sexta-feira, 15 de maio de 2020

Conselho Nacional de Saúde recomenda ações à saúde de comunidades itinerantes durante a pandemia


Documento pede o cumprimento da portaria 940 de 2011 e evidencia a importância do acolhimento em saúde com equidade no atendimento as comunidades

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) aprovou nesta segunda-feira (11/05) um documento aos Ministérios da Saúde (MS) e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH) com recomendações para a implementação de medidas que garantam o atendimento à saúde dos povos ciganos, diante da pandemia provocada pelo Novo Coronavírus.

A recomendação tem entre os objetivos garantir que as famílias que estão em situação de trânsito e itinerância, sem condição de voltarem aos seus estados, possam ter assegurados os seus atendimentos sem preconceito e discriminação quanto a etnia.

O documento recomenda que o MS oriente as secretarias estaduais e municipais de Saúde, assim como os Conselhos de Saúde Estaduais, Municípios e do Distrito Federal, para o cumprimento da Portaria nº 940, de 2011, que isenta os povos ciganos e nômades sobre apresentação de comprovante de residência para cadastro e atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).

A recomendação também é para que estados e municípios priorizem a vacinação contra a gripe e H1N1 para as populações itinerantes, que estão em acampamentos e ranchos, assegurando principalmente a proteção para idosos, crianças e mulheres grávidas.

A Comissão Intersetorial de Promoção de Políticas da Equidade (Cippe) do CNS, que elaborou o documento e acompanha com preocupação a situação das populações vulneráveis, considera, neste caso, as dificuldades que se apresentam para os deslocamentos em todo o país.

“Com sua organização no modelo circular, onde comunidades inteiras dividem áreas comuns, é fundamental revisitar a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Cigana/Romani e potencializar medidas que assegurem a proteção, a prevenção e a assistência dessa comunidade tradicional”, avalia a conselheira nacional de saúde e coordenadora da Cippe, Altamira Simões.

A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Povo Cigano/Romani consta na Portaria nº 4.384, do Ministério da Saúde, e observa o conceito de saúde integral com vistas à equidade na atenção à Saúde do povo cigano. A recomendação do CNS também considera o Decreto nº 6.040, de 2007, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.

Os povos ciganos e as famílias itinerantes, que estão afastados dos seus núcleos familiares, enfrentam grandes dificuldades para aquisição de produtos de higiene, alimentação e materiais de prevenção, ficando mais expostos aos riscos da contaminação causada pelo vírus SARS-CoV-2, Novo Coronavírus.

O CNS solicita que o MDH indique como será feita a utilização dos recursos que devem ser destinados aos povos ciganos referentes às máscaras de proteção, materiais de higiene pessoal e residencial e álcool gel.

“Nesse momento de gravidade na saúde, provocada pela pandemia, é fundamental voltar o olhar para essa população e buscar estratégias de proteção e cuidados que possibilitem barrar o avanço do Covid entre eles”, completa Altamira.


Texto: Ascom CNS


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Ativistas ciganos participam de reunião com Ministério dos Direitos Humanos e cobram ações emergenciais e estruturais


Criação de políticas públicas com inclusão de orçamento e financeiro no plano plurianual e lei de diretrizes orçamentárias foi uma das reivindicações de Valdinalva Caldas, presidente da do Concelho Estadual de Promoção e Igualdade Racial de Minas Gerais (à direita) e seu esposo, Itamar Pena Soares (Centro)

O ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) realizou, no último dia 28 de abril, reunião online com lideranças ciganas de 18 Estados para debater o impacto da pandemia nas comunidades romani brasileiras. Coordenado pela Secretária Nacional de Políticas Promoção da Igualdade Racial (SNPIR), Sandra Terena, o encontro contou com a participação do Assessor para Ciência e Comunicação da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Aluízio de Azevedo.

Na ocasião, os representantes dos povos ciganos falaram sobre as demandas gerais das comunidades romani brasileiras, bem como de questões específicas relativas aos seus Estados e grupo familiar. A cigana da etnia kalon, por exemplo, Valdinalva Caldas, cobrou a implementação de um plano nacional para os povos ciganos e a criação de políticas públicas com orçamento e financeiro carimbado no plano plurianual do governo federal e na Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Vice presidente da Associação Estadual Cultural de Direitos e Defesa do Povo Cigano de Minas Gerais e representante dos ciganos na Comissão Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais de MG, no último dia 06 de maio, Valdinalva falou com a AEEC-MT acerca deste assunto: “De imediato fiquei muito satisfeita e também esperançosa, quando o governo federal, na pessoa da secretária nacional, solicitou uma reunião com as lideranças ciganas do país. Mas ainda aguardamos retorno”.

Em suas palavras: “um governo que tenha compromisso com a população cigana, mostra o seu compromisso incluindo os povos ciganos nas leis orçamentárias, como o plano plurianual e lei de diretrizes orçamentárias. Se os povos ciganos não estiverem incluídos nessas leis orçamentárias, então, não existe compromisso, fica apenas num mero discurso. O primeiro passo que busco é isso: trabalhar políticas públicas com fundo financeiro”.

Na pele - Valdinalva contraiu o Covid-19, passou pela quarentena na barraca e está curada. “Fui diagnosticada com o Covid-19 desde o dia 28 de março, fiquei de quarentena, tive os sintomas, fui tratada dentro da barraca. Acredito que peguei no acampamento, porque não sai para local nenhum. Por ser de risco fiquei isolada na barraca e nem de reuniões participava. Acredito que é pela infraestrutura inadequada, já que não temos saneamento básico, nem mesmo banheiros com privadas e chuveiros”.

“O meu quadro ficou moderado, apesar deu ser do grupo de risco, por ter diabetes e hipertensão. Mas como nós ciganos, acreditamos na lei da natureza, quando eu comecei a prostar, descobri que realmente ataca o pulmão e o coração e comecei a trabalhar minha imunidade com ervas naturais para fortalecer o pulmão e o coração e combater o vírus e estou curada”, emociona-se a kalin, que vive no acampamento Cigano de São Pedro, em Ibirité (MG).

