - circula nos países dos
cinco continentes. Durante mais de 600 anos de contato com a civilização
ocidental, os povos ciganos nunca tiveram paz, a ponto de ser hoje a minoria
étnica mais vulnerável de todos os países da Europa (ONU, 2015).
Estados
europeus e americanos sempre exerceram vigilância e controle sobre as etnias
ciganas, que foram expostas a diversas formas de violência física e simbólica,
com inúmeras tentativas de apagamento de saberes e silenciamento de suas
culturas e identidades.
Expulsos
sem cessar de um país a outro, foram perseguidos e mortos pela igreja,
queimados nas fogueiras da santa inquisição; aproximadamente 200 mil ciganos
foram mortas por Hitler na II Guerra mundial; em Portugal, os degredos,
expulsões e leis contra ciganos, pelo simples fato de serem ciganos; no Brasil,
perseguições policiais constantes e centenas de ciganos mortos ou dizimados.
Diante desse
cenário, dialogamos com o argumento de Santos (1999, 2002, 2010) de que os
Estados utilizam os sistemas de exclusão e de desigualdade social como formas
de controle social e manutenção de classes sociais diferenciadas e
normatizadas, tomando como referente as políticas públicas de saúde para
ciganos no Brasil e em Portugal e examinando-as à luz dos conceitos de
vigilância e controle.
O trabalho
é parte de uma tese de doutoramento no âmbito da Informação e Comunicação em
Saúde.
Texto completo: PDF
Por Aluízio de
Azevedo Silva Júnior e Inesita Soares de Araujo
Do Instituto de Comunicação e Informação
Científica e Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz -Icict/Fiocruz
Referência: Edição atual - Anais do VII Colóquio Semiótica das Mídias. vol. 7, nº 1.
Japaratinga, AL: UFAL, 2018.
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
Grupo de Danças "Tradição Cigana"
Criado em 2010 pela união da comunidade cigana da etnia Calon do município de Rondonópolis, o grupo de Danças Tradição Cigana é um representante legítimo da cultura, da identidade, das tradições, da musicalidade e dança da comunidade romani no Estado.
Sem estrutura financeira, mas com muita garra e vontade, o grupo nasceu para representar a cultura cigana em um evento da Secretaria Municipal de Cultura de Rondonópolis.
Se mantém desde então com recursos próprios e vem se apresentando esporadicamente em eventos escolares e culturais no município.
Em 2020, por causa da pandemia, o grupo se viu obrigado a paralisar as suas atividades. Mas está se reorganizando para retomar as atividades em 2021.
https://www.youtube.com/watch?v=U_h4VGUyH3A
quinta-feira, 24 de maio de 2018
Cigano afirma que sociedade ainda trata sua cultura com estereótipos e estigmas
Por Mirella Duarte
Para Site RDNEWS
Membros da comunidade cigana do município de Tangará da Serra (MT)
No mês em que se comemora o Dia Nacional dos Povos
Ciganos, 24 de maio, o entrevistou o
comunicólogo, especialista em cinema, doutorando e cigano Kalon, Aluízio de
Azevedo, de 38 anos, que falou sobre as dificuldades e preconceitos vividos na
atual sociedade.
Além disso, pontuou especificidades de cada grupo
cigano, como a cultura, história e origem dos que abriram mapas e atravessaram
continentes em busca de uma vida melhor, após serem expulsos de suas terras de
origem.
Segundo Azevedo, o primeiro registro escrito do
degredo (afastamento) de ciganos com relação ao Brasil é de 1574, que ordenava
a expulsão de Portugal do cigano Kalon João de Torres e sua família.
O comunicólogo diz ainda que após anos de segregação,
foi em 2006, no governo do então presidente Lula, que a cultura cigana começou
a ter maior reconhecimento, com a instauração da data de homenagem, o reconhecimento
como minorias étnicas e tradicionais, além de estabelecer a Secretaria pela
Igualdade Racial (SEPPIR) como a interlocutora oficial junto a esses povos.
O pesquisador alega que ainda faltam leis especificas
para os povos ciganos no congresso nacional e defende a necessidade de
aplicação, assim como, as que são efetuadas em prol dos povos indígenas e os de
matrizes africanas.
O comunicólogo Aluízio de Azevedo desenvolve pesquisas
que tratam do povo e cultura cigana
Como é ser cigano no Brasil?