Ciganofobia - De acordo com o membro da Associação Integral de Apoio aos Ciganos (ASAIC), Igor Shimura, uma das principais reclamações está relacionada a ciganofobia associada ao COVID-19.

Igor Shimura falou sobre a importância de políticas públicas de Estado e destacou o combate a ciganofobia

“Relatos de casos de expulsão de itinerantes sob o argumento de que ‘seriam vetores do Coronavírus’, mostra o quanto o preconceito toma como esteio um momento delicado onde todos estão correndo riscos, principalmente quem mora em espaços públicos, em lugares de trânsito, como é o caso de acampamentos ciganos. Diante disso a demanda é por socorro na proteção e garantia de direitos previstos na Constituição Federal e leis como a 7.716/89 que pune o preconceito relacionado a etnia” explica Igor.

Políticas públicas - O ativista diz que percebe “no governo Federal, através da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção de Igualdade Racial,  interesse em ouvir e atender a população cigana no Brasil"; mas salienta que "no entanto me parece que seu paradigma está configurado para a realização de "ações" (o que caracteriza uma visão de "programas de governo") e não para políticas públicas, que promoveria uma mudança estrutural importante, atemporal, concreta e que perpassa governos”.

Por outro lado, Shimura destaca que “em relação aos participantes, percebi que todos tem muito a dizer, a relatar e a apresentar como demanda. Estão esperançosos em receber ajuda emergencial de cestas básicas e kits de higiene, o que sem dúvida é necessário. Mas observo que, assim como o Governo Federal, não são todos que estão focados em políticas públicas. Acredito que o isolamento social como medida contra a disseminação da COVID-19 é uma oportunidade para trabalhar a criação de alguma estrutura finalística que atenda ciganos e enfim colocar fim ao "isolamento social contra ciganos" que já perdura há quase 500 anos!”

A representante da União Cigana do Brasil (UCB) no Estado do Paraná, Nardi Casanova, também pondera a importância de um órgão deste porte sugerido por Igor de que o governo federal crie um órgão exclusivo para dialogar e efetivar políticas públicas em favor das comunidades romani. “Temos quase um milhão de ciganos no Brasil e penso que é o momento de construir a Fundação dos Ciganos, assim como temos a FUNAI para os indígenas e a Fundação Palmares para o povo negro”.
Nardi Casanova, do Paraná, pontuou a importância da criação de um órgão federal exclusivo para o diálogo e execução de políticas públicas em favor dos povos ciganos

Demandas emergenciais - Nardi enfatiza a importância da participação do movimento social cigano, via associações, no acompanhamento das ações efetivadas pelo MMFDH, a exemplo de distribuição de cestas básicas e kits de higiene. E reforça que as principais demandas no Estado vão “desde o pedido de leite em pó, fraldas e alimentos, até remédios e produtos de higiene e limpeza”. E lembra que no Paraná várias ações já foram postas em prática.

Já Valdinava de Minas Gerais pontuou a necessidade de que o governo federal trabalhe mais com as associações representativas ligadas dos povos ciganos. “Até este momento não tivemos retorno. E estamos esperando a resposta e a próxima reunião. As demandas emergenciais são cestas básicas e kits de limpeza pessoal”.

Por sua vez, Igor relata as mesmas demandas: “os representantes ciganos estão buscando soluções para problemas imediatos, como suprir as comunidades com alimentação e kits de higiene. Há também a preocupação com o auxílio emergencial, que nem todos conseguem acessar, já que há situações sociais que limitam o cadastro, como falta de documentos, desinformação e em alguns até mesmo a falta de leitura. Acredito que são medidas que até atendem emergencialmente, caso se concretizem, mas quando olhamos o cenário de ciganofobia nacional, as ações podem ser consideradas praticamente como paliativas”, conclui.

A reunião contou com a participação do secretário adjunto da pasta, Esequiel do Espírito Santo; da coordenadora geral de Promoção de Políticas para Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Indígenas e Povos Ciganos, Isabel Paredes; e do coordenador-geral de Gestão do Sinapir, Luciano Moura.

Texto: Aluízio de Azevedo
Assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Abrasco publica artigo "A inacreditável invisibilidade que cobre os povos ciganos"


Foto original: a cigana Maria de Lourdes fotografada em Florânia, RN, por H. Scheppa

Por Hara Flaeschen


Enquanto o Brasil atinge o marco de mais de 7 mil mortes provocadas pelo coronavírus, a pandemia, caracterizada por tantos pesquisadores como uma doença do século XXI, segue revirando as entranhas arcaicas desta sociedade miscigenada, diversa e racista. São muitas as vozes que gritam em resistência. Os povos originários, os que aqui chegaram, os que aqui vivem hoje – em condições vulnerabilizadas – não aceitam que a morte lhes seja imposta, como fato irrevogável. Para alguns grupos étnicos, como os ciganos (romani, como se identificam), o grito é abafado por séculos de invisibilidade. Diante da crise sanitária, eles dizem o óbvio: se nasceram no Brasil, são brasileiros.
É preciso enxergar e ouvir romani 
Romani é uma língua não escrita, que não é oficializada em nenhum país do mundo – mas está em toda parte. Não se sabe quantas pessoas ciganas vivem em território brasileiro, desde 2014 não são contabilizadas nas pesquisas municipais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Dados de 2011 apontaram que apenas 291 municípios dos 5.565 existentes de norte a sul do Brasil reconheciam acampamentos ciganos em seu território, e somente 29 cidades possuíam áreas destinadas e preparadas para este fim. Significa que a maioria dos ciganos habitantes de acampamentos fixos – ou nômades e itinerantes – não têm acesso à água, saneamento básico ou luz elétrica. Vivem à margem de cidades, em beiras de estrada, ou em bairros periféricos.
Existem por aqui desde que os portugueses chegaram, e muitos ainda nem possuem CPF: “Nós, do povo cigano, estamos neste solo, em comprovação histórica, desde 1574. Mas certamente viemos antes, nas caravelas de Cabral, que tinham forjadores de metais e ferreiros. Há muito para se fazer pelos ciganos étnicos, visto todo preconceito que nos assola e nos coloca como expurgo social. Somos agentes históricos na formação e construção desta nação. Somos cidadãos, eleitores. Somos humanos”, desabafou Marcelo Vacite, presidente da União Cigana do Brasil, a primeira entidade da América do Sul a reunir ciganos em defesa de suas tradições e direitos.
Segundo Aline Miklos, historiadora e ativista articulada internacionalmente pelos direitos do povo romani (aliás, segundo ela, a luta dos ciganos é sempre global), os estados latino-americanos invisibilizam os ciganos: “Essa população não existe; esse problema não existe; e é uma vida que não importa. Por isso, hoje em dia é necessário dar visibilidade a nossa causa, dizer que a gente existe, que somos um povo e temos nossas reivindicações. Mas não queremos ser vistos pelo governo de qualquer maneira, queremos ser vistos de acordo com nosso olhar sobre nós mesmos. As políticas públicas no Brasil estão vinculadas a esteriótipos”, reforçou Miklos, frisando que não, não é toda cigana que gira saia, lê as mãos, chacoalha as pulseiras.
A ativista explicou que estes esteriótipos estão presentes no imaginário coletivo por todo o mundo, mas que, no Brasil, ganham uma conotação diferente. Aqui, os ciganos são associados com a Umbanda, religião  afro-brasileira que tem, em suas práticas e ritos,  o culto a entidades ciganas, como Santa Sara Kali, padroeira dos romani. Um exemplo da associação direta com a religião, em detrimento do fortalecimento da minoria étnica nacional, foi o veto do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, ao Projeto de Lei nº 4329/ 2018, que consolidava o dia 24 de maio como Dia Estadual de Santa Sara Kali e do Povo Cigano. 
Witzel argumentou em ofício enviado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em junho de 2019, que a proposta violava o princípio laico do Estado: “[…] é forçoso concluir que a presente iniciativa legislativa, ao pretender criar o dia de Santa Sara Kali e do povo cigano, violou a Carta Magna que prevê um tratamento isonômico e igualitário a todas as crenças religiosas, incluindo a não crença, sem adotar nenhuma delas como sua religião oficial”.
Brasil de todos os povos
Alguns rótulos associados aos romani são lendas racistas e descriminatórias, ainda mais inflamadas pelo pânico instaurado no mundo provocado pela pandemia da Covid-19. No estado do Paraná, por exemplo, municípios expulsaram  grupos ciganos, afirmando que seriam vetores de transmissão do coronavírus. Os atos foram denunciados por ativistas e pesquisadores em uma carta enviada ao Ministério da Saúde (MS) e ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), em meados de março, cobrando um plano emergencial para a proteção dos romani: 
“Autoridades municipais de Cachoeira do Sul (RS), Imbituva (PR) e Dois Vizinhos (PR), expulsaram de seus territórios de pouso, na última semana de março, grupos de ciganos Calon que vivem de forma itinerante. […] Na cidade de Guarapuava (PR), no dia 02 de abril de 2020, houve uma tentativa de expulsão de um grupo cigano, mas devido a intervenção do Ministério Publico esta expulsão não pode ser efetivada. As autoridades justificam os seus atos de forma discriminatória”, afirma o documento.
A nota também exige que fosse cumprida a Portaria nº 940, emitida pelo Ministério da Saúde em abril de 2011,  que determina que os ciganos nômades, assim como as pessoas em situação de rua, não precisam apresentar endereços fixos para serem atendidos no Sistema Único de Saúde. “A portaria é muito pouco conhecida, tanto pelos ciganos quanto pelos trabalhadores da saúde. É importante que essa medida seja divulgada, para que essas pessoas saibam que mesmo sem documentos têm direito de serem atendidas”, explicou o jornalista e antropólogo Aluízio de Azevedo Silva Júnior, cigano da etnia Calon e um dos envolvidos na construção da carta às autoridades. 
Aluízio contou que os órgãos responderam ao manifesto, e que a Secretaria de Atenção Primária à Saúde do MS comprometeu-se a produzir uma nota informativa sobre as formas de abordagem às comunidades ciganas, a fim de informar as  secretariais municipais e estaduais de saúde.
Água potável, moradia, saneamento básico, segurança alimentar e acesso à saúde: as reivindicações são as mesmas, para todos os brasileiros impactados economicamente pela pandemia. A maioria dos ciganos nômades ou semi-nômades vive de comércios informais, escambos de produtos de segunda mão (prática denominada gambira), circo, tarô e leituras de mão, além da mendigagem. Todas essas atividades estão suspensas, por tempo indeterminado. A renda básica emergencial é imprescindível para manter a vida dessas pessoas, durante o isolamento social. 
No entanto, o trâmite burocrático deixa muitas famílias sem o auxílio – considerando a falta de documentos de identificação ou de contas no banco. “Há uma mobilização para arrecadação de comida,  remédios, materiais de proteção – como máscara, álcool em gel, tecidos, elásticos –  materiais de limpeza e de higiene pessoal. Para os ciganos de acampamento, ou aqueles que vivem nas periferias das grandes cidades, acabar com a fome está no topo das prioridades. E é difícil sem a ajuda do Estado”, afirmou Marcelo Vacite, da UCB.
Não há isolamento na cultura cigana 
Para dialogar com as comunidades ciganas e levar o cuidado até elas, é preciso respeitar  suas percepções sobre o processo de adoecimento, cura e morte. Quando uma pessoa cigana está internada em um hospital, não é incomum ver, ao lado de fora, dezenas de parentes – é que se uma pessoa da família está doente, todos estão doentes. O luto também é vivido coletivamente. Para Aline Miklos, em casos de coronavírus, é preciso muito diálogo: “O poder público tem que dar todas as condições para acolher essas pessoas, para que recebam tratamento adequado, e para que a família receba informações sobre como proceder”.
A barreira cultural não é um problema só durante a pandemia da Covid-19. Cotidianamente, o racismo institucional e estrutural faz com que os ciganos evitem unidades de saúde. “Procuram hospital só em último caso, sabem que serão maltratados. Geralmente chegam quando a doença já está avançada. E realmente são maltratados por profissionais de saúde que acham que roubam criança, que são ladrões, e, por isso, atendem mal”, disse Miklos.  A desvalorização dos saberes tradicionais, como as plantas medicinais, também é, segundo ela, algo que fragiliza estes povos, que perdem o conhecimento sobre suas práticas de saúde.
A maioria dos ciganos vive em comunidade. Não necessariamente aglomerados, ou na mesma casa, mas sempre juntos. Os laços afetivos, as refeições compartilhadas e a proximidade das casas dificultam a prática do isolamento. Já no caso de nômades ou itinerantes, é comum ver várias famílias vivendo em um mesmo terreno. “Isso desfavorece os cuidados que eles têm que ter com o coronavírus. Quando o Estado pensa em politicas ou propagandas direcionadas aos povos ciganos, têm que considerar isso. É quase impossível fazer o isolamento da maneira como é determinado”, afirmou a ativista.
Aline Miklos apontou a necessidade do governo pensar na comunicação como ferramenta de promoção da saúde, voltada para esse grupo étnico, já que o índice de analfabetismo é muito grande: “Os materiais informativos que o governo distribui deveriam ser audiovisuais, e também bilíngues. Praticamente 100% dos ciganos no Brasil falam português, mas se produzissem materiais em romani ou chibi, as duas línguas faladas pelo povo cigano no país, a compreensão das diretrizes do Ministério da Saúde seria maior”, explicou.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