Não é fácil responder essa pergunta, seja no Brasil,
ou em outra parte do mundo. Somamos entre 12 a 15 milhões de pessoas, e é
preciso compreender que não é possível definirmos com clareza uma única
identidade ou uma única cultura cigana. Assim como as palavras “índios” ou
“negros” esconde por traz de si uma infinidade de povos e costumes, com
culturas e línguas diferentes, o mesmo ocorre com a palavra “ciganos”. Posso
dizer que ser cigano, hoje, no Brasil, não é tão melhor do que no passado.
Começou a melhorar, inclusive no próprio discurso e políticas públicas estatais
a partir da redemocratização do País, com a publicação da nossa Carta Magna.
Os ciganos, historicamente, foram muitos perseguidos.
Hoje, tal perseguição, ainda é uma realidade?
Posso dizer que durante todo o período de convivência
entre grupos ciganos e a população majoritária brasileira foi de muitos
conflitos e perseguições, inclusive com o Estado brasileiro efetivando
políticas higienistas de eliminação dos grupos ciganos ou sua completa
assimilação. Por aproximadamente 100 anos (1850 a 1960) os grupos ciganos foram
extremamente violentados, com muitas comunidades inteiras mortas pela polícia.
Um período que ficou conhecido como “as correrias ciganas”. Ciganos evocam no
imaginário nacional estereótipos e estigmatizações, que perpassa um discurso de
ódio e racismo contra as pessoas ciganas. Quando falamos em ciganos, todo mundo
lembra de um grupo nômade acampado perto de sua casa, mas que logo iam embora,
as pessoas sempre abordam o tema de que ciganos roubam crianças, que são
ladrões, trapaceiros ou bandidos perigosos. Há também um outro lado que
romantiza, mas é também estereótipo, como a suposta liberdade da vida nômade,
ou então, a sensualidade das mulheres ou homens ciganos, ou até o misticismo e
os dons para as artes.
O nomadismo então é algo que não define mais os grupos
de ciganos?
Muitos grupos deixaram de ser nômades e, hoje, cerca
de 30% dos grupos ciganos continuam nômades. Isso no mundo todo e inclusive
aqui. Um fato é certo, o nomadismo, que historicamente, foi associado aos
grupos ciganos, atualmente, não é a realidade para a imensa maioria dos grupos.
Aproximadamente 80% das comunidades ciganas ou fixaram residência nas
periferias, ou passaram a semi-nômades, ou populações itinerantes, que circulam
de tempos em tempos pelas mesmas cidades e territórios. Até porque, o mito
romântico da liberdade nômade, por vezes, caí por terra, quando vemos que os
grupos ciganos foram obrigados a migrar pela expulsão das populações
majoritárias e não por vontade própria. Isto é, migraram para fugir das
perseguições policiais e de fazendeiros, como estratégia de resistência e
sobrevivência. A maioria dos ciganos não possuí trabalho formal, pois
vivem das vendas e comércios informais, como objetos de segunda mão, venda de
enxovais e panos de prato, veículos usados, etc. Essa situação dificulta o
acesso à direitos como aposentadorias, pensões e afins. A leitura de mãos ou
tarot não diz respeito a todos os grupos ciganos, ainda que esta é sim a
profissão de muitas mulheres ciganas.
Atualmente, quais as maiores dificuldades de um cigano
no Brasil?
São muitas as dificuldades, principalmente os mais
pobres que, infelizmente, são a maioria. Mas há também pessoas ciganas de
classe média e ricas. Creio que para os que estão em situação de exclusão
social e pobreza a situação é pior, pois acumula uma série de opressões que não
apenas a racial. Mas, de qualquer modo, assumir a identidade cigana e
declará-la no Brasil é saber que vai ser olhado de lado, torto, sofrer racismo
e preconceito e estar um passo atrás da população branca e majoritária.
A Comissão de Assuntos Sociais no Senado aprovou o
Estatuto do Cigano. Isso melhora a vida deste grupo?
Observando especificamente o projeto de lei do senador
Paulo paim, que cria o estatuto, é possível averiguar que tem bastante mérito a
iniciativa, na medida em que é uma iniciativa pioneira para tentar garantir
legalmente os direitos dos povos ciganos no Brasil. Mas, ao analisarmos a
proposta original, é possível notar que se trata ainda de um documento
preliminar e, portanto, limitado, composto apenas por 19 artigos e que precisa
urgentemente ser melhorado e debatido com o maior número de pessoas e
comunidades ciganas possíveis.
Disponível em: https://www.rdnews.com.br/entrevista-especial/conteudos/99839
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