AEEC-MT é citada em artigo publicado em site da Universidade de Harvard


No último dia 08 de abril, a Associação das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) coordenou, em conjunto com o Coletivo #OrgulhoRomani, uma nota pública, que foi assinada por mais de 20 associações ciganas e 30 pesquisadores deste universo, denunciando casos de “racismo contra grupos ciganos durante a pandemia” e cobrando “um plano emergencial” de combate e prevenção ao Covid-19 em favor dessas comunidades.

Protocolada junto ao Ministério da Saúde (MS) e ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH), a nota foi mencionada em artigo publicado nesta quinta-feira (30 de abril) no site do Centro para Saúde e Direitos Humanos, François-Xavier Bagnoud, da Universidade de Harvard.

O artigo, que pode ser lido na versão em inglês aqui e na versão em português aqui, é assinado pela instrutora e Diretora do “Roma Program” (Programa Romani), Margareta (Magda) Matache e o assessor para Ciência e Comunicação da AEEC-MT, Aluízio de Azevedo.

Com o título “Standing Up Against Anti-Romani Racism During A Pandemic” (Levantando-se contra o racismo anti-cigano durante uma pandemia), o texto destaca que “em todo mundo, vem se manifestando uma tendência violenta e perturbadora de atos racistas anticiganos por parte da polícia, formuladores de políticas, mídia e outros, está colocando em risco as famílias e comunidades romani durante a pandemia do COVID-19”.

E cita a carta da seguinte forma: “O racismo antiromani corre solto no Brasil, lar da maior população cigana da América Latina”. No final de março, os municípios de Cachoeira do Sul, Imbituva e Dois Vizinhos expulsaram grupos itinerantes do tronco étnico Kalon de seus territórios. Além disso, em abril, a cidade de Guarapuava também tentou expulsar outro grupo romani. Como os municípios da Bulgária, Romênia e Eslováquia, autoridades desses municípios brasileiros justificaram suas ações injustas culpando e retratando incorretamente as pessoas ciganas como vetores principais da transmissão de coronavírus.

E Emenda: Felizmente, a expulsão foi interrompida pelo Ministério Público. Nós não podemos ficar de braços cruzados enquanto nossas comunidades são colocadas como bode expiatórias e submetidas a tratamentos desumanos. A hora da ação urgente é agora. No início deste mês, associações, grupos de pesquisa e ativistas ciganos no Brasil denunciaram o racismo anticigano e emitiram um chamado à ação.


Assessoria de Comunicação AEEC-MT

Artigo: Levantando-se contra o anticiganismo durante a pandemia


Acampamento cigano de Nova Canaã*

**Por Drs. Aluízio de Azevedo Silva Júnior and Margareta (Magda) Matache

Em todo o mundo, uma tendência violenta e perturbadora de atos racistas anti-romani por parte da polícia, formuladores de políticas, mídia e outros está colocando em risco as famílias e comunidades romani durante a pandemia do COVID-19.

Também somos atacados quando nos manifestamos contra essa injustiça. Por exemplo, um artigo sobre o racismo anticigano publicado pelo “Libertatea”, um conhecido jornal romeno, foi rapidamente rebatido por vozes racistas, de extrema-direita e populistas. Somente a conta do Facebook do editor Libertatea recebeu mais de 650 mensagens em 24 horas, a maioria delas odiosa ou ofensiva.

Uma mensagem dizia: “os únicos líderes que conseguiram fazer uma mudança real [na Romênia] foram Antonescu [o líder pró-nazista que ordenou a deportação de Ciganos para a Transnístria nos anos 40, o que resultou na morte de mais de 25.000 pessoas] e Ceausescu [o ditador]. ” Os comentários da supremacia angustiaram e inspiraram um romeno anti-racista a criar uma nuvem de palavras intitulada "27 minutos de racismo".

Este incidente é apenas um exemplo da onda de ódio e racismo antiromani observada durante a pandemia do COVID-19, situação que põe em evidência os desafios que os romani enfrentam. Durante séculos, as desigualdades estruturais perturbaram a vida das comunidades ciganas em todos os lugares. Excluídos historicamente, as pessoas romani foram afetadas pela pobreza racializada, enfrentaram sérios desafios econômicos e têm acesso limitado a água, alimentos e serviços de saúde pública imparciais.

Felizmente, um número considerável de ativistas, organizadores da comunidade, estudiosos e aliados se mobilizaram para apoiar comunidades ciganas pobres com comida e suprimentos durante este período desafiador. Mas isso é apenas uma gota no oceano!

Embora esse apoio atenda às necessidades imediatas de saúde e segurança de um pequeno número de pessoas, a maioria das comunidades ciganas continua vivendo na exclusão, pobreza e medo. À medida que o racismo antiromani se espalha sem controle, mais pessoas ciganas têm medo de compartilhar seu senso de herança identitária, optando por mantê-lo de maneira privada e segura sob os telhados de suas casas.

O mundo desconhece amplamente as lutas que ativistas romani nas Américas e em outras partes do mundo enfrentam hoje, durante a crise e todos os dias. Em resposta, ativistas e estudiosos têm documentado o racismo antiromani. Da Espanha à Eslováquia, Bulgária e Romênia, contamos, compartilhamos e arquivamos as histórias de ódio, notícias falsas e medidas anticiganas. Outros estão tentando se manifestar usando os poucos fóruns públicos que encontram, incluindo as mídias sociais.

Mas é preciso fazer mais para proteger a saúde e os direitos das pessoas ciganas no momento. Por exemplo, o racismo antiromani corre solto no Brasil, lar da maior população cigana da América Latina.

No final de março, os municípios de Cachoeira do Sul, Imbituva e Dois Vizinhos expulsaram grupos itinerantes do tronco étnico Kalon de seus territórios. Além disso, em abril, a cidade de Guarapuava também tentou expulsar outro grupo romani. Como os municípios da Bulgária, Romênia e Eslováquia, autoridades desses municípios brasileiros justificaram suas ações injustas culpando e retratando incorretamente as pessoas ciganas como vetores principais da transmissão de coronavírus. Felizmente, a expulsão foi interrompida pelo Ministério Público.

Nós não podemos ficar de braços cruzados enquanto nossas comunidades são colocadas como bode expiatórias e submetidas a tratamentos desumanos. A hora da ação urgente é agora. No início deste mês, associações, grupos de pesquisa e ativistas ciganos no Brasil denunciaram o racismo anticigano e emitiram um chamado à ação.

Durante esses tempos perigosos, os povos ciganos - especialmente advogados e estudiosos - devem criar uma ponte para fortalecer a solidariedade, organização e mobilização em nossa comunidade global. Até o momento, houve apenas algumas oportunidades de colaboração em diferentes continentes, explorando as possibilidades de um movimento romani global sustentado, como o primeiro congresso romani mundial de 1971. Mas precisamos nos mobilizar pela justiça e por uma participação política, econômica e cultural justa e robusta das pessoas ciganas.

Os ciganos também precisam de mais aliados, entusiastas para se manifestar contra o racismo antiromani. Precisamos de anti-racistas de todas as origens para liderar pelo exemplo. Vamos todos nos solidarizar com nossas irmãs e irmãos romani!

** Dr. Aluízio de Azevedo Silva Júnior, é ativista Romani, doutor em Comunicação e Saúde Cigana

** Dr. Magda Matache é diretora do Programa Romani do FXB Centro da Universidade de Harvard


*Crédito: Aluízio de Azevedo Silva Júnior.

Disponível originalmente em: https://fxb.harvard.edu/2020/04/30/standing-up-against-anti-romani-racism-covid19/

sábado, 25 de abril de 2020

AEEC-MT colabora com criação de portaria educacional voltada para povos itinerantes


Documento contempla todos os níveis educacionais do ensino básico, 
incluindo educação de jovens e adultos

A Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT) participa desde o início de março da elaboração de uma Portaria Educacional voltada para o atendimento aos povos ciganos e trabalhadores itinerantes, como circenses e de parques de diversão.

A normativa, que vem sendo chamada de “Portaria dos Povos Itinerantes”, é uma elaboração do Comitê Bicameral Educação em Direitos Humanos (CBEDH) do Conselho Estadual de Educação de Mato Grosso (CEE/MT) e terá efeito para toda educação básica, incluindo a educação de jovens e adultos.

A participação da AEEC-MT na elaboração do documento, que tem previsão para ser lançado ainda neste ano, ocorreu na revisão e colaboração da portaria, por meio de parecer educacional; e a participação do Assessor para a Ciência e Comunicação da organização em duas reuniões do CBEDH/CEE-MT.

Além de colaborar na elaboração da portaria, a AEEC-MT também colaborará na revisão do documento orientativo à normativa, que serve de subsídio para a aplicação, divulgação e circulação da portaria pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) a toda a rede pública e privada do sistema estadual de ensino.

Nesse texto, irão recomendações sobre os processos históricos das comunidades ciganas, suas diversidades étnicas e culturais, costumes, tradições, leis e datas comemorativas importantes para essas populações. Também constarão questões de reconhecimento identitário, garantindo educação a todos os níveis de ensino da educação básica.

A avaliação da diretoria da AEEC-MT é a de que o trabalho educacional de base junto à comunidade cigana mato-grossense é fundamental para a inclusão social de todas as pessoas do grupo.

Da Assessoria de Comunicação da AEEC-MT

sexta-feira, 24 de abril de 2020

AEEC-MT participa de Podcast da ANPOCS sobre coronavirus e ciganos



A Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) publicou nesta sexta-feira (24.04) podcast sobre a situação das comunidades ciganas brasileiras frente à pandemia provocada pelo COVID-19.

O Assessor para a Ciência e Comunicação da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Aluízio de Azevedo (etnia Kalon), foi um dos quatro ativistas ciganos entrevistados no programa.

Os outros entrevistados foram os ativistas Aline Miklos (Buenos Aires, etnia Rom - Kalderash), Jucelho Dantas (BA – Etnia Kalon) e Suênia Soares (MG – Etnia Kalon).

A peça foi produzida pela pesquisadora Edilma Nascimento e a iniciativa também é realizada pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), ABCT e Associação dos Cientistas Sociais da Região do Mercosul.

O podcast faz parte de um boletim diário que faz parte da série “Cientistas Sociais e Coronavirus” e pode ser ouvido no site da ANPOCS, seguinte endereço: https://anchor.fm/cienciassociaisecorona/episodes/Cincias-Sociais-e-Coronavrus---Ciganos-em-quarentena-ed723o

De acordo com o site, a proposta desta série é a de "inverter o vetor do boletim cientistas sociais e Coronavirus. Complementarmente, aqui a proposta não é privilegiar a análise dos especialistas, mas sim a de amplificar as histórias sobre as variadas experiências da quarentena. Ouviremos enfermeiros, médicos, porteiros, entregadores e coveiros, ecoando suas experiências neste momento. No melhor estilo antropológico, estes episódios apostam na possibilidade de que, mais uma vez, histórias particulares nos afetem".

Assessoria de Comunicação da AEEC-MT

terça-feira, 21 de abril de 2020

Governo lança Plano de Contingência para Pessoas Vulneráveis com investimento de R$ 4,7 bilhões




Repórter Agência do Rádio, 16 de Abril de 2020

O Governo Federal, por meio do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, apresentou o Plano de Contingência para Pessoas Vulneráveis durante a pandemia do coronavírus. O valor empenhado é de R$ 4,7 bilhões, conforme anunciou a ministra Damares Alves, em entrevista coletiva nessa segunda-feira (13).

O plano busca reduzir os impactos negativos da pandemia, unindo esforços e atuando de forma ordenada para proteger direitos, além de assegurar o sustento das populações que estão em situação de fragilidade neste momento.

O público contemplado são povos e comunidades tradicionais. A ação é uma resposta do Governo Federal aos riscos à saúde e desdobramentos socioeconômicos desses povos.

A ministra Damares Alves explica que o Plano de Contingência para Pessoas Vulneráveis é dividido em três eixos: saúde, que inclui medidas sanitárias e de atendimento; proteção social, que envolve distribuição de cestas, insumos e kits de higiene; e, também, proteção econômica com transferência de renda. 

“Tendo todo o cuidado, especialmente quando se fala em povos tradicionais -, não apenas indígenas, quilombolas e ciganos -, nós temos no país mais de 20 povos classificados como povos tradicionais. Todos eles estão sendo alcançados pelo plano de contingência no trabalho de enfrentamento ao coronavírus.”

A proteção econômica prevê pagamento de auxílio emergencial de R$ 600 por três meses para 1 milhão e 800 mil famílias de comunidades tradicionais inscritas no programa Bolsa Família. Mais de seis milhões de pessoas serão beneficiadas, com investimento de mais de R$ 3,2 bilhões até junho.

Outros R$ 23 milhões serão utilizados em ações de prevenção a saúde. No eixo da proteção social, R$ 1,5 bilhão serão destinados para compra de cestas básicas, kits de higiene e reforço na alimentação.

A pasta usará parte dos recursos em alimentação de 40 milhões de estudantes, entre eles 274 mil indígenas, 269 mil quilombolas e quase cinco milhões de estudantes do campo.  

Serão beneficiadas 150 mil escolas, das quais mais de 58 mil atendem estudantes de povos e comunidades tradicionais.

A merenda será distribuída aos estudantes pela Funai, em parceria com a Secretaria Especial de Políticas Públicas da Igualdade Racial, com municípios e estados.

Para reforçar a alimentação das famílias serão distribuídas 362 mil cestas básicas, beneficiando 162 mil famílias. A ministra destaca o envolvimento do governo. 

“São mais de 15 órgãos federais ligados aos três ministérios que trabalham com povos tradicionais. Como lidar com os povos tradicionais, levar a mensagem da prevenção, cuidar dos nossos povos obedecendo todas as suas peculiaridades, respeitando sua cultura e desejo, mas também protegendo-os.”

A proteção à saúde inclui medidas sanitárias e de atendimento aos povos tradicionais. Entre elas, implementação de 80 leitos em Hospital de

Campanha de Boa Vista (RR), distribuição de um milhão de máscaras e luvas  para indígenas, e disponibilização imediata de 6 mil e 300 testes rápidos para as aldeias indígenas. Também estão previstos distribuição de material em 274 línguas indígenas em todos os distritos da Funai, orientação a unidades da Funai e Sesai para prevenção no momento do atendimento e reforço à suspensão do acesso às terras indígenas e recomendação à restrição das terras dos demais. 


terça-feira, 14 de abril de 2020

Researchers and activists denounce racism against Roma groups in Brazil during the COVID 19 pandemic and demands an emergency plan



PUBLIC NOTICE

Roma associations, research groups, activists and undersigned researchers, denounce to the competent authorities and bodies of the Federal, State and Municipal governments; the Ministério Público Federal (MPF); the social media; the Brazilian population and the international community, a public notice of the neglect and discrimination in which some Brazilian cities are treating the nomadic / itinerant Roma communities during the Covid-19 pandemic. According to the Associação Social de Apoio Integral aos Ciganos (ASAIC), municipal authorities of Cachoeira do Sul (RS), Imbituva (PR) and Dois Vizinhos (PR), expelled groups of itinerant Kalon Roma from their inhabiting territories in the last week of March. 

In addition, in the city of Guarapuava (PR), on April 2, 2020, took place an attempt to expel another Roma group, but due to the intervention of the Ministério Público, this expulsion could not be carried out. The authorities justify their acts in a discriminatory way, stating that Roma people are vectors of transmission of the coronavirus.

In doing so, local authorities violated human rights and access to health for all peoples, guaranteed not only by the Brazilian Federal Constitution of 1988, but also by the Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12,288 of 2010) and by the Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (decreto nº 6.040, of 2007). During the pandemic, human rights are reinforced by the guidelines of the World Health Organization (WHO) and the Brazilian Ministry of Health.

Despite being part of the Brazilian social fabric since the beginning of Portuguese colonization and contributing to the construction of national identities and cultures, Roma communities are still suffering from invisibility and from persecutory and racist policies, which leads to social exclusion. Living in poverty on the urban outskirts, in houses or camps, or maintaining nomadism, many Brazilian Roma communities do not have access to land with adequate piped water services or electricity. Throughout the corona virus crisis, the lack of basic infrastructure makes social security and hygiene unfeasible for many of these communities.

Among these communities, a high number of Roma don´t have access to school and are therefore illiterate. Of the few who have access, a considerable part did not finish elementary school and only few Roma finished higher education. All of them suffer prejudice from the state and private institutions, which challenges further the social integration process. For this reason, the majority lives on informal businesses, such as the sale of clothes, layettes and other goods; exchange of second-hand products; hand and tarot reading; circus and amusement park activities or begging. All of these activities are being suspended due to the risk of physical contact and the possible spread of COVID-19.

Many Roma also do not have access to social security and many does not even have a birth certificate, which makes it difficult to access programs such as Bolsa Família, a Brazilian government financial assistance program. For this reason, thousands of Roma communities are experiencing difficulties, including lack of food. In addition, Roma communities will have to give up important practices of their cultures, such as the wake and funeral ceremonies to help prevent Covid-19. Now it is time for the government to take action as well.

To date, the federal, state and municipal governments have not developed yet specific policies aimed at assisting Roma populations in the prevention and treatment of coronavirus. Nor did they issue guidelines on how members of these ethnic groups (Sinti, Kalon and Rom), who number between 500,000 and one million people spread across the 27 Brazilian states, will access social policies designed to combat the socio-economic crisis caused by the pandemic .

In this scenario, we request the urgent elaboration of an emergency plan to assist the Romani people, the circus nomadic populations and those who work in amusement parks and the like, with specific policies to prevent and combat COVID-19. We request a program that encompasses health issues linked to social and economic actions - such as the basic income program approved by the National Congress and sanctioned by the Presidency of the Republic - and which also provides for the delivery of food supplies, materials and hygiene kits (soap , alcohol, chlorine, etc.) for itinerant or excluded communities.

From the health standpoint, the plan should reinforce the fight against institutional racism in the units of the Sistema Único de Saúde (SUS -Brazilian public health system), and respect for equity policies. As an urgent action, we suggest that the government widely reports the content of  Portaria 940 of 2011 from the Ministry of Health - which exempts members of the Roma population from presenting proof of address documents or the SUS card to be treated in public hospitals - as well as SUS ombudsman to report racism or discrimination in health establishments, such as the 136 health call dial number.

We take the opportunity to demand the implementation of the “Política Nacional de Atenção Integral ao Povo Cigano/Romani” (Portaria 4,348 of December 28, 2018), which establishes a series of recommendations, objectives, guidelines and powers for governments, states and municipalities to meet the health specificities of Roma communities, including “reducing and combating antigypsyism or romaphobia”.

We suggest that the emergency plan to combat Covid-19 for the benefit of Roma populations should be followed by effective communication policies, which include information and guidelines in audiovisual format (audio or video) and not in the form of booklets or posters, which are ineffective on a population with poor educational assistance and with high illiteracy rate.

Last but not least, our notice joins other documents produced in this regard, such as: a motion made by the Associação Comunitária dos Ciganos do Condado da Paraíba, dedicated to the Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos and signed by nine associations and researchers; an official letter from the Associação Internacional Mayle Sara Kali (AMSK/Brazil), to the Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR, Ministério Público Federal (MPF) and the Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (SNDCA); an official letter from the Confederação Brasileira Cigana (CBC) to the Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos; a letter from the Diocesan Bishop of Eunápolis, Dom José Edson Santana de Oliveira, from Pastoral dos Nômades; and a note from the Diretoria do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES)  in repudiation of romaphobia.

Brasília, Distrito Federal, Brazil, April 08th, 2020.

ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA DOS CIGANOS DE JACOBINA-BA (ACCJ)

ASSOCIAÇÃO ESTADUAL DAS ETNIAS CIGANAS DE MATO GROSSO (AEEC-MT)
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DAS ETNIAS CIGANAS (ANEC-DF)
ASSOCIAÇÃO SOCIAL DE APOIO INTEGRAL AOS CIGANOS (ASAIC)
ASSOCIAÇÃO DOS CIGANOS DE PERNAMBUCO (ACIPE)
ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL MAYLÊ SARA KALÍ – AMSK/BRASIL E SEUS NÚCLEOS ESTADUAIS.
ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DA CULTURA ROMANI (AICROM-BRASIL/GO)
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS ROMANI
CENTRO DE CULTURA E TRADIÇÕES CIGANAS DO RIO GRANDE DO NORTE (ACIGAROM)
CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA CIGANA (CBC)
CENTRO DE DIREITOS HUMANOS E MEMÓRIA POPULAR – NATAL/RN
CENTRO DE ESTUDOS E RESGATE DA CULTURA CIGANA
CERCI -  CENTRO DE ESTUDOS E RESGATE DA CULTURA CIGANA
COMITÊ ESTADUAL DOS POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS DE MATO GROSSO (CEPCT-MT)
GRUPO DE ESTUDOS CULTURA, IDENTIDADE E CIGANOS (GECIC- UNEB- DCH IV- JACOBINA-BA)
GRUPO DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO – CONSCIENCIA (PPGE-UNB)
GRUPO PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL, ARTES E COMUNICAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO MATO GROSSO (GPEA/UFMT)
INSTITUTO DE CULTURA, DESENVOLVIMENTO SOCIAL E TERRITORIAL DO POVO CIGANO NO BRASIL (ICB)
LABORATÓRIO DE ANTROPOLOGIA, POLÍTICA E COMUNICAÇÃO (LAPA/UFPB)
LABORATÓRIO DE ETNOGRAFIA METROPOLITANA -LEMETRO/IFCS-UFRJ
NÚCLEO DE ESTUDOS DE POPULAÇÕES INDÍGENAS (NEPI/UFSC)
PASTORAL DOS NÔMADES
ROMANI ARCHIVE AND DOCUMENTATION CENTER (RADOC)
ROMANI FEDERAÇÃO
ROMANIPE - CANADÁ
UNIÃO CIGANA DO BRASIL (UCB)
ZOR - ASOCIACIÓN POR LOS DERECHOS DEL PUEBLO GITANO/ROMANI – ARGENTINA

Alexsandro Castilho – Presidente da Aicrom/BRASIL
Aline Miklos - Cigana, cantora, produtora cultural, doutoranda em História da Arte (EHESS/USP), vice-presidente de ZOR – Asociación por los derechos del Pueblo Gitano/Romani.
Aluízio de Azevedo Silva Júnior – Cigano, jornalista, especialista em cinema, mestre em educação ambiental e mitologias ciganas e doutor em comunicação e saúde, pesquisando as comunidades ciganas no Brasil e em Portugal, membro da AEEC-MT.
Antônio Pereira - Chefe da Comunidade dos Pereira. Diretor Regional da Associação Social de Apoio Integral aos Ciganos - ASAIC. Titular representante dos povos Ciganos no Conselho de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais – CPICT/DEDICH/SEJUF - Governo do Estado do Paraná
Brigitte Grossmann Cairus - Doutora em História, Pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação - LEER , USP e do Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade e Desenvolvimento - GPEAD da FURB
Camila Gonçalves de Jesus Lopes - Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, Membro do Núcleo de Leitura e Multimeios da UEFS, Professora da Educação Básica da rede pública municipal de Camaçari-BA
Cândida Miclos Moco – enfermeira, cigana e ativista pelo direito dos povos romanis.
Carliane  Sandes Alves Gomes - Doutoranda em Geografia Cultura (PPGEO-UERJ) e Bolsista FAPERJ
Cassi L R Coutinho - Doutora em História Social
Claudio Motta - Responsável no Acampamento Jair Alves, suplente no Conselho de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais – CPICT/DEDICH/SEJUF - Governo do Estado do Paraná
Gonzalo Damián Cristo – cigano, argentino, presidente de Zor – Asociación por los Derechos del Pueblo Gitano/Romani
Dom José Edson Santana Oliveira – Pastoral Nômade
Edilma do Nascimento J. Monteiro - Doutora em Antropologia pela UFSC e Integrante do Comitê de Antropólogas Negras e Antropólogos Negros da ABA
Elez Bislim – ativista pelos direitos dos povos romanis.
Felipe Berocan Veiga – Chefe do Departamento de Antropologia da UFF
Flávio José de Oliveira Silva - Professor e Pesquisador, Doutor em Educação
Francielle Felipe Faria de Miranda - Docente da ECOM/PUC Goiás e Pesquisadora
Gabriela Marques Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora, Doutora em Comunicação
Geysa Andrade da Silva – Docente da Universidade do Estado da Bahia e da Rede Pública do Estado da Bahia, Mestre em Estudos Linguísticos (MEL/UEFS) e doutoranda em Língua e Cultura (PPGLinC/UFBA)
Igor Shimura - Presidente da Associação Social de Apoio Integral aos Ciganos - ASAIC.
Irandir Souza da Silva ,doutoranda do PPGES/UFSB .Docente da Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC / Ba e participante do grupo de pesquisa Os sujeitos do Atlantico Sul..Pesquiso sobre : Territorios, Ciganidade em comunidades ciganas no litoral Sul.da Bahia.
Inesita Soares de Araujo – comunicóloga, professora doutora do Programa de Pós-graduação em Informação, Comunicação e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, Rio de Janeiro) e líder do Laboratório de Comunicação e Saúde (LACES) do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica (ICICT).
Jamilliy Rodrigues Cunha – Doutora da Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas e Etnicidade – NEPE.
José Ruiter V. Cerqueira Júnior – Leshjae Kumpania
Jucelho Dantas da Cruz – Representante dos Povos Ciganos no Cespct/Sepromi-BA
Juliana Grisolia – Produtora Cultural e Pesquisadora
Juliana Miranda Soares Campos – Antropóloga e Doutoranda na UFMG
Laudicéia da Cruz Santos - Mestra em Educação e Diversidade (MPED/UNEB-DCHIV), Membro do GECIC- Grupo de Estudos Cultura, Identidade e Ciganos (UNEB-DCHIV) e Professora da Rede Pública do Estado da Bahia
Lenilda Damasceno Perpétuo – Secretaria do Estado de Educação do Distrito Federal – SEEDF e Pesquisadora na Comunidade Cigana Calon Nova Canaã / Doutoranda PPGE-UNB
Lucimara Cavalcante Romi – Mestra em Desenvolvimento Sustentável
Maria Patrícia Lopes Goldfarb – Professora de Antropologia da UFPB e pesquisadora das comunidades ciganas na Paraíba – Líder do Grupo de Estudos Culturais (CNPq)
Michel Luiz Kriston – Birevo Kalderash Moldovaia
Márcia Yaskara Guelpa (Yaskara Kalorri) - Presidente do Cerci -  Centro de Estudos e Resgate da Cultura Cigana
Maria do Carmo da S.Medeiros - Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, Pastoral dos Nômades, Conselho Estadual de Políticas de Igualdade Racial RN
Mariana Sabino Salazar - Doutorando na Universidade do Texas em Austin / University of Texas at Austin. Voluntaria no Romani Archives and Documentation Center.
Marcilânia Gomes Alcântara Figueiredo- Cigana Calin- Professora da Educação Básica no município de Sousa- Coordenadora do Projeto ‘Contos Ciganos’ e professora/ mestra de dança cigana.
Marco Antonio da Silva Mello – Professor do Departamento de Antropologia Cultural do IFCS-UFRJ
Marcos Toyanski - Doutor em Geografia Humana pela USP, pesquisador e coordenador de projeto sobre ciganos no Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER/ USP).
Marilene Gomes de Sousa Lima - Doutoranda em Linguística (PROLING/UFPB)
Miriam Geonisse de Miranda Guerra - Docente aposentada da UNEB-DCH IV, Pesquisadora sobre Povos Ciganos e Membro do GECIC-Grupo de Estudos Cultura, Identidade e Ciganos (UNEB-DCH IV)
Pedro Nicolich – Presidente da ROMANI Federação e Academia Brasileira de Letras Romani
Rodrigo Corrêa Teixeira - Programa de Pós-Graduação em Geografia, Departamento de Relações Internacionais - PUC Minas
Ricardo Marcelo Luiz (Marcelo Cigano) – Cigano, músico acordeonista
Sabrina de Souza Lima - Mestra em Educação e Diversidade ( MPED /UNEB- DCHIV), Membro do GECIC/Grupo de Estudos Cultura, Identidade e Ciganos (UNEB_DCHIV), Professora da Rede Pública do Estado da Bahia e do Município de Jacobina-BA
Suzeth Miklos de Freitas – cigana, médica.
Stéphanie Lyanie de Melo e Costa -Doutora em Informação e Comunicação em Saúde